Field Dot Net

3 Capítulo 3: Run


Quando não estava no field “portal” com Panacea, o Coelho Branco estava no field “h2k”. Era uma sigla para “hacker 2000”. Usuários do “Database” disseram-lhe que era um field bom para quem quer aprender algo. O Coelho tinha aprendido um pouco de programação, mas queria expandir seus conhecimentos. Por isso visitou o field.
Lá, lhe ensinaram programação de verdade. Aprendeu que os sistemas e programas eram em grande maioria, um conjunto de equações; um mapa virtual, uma matriz ou planilha. Aprendeu Delphi, C, C++ e Visual Basic, além da linguagem do próprio Field.net, Relius.
Esse field era considerado perigoso por muitos, pela concentração em massa de hackers. Mas nada nunca havia acontecido lá. Pelo menos, não até aquele dia.
20 de Novembro. Dia chuvoso.
O field “portal” estava vazio. Ele foi para “h2k”, na esperança de achar uma resposta para a pergunta “Cadê todo mundo?”.
Ao chegar ao field “h2k”, o Coelho Branco notou que o lugar também estava vazio. Só um usuário. O temido por muitos, mas respeitado por todos Haggeron. O Coelho Branco pergunta ao cavaleiro da armadura negra:

– Onde estão os outros?
– Eu não sei. Todos caíram. O servidor parece estar com defeito. Provavelmente, somos os únicos nessa divisão dele.
– Servidor com defeito? O que você quer dizer com “divisão”?
– Net Split. É quando os servidores são divididos, e pessoas em divisões diferentes perdem o contato. Como se você estivesse num pico de uma montanha e seus amigos em outra. Nada de comunicação ou ver os outros.
– E isso leva quanto tempo pra voltar ao normal?
– Nunca se sabe. O administrador de sistemas deve demorar um pouco...

Então, Haggeron faz uma pausa. Por trás do terminal, o analista de sistemas sorri, com uma idéia antiga na mente. “Quem sabe dessa vez...”. Ele olha para o Coelho Branco, e diz:

– Pensei em algo pra passar o tempo...
– Do que você está falando? – diz o Coelho Branco desconfiando das intenções do hacker.
– Nós somos os únicos nessa divisão do servidor central, não é?
– Provavelmente.
– Podemos aproveitar isso e fazer um takeover.
– Takeover? Mas isso não é...
– Crime na rede? Sim. Mas não tem nenhum problema se ninguém souber.
– Estou fora. Não vou me envolver com esse tipo de coisa.
– Por quê? Tenha certeza que isso ia te tornar popular no field, e você iria ajudar no meu plano...
– Plano?
– Esse mundo, o Field.net ... Ele é mal utilizado. Você sabe que tudo nele podia melhorar com algumas alterações...
– Como assim?
– Ele poderia se tornar um MMORPG de sucesso.
– Mas para isso existem canais de MMORPG...
– Não! Eu digo, ele podia ser algo maior... E eu sei como fazer isso. Já pensei muito sobre o assunto e sei o que fazer, mas vou precisar da sua ajuda.
– Por que?
– Eu não posso acessar o field do administrador. Tem uma proteção colocada contra mim lá.
– Você já invadiu?
– Sim.
– E o que você fez?
– Liberei o add-on de Criação de fields.
– Mas foi a empresa que fez isso em 17 de Maio de 2001... Eu li sobre isso.
– Eles só oficializaram isso 36 horas depois que o add-on foi liberado por mim. Uma das provas é a criação desse field. Você viu a data de criação dele? 15 de Maio de 2001, 23:00.

Fazia sentido. Ele já tinha ouvido essa história, mas achou que era só uma história à toa. Isso explica porque o “h2k” era um field quase secreto. Ele estava escondido para não levantar suspeitas do administrador. E a vontade de ir contra o sistema que ele conhecia, que dava informações falsas a seus usuários, apenas crescia dentro do Coelho Branco.
Talvez a idéia de Haggeron não fosse tão má. O Field.net iria continuar a fazer sucesso, não é? E ao mesmo tempo, ele iria ficar como sempre foi idealizado pelos usuários do “h2k”. A empresa não seria prejudicada, e eles provavelmente iriam assumir no site oficial que essa “mudança” e o Net Split estavam conectados, e todo mundo iria acreditar que foi a empresa que alterou tudo. Se ninguém sai ferido, qual o problema?

– Ok. Eu te ajudo.
– Ótimo... Vou te enviar o Requiem, a minha obra prima. Ela irá fazer uma boa parte do trabalho. O resto é com você.

Após o envio do arquivo, Haggeron explicou que era uma questão de entrar no field “yu64h9op”, quebrar a barreira de segurança, iniciar o Requiem, que alteraria tudo e sair.
O Coelho Branco foi para “yu64h9op” e inicia o procedimento. Quebrar a barreira não foi tão difícil, mas quando o Requiem começou a agir, ele percebeu que algo estava errado.
O mundo foi alterado. Os fields se transformaram. Tudo se tornava parecido. O Coelho Branco percebeu tarde demais que o que tinha feito: o Requiem alterava o Field.net, mas uma vez que isso acontecia, o sistema percebia a tentativa de invasão, e isso custava o banimento do usuário. Era por isso que Haggeron precisava de ajuda.
Isso significava que ele foi enganado por Haggeron, e não poderia entrar mais no Field.net . Ele não poderia mais ver Panacea, que tinha trocado de e-mail antes que ele pudesse lhe enviar uma mensagem.
Acabou. Game Over.
Enquanto isso, o Net Split acaba. Uma garota espera um garoto.
E lá estava ela. O esperando pacientemente.
Mas ele não veio.
Ele nunca veio.

Game Over.

\"The world remains ever the same\" Johann Wolfgang von Goethe

Notas finais
Diálogo nunca foi o meu forte. Ao menos, não em escrita. "yu64h9op" foi uma senha minha de alguma coisa, se me lembro bem. Sempre amei senhas estranhas. Vale citar que apenas uma pequena parte da história é real. Eu nunca tentei transformar o IRC em um RPG gigante, percebam.