Field Dot Net
4 Capítulo 4: Living in a Lie
Notas iniciais
“Time moves in one direction, memory in another” — William Gibson
Ele a esqueceu.
Ela o esqueceu.
Ao menos, era isso que eles pensavam.
Quatro anos se passaram. Panacea tinha crescido, evoluído, namorado e se divertido. Coelho Branco idem. Mas, por um motivo desconhecido pelos dois, eles quase sempre olhavam para janelas, diretamente para a lua.
E os lobos uivavam. Afastados da matilha, os lobos uivavam.
Até que um dia, Panacea estava no Messenger e alguém a adiciona. Ela aceita, e pergunta para a pessoa com o nick de Zephir quem era ela e da onde a conhecia.
– Você, você não lembra de mim, não é?
Aquele modo de digitar era único. Ainda assim, a fé lhe faltou e ela pediu uma prova, dizendo:
– Sou Alice. Se eu quiser achar o caminho do País das Maravilhas, o que devo fazer?
– Venha comigo. Follow the white rabbit.
As lágrimas queimavam o rosto de Panacea. Em outro lugar do Brasil, elas também queimavam o coração do Coelho Branco, agora chamado de Zephir.
Felicidade e um sentimento de proximidade apesar da distância de muitos quilômetros.
Utopia. Nada mais que Utopia.
Mas algo tinha mudado.
Quatro meses.
Muitos casais comemoram. Mas Panacea e o Coelho Branco não estavam em condição de comemorar. Estavam passando por uma crise. A beleza de Panacea era desproporcional a aparência do Coelho Branco. Isso, claro, na opinião dele. Ele tinha muito ciúmes dela, por sempre ver em fotos os amigos dela, todos superiores a ele em aparência.
Tinha medo. Medo de perdê-la outra vez.
Panacea também não estava muito feliz. Ela tinha amadurecido, e cria que aquilo estava longe de ser um relacionamento de verdade. Ela não sabia se o que sentia por ele era forte o suficiente.
Foi então que o mundo decidiu girar.
O Coelho Branco, que tinha se tornado um bom programador, decidiu cursar faculdade em dois anos no Japão.
– Sério? Isso é ótimo.
– Eu queria saber uma coisa, mas responda com sinceridade.
– Pode perguntar.
Ele sabia que isso era mais perigoso que uma roleta russa. Era cara ou coroa: perder tudo ou ganhar. Chances iguais, quase randômicas.
– Você iria comigo?
Ela ficou sem ar. Isso não era algo esperado.
– Como assim?
– Ir comigo. Como... esposa...
Sim. De fato, era um pedido de casamento. Estranho, com certeza, mas todo pedido é estranho, e “normal” não existe, quando refletimos um pouco.
– Bem...
Isso não podia ser bom. Ele sentia.
– Eu iria para o Japão, mas não gostaria de morar lá.
– Explique.
– Eu te visitaria como amiga.
Definitivamente não era esperado. O que foram esses quatro meses? Antes disso, o que acontecia a quatro anos atrás? Aquilo era amizade, simples e pura?
– Eu não acho que a gente deva continuar juntos.
Por mais fantasioso e mirabolante que isso pareça, não foi a Panacea que digitou isso. Foi o Coelho Branco. Enquanto tentava digitar sem derrubar lágrimas (tarefa na qual ele falhou), ele explicava que não havia mais meio de prosseguir com algo que ela não considerava um relacionamento.
Era o fim.
Passado algum tempo, eles voltaram a conversar. Como amigos. Mas não era a mesma coisa.
Ela o ajudou, dando apoio quando ele desistiu de ir ao Japão.
Ele a consolou quando ela descobriu que repetiu de ano.
E depois...
Nunca mais se falaram. Tinham prometido se encontrar no Messenger, mas nenhum dos dois conectou para cumprir a promessa.
Ele ainda olha para a lua. E o Lobo uiva.
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