Field Dot Net

2 Capítulo 2: Kiss


Notas iniciais
Pensei em publicar um capítulo por dia. Mudei de idéia depois do jantar.

All we have to decide is what to do with the time that is given to us” — J. R. R. Tolkien

O Coelho Branco estava acostumado aos atrasos de Panacea. Não sabia o motivo, e talvez nunca o soubesse. Afinal, por decisão dos dois, esse relacionamento não passaria da rede. Era melhor, para que ambos não se ferissem, nem com a distância de estados entre eles e nem com o fato de serem extremamente tímidos e novos.
Talvez fosse um erro. Dois meses conversando com alguém sem saber se a pessoa realmente existe atrás de um terminal, ou se é apenas uma ilusão. Talvez o erro fosse não querer descobrir se havia uma pessoa atrás de um terminal. O erro também seria essa idéia mútua de não perguntarem quase nada sobre o outro, sob a desculpa de não tornar tudo pessoal demais.
Então, um avatar familiar aparece. Vincent Vega, com um terno característico surge no meio do nada naquele vale virtual. Nesses dois meses, Vincent o havia levado a vários fields. A maioria deles, RPGs online ou chat. Se bem que fields assim eram uma coisa comum, ainda mais para usuários que baixavam o add-on de Criação de Jogos 1.0, disponibilizado de graça no site oficial do Field.net .
O rosto de Vincent (e o de todos em Field.net) era claramente sem expressão, lembrando personagens de nouvelle vague. As faces mudavam apenas mediante comandos de teclado. Irreal, e ao mesmo tempo, fascinante.
Sem pensar duas vezes, Vincent diz:

– Esperando ela?
– Com certeza.
– Cara, não sei como dizer isso mas...

O Coelho Branco sabia aonde isso ia chegar. Um sermão enorme, dizendo que ter terminado com a Evelyn não era o fim do mundo, que isso era apenas uma fuga da realidade sem sentido. No entanto, Vincent não teve coragem de dizer as palavras que iriam ferir seu amigo e os afastar, talvez para sempre. Infelizmente, não havia outro jeito, senão apoiá-lo.

– Boa sorte.

O choque quase derrubou o Coelho Branco. Foi algo definitivamente imprevisível. Quem iria imaginar que um amigo não teria coragem de dizer isso para outro? O que fazer numa situação inimaginável dessas?

– Obrigado.

Nada mais seria dito. Uma amizade tão sólida, destruída pela falta de comunicação; se ambos tivessem dito algo, o Coelho e Vincent teriam brigado, mas após um tempo, quando tudo acabasse, a amizade seria mais forte que antes e eles iriam rir desse momento.
Mas não é assim que o mundo gira. Nada é tão fácil, e ambos tomaram uma decisão que mudaria sua amizade para sempre. Vincent desconecta. Do outro lado da cidade, estava um garoto com raiva de si mesmo por não ter falado o que precisava ter falado a um amigo.
Não havia mais nada o que fazer. Essa era uma decisão do Coelho Branco.
No field “portal”, o mesmo de sempre para Panacea, havia um garoto. Um garoto que a esperava. E o seu motivo de conectar hoje era descobrir quem era a pessoa por trás do teclado do Coelho Branco.
E lá estava ele. A esperando pacientemente. Eles conversam, trocam fotos, elogiam a aparência um do outro. A verdade é que a foto não fazia a mínima diferença. Os dois já se gostavam. Gostavam um do outro porquê era tão irreal que não tinha como dar errado. Conheciam um ao outro não como homem e mulher. Viam um no outro a personificação do amor, embora não entendessem bem o que era isso.
Utopia. Era a combinação do amor platônico com a sutileza dos romances da Idade Média, ou pelo menos o que nos fazem acreditar que era um romance da Idade Média.
E lá estava ela. O beijando digitalmente.