Ferrovias de sangue.
1 Introdução.
Notas iniciais
"O corpo jazia frio e rígido sobre a pia. Os olhos foscos e sem vida da garota já anunciavam que em tal corpo não havia mais uma "chama acesa". E por fim, podia se ver o sangue que saía de sua boca — cujos lábios estavam em um tom roxo — e manchava o acrílico branco de vermelho."
Era um inverno particularmente frio no norte da Europa. Não era incomum ter temperaturas extremamente baixas nos países Escandinavos, entretanto, o vento forte e gélido piorava tudo. Como o frio não era lá grande coisa para mim, pouco me importei em usar apenas um casaco térmico e botas comuns em meu caminho para a estação de trem de Copenhagen.
Naquela noite eu pegaria um trem de volta para a Alemanha, meu país de origem.Tinha ido para a Dinamarca apenas para resolver um caso clássico de assassinato — "a mulher que mata seu marido rico por dinheiro". Não era nada peculiar para mim casos desse tipo, afinal, durante meus doze anos na carreira de detetive, já tinha visto de tudo.
Schrodinger era meu nome. Sim, como a "teoria do gato de Schrodinger". Além de um detetive bem reconhecido, eu também era um amante da física quântica.
Entrei na estação e, imediatamente, me dirigi à uma franquia do "Starbucks" localizada lá dentro. Fiz um pedido simples, um expresso duplo para viagem.Parei na fila de espera e comecei a observar as poucas pessoas na minha volta. Com as altas chances de tempestades de neve, o número de pessoas viajando de trem era baixo, logo, a estação (assim como a cafeteira) estava quase vazia.
Analisei cada um dentro do estabelecimento, desde o garoto desajeitado do caixa, até uma mulher jovem que pegava seu frappuccino recém feito no balcão de madeira. Tal mulher me chamara atenção. Não, não era uma questão de interesse nem nada do tipo, mas sim por sua expressão de nervosismo estampada no rosto. Ela batia seus dedos em sincronia no balcão de forma impaciente enquanto lia seu recibo, até que se retirou do local e sumiu ao passar pela porta.
Peguei meu pedido, acenei com a cabeça para o garoto do caixa e tomei rumo ao "Portão 5", onde meu trem estaria esperando. Diante do vagão de entrada estava um pequeno grupo de pessoas. Em uma contagem rápida, eu diria que haviam em média doze pessoas — além do homem baixinho que recolhia os bilhetes de entrada. Entre essas pessoas, estava a mulher que eu vira pouco tempo antes. Que coincidência.
Após alguns minutos de espera, finalmente entrei no trem e fui procurar pela minha cabine, que ficava no vagão preferencial (e que, se combinarmos, não era tão diferente dos demais). Dispus minha bagagem de mão sobre uma escrivaninha simples que ficava ao lado da cama e examinei o cômodo por certo tempo.
Por volta das 20:30 (oito e meia da noite), o trem partiu da estação e eu fui para o vagão-restaurante. Sentei em uma mesa qualquer e comecei a observar a movimentação dos outros passageiros que foram chegando aos poucos.
—Com licença... — uma voz feminina disse ao meu lado — Senhor Schrodinger?
Ao virar-me lentamente, me deparei com uma garota loira, de olhos verdes e pele clara. Ela usava uma faixa verde em seus cabelos e segurava um copo com algo que parecia ser suco de morango.
—Sim, o que deseja? — perguntei.
—Posso ter uma palavrinha com o senhor..?
—Uhm...claro. — apontei com a cabeça para a cadeira no lado oposto ao meu da mesa — sente-se.
A garota se sentou no local indicado e ficou um certo período de tempo me encarando como se estivesse procurando pelas palavras certas.
—Eu preciso da sua ajuda. — ela sussurrou enquanto olhava para os lados.
—Precisa de ajuda com o que exatamente, senhorita...ahm...
—Never, meu nome é Never.
—Certo, com o que precisa de ajuda, senhorita Never?
—Soube que o senhor é detetive, correto? Bem, sinto que estou correndo perigo.
—O "correr perigo" é algo comum na vida de um ser vivo, preciso que seja mais específica.
—Estou sendo perseguida. Creio que posso acabar morta! — ela continuou sussurrando.
—Por que crê nisso? Existem motivos para alguém te querer morta? — perguntei com ceticismo.
—Tenho sim. Mas... — ela hesitou e desviou o olhar.
—Se não for totalmente franca, não tenho como nem porque lhe ajudar.
—Olha...esqueça. Apenas fique de olho nas pessoas aqui...
—Uhm, claro. — murmurei despreocupado.
Ela se levantou da cadeira, lançou-me um olhar analítico e saiu do vagão. Era comum pessoas com o psicológico ruim terem a sensação de estarem em constante perigo, e muitos assim me procuravam. Porém, até aquela época, eu sabia diferenciar tais casos dos realmente importantes e descartava-os.
Ali, no vagão-restaurante, estavam um casal; um garçom ruivo com sotaque escocês; um garoto um tanto jovem que lia um livro de direito; uma garota que examinava algumas partituras enquanto anotava coisas em um caderninho; um homem de cabelos negros que cochichava algo para uma mulher de cabelos esverdeados perto do bar; e, por fim, a moça do frappuccino, que estava trocando olhares discretos e furtivos com um homem do outro lado do vagão. Eu sabia que haviam mais passageiros, mas provavelmente estes estavam em suas cabines.
A viagem duraria em torno de quinze horas e meia, e o tédio já estava me dominando. Talvez algo interessante fosse acontecer, e até lá, eu iria relaxar.
Com um suspiro, ergui a mão para chamar o garçom.
"Essa viagem será longa...", pensei.
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