Fernanda acordou com uma forte dor de cabeça. As cortinas estavam abertas e a claridade aumentava o desconforto. Ficou de olhos fechados escutando as vozes das pessoas no aposento. Escutou a voz de Inês e Maria. Inês estava nervosa. Maria não estava percebendo por Inês saber esconder bem suas emoções, mas depois de dez anos trabalhando juntas, Fernanda conhecia cada tom na voz dela.

Tentou mexer a cabeça, mas logo desistiu, pois a dor que sentiu a fez lagrimar. Gemeu de dor o que fez com que Inês corresse para o lado dela. Sempre a superproteção. Mas, naquele momento, Fernanda não reclamou disso.

– Inês? O que aconteceu?

– Você caiu querida. Desmaiou. E na queda bateu forte com a cabeça.

– Ah... MARCELO... – Fernanda levantou rápido precisando ser apoiada por Inês para não cair novamente. – Eu... Ele...

– Olá, Fernanda! – Marcelo falou pela primeira vez parado em um canto do escritório.

– Você...

– Sim, estou vivo.

– Eu fui ao seu enterro e... – Ela estava atordoada.

– Podemos dizer que... Aquele dentro do caixão não era eu. Vejamos... Caixão fechado, não?

– Por que?

– Foi preciso.

– Foi... Preciso? FOI PRECISO? Eu chorei por você. Passei dias, MESES sofrendo POR VOCÊ... E você vem me dizer... FOI PRECISO? – Fernanda explodiu numa raiva incontrolável. Inês e Maria quase não conseguiram segurá-la.

– Fernanda, entenda, eu quis dizer pra você mais cedo, mas... Não podia, eu...

– É melhor você se explicar direito, Marcelo. – Fernanda falou se virando de costas pra ele. Maria trouxe um chá para que ela pudesse se acalmar que foi recusado.

– Vem, Maria. Eles precisam de um tempo às sós. – Inês falou tirando Maria do escritório. – E você... Trate de ser honesto com ela. Fale TODA a verdade. – Inês falou para Marcelo irritada.

Marcelo suspirou. Ficou alguns minutos olhando Fernanda. Ela estava com um galo enorme na cabeça, mas ainda era linda. Ele notou o quanto ela estava... Feliz. Neste momento entendeu que ele jamais poderia fazê-la feliz como ela está agora. Ele entendeu que somente Caio poderia ter feito isso.

– Primeiramente, preciso me desculpar. Não sabia que minha morte lhe traria tanto sofrimento e...

– Como assim não sabia? Qual é Marcelo?

– Você não falava assim na época de faculdade. Ainda lembro de quando a vi pela primeira vez. Um fogo nos olhos que eu jamais vira em nenhum aluno meu. Naquele momento eu sabia que você seria... Perfeita.

– Chega. Por que você forjou sua morte? Por que precisou fazer isso? E mais importante... Por que não me falou nada? – Fernanda voltara a ser aquela caloura ingênua. Marcelo precisou se controlar para não beijá-la ali mesmo.

– Eu prometi lhe contar toda a verdade, e vou fazê-lo; mas primeiro quero lhe pedir duas coisas.

– Quais são?

– Primeiro me deixar explicar tudo sem me interromper. Sei que o que eu tenho para lhe contar, não vai ser fácil para você escutar. E depois... – Marcelo parou suspirando.

– Depois? – Fernanda falou olhando direto nos olhos dele. Marcelo sabia que não seria fácil encará-la, mas não imaginava quão difícil seria.

– Peço que... Não me julgue tão rapidamente.

– Por que eu lhe julgaria?

– Prometa.

– Tudo bem.

– Tudo começou há quatro anos, quando você saiu nos jornais de todo o país depois da morte de Pedro.

– Pedro? Mas, o que ele tem a ver com tudo isso?

– Sem interrupções, lembra?

– Desculpe.

– Então, assim que você saiu em todos os jornais do país, o Aguiar veio me procurar, aparentemente, estava querendo saber apenas de rotinas advocatícias, mas logo depois abriu o jogo quando eu descobri de quem ele era irmão. Até aí, tudo bem, afinal de contas, não era porque o irmão dele era daquele jeito, que ele também seria, não é?

Acontece, Fernanda, que ele havia feito a tarefa de casa, e bem feita. Logo ele começou a perguntar sobre você. Quando eu tentei desviar a conversa, ele jogou na minha cara que sabia de TUDO sobre você.

– Tu-Tudo? Como assim, tudo?

– TUDO Fernanda, inclusive que você havia tido um caso com o irmão. Se não me engano, isso não havia saído nos jornais.

– O Caio deu um jeito de esconder isso de todo mundo. – Fernanda falou sentando e esperando que Marcelo continuasse. Relembrar Pedro e tudo o que aconteceu ainda fazia Fernanda tremer.

– Naquele tempo ele também sabia coisas sobre mim que... Bem, não seria um orgulho para uma mãe. Entenda, eu estava com uma dívida enorme com um agiota e estava desesperado.

– Você está me dizendo que... Trabalhou para o Aguiar, todo esse tempo?

– Fernanda, entenda, eu estava desesperado. O cara ameaçou a mim e a minha família. Aguiar surgiu como a única opção que eu tinha. Então, eu... Comecei a ajudá-lo a mandar as garotas para Amsterdam.

– Você fez... O QUE? – Fernanda perguntou com raiva. Ela estava com raiva de Marcelo por ter começado a trabalhar com Aguiar, mas ela estava com mais raiva por ele não ter procurado por ela a princípio. – Você não pode estar falando sério.

– Fernanda... Entenda que...

– Não, Marcelo, você poderia ter me procurado. Eu teria lhe ajudado. O Caio teria ajudado de alguma forma.

– Eu não podia lhe procurar.

– Por que?

– Isso não vem ao caso agora, Fernanda.

– Isso não vem ao caso? Claro que isso vem ao caso. Eu quero saber, por que você não me procurou para que eu pudesse lhe ajudar.

– Fernanda, entenda eu...

– Não Marcelo, você que precisa entender que eu poderia te ajudar. O que foi? Orgulho?

– Não, eu...

– Não? Achou que você não poderia pedir ajuda de uma ex-aluna? É isso?

– Não... – Ele estava perdendo o controle de alguma forma.

– Então... O que?

– EU AMO VOCÊ! – Marcelo gritou desesperado segurando Fernanda pelos braços. – Eu sempre amei. Desde os tempos de faculdade. Você chegou em minha aula destemida, compenetrada, estudiosa... Eu... Eu me apaixonei por você como eu nunca havia me apaixonado antes. E nutri esse amor todos esses anos. E então você aparece nos jornais, linda, casada, FELIZ. Eu não poderia... – Marcelo parou frustrado, soltando os braços dela. Fernanda não soube o que fazer, ficou parada no meio do escritório apenas olhando para ele. – Merda. – Fernanda estava calada agora. Nunca imaginou que Marcelo estivesse apaixonado por ela. – Eu simplesmente não podia chegar e pedir a SUA ajuda. Não queria que você me visse como um fracasso. E ainda não quero, mas as coisas agora mudaram.

– Como assim mudaram? – Fernanda não falou mais que um sussurro.

– Quando Henrique entrou na jogada... Ele nutre um ódio enorme por você. Ele acredita que a culpa é sua pela morte de Pedro.

– E o que ele tem a ver com tudo isso?

– Ele tem TUDO a ver com esse esquema todo, Fernanda. Sendo filho de Pedro ele controla tudo... Até a mim.

– Eu não estou entendendo.

– Ele quer destruir você, Fernanda. Matando quem você mais ama.

– Cristina!? – Fernanda gritou com ele.

– Não, dentro de toda loucura dele, ele jamais machucaria uma criança.

– Mas então, quem ele... CAIO! – Fernanda começou a ligar para o celular do marido sem sucesso.

– Ele vai fazer você sofrer através dele. Por isso eu estou aqui. Não vou mais permitir que essa família te faça mal. Mesmo que isso signifique o meu fim, eu não posso mais permitir que ele faça você sofrer.

– Anda amor... Atende... ATENDE CAIO! Ele não atende. Por que ele não atende? Inês... – Fernanda gritou saindo rápido do escritório.

– O que foi? Ele te fez alguma coisa?

– O Caio, ele tá correndo perigo. – Fernanda falou tentando falar com ele sem sucesso.

Henrique era mais esperto do que Marcelo imaginava. Ele sabia que, contando tudo o que contou para o Marcelo, ele iria correndo atrás de Fernanda para alertá-la. O plano dele era fazer com que Marcelo o levasse até Fernanda e Caio para que pudesse pôr em prática seu plano. O que ele não contava fosse que Caio saísse de casa e fosse até a boate de Rui. Foi uma sorte tremenda. Ele estava de tocaia quando viu Caio saindo do carro e o segurança indo embora. Henrique apenas teve o trabalho de ligar para seus conhecidos e começar o trabalho.

Quando Campos chegou a boate logo notou algo errado e entrou correndo. Lá dentro tomou um susto. A boate estava completamente destruída, cadeiras e mesas quebradas, o bar completamente destruído. Logo começou a chamar por Caio sem sucesso. Então ele avistou Rui caído desmaiado no chão. Ele havia sido baleado e estava perdendo muito sangue. Campos não teve muito tempo. Ligou para Tião e para um médico que conhecia pedindo uma ambulância urgente. O primeiro a chegar ao local foi Tião. Campos deixou Rui aos cuidados do amigo e partiu para casa. Ele precisava de muita cautela para contar o que aconteceu a Fernanda. Ele sabia que ela iria surtar.

Em casa, assim que Marcelo terminou de contar a história dele, Campos estacionou. Ao mesmo tempo, o telefone de Fernanda começou a receber uma chamada de um número desconhecido.

– Alô, Caio?

– Que bonitinho... Diz “oi” pra ela, Caio.

– Se você encostar UM DEDO sequer nele...

– Cale a boca e escute ou seu maridinho vai voltar pra casa em pedaços.

Fernanda chorando parou de falar e escutou. No mesmo instante, Campos entra no escritório.

– Seu maridinho... Vai morrer.