– Deixa a Fernanda fora disso, seu desgraçado. É a mim que você quer, então... Estou aqui. – Caio gritou fazendo com que sua mulher escutasse sua voz. Fernanda sabia que ele estava tentando fazer com que ela descobrisse onde eles estavam pelo eco, mas ela precisava de mais informações que o simples eco da voz do seu marido.

– Ah não, Caio. Na verdade eu quero que a sua mulherzinha sofra. Ela foi a responsável por tudo de ruim que aconteceu comigo e com a minha família. – Henrique falou calmo.

– Ela? Seu pai foi quem a fez sofrer. Ela quase morreu...

– Vamos dar um jeito para que desta vez, não haja a palavra “quase”.

– Seu filho da puta, quando eu me soltar...

– SE... Se você se soltar, o que, no caso, é algo improvável. Sabe... esses nós que eu fiz em você? Eles são bem resistentes.

– Henrique, olhe, preste atenção... Você é jovem ainda, pode mudar sua vida, veja o que você está fazendo... Não cometa o mesmo erro...

– Cale a boca! – Henrique gritou dando um chute forte na virilha de Caio que tossiu de dor.

– Eu... Vou... Matar... Você! – Caio falou entre os dentes. Fernanda não pôde escutar mais nada, pois Henrique desligou o celular.

Fernanda estava andando de um lado para o outro no escritório. Fazia mais de duas horas que Henrique tinha entrado em contato e ela estava até agora tentando lembrar de onde escutou aquele som de eco na voz de Caio. Ela sabia que conhecia o lugar, mas não estava lembrando. E isso a estava fazendo ficar impaciente.

Campos entrou no escritório rapidamente, sem nem bater à porta. Ao vê-lo entrando, a única reação que Fernanda teve foi esmurra-lo. Caio a estava ensinando lutas, e ela lembrou da técnica, mas não contava com o fato de Campos ser mais alto e mais forte que ela. Na mesma hora Fernanda segura sua mão gritando de dor.

– Dona Fernanda eu... Eu sinto muito. – Campos falou com sentido duplo.

– Você... Sente? Pelo que? Por ter quebrado minha mão ou por não ter protegido o Caio como se deve?

– Pelos... Dois? – Campos estava tentando ser o mais natural possível.

– Mas... Que droga Campos. O que aconteceu? COMO o Caio foi sequestrado? – Fernanda perguntou enquanto Maria enfaixava a mão dela.

– Na... Verdade eu... Não sei. Seu Caio estava calado, quase não falou. Me disse que era para deixar na boate do seu Rui e ir lavar o carro. E a senhora sabe como ele é com aquele carro. Gosta de ir num lava-jato específico. E eu fui.

– É... Eu sei... Ai Maria... Cuidado com isso. Continue. – Fernanda falou ao notar que Campos ficou calado olhando Maria trabalhar.

– Voltei depois de duas horas. Quando cheguei, notei a porta aberta. Entrei. Estava tudo uma bagunça. Parecia que havia tido uma briga. Seu Rui estava desacordado no chão baleado na barriga...

– Ele...

– Está no hospital. Eu chamei o seu Tião. Mas seu Caio... Havia sumido. Deixei seu Rui aos cuidados dele e vim para casa. Pensei que alguma coisa pudesse ter acontecido com a senhora.

– Rui está acordado?

– Sim está, mas... Não consegui mais falar com o seu Tião.

– Vamos falar com ele. Quero saber se ele está bem.

Fernanda levantou e foi ao quarto dos fundos. Pegou a arma que Caio lhe deu de presente. Ela nunca a usou, mas agora? Sabendo que Caio estava a cada hora que passava mais perto da morte? Ela usaria com todo prazer.

Fernanda não ligou muito para a dor em sua mão, na verdade, isso a irritava mais ainda. Mas primeiro ela teria que ir até a boate para ver se encontrava alguma pista.

– Campos, quero que você me leve até lá. Depois vamos para o hospital.

– Dona Fernanda eu...

– Escute uma coisa, eu VOU fazer isso, então, ou você me leva lá ou eu vou sozinha.

– Seu Caio me mataria se eu deixasse a senhora ir sozinha.

– Então vamos logo.

Em menos de duas horas eles estavam no local. Fernanda e Campos entraram com as armas em mãos. No caminho, ela ligou para Tiago encontrar com eles no local. Estavam perto da entrada quando Tiago chegou e se juntou a eles dois.

A boate estava uma bagunça. Mesas viradas, cadeiras quebradas e várias, várias marcas de tiros. Fernanda reconheceu as capsulas do revolver de Caio. Uma Clock semiautomática 9mm. Depois de tanto ouvir Caio falar dessa arma decorou até mesmo o número de série dela.

Tiago analisou toda a cena, e viu o sangue. Provavelmente de Rui. Campos confirmou que foi onde encontrou o empresário caído. Fernanda ainda tinha problemas com sangue. Tremeu e se lembrou de que tinha que ligar para Ana e saber como estava o amigo.

Olhou para o lado e empalideceu. O curativo do ferimento de Caio estava no chão ensanguentado. Eles teriam que ser rápidos. Caio poderia estar perdendo sangue e isso não era um bom sinal. Tiago avistou o curativo e se preocupou.

– Calma, nós vamos encontrá-lo.

– Ele não pode perder sangue por muito tempo. – Fernanda falou quase sem voz.

– Sabe o que isso me lembra Nanda?

– O quê?

– Que vocês nasceram um para o outro. Lembro quando era você nessa situação. Ele só parou quando te encontrou. E eu sei...

– Eu não sou ele, Ti. Não tenho metade da experiência dele.

– Mas você o ama, Nanda. Isso é mais importante que qualquer outra coisa.

Na mesma hora, Campos pediu para que os dois fizessem silêncio. Havia alguém lá. Campos ficou na frente de Fernanda para protegê-la. Tiago também ficou na frente dela. Por mais que isso fosse gentil da parte deles dois, ela agora não era mais a menina desprotegida que eles haviam conhecido.

Uma janela de vidro que separava a área VIP do resto do local explodiu perto deles. Alguns cacos feriram o rosto de Tiago e Campos e a mão boa de Fernanda. Vários tiros começaram e os três se jogaram no chão sendo protegidos por duas mesas de granito. Fernanda supôs que os tiros estivessem vindo de uma metralhadora ou algo do gênero devido à rapidez dos disparos. Tiago e Campos estavam um pouco afastados dela.

De repente os tiros pararam e Tiago e Campos começaram a atirar aleatoriamente. Fernanda sempre se perguntava do motivo pelo qual os homens faziam isso. Nas aulas de tiro que teve o professor sempre a lembrava que um tiro certeiro era mais prático que vários aleatórios. Então ela esperou. Ficou olhando cautelosamente para todos os lados.

Avistou o atirador perto de um dos dois bares que havia no local. Sentou-se de costas para a mesa e olhou sua arma. Estava carregada, mas ela sabia que precisaria de algo mais potente se quisesse que ele parasse de atirar. Olhou em volta e avistou a arma de Caio caída no chão. Se arrastando no chão chegou até ela. Olhou e estava com apenas duas balas. Ela precisaria ser precisa se quisesse ser eficaz. A arma era mais pesada que a sua, mas isso agora não importava muito. Ela precisaria apenas de uma chance.

Voltou para ficar perto dos dois. Campos e Tiago estavam quase sem balas. O que já era de se esperar. Ela se ajoelhou e mirou para onde estava o atirador. Atirou. A força da arma ela acabou de desequilibrando e machucando mais ainda a mão. Só não falou para os dois senão eles não iriam deixa-la ir com eles.

Ela acertou a perna do rapaz, o que fez com que os tiros parassem. Os três se aproximaram lentamente. Fernanda guardou a arma de Caio na cintura e pegou a sua mais leve e melhor para segurar.

– Onde você aprendeu a atirar desse jeito? – Tiago perguntou impressionado. – Desde que me lembro, você nunca gostou de armas.

– Faz quatro anos que o Caio me colocou numa aula de tiro. Acho que serviu pra alguma coisa.

– Alguma coisa? Você praticamente salvou o dia. – Falou Tiago chegando perto de onde estava o rapaz.

– Sua puta vagabunda, acertou minha perna. Posso nunca mais andar. – Fernanda reparou que ele não deveria ter mais que 20 anos. Aquele rapaz mal tinha saído da infância e já estava com uma arma de grosso calibre nas mãos. Ela suspirou de maneira triste.

– Acredite... Eu errei. – Fernanda falou tão fria que assustou tanto Campos e Tiago.

– Onde está o Caio?

– Numa hora dessas? Morto... Provavelmente. – O rapaz estava provocando ao máximo Fernanda. Ela sabia desse jogo, ele a provocaria tanto que atiraria novamente nele. Mas... Não seria assim que ela faria as coisas. Numa calma assustadora Fernanda se abaixou e enfiou um dedo na feria de bala na coxa do rapaz. Ele se contorceu gritando de dor. Quanto mais ele gritava, mais Fernanda apertava a ferida.

– Ela não vai parar enquanto você não disser onde ele está. – Campos falou mais preocupado com ele que com o patrão. Nunca vira Fernanda tão fria e sádica quanto agora.

– Fernanda, pare, ele vai desmaiar de dor. – Tiago falou colocando uma mão no ombro da amiga.

– Não enquanto ele não disser onde está meu marido.

– Eu não sei. – O garoto gritou. Nessa hora Tiago puxou Fernanda de perto dele. Ele viu o garoto respirar aliviado. – O seu Henrique falou que era pra eu ficar vigiando caso ele voltasse – falou apontando para Campos. – Só não esperava que teria que lidar com três pessoas.

– Me diga qualquer coisa. – Tiago falou chegando perto dele.

– Só sei que escutei seu Henrique falando que ele iria levá-lo para onde tudo começou.

– Para a marina? – Fernanda perguntou.

– Para o escritório dele. – Marcelo falou assustando os três que ficaram com as armas apontadas pra ele.

Marcelo se aproximou do grupo calmamente. Estava desarmado com as mãos para cima. Mas mesmo assim os três continuaram apontando suas armas para a direção do Marcelo.

– Qual é Fernanda, sou eu.

– Sim e você já nos traiu uma vez. Agora, fale tudo que você sabe.

– Henrique estudou as fraquezas de vocês durante meses. Ele sabe, por exemplo, que você, Fernanda tem medo de cachorros e de agulha. E que Caio...

– Tem medo de lugares fechados, escuros e barulhentos. Merda. Tiago, nós precisamos correr.

– Eu não entendi.

– Ele levou o Caio pro complexo. Lá tem uma área ainda não construída com vários depósitos pequenos que o Caio usava para colocar materiais de construção e ferramentas. Se ele sabe dos meus medos, provavelmente vai jogar o Caio num desses depósitos. Ferido da forma que o Caio está ele vai... – Fernanda parou com lágrimas nos olhos soluçando.

– Tudo bem então, nós temos que correr. – Tiago falou ligando para seus conhecidos na polícia informando do sequestro.

Eles saíram e Marcelo foi com eles. Deixaram o rapaz aos cuidados de um médico e dois policiais que o acompanhariam até o hospital. O resto foi com eles. Fernanda não queria policiais, mas diante das circunstâncias não pôde dizer não.

No caminho Fernanda não parava de pensar na ironia de tudo isso. Há cinco anos, era ela quem estava algemada numa cama com febre pensando que sua vida havia acabado por achar que Caio estava morto. Pedro havia feito isso. Agora, aquela família estava novamente a fazendo sofrer. Enquanto se dirigiam ao escritório, uma raiva diferente começou a aparecer em Fernanda. Ela não queria que Henrique saísse vivo.

De longe Tiago ficou observando a amiga. Ela estava calada, olhando para fora enquanto se dirigiam para o local onde Caio estava. Ele sabia que aquele olhar era diferente de tudo que ele conhecia dela. Ela não estava indo para soltar o Caio e prender Henrique. Ela estava pensando em matá-lo. E ele precisaria pensar no que iria fazer caso isso realmente acontecesse.