“Ter medo e admiti-lo é a maior das virtudes”, sempre dissera o Rei Durmas para o pequeno Seph. Aquilo parecia paradoxal para o príncipe; logo seu pai, o homem mais destemido do mundo, tomava aquela frase como filosofia de vida?

Mas os tempos mudam, e Seph, após alguns tantos verões a mais vividos, agora entendia as palavras do Rei.

A tempestade fora assustadora.

Já eram duas semanas de reparos na embarcação, após alguns incidentes ocorridos durante as horas de chuva torrencial, ventos fortes e ondas gigantes. Enquanto os engenheiros do Tridente de Netuno coordenavam com os marujos as operações de conserto do casco, no convés, entre os tripulantes formou-se uma brigada com baldes em mãos, sempre jogando a água para fora. O mar ainda encontrava-se em estado de agitação, e o céu permanecia cinza.

— Você tinha que falar sobre possibilidades da viagem ser perigosa, né?

Lyna estava ao lado de Seph, irrequieta, sentada sobre a amurada. Tinha um balde na mão, mas ele estava tão vazio quanto o estômago do príncipe naquela manhã. Wol, que havia desenvolvido uma curiosa relação amistosa com os dois, cochilava ali perto. Havia passado a noite fazendo o mesmo que Seph agora fazia.

— Certo, vamos fingir que isso foi culpa minha. Se tudo que eu falasse se tornasse realidade…

— Não funciona assim. Só se aplica às coisas ruins.

— Ora, que droga de mundo injusto então. Agora, me diga, vai se levantar e ajudar ou continuar me irritando com perguntas inúteis?

Ela se pôs de pé, agachando-se em seguida. Encheu o balde de água numa poça que se formara ali, logo após jogando o conteúdo ao mar. Em momento algum pareceu entusiasmada.

— E ainda disse que não queria agir como um pai. Se não um pai, você está sendo no mínimo um irmão mais velho extremamente tedioso. – fez menção de pensar no que dizer – A propósito, quantas primaveras Vossa Alteza já completou?

Seph não gostava nem um pouco do modo como ela se referira a ele. Nem do termo “primaveras”.

— Tenho dezenove anos, ou verões. Não primaveras. As princesas que contam primaveras.

— Isso significa que todos os príncipes nascem nos verões e todas as princesas nas primaveras?

— É apenas modo de dizer, Lyna. – sentiu algo roncar em seu abdômen. A fome estava se manifestando cada vez mais frequentemente – Por que o interesse na minha idade?

— Ah, só curiosidade. Queria saber se faz mesmo jus à atitude de primogênito monótono cheio de responsabilidades. E não é que faz?

— É mesmo? E você, quantos anos tem? Deve estar na flor da juventude para falar assim de mim.

— Isso fica pra depois. – disse com aquele olhar penetrante.

Mais um ronco. Desta vez, desconfortavelmente alto.

Seph sentiu seu rosto corar.

E mesmo antes de olhar, já sabia que Lyna estava rindo com aquele característico riso desprezível.

— O que foi? – ela escondia o riso com a mão sobre a boca – Nada contra. A realeza também sente fome.

— Eu vou comer algo. Fim do meu turno.

Seph disparou a passos largos até a cozinha.

— Ei! Mas e os…

— Acorde o Wol!

— Você também adotou esse nome?!— gritou a voz de Wol, com sonolência.

Seph desceu até a área interna de convivência do navio. As pessoas o observavam, mas nenhuma parecia desconfiar de sua origem real. Ali, ele era com todos os outros. Apenas mais um tripulante, tão responsável pela limpeza do navio quanto os outros, tão propenso a esperar na fila do desjejum quanto os outros.

Gastou duas ou três dúzias de minutos aguardando sua vez. Sentou-se no chão para comer. Já na primeira semana de viagem, abandonara a preocupação com o estado de suas roupas. Tudo que queria era um espaço em que se sentisse confortável. O navio não era digno de uma embarcação real de Lionor, mas também não era da pior categoria. Se por um lado não haviam mesas suficientes para todos, ao menos os que se assentavam no chão não precisavam lidar com pragas como ratos e baratas.

— Ei, garoto!

Seph ignorou. Sequer percebeu de quem era a voz, ou a quem se referia, em meio a tantas pessoas dialogando.

— Garoto!

Desta vez, olhou para os lados, procurando uma possível origem da voz.

— Você mesmo, de cabelo vermelho!

O príncipe, por puro reflexo, parou com o punho um dedo esquelético que se direcionava ao seu ombro direito.

— Quem é você?

— Pode me chamar de Nyctal, garoto. – um idoso raquítico de pele flácida e anormalmente pálida retraiu o indicador, de aparência tão frágil que Seph temeu tê-lo quebrado com o punho – Escuta…

Um período perturbador de silêncio perdurou por alguns segundos.

— Escutar… o quê?

— Ah, você não escuta? – o senhor de idade parecia mesmo seriamente desapontado. – Seus olhos não o deixam escutar.

— Do que está falan…

O velho interrompeu, pondo o mesmo indicador na frente do rosto de Seph.

— Ssssh… Eu estou escutando.

Seph desistiu de tentar propor um diálogo razoável.

— Certo. Desculpe incomodá-lo.

— Eles estão vindo.

Por mais que tentar conversar com o ancião parecesse tarefa impossível, a curiosidade de Seph falou mais alto.

— Eles quem?

— Ora, os primatas. Quem mais seria?

— Os pri… – bum. Uma aparente explosão abalou toda a estrutura do navio. Seph foi jogado para trás, batendo com a nuca na parede. – Era disso que você estava falando? – disse, levando a mão à cabeça.

— Mas é claro. Achei que os tinha ouvido também. Você sabe, pelo seu sangue real. Achei que poderia prever a presença deles.

Sephndir considerou a frase, principalmente no contexto em que se encontrava, assustadora. Mas não havia tempo para se preocupar com velhos capazes de ouvir através de paredes e do oceano. O príncipe correu convés acima, com a empunhadura em mãos, passando por dezenas, talvez centenas de pessoas atordoadas. Ninguém parecia saber exatamente o que estava acontecendo, mas definitivamente não era coisa boa, considerando também os danos prévios do navio.

Precisava encontrar Lyna, mais do que nunca. Era melhor não mais se afastar da garota.

Na área externa, próxima à proa, diversos tripulantes eram acuados por homens baixos, peludos e de braços longos. Alguns dos criminosos carregavam espadas curvas, outros usavam apenas a agilidade manual para roubar. Haviam outros pendurados no mastro. Ou sobre a cabine do capitão, ou se agarrando às velas, ou… estavam em todo lugar. Não havia nenhuma grande embarcação atracada ao Tridente de Netuno, mas no horizonte era possível ver uma caravela de velas tingidas em negro, com a simpática estampa do crânio de um chimpanzé.

— Como já dissemos, somos os Piratas Primatas. Vocês podem rir do nome, ele foi feito para rir! – o homem sem peças de roupa superiores, com uma pintura branca nas costas, apontava uma pistola para alguns tripulantes. Pareceu aguardar por algo, mas o silêncio continuou – Vamos, riam! – disse num tom que, ironicamente, parecia bastante sério.

A maioria forçou-se a rir desconfortavelmente, embora alguns já estivessem visivelmente de calças molhadas (os odores também não mentiam).

— Não se preocupem, nós não faremos nada, companheiros! – um deles gargalhava em voz alta – Desde que colaborem!

— Vai funcionar assim – exclamou outro, do topo do mastro, onde estavam amarrados o capitão e o imediato do navio – Nós pedimos educadamente, e vocês nos dão o que tem. Nós vamos embora, vocês chegam vivos a… onde quer que estejam indo. Fechado? Eu ouvi um sim? Então está fechado. – ele desceu do mastro fazendo diversas acrobacias, com um grande saco em mãos – Quem discordar, alguns buracos vai ganhar… – cantarolou. Passeou pelo convés, e as pessoas entregavam todos os bens que tinham em mãos, jogando-os no saco, que ficava mais pesado a cada passo dado. Alguns outros piratas fizeram o mesmo, inclusive descendo para o interior do navio.

Um deles se aproximou de Seph.

— Você não tem cara de quem costuma viajar em porcarias como esta aqui – ele bateu freneticamente com os pés no chão – O que tem aí com você?

Seph estava desesperado para encontrar Lyna, mas presumiu que não reagir bruscamente era a melhor opção no momento.

— Algumas moedas de ouro, outras de prata… vocês sabem. O típico dos almofadinhas.

O homem de atitudes simiescas coçou a cabeça, analisando Seph, até que pareceu encontrar algo de interesse.

— E isso, do que se trata, hm? – apontou com os olhos brilhantes e cheios de curiosidade para a empunhadura, embainhada na cintura de Seph.

— Não acho que vá servir para vocês. É só um pedaço de uma arma velha.

— Nosso capitão Tarr adora antiguidades. E eu adoro coisas que brilham.

— Acho que seria perda de tempo e espaço pegar…

Não houve tempo para terminar a frase. Nem para pensar muito. O criminoso se atreveu a tentar tocar na bainha, e Seph, novamente de reflexo, contra-atacou rapidamente, criando um risco sangrento no peito do adversário. Ele não devia, mas utilizou o sabre. Mesmo sem a maior parte da lâmina, a arma era poderosa. Seph prometeu a si mesmo não utilizá-la mais naquela luta. Sim, com toda a certeza haveria luta. O pirata e seus companheiros não pareciam nem um pouco felizes com a atitude de Seph.

Uma horda de homens-símio avançou em direção ao príncipe, que agora sentia-se um pouco arrependido pelo ato de coragem. Um grito, porém, o salvou:

— Ei, imbecis! Vocês gostam do espetáculo, não é?

Seph só soube de onde vinha a voz de Lyna quando uma das velas girou e se desprendeu, caindo em cima de parte dos piratas. Quem se pendurava ali era a garota dos Linces.Seph não fez questão de tentar entender como ela conseguira a façanha.

Um vulto cinzento-escuro surgiu ao lado de Seph.

— Quero que saiba, antes de tudo, que se vamos lutar juntos, não é por amizade ou respeito, mas por necessidade. Odeio piratas. Não são nem um pouco diferentes dos mercenários, apenas cometem seus crimes em alto-mar. E somos, pelo jeito, os três únicos lutadores dentre todos os tripulantes.

— Como…? – foi tudo que Seph conseguiu responder.

— Longa história. Mas a audição de um lince e o faro de um lobo raramente falham. E nenhum pirata pensa em dar uma olhada no bote salva-vidas externo. Agora, termos aparecido no momento oportuno pra te salvar… eu chamaria de sorte.

— Então vocês não veem problema em afundarem, companheiros?

— Quero ver você tentar. – Wolmir tinha uma língua tão ferina quanto a mordida de um lobo.

Enquanto Lyna causava um caos silencioso entre os criminosos na região da popa, imobilizando-os e se esquivando deles com uma feição tão serena que parecia estar se divertindo, Wolmir e Sephndir posicionaram-se, prontos para lutar. Os piratas eram muitos, mas não pareciam possuir uma técnica apurada de combate. E isso era algo que Wulfheim e Lionor possuíam de sobra.

Os adversários não mostraram estratégia, vindo todos de uma só vez, fosse fazendo movimentos acrobáticos, fosse simplesmente correndo na direção dos dois. Wolmir calmamente agarrou o longo braço de um deles e girou-o, deslocando seu ombro. Em seguida, usou o sujeito como arma, dessa vez girando ele mesmo para afastar os outros. Seph teve que andar alguns passos à frente para que a “arma humana” de Wol não esbarrasse nele. A tática-padrão de combate de Lionor poderia ser bem aplicada ali, como o príncipe observou. Ele disparou em direção ao que parecia ser o líder, o primeiro indivíduo que anunciara o nome do bando. O mesmo notou a atenção especial que recebera, e permaneceu parado, esperando Seph.

Agarrou, então, um pirata transeunte, em seguida tomando mais impulso, de forma que o golpe desferido contra o inimigo jogou-o em direção ao líder. O alvo, mesmo assim, apenas deu um salto mortal, desviando por centímetros do corpo inerte do subordinado. Ele iniciou uma corrida através de Seph, saltou lateralmente e correu pela amurada, seguido por alguns outros. Seph correu junto, mas, olhando para o lado, acabou esbarrando na batalha do próprio Wol, que apesar de ainda tomar a dianteira do combate, parecia um pouco ferido. Mesmo assim, cada um tinha sua própria batalha a travar.

Foi então que Seph notou: os outros piratas, incluindo os que lutavam com Wol e Lyna (estes já abatidos em maioria) seguiam na mesma direção que o grupo que o príncipe perseguia. Seph correu para a amurada, olhando para baixo. Lá estavam diversos botes rudimentares, com a bandeira do bando.

Eles estavam batendo em retirada.

E fazendo alguns sons… estranhos. Seph perguntou-se se alguns deles não eram mesmo macacos disfarçados de homens.

— Estão fugindo!

Já havia um príncipio de comemoração, quando o príncipe se deu conta da falta de algo.

— Desgraçado…

Não hesitou, correndo também pela amurada e saltando por cima de outros piratas até chegar no líder. Ele já fazia o movimento de salto. Seph, mesmo assim, agarrou-o no ar, e por alguns segundos pensou que não possuía mais pulmões, tamanha a força envolvida no processo. Conseguiu puxá-lo de volta e jogá-lo no chão do convés. Os outros piratas caíram em seus botes, alguns levando as sacolas cheias de despojos, outros deixando-as para trás, no mar ou no navio. Continuaram a produzir os sons simiescos.

Seph se jogou por cima do líder, agora abandonado por seus subordinados.

— O que você quer? Nós já estávamos – tossiu – fugindo.

— Me devolva.

— Eu não falo enigma. Do que está falando?

— Você sabe do que estou falando, seu… – Seph puxou-o pelo colarinho.

— Talvez eu saiba. Mas eu só faço um favor quando as pessoas pedem educadamente. E quando são um pouco mais claras.

Seph sentiu a raiva fluir em sua voz.

— Devolva! — exclamou, num grito tão intenso que danificou o chão do convés e fez o sujeito fazer uma careta.

Era o rugido.

Um poder que ele preferia não ter manifestado ali, entre tantos civis.

— OK, entendi. Toma de volta esta droga, Majestade – ele retirou de um compartimento escondido do cinto a bainha, com a empunhadura dentro, e intacta. Ou o mais perto disso que um pedaço de um sabre quebrado poderia estar.

— Agora você vai embora, E não olhará para trás. – Seph libertou-o. Ele se levantou, ainda incomodado. Pulou sobre a amurada, de costas para o mar.

Lyna libertara os oficiais do navio das cordas, e Wol agora permanecia sentado, recostado na amurada a estibordo.

— Uma última coisa. – todos ali perto viraram-se para ele. – Duas, na verdade. Primeiro – ele levantou o indicador – um pirata não desiste tão fácil de um assalto. Segundo – levantou agora o dedo médio – boa sorte. Vocês vão precisar, tem mais tempestades chegando. – num movimento ágil, ele retirou do cinto um sinalizador, atirando em direção ao céu. Logo após, jogou-se no oceano, e nadou em direção a seu navio.

Uma onda de murmúrios se alastrou pela embarcação, questionando-se o que queria dizer aquele sinalizador, além das duas frases. Coisa boa, definitivamente, não era..

O capitão ordenou que as velas fossem içadas, mas com a confusão que os piratas e Lyna fizeram, era difícil mesmo reamarrá-las. Não havia a possibilidade de remar, pois todos estavam extremamente cansados. E para piorar, o céu cinzento finalmente se transformara em chuva.

O navio tinha que ancorar.

Passaram-se alguns minutos, com o navio dos Piratas Primatas à espreita, mas uma aparente normalidade se esforçava para se manifestar. Um grupo foi investigar possíveis danos causados pelos bandidos no casco pelo lado externo.

Seph voltou aos seus aposentos, relendo alguns materiais da missão, escritos pelo seu próprio pai. Caminhou para fora para tomar ar fresco.

— Acha que eles farão algo? – perguntou a Wolmir, que sentava-se ao seu lado, referindo-se ao navio inimigo.

— Acha que nos tornamos amigos próximos, e que por isso conquistou o direito de conversar comigo sobre o que incomoda a você sempre que te der vontade?

— Em partes. Viu a Lyna?

— Não desde a confusão toda. Em seu lugar, seguiria cada passo dela agora.

— É o que estou tentando fazer. Tenho que procurá-la. – levantou-se, mas Wolmir tocou em seu ombro.

— Sephndir – e pela primeira vez, disse alguma coisa olhando-o nos olhos – você não é mau lutador.

— Obrigado.

— Que tocante.

— Lyna! – Seph tomou um susto. Lyna apareceu de cima, pendurada numa das velas fora de lugar.

— Olá.– ela acenou – Espero não estar atrapalhando.

— Por mais que eu deteste dizer isso, é melhor que você esteja atrapalhando à distância da minha visão, a estar quieta e sumida.

— Se é assim, ótimo. Não estarei nunca mais do que dois passos à sua frente, Vossa Alteza!

Mais uma vez, o trio foi vitimado pelo constrangimento do silêncio.

— Acho que vou dormir…

— Mas já?

— Lutar é cansativo.

— Pensei que os nobres fossem, sei lá, especiais. Que soubessem lutar sem parar, até a morte.

— Talvez outros príncipes tenham sido assim, quem sabe? Mas eu, Sephndir dos Liadre, ainda sou humano, apesar de viver num mundo maluco em que todos se referem como animais. De qualquer forma, lá vou eu… Lyna, não precisa dormir, mas você vem comigo.

— Mas…

— Eu preciso mesmo dizer “sem ‘mas’!”? Não quero parecer mais desconfortavelmente paternal do que já pareço.

— Tudo bem. Até mais, Wol…

Lyna foi interrompida por uma enorme esfera incandescente que voou direto no casco do Tridente de Netuno, novamente abalando tudo. Seph olhou para o céu; mais duas estavam vindo.

Os canhões dos Piratas Primatas estavam apontados para o Tridente do Mar.

— Acho que isso, com certeza, danificou o navio de vez. – comentou Lyna.

— Mais importante. Acho que isso explica o sinalizador.

A histeria, repentinamente, era geral. Pessoas saíam de seus aposentos horrorizadas, observando as chamas consumirem o já bastante avariado navio.

Wol agora estava novamente de pé.

— Não devíamos ter confiado neles.

— Não diga. – retrucou a garota.

— Vamos para o bote salva-vidas.

— Mas não entraremos. Mulheres, idosos e crianças primeiro. Com toda a certeza, não somos os primeiros da fila.

— Na verdade, eu me encaixo. – disse, com razão, Lyna.

— Mas onde você for eu também tenho que ir, e isso tiraria duas vagas de pessoas que com certeza precisam mais desse bote do que nós.

— Muito bonito o discurso humanitário, senhor futuro chefe de Estado, mas se não se lembra, eu tenho um convite, e você, uma missão. Chegar em Amcon, ou algo do gênero.

— Nós vamos dar um jei…

Desta vez, seis bolas de fogo atingiram o que restava do Tridente de Netuno, e a embarcação se dividiu em quatro.

— Ainda acha que há um jeito?

— Tem que haver – Seph apontou a leste. O bote salva-vidas já partira, contra a corrente, a remo.

— Ali. – Wolmir apontou para um bloco de madeira suficientemente grande para comportar os três.

— Vamos lá! – Lyna e Wol correram, mas Seph hesitou – O que foi? Achamos um jeito!

— Eu… não tenho certeza. Ainda há coisas no nosso dormitório que…

Uma última esfera atingiu aquele pedaço do Tridente, que iria a pique em alguns minutos. Não houve tempo para pensar, nem para agir, tendo em vista que o último impacto lançou todos naquela superfície ao mar.

Seph não se sentia tão confortável na água. Sabia nadar, mas não tão bem, por exemplo, como Lyna, que por algum motivo parecia extremamente confortável em estar submersa. Após bastante esforço, e uma mão esticada de Lyna, conseguiu se agarrar ao pedaço do navio onde a garota estava.

— Certo. Demos um jeito. E agora? – questionou Wol, que ainda parecia querer dormir, mesmo na situação alarmante.

Seph estava aterrorizado, mas forçou-se a encarar o medo. Assentiu, abaixando a cabeça.

— E agora… torcemos para chegar a algum lugar.