Feral Chronicles - Volume I: Amcon
3 Capítulo III: Território Desconhecido
Seph acordou sentindo um gosto salgado.
Sentou-se, tossindo alguns quilos de água e areia. Apesar de estar numa praia, o sol não era forte. O céu estava pálido. Sua cabeça ainda girava, mas conseguiu se localizar vagamente. Lyna colhia algumas frutas numa frondosa árvore. grande o suficiente para fazer sombra a Wol, que dormia encostado em seu tronco. Aparentemente era a única da orla inteira. Atrás da árvore, se erguiam montanhas e mais montanhas de picos gelados.
Tentou se lembrar do que acontecera antes de chegarem ali. Se é que realmente acontecera. Poderia estar sonhando.
Vagaram à deriva por quatro ou cinco dias, contando apenas com a chuva e alguns peixes que Lyna conseguia capturar para sobreviver. Seph ainda sentia o terrível sabor de peixe cru em sua boca. O evento mais recente de que se lembrava era a chegada de (mais) uma tempestade, que partiu o bote improvisado em diversos pedaços e provavelmente empurrou todos até… onde estavam. Seph não fazia ideia do nome do local, aparentemente deserto. Mas, considerando a escassa luz solar, a areia fofa e os ventos fortes, deviam estar mais a Sul do que gostaria.
Pensou em pegar a bússola para se localizar, mas lembrou de um detalhe um pouco alarmante.
— Droga!
Lyna desceu dos galhos da árvore, com algumas frutas pequenas, redondas e coloridas em mãos. Isso normalmente remete a frutas venenosas, mas todos estavam com muita fome, incluindo Lyna, que ignorou e pôs uma na boca.
— Você acordou! Bem-vindo a… ao meio do nada! É um lugar divertido. Tem areia, areia, areia, essa árvore aqui, mais areia, areia molhada, e… bem, essa linda vista para o mar. O que te incomoda, Majestade?
— Eu perdi praticamente todo o material da missão. Só tenho este papel inútil com uma rota e protocolos diplomáticos.
— Bem, ao menos você não perdeu o mais importante, não é mesmo?
— O quê, os amigos? A vida?
— Eu ia dizer o cabo da espada quebrada que você leva pra todo lugar que vai, mas o que você disse também serve. Quer? – ela abriu a mão com várias frutinhas, e apesar de saber dos riscos, Seph não hesitou.
— Precisamos achar – disse enquanto mastigava as frutas. Eram agridoces, mas melhores do que peixe cru ou areia – algum lugar para acampar, ao menos por hoje. Não acho que, depois de tudo que aconteceu, meu corpo esteja disposto a perambular por aí à procura de civilização.
— Seu corpo é pior do que sua mente.
— Obrigado. Agora, acorda o Wolmi…
Já estava se tornando repetitivo para Seph ser interrompido por algum evento ruim.
Desta vez era uma enorme criatura, semelhante a um urso cinzento, porém com a cabeça do tamanho da de um lobo cinzento. Surgiu aparentemente de lugar nenhum, tendo em vista que não haviam árvores para se esconder ali.
— O que fizemos para merecer isso? – resmungou a garota.
— Ssssh. Não adianta reclamar. Vamos tentar distraí-lo. Lutar não é uma opção.
Seph estendeu a mão à frente da criatura, intentando acalmá-lo.
— Como não é uma opção? Lutar sempre é uma opção!
— É por esse tipo de pensamento que eu sou o herdeiro de uma nação entre nós trê… – a criatura não estava paciente para ouvir a discussão. Puxou Seph, mordendo a manga de sua camisa e arrastando-o enquanto corria. Lyna e Wol ficaram para trás; pelo jeito, o monstro contentara-se com o príncipe para o jantar.
Seph tentou soltar-se, mas logo percebeu que era um trabalho em vão; como ele mesmo já dissera antes, seu corpo não estava com energia para uma situação daquelas. Além do mais, a criatura corria nos limites de um enorme abismo; soltar-se poderia significar morte. Procurou, então, agarrar-se ao torso do animal, cravando as mãos em seu pêlo.
A fera disparava numa velocidade irreal para o seu tamanho. Seph se sentia tonto; o mundo havia se tornado um borrão. Olhou para trás. Conseguia distinguir vagamente as figuras de Lyna e Wol, mas àquela distância eles não poderiam ajudar. Tentou observar o que havia à sua frente. Agora havia mais chão abaixo deles. O animal corria em direção à borda de um desfiladeiro, onde dobrou à direita, numa mata fechada.
Seph pensou rápido. Sacou o cabo do sabre, e bateu com força no torso da criatura. Ela se debateu, e o príncipe aproveitou o momento de distração para empurrar o corpo do urso-lobo contra o desfiladeiro. O plano surtiu efeito, mas com um problema: a criatura agarrou Seph, que caiu junto a ela…
Na água.
Lutando para se manter na superfície, Seph nadou até a borda da pequena, mas profunda lagoa que se estendia até a entrada de uma caverna, na base do penhasco. Não havia sinal da fera que o atacara, mas Seph ainda podia ouvir alguns ganidos distantes. Devia estar ferida.
Ali, entre enormes pedras, não havia muita luz, mas o suficiente para as àguas reluzirem, revelando pequenos peixes verde-claro ou esmeralda.
Viu, lá em cima, as silhuetas dos outros dois náufragos.
— Seph?! – gritou Lyna. – Você está bem?
Seph pisou em algo. Uma pedra. Parecia óbvio, afinal, o chão era de pedra ali, mas aquela se moveu. Olhou para baixo.
Uma pequena criatura cinza-esverdeada o fitava com olhos amarelos. Pareceu voltar a ser parte do chão por alguns segundos, e depois reapareceu. Subiu nele pela sua perna esquerda.
Um lagarto-gárgula.
— Eu estou aqui!
— Aquele animal… está por aí?!
— Não… ele fugiu. E eu estou bem!
— Tem certeza? Você consegue subir de volta?!
— Consigo, mas… desçam aqui, acho que encontrei um lugar para ficarmos por um tempo! – o lagarto apareceu agora em seu ombro, e pareceu olhar diretamente nos olhos de Seph. – … E um novo amigo.
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