Notas iniciais
Aqui se inicia uma jornada que provavelmente será longa. Eu infelizmente não sou dos autores mais pontuais. Mas isso não significa preguiça de escrever: a causa é que meu foco para a escrita é muito mais voltado para uma série de livros que não pretendo publicar aqui.
Mas sempre que puder (e lembrar haha) estarei postando aqui. Estou mesmo muito empolgado com essa fic. Espero que um dia ela se torne algo ainda maior. Quem sabe um livro, ou até uma animação (sonhar, um direito que todos temos). Obrigado por estar lendo isto. Cada leitor, cada comentário, cada pessoa que favorita só me inspira mais e mais a escrever, e com mais qualidade. Até o próximo capítulo~~

De repente, Seph não se sentia mais tão preparado. Não tanto como ele afirmara incessantemente ao pai nas últimas semanas.

As esvoaçantes velas do navio tremulavam a favor do vento, lembrando-o da sua infância. Das vezes em que visitou o porto. Infelizmente, era sempre de dentro de uma liteira, e mesmo dessa maneira ele já não fazia aquilo há muito tempo.

Então, anos depois, lá estava. Sob ordem do Rei. Desta vez, sem centenas de plebeus seguindo seus passos. Sem ninguém venerando-o. Ele se sentia mais confortável. Era mais fácil se despedir assim.

— Jovem Mestre Seph! Não esqueça-se disto!

Seph virou-se para Xherdas, seu fiel amigo. A corte insistia em tratá-lo como servo, mas para Seph, manter uma relação de companheirismo e confidência com alguém por anos é sinal de amizade, não de servidão. O jovem trazia em mãos uma bainha, ou pelo menos parte dela.

Sephndir pegou o objeto.

— Obrigado, Xherdas. Sentirei a sua falta e a de todos os jovens na corte. – ele fez uma reverência, que foi devolvida pelo amigo em seguida.

Observou o que tinha em mãos por alguns segundos. Era amarelo-ouro, com detalhes talhados em laranja e branco. Com cuidado, desembainhou a… empunhadura. Seu pai fazia questão de sempre levá-la consigo em suas viagens. Por precaução, no caso de acabar por encontrar a lâmina perdida. Acima da empunhadura do sabre, pouco havia da parte afiada senão um pequeno fragmento de metal lascado que reluzia em dourado e prata.

Terminou de despedir-se de todos os que aguardavam a partida da embarcação. Foi natural para Seph, afinal o mais difícil já fora feito. Despedir-se do pai. O cenário foi quase um monólogo. Mas, mesmo assim, ficou feliz em ouvir um “boa sorte” do Rei antes da viagem. E o fato de ter recebido a guarda da empunhadura da família também era algo de se orgulhar.

O barco saiu do cais, e já se afastava da baía enquanto Seph fitava o horizonte. Prendeu os cabelos rubros atrás da cabeça. Após guardar seus pertences num dos quartos, lhe restava procurar a garota.

O grande objetivo da missão.

Proteger a garota. Escoltá-la durante toda a viagem, e voltarem ambos vivos e inteiros. Simples.

Caminhou pelo convés principal, sentindo-se bem por não atrair todos os olhares para si. Apesar da pompa oferecida pelo pai, recusou-se a ter uma cerimônia de despedida no cais. Poucas pessoas o viram partindo. Vestia-se como um nobre, mas a riqueza de suas roupas não chegavam nem perto do comum a um príncipe. E, mais importante, nada de leões, foi o que pediu ao pai. Pelo amor dos espíritos, aquele era o país dos leões! Não havia necessidade de deixar o fato mais claro.

A jovem encontrava-se apoiada na amurada, próxima à popa do navio. Parecia pensativa, fitando o oceano.

— Primeira vez que viaja em alto-mar?

— Nem a primeira, nem a última.

— Como tem tanta certeza de que não será a última? – Seph apoiou-se de costas na amurada.

— Um dia eu terei que voltar. Querendo ou não.

Seph permaneceu em silêncio. Não sabia muito bem o que dizer.

— Errm… E para quê exatamente está indo para Amcon?

— Seu pai não te explicou, não foi? – ela continuou ao ver a resposta negativa de Seph – Pelo jeito, você não tem permissão para saber.

Seus olhos verde-cinzentos pareciam debochar de Seph. O cabelo escuro estava preso num rabo de cavalo meio desleixado.

— Foi o que me disseram. Tudo que sei é que devo escoltar você. – assentiu, suspirando.

— Olha, eu também queria saber. Eu não me mudei para Lionor há muito tempo. Vim de Akylaria, junto com minha família. E de repente, recebo uma ordem do próprio Rei para ser enviada a Amcon. Ele não me disse nada, só que… só que tinha a ver com o meu pai.

— Mas o seu pai… ele não foi com você a Lionor?

— “Minha família” são meus avós maternos. Eles pouco sabem da identidade do meu pai, imagine então do paradeiro dele. Só me pergunto o quão importante ele deve ser, para o seu pai acatar a algo assim.

— Você não conhece seu pai… entendo. Tenho certeza de que ele é de alguma forma importante. Meu pai não tem o costume de organizar missões urgentes assim.

— O Rei Durmas é com certeza um homem ocupado… o suficiente para enviar seu primogênito numa missão. Não tão perigosa, claro, mas ainda é surpreendente. Ele não deveria ter enviado, sei lá, no máximo um guarda real?

— Se não foi esse o caso, não devemos subestimar a missão. A julgar pela urgência e pela necessidade de escolta, não deve ser tão fácil assim. Além do mais, este é o meu teste.

— Teste? E o que está sendo testado? Sua capacidade de evitar náuseas? Deuses, como esse barco balança.

— Meu teste de confiança. Completando esta missão, estarei provando que sou capaz de herdar o trono de Lionor.

— Ah, então escoltar uma garota numa viagem pacífica de barco é a sua grande missão? Posso ver porque os reis de Lionor vem sendo tão prósperos.

— Você não tem certeza se ela será pacífica.

— Oh, Príncipe Sephndir, está então torcendo para que entremos em perigo?

— Não se trata disso… Lyna.

— Fico feliz que tenha aprendido meu nome. A maioria das pessoas esquece ele rapidamente. É curto demais. Sem significado. Mas, quem diria, o próprio herdeiro de blábláblá lembra-se dele. É uma honra.

Agora era seu sorriso que indicava deboche.

…

A noite chegou. Era Lua Nova.

O convés estava vazio.

Seph não conseguia dormir. Lyna, para um membro dos Linces, era um tanto barulhenta, ao menos quando em sono profundo.

Em plena madrugada, apenas uma pessoa partilhava com Seph da visão daquela imensidão escura: um jovem mais ou menos da mesma idade que ele, de cabelos cinzentos e pele clara. Este, tão silencioso e fúnebre que parecia se mesclar ao breu que cobria o oceano.

Seph já desconfiava desde que o vira, mas um detalhe confirmou de onde o sujeito vinha.

Ele olhava discretamente para o céu. Mas não havia Lua. Seu olhar deixou claro. Ele procurava pela presença da Lua. Mas se perdia em meio às estrelas, únicos astros vísiveis na abóbada celeste naquela noite.

Apenas um povo era tão dependente do Grande Astro noturno àquele ponto. Wulfheim. Lobos.

— Wolmir.

Oh oh.

— Como? – perguntou Seph, pego de surpresa.

— Chamo-me Wolmir. Antes que pergunte.

— Ah. Certo. Meu nome é Sephndir. Ou Seph. É um prazer conhecê-lo, Wolmir.

— Não diga isso. Você é de Lionor. Eu sei o que pensa de mim, Vossa Alteza. – o mais assustador era que aquele olhar gélido permanecia no céu, mesmo enquanto ele falava.

O Príncipe não soube o que dizer.

Se conteve a permanecer em silêncio por longos minutos, observando as calmas águas oceânicas. Seph virava-se a bombordo, do lado oposto do indivíduo misterioso com quem dividia espaço.

— Diga-me, Wolmir – disse, desatento – Tem alguma noção do motivo da nossa rivalidade?

Wolmir demorou a responder. Seph chegou a achar que fora ignorado.

— Não há motivo. É assim que é a natureza. Os leões, dourados e imponentes, reis do Dia. Os lobos, cinzentos e furtivos, reis da Noite.

— É, acho que isso faz sentido. Ou faria, se fôssemos leões ou lobos.

Wolmir virou-se com olhar questionador.

— O que quer dizer?

— Quero dizer, somos todos humanos. Essa rivalidade não possui um fundamento real. Permanecendo assim, estamos sendo os menos racionais dentre todos os animais.

— Você parece bastante idealista para um príncipe. Não deveria estar sentado ao lado de seu pai, no trono de Lionor? Cuidando de leis e pensando em novas maneiras de encher os bolsos?

— Não funciona assim. Sou sim, o Príncipe, mas ainda não estou confirmado como herdeiro do trono. E você, não deveria estar em Wulfheim, viajando infiltrado em alguma companhia militar?

— Os mercenários, você diz. Já vivi o suficiente para saber que eles não são gente com quem se conviva pacificamente. Possuem um desprezo tão grande pelo próprio povo quanto o que os lionores sentem por nós.

— Não acho que isso seja algo para se dizer ao Príncipe dos lionores.

— Que seja. Mercenários, nobres, clérigos, são todos iguais. Gastam tempo demais pensando no eu. E esquecem do nós. Há não apenas um, mas centenas de povos famintos mundo afora. Eu faço a minha parte, mas as coisas só mudarão de verdade a partir do topo. E gente como eu está na base. Se você for um dia Rei, espero que esqueça um pouco dos leões e seja mais… humano.

O jovem foi embora, caminhando furtivamente convés adentro.

Seph sentia os olhos pesarem, mas decidiu ficar ali por mais alguns instantes, observando as estrelas. Naquela noite, a constelação de Leão era visível como em poucos momentos no ano. Ela nunca aparecia no mesmo céu que a constelação do Lobo.

…

Seph correu, abrindo caminho pelos marujos e tripulantes sem sequer pedir licença, o que era preocupante para um príncipe. Percorreu o olhar assustado por todo o convés, mas não a via em lugar nenhum. Sequer havia trocado de roupa, ou arrumado o cabelo. Parecia uma versão tribal de Sephndir Liadre, e sabia disso, portanto não teve medo de encarar os olhares que atraía para si.

— Lyna! – exclamou, pondo as mãos em forma de tubo frente à boca.

A maior vantagem da garota era seu tamanho, pequeno, a exemplo dos próprios linces. Porém, como responsável de protegê-la, isso tornava a tarefa mais difícil para Seph.

Teve que pedir desculpa três ou quatro vezes para moças e senhoras de baixa estatura e cabelo escuro até encontrar Lyna de fato, na área de convivência da proa.

E com quem menos esperava.

— Me devolve essa droga! – Wolmir se esticava para tentar pegar uma tigela de macarrão, nas mãos de Lyna, que devorava o prato rapidamente. A garota desviava dos golpes enquanto comia.

— Oh, Seph – comentou, ainda de boca cheia – Você conhece o Wol?

— Wol?

— Não repita isso. – comentou o outro, irritado.

— Não liga pra ele, ele é tímido. Acho que não nasceu para ser um lobo alfa.

— Lyna, o macarrão é do Wol...mir?

— Ah, era. Eu tava com fome, e o Wol quase não mexia na comida, então me apropriei dele. Você conhece ele?

— Depende do que você chama de conhecer.

— Bem, que ótimo então. Ele é um ex-mercenário, sabia? Você podia contratá-lo pra ajudar na escolta.

Seph preferiu fingir não se surpreender com a informação.

— Acho que apenas eu já serei suficiente.

— Oh, tudo bem, senhor durão. Até um leão diria que isso soou orgulhoso.

— Eu não quis dizer isso!

— Se você é o responsável por ela, Vossa Alteza, dá pra mandar ela me devolver meu almoço? – Wolmir ainda tentava pegar de volta a tigela, já quase vazia.

Seph puxou o objeto das mãos de Lyna, num único movimento. O olhar dela parecia sintetizar todos os insultos existentes.

Devolveu a tigela, já sem muita coisa, a Wolmir.

— Não era disso que eu queria falar, Lyna.

— Fale, então.

— Escuta: você não pode ficar sumindo assim. E tem que tentar parar de roncar.

— A primeira coisa, eu posso tentar. A segunda, desiste.

— Eu estou falando sério. Eu não quero fingir que sou seu pai, ou sei lá, até porque é para encontrá-lo que nós supostamente estamos viajando, mas… Você tem que colaborar. Tentar ser responsável.

— Eu sou treinada no estilo dos linces. A inquietude é da minha natureza. O que você esperava? Que eu fosse ficar trancada no quarto a viagem inteira, esperando o fim dessas malditas náuseas e contando com meu nobre guarda-costas para estar me dando cobertura?

— Você está exagerando…

— Acho que ela não está não. Você parece ser desse tipo. – Wolmir, repentinamente, se introduziu na conversa.

— Ótimo, eu estava precisando mesmo de apoio. – Seph revirou os olhos.

— Olha, eu reconheço um certinho quando vejo um. E quando ouço um. Você veio falar comigo em plena madrugada, me questionando sobre rivalidade e ser racional… eu nunca teria nada pessoal assim contra um príncipe, mas é o que vejo em você. Você foi criado para ser responsável para uma nação inteira, então sempre assume que todas as responsabili…

— Chega, chega! Eu entendi. Não sei porque ainda está aqui para falar a verdade, mas talvez o que disse faça algum sentido. É só que… da mesma forma que é a inquietude com ela, esta é a minha natureza. E eu não estou disposto a negá-la.

Antes que algum dos outros dois pudesse retrucar, o imediato do navio gritou do topo do mastro:

— O capitão pede para que todos os tripulantes voltem aos seus aposentos! Uma tempestade se aproxima a estibordo!

Todos olharam para a direita. Uma massa de nuvens cinza recobria boa parte do céu, e vinha na direção do navio.

— Melhor entrarmos. Vamos, Lyna.

— Mas é claro, papai. – ela caminhou alguns metros junto a Seph, mas parou e virou-se – Wol, você não vai entrar?

— Não ainda. E não me chame assim.

— Wolmir é um apreciador da visão do céu. Antes da chuva, ele deve entrar. Vamos. – Por mais ridículo que se sentisse, Seph puxou Lyna pelo braço.

— Você acabou de acordar, não foi?

— Como adivinhou?

— Sua cara tá terrível. Devia ficar aqui fora, e tomar um banho logo.

Seph preferiu ignorar o comentário.