Fera Inquieta
1 Capítulo 1
O silêncio parecia olhar para mim. Apontava, com seus dedos imundos, a dedurar o meu medo. Enchia-me de ainda mais medo. A insegurança estava me subindo à cabeça. Eu seria capaz de ir ao choro, de um instante ao outro, caso o silêncio durasse ainda muito mais.
Haviam me deixado sozinho, calado, quieto, numa sala muito bem iluminada. Disseram-me para esperar. Disseram-me para esperar por uns cinco minutos… E disseram isso há quase uma hora. Mantiveram-me, assim, na espera silenciosa, num lugar totalmente desconhecido, tendo que me comportar. E como não me comportaria? Estava numa cadeira desconfortável, jogado nos cantos da sala do diretor; com a pretensão de que ele chegaria a qualquer instante, talvez sozinho, talvez com meus pais. Viria com sua voz autoritária, querer ditar as regras que ninguém jamais obedecia a não ser alguns dos pais. Meus pais eram desses. Meus pais eram do tipo que, acima de tudo, respeitavam e obedeciam o diretor. Por isso mesmo, ele abusava do poder que tinha sobre eles. Com outros pais, certamente, o homem de meia-idade não procuraria encrenca. Existem pais na minha escola que mandam e desmandam o quanto podem sobre professores e demais autoridades da escola. Se levantam um pouco a voz a eles, ameaçam a entrar com um processo na justiça ou ainda pior. Reza a lenda que houve até caso de ameaça de morte. A esses pais, todos os direitos do mundo. Igualmente aos filhos. Se os filhos quiserem roubar o lanche dos colegas, que roubem. Afinal, o que o diretor queria? Que passassem fome? E a escola também… estava ali para educar os filhos dos outros. Tinham é que eles, sem incomodar ninguém, educassem! E que educassem sem broncas, sem gritaria, sem tirar o intervalo, sem qualquer punição… porque era sacanagem ser tão rude com as crianças. Aos pais que eram como os meus, por outro lado, a gritaria estava permitida. O próprio diretor gostava de dar-lhes bronca sobre o modo como haviam me educado. Falava que eu era distraído na aula e que tirava notas ruins. E, por isso, eu perdia intervalos, ouvia broncas, recebia os sermões dos mais diversos… E também recebiam sermões os meus pais Mas porque deixavam. Se fossem como os pais de outros colegas, se fossem menos obedientes a figura do diretor, nada disso aconteceria. Eu, provavelmente, estaria lá fora jogando bola com alguns amigos… E não haveria qualquer tensão ou decepção. Por serem como são, cá estou, sentado e quieto, como um cachorrinho com o rabo entre as pernas, esperando a voz decepcionada de minha mãe chegar. Para ouvir que comentem tristes… “Mas onde foi que erramos?" E eu pensaria em dizer “Não deixaram que a escola me educasse, como os outros pais fazem", mas não diria nada. Não teria coragem. Não teria coragem nenhuma de afrontá-los. Veria minha mãe toda sensível, tomando para elas os erros que eu possa ter cometido. E não conseguiria colocar sobre suas costas ainda mais peso. Seria um absurdo. Preferia sofrer eu pelo silêncio de horas, esperando que o diretor chegasse. Perder meus intervalos, meus descansos… a fim de ouvir reclamações e censuras sobre o que fiz e o que deixei de fazer. O diretor chegou depois de algum tempo, com todo o seu discurso muito bem pensado e com meus pais, atrás deles, a seguirem cegamente os passos de seu superior. Sentaram-se perto de onde eu estava. O diretor dizia “Chamei vocês para conversarmos sobre as notas de seu filho." Meu pai abria um sorriso forçado e concordava com absolutamente tudo o que lhe era dito: “Ainda bem que nos chamou. É bom que nos avise quando Matheus tem problemas." Decerto, não gostava de ser chamado. Reclamava sempre que era. Muito menos gostava de saber dos meus problemas. Mas, ali, na frente do diretor, não sabia fazer mais do que parecer grato. "Não estamos conseguindo mais lidar com o menino de vocês. Recomendo que procurem outra escola para ele, de preferência, uma com um ensino mais puxado, que o mantenha na escola 24 horas por dia. Se não for assim, creio que ele será reprovado, talvez mais de um ano. Falta disciplina para o garoto. Não há jeito de resolvermos seu problema dentro dessa escola." Eu estava sendo expulso. Expulso da escola com palavras singelas. Lembrei dos meninos que batiam nos outros, que lhe tomavam o lanche, que os faziam chorar. Lembrei dos que gostavam de implicar com os professores… e dos boatos das ameaças de morte… Quase perguntei a mim mesmo por quê esses não eram expulsos. Mas cheguei logo a uma conclusão: por causa dos números. Os números impressos em seus boletins eram bons. E o número de vezes que foram chamados para a diretoria era muito baixo. Talvez se tornassem um número a mais na lista de aprovado do vestibular, no futuro. Eu, provavelmente, não me tornaria. Os números estavam a favor deles e contra mim. E a questão era toda sobre os números. Pouco importavam os valores, a ética ou a boa fé. Números… Números que nunca se deram bem comigo. Maldita matemática, por que nunca se apaixonou por mim? Meus pais não fizeram mais do que assentir com a cabeça e mandaram-me para outro lugar. Se fossem outros pais, brigariam, reclamariam e ainda por cima acusariam o diretor. Diriam ainda que estavam pagando. E que o dever da escola era, sobretudo, me ensinar. Se não cumpriam o papel, era demérito deles e não meu.
Mas meus pais prezavam a autoridade do diretor acima de tudo. E achavam que ele estava mais do que correto. Iam me mandar para longe deles, para vê-los de final de semana, de vez em nunca… por esse amor tão cego pela posição que o diretor tinha. Saímos dali, sem reclamar por qualquer palavra dita pelo homem. Meus pais procuraram um lugar para mim e encontraram. Minha mãe começou a andar mais triste por aí. Iria perder o único filho que tinha. Estava aborrecida. Eu também não queria ir. Teria de deixá-la e de deixar tudo o que eu conhecia, até então, como vida. Mas como afrontá-la, se me olhava com os olhos a marejar? Não tive escolha. Dias depois, estava com as malas prontas. Iria me mudar.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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