Notas iniciais
Ola leitoras e leitores, estão curtindo o rumo da historia? Esse cap ficou bem longo,para poder me redimir dos dias em que fiquei sumida. Aproveitem,beijos de luz para todos!

Anita e Denise estão tomando café. Ainda estão com os olhos sonolentos e Anita amarga uma ressaca.

— Não sei como tia Isa conseguiu acordar e ir para o trabalho hoje de manhã —Anita resmunga.

— Tome — Denise tira uma cartela de ibuprofeno-Tome uns dois e vai ficar boa.

— E afinal, como foi na galeria? — Anita pergunta enquanto rasga o papel prateado e pega dois comprimidos.

Denise não quer entrar em detalhes. Tem certeza de que Anita ficaria fascinada em ouvir sobre a dança privé de Scarlett, se bem que não ficaria tão encantada com o reaparecimento de Marilia em sua vida.

Okay — diz. — A exposição parece boa. Há duas fotos de você com Mike.

— Que ótimo, mal posso esperar — Anita se levanta, enche um copo com um pouco de água e toma os comprimidos. Senta-se à mesa e toma mais um gole de café. — É melhor que esses comprimidos funcionem. Estou me sentindo péssima.

— Vocês duas estavam bêbadas e gritando — Denise se serve de mais café.

— É isso que acontece quando minha família se junta. A gente é barraqueira.

Denise olha para a morena, que parece cansada e vulnerável. Sem maquiagem, Anita parece ter menos do que os seus vinte e oito anos. Normalmente, ela é tão positiva e animada, mas hoje os olhos dela estão tristes e carregados.

— Qual era exatamente o motivo da briga? — Denise pergunta gentilmente.

— Tia Isabella estava tentando justificar o fato de meu pai ter nos abandonado quando eu era criança…

Denise franze a testa, chateada. Essa é uma das coisas que a une à amiga: os pais de ambas abandonaram suas famílias quando elas ainda eram pequenas. Apesar de Anita ter visto seu pai algumas vezes, o contato foi rápido. Depois de deixar a mãe dela, ele foi morar na Argentina.

— Então, qual a justificativa? — Denise pergunta com a voz mais dura, visivelmente irritada com Isabella.

— Ela diz que ele fez a coisa certa porque havia muita desarmonia em nossa casa. Meus pais viviam brigando — Anita passa a mão pelos cabelos enrolados. — Ela diz que é melhor não ter tido contato com meu pai do que ter vivido vendo eles se atacando o tempo inteiro…

— Eles brigavam tanto assim mesmo?

— Não me lembro. Eu era muito pequena — Anita coloca as mãos para cima. — E sabe, tudo bem, eu disse que talvez ela estivesse certa, que eles deveriam ter se separado… Mas, se mudar para Argentina…? Abandonar a gente desse jeito…? Disse que isso não tinha desculpas.

Ela diz que o novo marido da minha mãe, meu padrasto, queria ele fora da jogada.

— Você acha que é verdade, Anita? — Denise se inclina, Anita abaixa os braços e olha para ela, desesperançada.

— Não sei. Nunca ouvi nada a esse respeito — parece atordoada — Nunca me dei bem com meu padrasto, mas não acho que ele teria intercedido para que a gente não visse meu pai.

— Bom, toda história tem dois lados — diz Denise.

Conheceu o padrasto de Anita e o detesta imensamente. Sempre olha para ela de um jeito torto. Anita se sacode como se estivesse acordando. Serve-se de mais café e come o resto de uma torrada fria.

— E por que o seu pai foi embora, Denise? Por que você nunca o viu em todos esses anos?

— Não sei. Não tenho ideia. — Denise rapidamente traz o assunto do pai de Anita de volta. — Pelo menos você visitou seu pai na Argentina. Você o conhece agora.

— Sim, mas ele também pode ser um estranho.

Denise abaixa a cabeça. Tem uma vontade súbita de confiar mais em Anita, apesar da notória indiscrição da amiga.

— Descobri algo recentemente. Meu pai vive em Londres.

Anita fica de queixo caído.

Mamma mia! Que incrível. Você vai vê-lo?

— Não sei… como você diz, somos estranhos. Pra quê?

— Como assim? Vai fundo! Lembra que Marilia costumava te chamar de “Intrépida Denise”?

Denise recua quando o apelido que Marilia deu para ela é mencionado.

— Claro que você vai ver o seu pai. Onde ele mora?

— Perto da Rua Finchley. Fica no norte da cidade, não? — respira e sente o amargor de sua raiva. Anita está certa, por que esse receio? Ela é uma mulher, tem quase trinta anos. Tem direito a algumas respostas agora.

— Tem razão, Anita. Quero saber por que nunca me visitou, escreveu ou se interessou pela minha vida. Não entendo.

Anita avança e segura a mão de Denise. Parece que a ressaca a deixou mais sentimental do que o normal, pois lágrimas começam a brotar de seus olhos.

— Acho que nossos pais são homens que conseguem compartimentar a vida deles — Anita diz. — Penso que, como filhas, fomos esquecidas em uma prateleira.

— Você realmente acredita que nossos pais nunca pensaram em nós? Nem um pouco?

— Sim, acredito. De que outra forma eles poderiam conviver com isso? Somos mulheres sem pai, Denise — Anita solta a mão dela e enxuga os olhos. Para surpresa de Denise, um grande sorriso toma o rosto da amiga. — E, quer saber? Tudo bem porque não há nada pior do que ser a filhinha do papai.

Denise balança a cabeça, concordando. Isso é uma das coisas que a irritam em sua amiga de escola, Gaby : o jeito de pedir coisas para seu pai, que sempre vem correndo para salvá-la quando ela precisa de dinheiro ou que alguma coisa seja feita em seu apartamento.

Denise e Anita são as mesmas: têm que pregar elas próprias suas prateleiras.

O sorriso de Anita desaparece e ela suspira.

— Você está bem? — Denise pergunta.

A amiga se levanta, tocando a cabeça como se fosse um objeto delicado. — Desculpe, Denise, estou sofrendo. Tenho que voltar para a cama. Não vou conseguir ir às compras hoje. Se importa de sair sem mim? — ri, desconcertada. — Aproveite para ir àquele museu mofento. Sei que está doida pra ir.

—Tem razão, estou curiosa para conhecer, mas agora o museu pode esperar – Denise diz, piscando para ela em seguida.

—Tem certeza? Eu não sou uma boa companhia hoje.

— Não me contrarie Anita. – Diz firme, levantando-se do seu posto e segurando a mão de Anita, que se levanta também, ficando as duas frente a frente uma com a outra.

— Ohh....obrigada Danny...- Diz Anita, com a voz embargada.

— Pra uma ‘menina má’, você esta bem emotiva hoje. – Denise sorri de canto e sela seus lábios no dela, como um selinho.

Anita sempre foi mais uma amiga com benefícios para Denise, ate pouco tempo à mesma não passava de uma companhia engraçada para passar o tempo, mas os últimos acontecimentos mostraram um lado de Anita que Denise não conhecia e para seu espanto, estava adorando.

As duas seguem para o quarto, Anita deita-se na cama e Denise deita logo em seguida, ficando na posição de conchinha. Ficam sem silencio por alguns minutos, só curtindo a presença uma da outra, ate que Anita decide romper o silencio.

— Eu coração você. – Anita diz, rindo baixinho.

— Eu coração você? O que é isso? É um ‘eu te amo’ para covardes? – Denise leva uma mão ao ventre de Anita, forçando-a a ficar de frente para ela.

— Só aceite, ok? – Anita retruca, aproximando ainda mais seu rosto no de Denise, passando seu nariz no dela – Eu gosto tanto de você que ate prefiro esconder, deixo assim ficar subentendido....- Anita começa a cantarolar baixinho, selando a boca de Denise entre as palavras. — Como uma ideia que existe na cabeça e não tem a menor obrigação de acontecer....- Agora com uma mão acariciando o rosto de Denise, percorrendo seu olhar por cada canto da morena. – Pode ate parecer fraqueza, pois que seja fraqueza então....A alegria que me da, isso vai sem eu dizer...- Agora olhando fixamente nos olhos de Denise – Se amanhã não for nada disso, caberá só a mim esquecer...- Denise encosta seus lábios ao de Anita e a acompanha na ultima frase da musica – O que eu ganho e o que eu perco ninguém precisa saber....- Denise permanece mais alguns segundos ali, ela sente algo molhar seu rosto, e se afasta um pouco para olhar Anita.

— Eu coração você também. – Anita que estava com os olhos fechados e húmidos, sentiu sua boca ser invadida pela língua de Denise, que a beijava sem restrição alguma. Ela sabe que apesar de Denise amar Marilia, estava aos poucos se tornando mais que uma opção de transa pra fotografa. Ela a beija e Anita sucumbe à sua boca. As mãos dela começam a desfazer o nó da faixa que prende o roupão em torno do corpo dela e o empurram pelos seus ombros. Toca a sua pélvis com uma de suas mãos. Agora, ela a deseja dentro de si. Joga seu corpo, ficando sobre Anita. A morena passa uma das pernas em volta dela. Denise está quase sem fôlego quando a levanta e a penetra e vai cada vez mais fundo dentro dela. Se enlaçam sobre o colchão, como se fossem uma, e Anita a aperta com força, com urgência, incitando-a a ir mais rápido e mais forte. Denise devora a boca de Anita, enquanto a mesma ergue suas duas mãos e as levanta sobre sua cabeça. Está completamente envolvida em prazer.

Denise alterna movimentos exasperadamente lentos e a surpreende com arremetidas mais fortes, que a fazem perder momentaneamente o fôlego.

Anita se junta a ela com toda sua força, movendo-se contra ela, até que se tornem uma entidade única pulsando forte. Fecha os olhos, relaxada afinal. É disso que Denise precisa, do completo abandono de si mesma. Ela é toda sensação, seu corpo no comando, sem pensamentos para atrapalhar. Anita sente-se como se fosse tomada por ondas na água, aumentando e diminuindo de intensidade em direção a um vórtice bem ali, no meio dela. Gozam juntas.

As duas permaneceram na cama por mais algum tempo, ate que adormecem uma nos braços da outra.

* * *

Denise está sentada em um café na antiga Tate Gallery. Já tinha passado no British Museum, tentando estudar as múmias das salas egípcias, mas foi inevitavelmente distraída pelos eventos da noite anterior. Várias vezes, pegou o telefone e pensou em ligar para Marilia. Mas o que iria dizer a ela? Enfim, para sua satisfação, não precisou ligar porque ela mesmo ligou. Estaria livre para um café? Alguma chance de estar perto do Tate Britain, no fim da Millbank? Nem cogitou fazer tipo e aceitou na hora. Foi da Russell Square para o Green Park pela linha Piccadilly e depois pegou a linha Victoria até Pimlico. Ficará em Londres poucos dias e não vai recusar nenhuma oportunidade de ver Marilia. No mais, tenta se convencer de que, talvez, elas poderiam virar amigas. Seria feliz só com isso?

Denise pede chá Earl Grey e um cupcake, no qual passa uma quantidade generosa de geleia. Está com fome, mas, ao mesmo tempo, tão nervosa que fica difícil comer. Olha outra vez o relógio. Ela está cinco minutos atrasado. Denise sente culpa toda vez que pensa em Anita, porém só vai encontrar Marilia para uma conversa, não é? Afinal de contas, estão em plena luz do dia.

— Denise?

Ela salta da cadeira, esbarrando na mesinha e derrubando a xícara de chá em cima do seu bolinho. Como ela conseguiu assustá-la desse jeito?

— Não fique preocupada — Marilia diz, sorrindo para ela, com um olhar que faz suas pernas começarem a tremer. — Providenciarei outro pra você.

Quando volta com as bebidas, Marilia senta em uma cadeira de frente para ela no minúsculo café. Ela sente os joelhos dela tocarem os seus. Foca a atenção na camisa de seda com florzinhas azuis que ela está usando. Não ousa olhá-la nos olhos. Ainda não.

— Então, como vai você? — Marilia pergunta.

— Bem — murmura, subitamente incapaz de encontrar as palavras certas para se expressar. Mesmo assim, não pode deixá-la ir embora hoje pensando que ela não se importa.

— E a vida em Milão? Ouvi dizer que você continua saindo com Leticia, tem se divertido?

Olha para ela. A nítida tortura nos olhos dela silenciam a provocação dela.

— Denise? — pergunta gentilmente.

— Sim? — ela se inclina e sente o cheiro do Channel. O aroma dela a deixa nostálgica. Que bom que ela não trocou de perfume. Pode estar com uma nova mulher, mas ainda tem o mesmo cheiro.

— Você já sabia do meu envolvimento com Scarlett Chappell antes de vir para Londres? — ela parece surpreendentemente séria. — É por isso que você decidiu expor na Lexington? — pergunta, estudando o rosto dela detidamente.

— Não tinha a menor ideia! — diz, um pouco incomodada com a insinuação. Se há uma coisa que ela não faz é correr atrás de alguém. — Fiquei chocada quando te vi lá na galeria.

Ela fica pensativa por um minuto. Pega a colher e se serve de açúcar, lentamente mexendo o chá.

— Parece a coincidência mais incrível. Também fiquei aturdida quando te vi.

As palavras dela são diretas e honestas. O coração dela dá um pequeno salto de esperança. Faz um esforço para se manter serena. Afinal, a ideia de ir para Londres não era a de reinventar -se? Superar Marilia? Mas, assim que Leticia passou o número de telefone dela para Denise, ela imediatamente gravou no seu celular. Não sabe ao certo quais eram suas intenções antes de vir para Londres. Na verdade, nunca esperou encontrar-se acidentalmente com ela — muito menos tão rápido. Tudo o que sabe agora é como se sente neste exato momento.

— Senti sua falta, Marilia.

Ela a olha e, por baixo do seu sorriso, ela pode ver que Marilia está machucada. Ela se recompõe, se abaixa e pega uma mala.

— A razão pela qual te liguei é que tenho algo que pode ser do seu interesse — diz precipitadamente, esquivando-se da confissão dela.

— Ah — ela se desaponta por ela não ter ligado apenas porque queria vê-la e nada mais.

— Há pouco tempo, me deparei com um antigo filme de dança do final dos anos quarenta. Scarlett tem uma série de performances burlescas e apresentações de dança moderna filmadas.

Denise fica tensa quando o nome de sua rival é mencionado.

— O nome de solteira de sua avó era Maria Brzezinska, não era? E ela era bailarina, certo?

— Bem, o nome está certo. Mas não acho que ela tenha sido bailarina.

— Mas poderia ter sido?

— Creio que sim, mas minha mãe nunca disse nada nesse sentido. Acho que ela não teve uma carreira criativa — vivia dentro de casa, cuidando da família.

— Você conheceu sua avó?

— Não, ela morreu antes do meu nascimento, em um acidente de avião.

Denise entrega um DVD para Denise. Encostam as mãos e ela sente arrepiar os cabelos na parte de trás do pescoço quando ela a toca.

— Você tem que assistir a isso, Denise. É incrível para a época. Um balé contemporâneo, coreografado por Kurt Jooss, chamado Pandora. Acho que sua avó materna dança no papel de Psique. Foi filmado em Londres, em 1948.

Denise balança a cabeça.

— Não, não pode ser, Marilia. Ela nunca saiu da Itália durante toda a vida, a não ser quando pegou o avião para ir aos Estados Unidos… e nunca voltou para casa.

Muito trágico.

Denise pensa em como sua mãe deve ter sido afetada por perder os pais de forma tão trágica.

— Mas o nome dela aparece nos créditos, no início do filme — Marilia insiste. — E, Denise, quando eu assisti… enfim, sei que é branco e preto e muito antigo, mas pude notar um traço familiar. Acho que realmente pode ser a sua avó.

— Me parece coincidência demais, primeiro, a gente se encontra daquele jeito ontem e, agora, esse filme. É como se estivéssemos conectadas… — Denise arrisca.

— Talvez o destino esteja conspirando para nos unir, então? — Diz Denise

A esperança começa a brotar em seu coração ao ouvir as palavras dela. No entanto, Marilia ri.

— Você acha mesmo? — pergunta, em tom debochado.

Ela se sente um pouco ferida pela reação dela.

— Não acredito em destino, Denise — ela se endireita na cadeira e olha para ela, sério. — O filme de dança não é tão improvável assim. Pouquíssimos balés modernos foram filmados naquela época em Londres. Scarlett tem uma enorme coleção de filmes de dança antigos, logo, se sua avó foi bailarina e foi filmada em 1948, é muito provável que Scarlett tenha esse registro na coleção dela.

Denise enfia o DVD na bolsa, desviando o olhar dela. Sente-se exposta e insegura na presença de Marilia.

— Obrigada — diz, por fim —, por me ligar e vir entregar isso para mim — a formalidade da conversa delas soa estranha para ela. — Vou dar uma olhada, talvez você tenha razão, se bem que acho estranho minha mãe nunca ter dito que a mãe dela era bailarina.

— Fico feliz em poder te dar o filme pessoalmente. — A voz de Marilia fica mais suave, mais cordial.

Por um momento, nenhuma delas fala. As xícaras estão vazias, mas Denise não quer ir embora — ainda não.

— Então, o que você está fazendo em Londres? Continua caçando arte perdida?

Marilia balança a cabeça e uma mecha de seu cabelo cai sobre a testa. Denise se esforça para não se inclinar e tirar o cabelo dos olhos dela.

— Já recuperei quase tudo — explica. — Só há mais uma obra para devolver e é isso. Graças a Deus, porque Glen está me deixando louca. Você se lembra dele? Aquele ladrão de obra de arte bem asqueroso que cruzou com você em Veneza.

— Acho que nunca vou conseguir esquecê-lo.

— Sinto muito que ele tenha te assustado, Denise — Marilia diz suavemente.

— Você deveria tomar cuidado com ele — toda vez que se lembra daquele homem horrível, Glen, sente-se enojada. Há algo nele que a apavorou. E olha que ela não é mulher de se assustar facilmente.

— Ele não é uma ameaça de verdade, só é muito irritante — Marilia responde secretamente. — Muito em breve, estarei livre dele e ele poderá voltar a persuadir velhinhas e velhinhos a abrirem mão de grandes fortunas para terem de volta as obras que estão no tesouro nazista roubado.

— Qual é o último quadro que falta para você devolver?

— Na verdade, faz o seu estilo: foi um desenho erótico de um artista francês, André Masson.

Está em uma coleção particular aqui em Londres.

— E suponho que Glen esteja atrás da mesma obra?

É mais fácil para Denise falar com Marilia sobre quadros perdidos. É um território neutro, que não envolve emoções.

— Sim, claro que está. Originalmente, pertenceu a um judeu italiano, Giulio Borghetti. Ele conseguiu sobreviver à guerra, apesar de estar morto agora. O filho dele está procurando o desenho e, claro, Glen prometeu que irá devolvê-lo, por 450 mil euros. Não é tanto quanto o Metsu, mais, ainda assim, é muito dinheiro para um desenho tão pequeno.

— É, sem dúvida, uma das imagens que faziam parte do acervo de Albert Goldstein, não?

Você não pode simplesmente deixar que Glen a recupere e desencanar?

— Com certeza é uma daquelas imagens. E você sabe que fiz a promessa de devolver cada uma delas —Marilia diz com determinação.

— Eu sei — balança a cabeça, impetuosamente pegando nas mãos dela. Segura-as por um momento, sentindo o calor delas passar para o seu corpo, indo ao encontro de seu coração.

— O Masson é uma obra tão obscura e mudou tantas vezes de proprietário que levei anos para rastreá-la. Borghetti deixou o desenho com o pobre Albert Goldstein para que o mantivesse seguro e, em seguida, com meu pai, em Amsterdã, quando Goldstein fugiu dos nazistas durante a guerra. E aí, bom, você sabe o que aconteceu em seguida. Meu avô foi convencido pela Divisão de Hermann Göring a desfazer-se de todas aquelas obras.

— Então, onde está esse desenho agora? — Denise pergunta. — Talvez a gente possa unir forças e eu te ajudo a recuperá-lo.

Marilia parece surpreso com a oferta dela.

— Seria uma boa, de verdade… — Ela hesita, parecendo desconfortável. — Mas não posso envolvê-la agora. Já coloquei meu plano em ação e estou quase lá. É uma questão bastante delicada.

— Claro… com certeza… — Denise olha para mesa, afastando sua mão da dela, desapontada. Por um segundo, esqueceu-se das circunstâncias. Não estão mais juntos. Marilia tem uma namorada. Tem que parar de ficar pensando nela.

Passa o dedo nas bordas da xícara, ainda sem levantar os olhos.

— Então, há quanto tempo você e Scarlett estão juntas? — pergunta.

— Não é o que você pensa, Denise — Marilia diz.

Olha para ela, questionando. — Bem, o que é, então? — pergunta suavemente.

— Eu realmente gostaria de poder explicar — hesita. — Você pode simplesmente confiar em mim?

— Como assim? Confiar no quê?

— Eu e Scarlett estamos saindo agora, é verdade, mas… — para de falar, como se não conseguisse encontrar as palavras certas para continuar.

— Mas o quê? — ela insiste.

— Bem, pelo jeito que as coisas entre nós acabaram, Denise, não tenho mais certeza do que pensar de você.

Denise se lembra do último outono em Veneza. De como ficou devastada quando Marilia partiu.

— Por que você fugiu em Veneza? — subitamente ela a confronta. —Você foi embora, de repente… não me deu uma chance…

Marilia inclina a cabeça para o lado e olha para ela.

— Eu realmente tentei, Denise, você sabe disso… não aguentava mais.

— Sinto muito — sussurra. Olha nos olhos dela e tem certeza de que pode ver uma pista do amor por ela naquele oceano azul.

Marilia se inclina, coloca as mãos sobre as dela e aperta. Assim, nesse simples gesto, ela sente o amor dela por ela.

— Marilia — Denise diz, olhando diretamente nos olhos dela, fixamente, lutando contra o terror que assalta seu coração. Não consegue dizer. Tem que dizer — Marilia, há alguma chance de voltarmos?

As palavras saíram. Quer rir alto e chorar de alívio. Presta atenção na reação dela.

— Denise, você sabe que não posso voltar ao jeito que as coisas estavam.

— Eu sei, eu sei — confirma com a cabeça. — Seria diferente, eu prometo…

Marilia suspira e coloca a cabeça entre as mãos.

— Meu Deus, que desencontro — balbucia.

Ela não entende. Por que ela reluta tanto em admitir como se sente agora, sendo que sempre foi tão aberta? Sabe que seus instintos não a enganam. Sente uma sinergia natural entre elas, como faz sentido ficarem juntas. Mais algumas palavras apenas, mais alguns passos e elas poderiam voltar. Porém, o que Marilia diz em seguida não é o que ela queria ouvir.

— Denise, eu realmente não posso terminar com Scarlett…não imediatamente.

— Marilia — implora, consciente do quão brega está sendo, do quanto sua mãe zombaria dela,mas não se importa porque sabe que, se permitir que Marilia deixe esse café agora, sem saber de verdade o que ela significa para ela, vai ficar destruída. — Preciso de você — diz. — Preciso de sua presença. Preciso de sua presença em minha vida, sem julgamentos. Você é o meu santuário.

— Por que tudo sempre gira em torno de você? — Marilia rebate.

As palavras dela machucam. Volta a se sentar, magoada. A velha Denise teria ido embora com seu orgulho intacto.

— Desculpe, Denise, fui muito grosseira. Não quis dizer isso — Marilia diz, parecendo mais aborrecida do que nunca. — Sei que é confuso, mas você precisa confiar em mim. Não posso terminar com Scarlett agora.

— Você a ama?

Scarlett é tudo que Denise não é: feminina, expansiva, abertamente sexy.

— Denise! — Marilia exclama, frustrada. — Não é essa a questão. Preciso saber, sempre precisei saber se você confia em mim, se você me ama.

As palavras dela a confundem. Se ela precisa saber dessas coisas, então por que está saindo com Scarlett?

— Dizer essas palavras é muito difícil para mim… mas posso te mostrar como me sinto — pela primeira vez, Denise sente vontade de chorar. Desvia o olhar, determinada a não deixar que ela veja seus olhos marejados.

A mão de Marilia está sobre o ombro dela e é como se seu corpo fosse tomado por um choque elétrico.

— Por favor, espere um pouco, Denise.

— Não consigo — sua voz titubeia — ver você com ela.

Levanta-se, colocando a bolsa nos ombros. Marilia também se levanta. Estão a milímetros uma da outra. Ela quer se jogar nos braços dela, implorar para que ela a aceite de volta, mas é claro que não vai fazer isso. Marilia deixou claro: ela tem que provar para ela e, até lá, ele não vai terminar com Scarlett.

Saem do café e entram na galeria. Atravessam os corredores sem se falar, sem dar as mãos, até que param em frente a uma aquarela de William Blake chamada Piedade. A imagem dilacera o coração de Denise. Uma mulher está deitada no chão, com a cabeça caída, como se estivesse morrendo. Acima dela, um jovem lindo cavalga um cavalo cinza pelo céu, levando um bebê recém-nascido. É o bebê dela. Não sabe ao certo o que o autor quis dizer, mas fica arrasada, pensando que aquilo pelo que ela e Marília passaram talvez nunca cicatrize.

Está quase indo embora, mas Marilia a segura pelo braço e a traz para junto de si. Ela a abraça com força e ela respira profundamente, sentindo o cheiro dela. Como é doce a tortura de estar nos seus braços!

— Eu te amo de verdade, Denise — sussurra no ouvido dela. — Mas você me ama?

Denise dá um passo para trás, olhando para ela. Ela a quer tanto. Está lutando para dizer aquelas três palavras preciosas. Ela a quer, precisa dela. Ela é a única pessoa no mundo que entende a profundidade da perda dela.

— Denise? — Marilia pergunta de novo.

— Eu… eu… — gagueja.

Marilia fecha os olhos e respira fundo.

— Tudo bem — diz, interrompendo-a. — Eu sei que é um pouco demais nesse momento.Além disso, você deve estar confusa por causa de Scarlett. Vamos deixar assim agora.

Mas elas não podiam ir para algum outro lugar? Denisegostaria. Não poderia provar o seu amor por Marilia na cama anônima de um quarto de hotel, como costumava fazer? Sabe que pode fazer isso. Tem certeza de que a deixaria alucinada. Mas não diz nada. Denise percebe que o medo de comprometimento que ela tem continua fresco e imaturo, como meses atrás em Veneza, quando ela a abandonou.

Marilia começa a se afastar, indo em direção à entrada do Tate. Denise está totalmente congelada, chocada com sua própria inabilidade para reconquistá-la. Esse encontro não foi como ela tinha secretamente esperado que fosse. Sem reciprocidade emocional, sem correr para um hotel e transar loucamente. Ela a quer tanto. Ficou com tesão só de estar sentada em frente a ela no café. Está tremendo de desejo. Tem que se acalmar.

Respira fundo. Não vai segui-la. Ela não pretende terminar com Scarlett até que ela prove seu amor por ela. Por ora, ela tem que a deixar ir.

Vagueia pelas salas da galeria. Sente o DVD dentro da bolsa batendo em sua perna enquanto anda. Não sabe muito de sua avó. Sua mãe descreveu Maria como sendo tímida e caseira — uma contradição completa com sua filha extrovertida. Tinha sido uma mãe e esposa dedicada. Mas, agora, parece que sua avó teve um lado secreto. Será mesmo que poderia ser uma gravação dela dançando um novo balé? Algo revolucionário e diferente, como Marilia disse?

Está intrigada para descobrir a nova versão de sua ancestral.

Andando sem intuito ou direção, Denise se vê olhando para uma de suas pinturas pré-rafaelitas favoritas: Lilith, de Rosetti. Há algo em Lady Lilith que lembra Scarlett: os longos cachos dourados, a pele leitosa, os seios fartos e os lábios rosados. Acima de tudo, é esse olhar de quando se mira no espelho: saber-se bela e poderosa, além de mostrar certa indiferença. Denise viu essa expressão no rosto da dançarina burlesca quando dançou para ela e para Kristne Shaw ontem.

Entende por que Scarlett é tão irresistível tanto para homens quanto para mulheres. Está claro que Maarilia não quer deixá-la partir, ainda não. De alguma forma, Denise tem que mostrar para ela quanto a ama. Palavras obviamente não são suficientes agora. Amarga a decepção de não a ter reconquistado hoje e tenta confiar em sua intuição, pois ela sente, dentro de si, que vai voltar com Marilia. Só tem que descobrir o caminho…

Notas finais
A musica que Anita canta para Denise é essa aqui: https://www.youtube.com/watch?v=NcQ1jNMZEEc Espero que tenham curtido e ai,comentem sobre o futuro dos personas, estou com algumas ideias,mas a opiniao de voces é muito importante.