Felizes para sempre?
10 Glen
Notas iniciais

Quando sai da Rua Finchley em direção à rua Hampstead, o sol aparece, iluminando com um arco-íris a rua escorregadia e cheia de folhas. Por dentro, Denise sente-se mais e mais angustiada. A raiva passou. Tudo o que sente agora é medo. E se ele bater a porta em sua cara? Será que é mesmo capaz de lidar com a fria realidade de ser rejeitada por seu pai? Já não bastasse tudo o que está acontecendo na sua vida agora, por que está se propondo a passar por isso?
Decidiu procurar seu pai justamente devido ao tormento que passara com Marilia. Depois de mais uma noite em branco, tentando descobrir como poderia provar seu amor, concluiu que ainda não conseguia confiar plenamente nela. Ouviu-a dizer que a amava. No entanto, não conseguia aceitar que ela continuasse a sair com Scarlett. Com o passar das horas, ouvindo Anita ressonar na cama ao seu lado, percebeu que outra reviravolta do destino não poderia ser ignorada: o fato de ter se encontrado com Garelli no mesmo dia em que partiu para Londres só para descobrir que seu pai, que não via fazia tanto tempo, morava justamente naquela cidade.
Talvez ele fosse a chave para o quebra-cabeças do seu próprio coração? Se pudesse encarar seu pai e o medo que tem de ser rejeitada por ele, poderia ser que começasse a confiar em Marilia e, finalmente, a reconquistasse. Denise queria Marilia de volta, mas tinha medo de se expor.
Queria que Scarlett desaparecesse e que não houvesse nenhuma concorrente.
O amanhecer começou a invadir as frestas entre as cortinas, e Denise se levantou. Estava nervosa e, contraditoriamente, um tanto apática. Decidiu se distrair assistindo à velha gravação com Maria Brzezinska dançando Pandora, do Ballets Jooss. Apesar do nome da bailarina e de notar uma semelhança impressionante com ela, Denise simplesmente não conseguia acreditar que se tratasse de sua avó. Aquele espírito etéreo e criativo não tinha nada a ver com a esposa e mãe tímida de que ouvira falar. De todas as fotos que viu dela, Denise guardava a imagem de uma mulher baixinha e rechonchuda. Nada sugeria já ter sido uma criatura leve, que voava pelos palcos. Além disso, se realmente fosse sua avó, por que é que nunca contou à sua filha que fora uma bailarina? Por que manteve essa parte do passado em segredo? Denise tentou acompanhar a dança, mas a gravação tinha falhas e parou de repente, no momento em que a personagem que parecia ser sua avó foi erguida no ar por outro dançarino.
Denise desligou o filme e colocou seu laptop de lado. Estava deitada de costas no sofá.
Queria acordar Anita e contar para ela. Queria contar sobre Marilia. No entanto, sabia que sua amiga a aconselharia a esquecê-la, sobretudo porque ela estava com outra pessoa. Ela podia ser promíscua e aventureira, mas não era do tipo que rouba ninguem de outras mulheres, exatamente como Denise também achou que não fosse. Mas não conseguia acreditar que o lance de Marilia com Scarlett fosse sério. Algo ultrapassava sua preocupação com os sentimentos da outra mulher. Sabia que não é nada legal separá-las, mas não conseguia evitar o desejo.
* * *
O ritmo de Denise vai diminuindo ainda mais, está quase se arrastando. Pega do bolso de seu casaco o endereço que Garelli deu para ela e lê novamente. Está a poucas casas de distância. Um homem anda em sua direção. Seu estômago dá um nó e sente as palmas das mãos suarem. Ele parece estar na casa dos sessenta, é alto, tem cabelos grisalhos e usa óculos. Poderia ser ele. Não sabe o quanto ele mudou desde que ela tinha seis anos de idade. Anda mecanicamente em direção ao homem, com a garganta travada de medo.
Só quando se aproxima é que o olha diretamente no rosto: a pele é muito escura e espessa, as sobrancelhas são grossas. De perto, não se parece nem um pouco com o homem das antigas fotografias que tem de seu pai. Subitamente, desvia o olhar, envergonhada. Seu coração começa a desacelerar, aliviado.
Agora está do lado de fora da casa de seu pai. É pequena, quase uma casa-miniatura, com um terraço estreito com vidraças e um pequeno jardim, mas parece estar em boas condições. Essa pequenina e charmosa casa não se encaixa na nova imagem que tem dele: o jornalista investigativo, o homem que não liga para os próprios filhos… Então, como é que pode ter tanto zelo para cuidar de uma simples casa?
Respira fundo, está prestes a subir os degraus da porta da frente quando algo chama sua atenção. Vê uma imagem no perímetro de sua visão, algo que a espreita. Vira-se e, para seu grande choque, parado do outro lado da rua e olhando para ela de maneira perturbadora, vê ninguém mais, ninguém menos do que Glen, o rival de Marilia no “ofício” de recuperar obras de arte perdidas. Ela nota a altura dele e os cabelos loiros brilhando como uma coroa de ouro sob o sol. Parece uma espécie de anjo vingador futurístico. Apesar de ser um dia de temperatura amena, ele está vestindo um casaco preto longo e pesado. As mãos estão dentro dos bolsos. Ele não se move, nem vai embora. Percebe que ele está parado lá esperando por ela. Pergunta-se há quanto tempo ele a estaria seguindo. Será que ele poderia tê-la perseguido até aqui, um lugar tão pessoal?
Seus sentimentos se misturam e, agora, o pavor de encontrar seu pai se transforma em raiva desse homem por se intrometer em sua vida novamente. Atravessa a rua até ficar de frente para ele, mantendo os saltos para fora da borda da calçada. Ele é tão alto que ela é obrigada a olhar para cima. Ainda bem que ele está de óculos escuros, pois assim ela pode olhá-lo ele sem ter que encarar seu olhar asqueroso.
— O que você está fazendo aqui?
— Olá, Denise! Que bom vê-la novamente — Glen diz suavemente, com um sotaque britânico estilo batata quente na boca. — Seja muito bem-vinda à minha cidade natal.
— Como ousa me seguir? Fique longe se mim — está tão brava que coloca o dedo na cara dele.
— Opa, opa! Você está um pouco temperamental, minha querida — responde. Subitamente, ele tira as mãos do bolso e agarra o dedo dela, apertando-o com força.
Denise sente dor na mão e no braço.
— Me solta — reclama.
— Devo dizer — os olhos de Glen brilham enquanto continua falando no mesmo tom, ainda apertando o dedo dela com muita força — que acho ótimo que a gente tenha se encontrado desse jeito. É tão conveniente.
— O que você quer? — Denise tem a impressão de que vai ter seu dedo arrancado. — Se você não me soltar, vou gritar — tenta se livrar dele.
— Me desculpe — Glen sorri e larga o dedo. — Não quis machucá-la — diz de um jeito que faz Denise acreditar que era justamente o contrário que ele queria.
— Fique longe de mim. Caso contrário, vou denunciá-lo para a polícia.
Ele cruza os braços.
— Bem, Denise, agora nós sabemos que sua namorada também não quer a polícia metida em nossos assuntos.
— Ele não é minha namorada — Denise ri, aliviada por ainda ter todos os dedos. — Marilia e eu terminamos há meses.
Glen balança a cabeça, olha para baixo, já sabendo de tudo.
— Ah, não… qualquer um podia ver que vocês nasceram uma para a outra! Vocês são uma grande história de amor, minha querida. Tenho certeza de que um dia você estará usando a aliança de casamento de Marilia naquele dedinho ali — aponta para a mão cujo dedo acabou de apertar.
Denise, defensivamente, põe a mão no bolso.
— Você está errado. Ela tem uma nova namorada. Por que você não vai perturbá-la?
Denise gira sobre os saltos e começa a atravessar a rua de volta. Não pode visitar seu pai.
Agora, não sendo seguida por Glen. Escuta os passos dele atrás de si e, por mais que acelere, ele se mantém atrás dela. Sente uma raiva percorrendo o corpo e para, virando-se:
— O que você quer? O quê?
Ele caminha até ela, vitorioso, até seus lábios tocam a extremidade da cabeça dela. Sente o hálito dele em sua testa, o mesmo e exagerado aroma que a sufocou na primeira vez que o viu, na festa de Mary, em Milão.
— Você pode dar um recado para Marilia? — pede, sorrindo docemente.
— Por que você mesmo não fala com ela?
— Porque ela não vai me escutar, Denise, mas tenho certeza de que vai escutá-la.
Ela dá de ombros, tentando fingir que não se importa.
— Bom, ok, qual é o recado?
— Diz pra ela que me deve um milhão de dólares.
Ela bufa com zombaria, mas Glen permanece sério.
— Diga a ela que é isso que Gertrude Kinder tinha concordado em me pagar pela devolução do quadro de Metsu. É o meu sustento.
— Você não acha imoral cobrar tanto dinheiro de uma velhinha para devolver o que já era dela?
— Não venha com moral para cima de mim. Sei onde você mora, sei das coisas que você faz, Denise… — ele a ridiculariza. — Você é bem safada.
— É totalmente diferente — sente-se enojada.
Ele ergue a cabeça para um lado.
— Bem, todos temos nossos códigos morais. E não vejo nada de errado em ser remunerado por um trabalho perigoso. É minha própria liberdade que está em jogo. Além disso, você sabe quão rica é Gertrude Kinder? Por que ela não deveria me pagar?
— Acho que não faz sentido eu dizer para Marilia que ela te deve toda essa grana… isso se eu vier a vê-la aqui em Londres.
— Mas tenho uma oferta para ela — Glen diz. — Sei por que ela está aqui. Sei o que ela está procurando.
Denise pensa na conversa que teve com Marilia ontem. Claro que contou para ela que ambos estavam atrás da mesma obra.
— Diga para ela que se me deixar com o Masson… bem, o passado ficará no passado. Caso contrário…
— Caso contrário o quê? — interrompe, irritada.
— Vou ter que levar você comigo.
Denise escancara os olhos com a audácia desse homem:
— O que te faz acreditar que eu deixaria você me “levar”? Não sou de homem nenhum, nunca fui e nunca serei.
— Acredite, você não terá escolha.
Há algo no jeito de Glen falar que assusta Denise, por mais que esteja determinada a não o deixar vê-la esmorecer. Coloca as mãos sobre os quadris e olha para ele friamente:
— Tenho um conselho para você: fique longe de mim. Se tiver algum recado para a minha ex, diga você mesmo. Ela não tem nada mais a ver comigo.
Antes que ele tenha a chance de responder, Denise entra em um ônibus de dois andares que acabou de parar no ponto da Rua Finchley. Sobe a escadinha com o coração na mão, sem saber se ele está atrás dela. Quando olha pela janela, vê Glen parado na rua, olhando para ela. Os olhos deles são sombrios, ameaçadores. Apesar de Marilia sempre repetir que ele é inofensivo, a pele de Denise está arrepiada de apreensão.
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