Felizes Para Sempre?
1 Aquele Velho Conhecido
Notas iniciais
Um "Eu te amo" não junta ninguém. Uma aliança não garante nada, é tudo balela... História para boi dormir. Eu não gostaria de contar esta história, é um pouco lamentativa — sequer tenho certeza se essa palavra existe.
Tudo começou na cidade colonial, Petrópolis, na serra fluminense — Rio de Janeiro, no colégio Portinari: Cadu, um garoto quase homem em seu último ano do ensino médio, é uma pessoa por vezes complicada de lidar. Ele não era muito de conversar ou se enturmar, era algo de praxe encontrar ele sentado na arquibancada, sozinho. Apesar de tudo, ele tem um amigo na escola, Bruno, sendo este um garoto do segundo ano que na concepção do Cadu é irritante e um "pé no saco", mas no fundo ele acaba vendo-o como amigo, sabe-se lá como ou porquê. Eu também estava lá, mas eu era alguém que observava de longe, alguma hora saberão meu nome...
Ele, mais uma vez, estava sentado na arquibancada — como o de costume — comendo um pão de queijo com patê de frango e assistindo outros alunos jogando queimada, sem a companhia de ninguém, até que o dito cujo aparece:
– Ta fazendo o que? — perguntou cutucando o pé dele com leves chutes.
– Eu nada...! — respondeu um pouco assustado e tímido, mas logo que viu de que se tratava do Bruno fez uma cara de desanimado com a vida igualzinha a do Lula Molusco quando o Bob Esponja aparece. — O que tu quer?
– Está vendo os boys suando? — ironizou, ele era o único que sabia que Cadu é um gay trancafiado nos mais profundos armários, se é que "fundo" possa ser usado para um armário como se fosse um poço.
– Só estava pensando — disse rispidamente.
– Aham, essa saliva escorrendo da tua boca é por culpa de doenças mentais né? — brincou com mais uma de suas piadas que tentam ter graça e morrem na tentativa.
– Não estou salivando.
– Está sim, bem aqui, ó... — apontou com o dedo para o queixo do Cadu, que, ao olhar para baixo, levou um peteleco na testa, seguido da gargalhada chamativa.
– Tu não tem nada melhor pra fazer não? — perguntou tapando a testa com a mão.
– Tenho, mas eu gosto de ficar com você, é engraçado.
– Me poupa, viu?
– Me dá uma mordida do seu pão?
– Não.
– Por favooorr... — insistiu.
– Já disse que não.
– Então eu me sirvo.
Bruno tomou o pão da mão dele e saiu correndo pela quadra de esportes, em meio ao jogo, com risos debochados e movimentos com o braço como se provocassem uma perseguição. Cadu tentou ignorar: Primeiro pois não gosta de correr, acha que corre de um jeito estranho. Segundo, que não gosta de ceder as provocações do Bruno. Mas aquilo era seu café da manhã.
– Que droga, Bruno, devolve, isso é meu café da manhã! — gritou correndo completamente sem jeito. Eventualmente levou uma bolada forte na cabeça, é no que dá atravessar um jogo de queimada, e todos riram. Queria matar o desgraçado naquele mesmo instante. Mas, sempre que passava por isso, vinha a sensação de que estava mais leve, e ele gostava dessa sensação.
O sinal tocou, ele decidiu ir para a aula só pra não precisar lidar mais com a praga. Bruno acabou devolvendo o pão de queijo.
– Vamos invadir a casa abandonada depois da aula? — convidou.
– É, pode ser... — despediu-se.
Os seus pensamentos, seu mundo, são como um peso a ser aguentado com sua timidez. Ele já tinha percebido, Bruno às vezes o lembra que este peso não está preso nele, que ele não precisa aguentá-lo. Mas ainda assim é difícil lidar.
O sinal tocou novamente, dessa vez ele mesmo decidiu procurar pelo Bruno: O encontrou com outros amigos dele, num abraço em grupo, e, numa tentativa de seguir a dica de que não era necessário segurar aquele peso, foi até lá e entrou no abraço, surpreendendo todos, principalmente Bruno que já o conhecia.
– Oi, Cadu!
– Oi.
Logo o abraço se desfez e todos se olharam.
– Oi. Oi. — disse para os outros dois que estavam ali.
– Esse aqui é o Cadu — disse Bruno apresentando-o. — Esses são Catarina e Pedro — ambos acenaram com a mão para ele, sequer retribuiram um "oi". — Estavamos pensando em invadir a casa abandonada perto aqui da escola, vocês querem vir com a gente?
– Onde que tem uma casa abandonada? — indagou Pedro.
– Eu não sei, cara, eu quero ir pra casa dormir. — reclamou Catarina.
– Não, você vai, se eu for você vai.
– Que saco, Pedro.
– Você vai sim! — disse agarrando-a por trás.
Em silêncio, já se sentindo perdido no grupo, Cadu apenas observava. "Então eles são um casal..." pensou.
– Ei mano, vamos, depois você dorme! — insistiu Bruno para Catarina.
– Ta bom, mas deixa eu beber água então.
– Todo mundo vai? — perguntou Cadu.
– Acho que sim. — respondeu Bruno.
Em mais uma de suas manias, Cadu começou a observá-los, não gostava de se envolver com pessoas que não cumpriam o requisito complexo para andar com ele — como se fosse requisitado. Começou por Catarina: Achou ela um pouco debochada e falante, muito extrovertida, completamente o oposto do que ele gostaria de ter como companhia, isso o preocupou. Nas vez de Pedro, ao virar os olhos em tua direção, assustou-se, pois o mesmo estava encarando-o, e então rapidamente virou os olhos. Esperou poucos instantes e olhou novamente.
"O que está acontecendo aqui...?" pensou extremamente nervoso e tímido, quase sem jeito.
Pedro ainda estava encarando-o.
[Bem, eu não contei para ninguém,
mas um pássaro voou por aqui, e viu o que eu fiz.
Ele fez um ninho lá fora.
E ele cantou sobre o que eu havia me tornado.
Ele cantou tão alto, ele cantou tão claramente,
eu fiquei com medo de todos os vizinhos ouvirem,
então, convidei-o para entrar,
apenas para argumentar com ele.
Eu prometi que não iria fazer aquilo novamente...]
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