Abri a porta com força e entrei respirando fundo. Péssima ideia. O chão estava coberto de poeira me fazendo espirrar alto. Senti um alivio instantâneo. Até escutá-lo ecoar pelo resto do aposento e provavelmente por boa parte da casa.

– Isso mesmo, Clarice! Acaba com a chance de explorar essa sala soltando um espirro e atraindo alguém pra cá — resmunguei enquanto fechava a porta lentamente.

Corri meus olhos pelo lugar avaliando-o. Todos os móveis e enfeites estavam cobertos por lençóis brancos. Tinham formas estranhas e pareciam desajeitados no ambiente. Caminhei em direção à janela e puxei a cortina iluminando o local. O piso era de tábua corrida e os lençóis brancos não eram tão brancos assim. Desviei meus olhos para a vista que a janela me proporcionava. Um chafariz? Não sabia que tínhamos um. Balancei a cabeça deixando isso pra lá. De qualquer forma nunca havia explorado aquela casa de maneira apropriada. Empurrei o trinco para abrir a janela e nada. Empurrei de novo e nada. Apenas na décima terceira vez consegui abrir recebendo como resposta um vento fresco da manhã. O que era um alívio depois de alguns minutos sentindo um ar parado e abafado.

Girei nos calcanhares satisfeita com o meu trabalho. Agora que estava tudo iluminado e mais arejado podia começar a explorar. Resolvi começar pelos enfeites na parede. Havia um em cada ponta. Animais empalhados. Um corvo e uma coruja. Estreitei os olhos absorvendo aquela combinação estranha e passei para o meu próximo alvo: uma mesa cheia de objetos. Retirei com cuidado o lençol para não derrubá-los e me deparei com várias ampulhetas. De todos os tamanhos e cores.

No final eu tinha uma sala bem interessante na minha frente. Além da certeza de que meus pais não queriam de modo algum comprovar uma das várias leis de Murphy: "Se você tem alguma coisa há muito tempo, pode jogar fora. Se você jogar fora alguma coisa que tem há muito tempo, vai precisar dela logo, logo." Ou seja, muita velharia. Muita coisa cheia pó e provavelmente frágil. Animais empalhados, uma mesa cheia de ampulhetas em um canto, um esqueleto de mentira noutro, uma estante com livros antigos perto da porta, uma cômoda de sete gavetas — todas emperradas — ao lado da janela, alguns tapetes enrolados e apoiados na estante, um túmulo quebrado embaixo da coruja e no centro um caixão.

Um caixão.

Um grande caixão preto e lustroso. Certo, o caixão parecia bem novo, diferente do resto. Rodeie-o com certo temor. O que um caixão estava fazendo ali? Não ousei me aproximar muito com o receio de encontrar algo ou alguém ali dentro. Engolindo seco tampei-o e me dirigi a estante que me parecia mais convidativa. Ela era cheio de livros velhos com capas de couro. O papel deles era grosso e amarelado. Sentia-me dentro de um antigo romance só de tocar neles. Um em especial me chamou a atenção. Era mais elegante que os demais e possuía como título "M". Cheguei à conclusão de que parecia conservado o suficiente para eu levá-lo e poder dar uma olhada. No entanto por hora iria dar uma folheada. Abri na primeira página e escrito à mão tinha uma frase:

"Assim como um dia bem aproveitado proporciona um bom sono, uma vida bem vivida proporciona uma boa morte." Franzi a testa diante de tal frase. Esperava uma dedicatória e não uma reflexão. Ao esticar um pouco o pescoço vi através da janela que o sol já estava e alto e que era hora de eu ir. Chega de esquisitices por hoje! Cobri tudo novamente para não levantar suspeitas, fechei a janela, puxei a cortina de volta ao seu lugar, peguei livro misterioso intitulado "M" e voltei ao meu quarto. Só mais tarde, quando estava pensando com os meus botões, avaliei a possibilidade de trancarem a porta. Bem, torcia para que isso não acontecesse me impossibilitando de bisbilhotar mais e devolver o livro ao seu lugar.