Felix Felicis
3 Centelhas da meia-noite.
Notas iniciais
"Ao toque do amor, todo homem se torna um poeta."

Mãos desconhecidas percorriam toda a extensão de seu corpo. Contornavam sua mandíbula, desciam pelo seu pescoço. Harry sentia seu corpo inteiro vibrar. A sensação do toque era como receber uma descarga elétrica. Seu corpo implorava desesperadamente por mais.
— Por favor não pare. – ele implorava.
As mãos continuavam sua mágica. Desciam pelo seu abdômen, apertavam suas coxas, fazendo-o tremer por inteiro. Ele ansiava por mais.
— Não vou parar. – aquela voz era estranhamente conhecida. Harry já tinha a ouvido em algum lugar, embora agora estivesse muito ocupado para tentar identificá-la.
As mãos desabotoavam sua camisa lentamente, com movimentos precisos e cuidadosos, expondo seu peito nu. A boca desconhecida traçava uma linha de beijos desde sua orelha até seu umbigo.
— Espere... – Harry parou por um segundo. Ele conhecia aquela voz. A voz fria e calculista, que ele passara anos odiando. – Malfoy!? — ele cuspiu o nome do menino como se fosse venenoso.
O loiro ergueu a cabeça e Harry pode ver sua face. Era, realmente, Draco Malfoy. Seus cabelos estavam bagunçados e ele tinha uma expressão de malícia estampada no rosto.
Não!, gritou Harry internamente.
Então, subitamente, algo chacoalhou seu corpo violentamente, puxando-o de volta a realidade.
— Harry! Acorde! – Ron estava debruçado sobre ele. – Vamos nos atrasar!
Harry abriu os olhos, com tremenda dificuldade, e olhou o ambiente em sua volta. Ele estava em seu dormitório, em sua cama.
— O que você estava sonhando? – perguntou Ron, enquanto punha-se de pé e tentava, sem muito sucesso, dar um nó em sua gravata vermelha e amarela.
— Não estava. – mentiu Harry, sentindo seu rosto corar.
— Pensei que estivesse... – Ron deu de ombros, ainda lutando contra sua gravata, que parecia se recusar a formar um nó correto. – Estava murmurando coisas...
— Coisas!? – a respiração de Harry acelerou – Que coisas exatamente?
— Não ouvi direito. Agora vamos! Snape vai ficar uma fera se nos atrasarmos para a aula dele.
***
Engolindo seu café da manhã em um só bocado, os meninos correram para os calabouços, onde a aula de Poções já havia começado. Parados diante da grande porta de madeira, eles respiraram fundo e a abriram, rezando para que Snape, por um milagre, não os castigasse pelo atraso.
O professor, com sua usual carranca, escrevia no quadro. Sem sequer se virar para ver quem abrira a porta, que rangeu alto, ele girou sua varinha pelos dedos.
— Perdeu seu relógio, Potter? – sua voz seca e irônica ecoou pelas masmorras escuras e úmidas.
— Não, senhor. – Harry se acomodou ao lado de Hermione, que os lançava um olhar feio de desaprovação. – Perdi a hora.
Snape, curvando o canto da boca num resquício de sorriso, caminhou pela sala lentamente. O resto dos alunos apenas observava. Parando diante dele, ele cruzou os braços sobre o peito e ergueu as sobrancelhas.
— E o que faz você pensar que tem a liberdade de entrar atrasado na minha aula? – Harry sentiu Ron estremecer ao seu lado. Embora os dois tivessem se atrasado, por algum motivo Snape, como sempre, descontava seu ódio nele apenas. – Eu pareço um palhaço pra você?
Harry sentiu a raiva crescer em seu peito. Ele estava cansado daquilo. Snape o tratando mal o tempo todo, embora ele nunca tivesse feito algo que explicasse aquele comportamento.
— Vinte pontos da Grifinória. – ele se virou novamente em direção a frente da sala e pôs-se a andar lentamente. – De cada um.
Bufando com raiva, Harry abriu seu livro e se esforçou ao máximo para prestar atenção na aula. Na aula de hoje eles deveriam preparar a poção Volubilis. Aparentemente, eles deveriam ter estudado o preparo da poção por conta própria para poderem preparar na aula, mas Harry não lembrava de Snape ter pedido isso na aula passada. Na verdade, ele não se lembrava muito das aulas passadas, considerando que passara grande parte do tempo pensando em outras coisas.
Afastando os pensamentos antes que eles fossem capazes de ocupar sua cabeça, ele se dedicou a fazer uma poção perfeita, de modo que Snape não tivesse motivo para implicar com ele. Com ajuda de Hermione, não foi tão difícil.
Ao fim da aula, eles apresentaram suas poções ao professor, que fazia anotações em seu caderno. Quando chegou a vez de Harry, o último a apresentar, todos os outros estudantes já tinham saído. Snape franziu o nariz enquanto analisava seu caldeirão. Sua cara de desgosto era visível. Harry esperava que fosse porque ele tinha feito tudo certo, o que seria um milagre, considerando que ele era uma abominação em Poções.
— Diga-me, Potter... – Snape sorriu com malícia. – Qual foi o ingrediente que você adicionou depois das mandrágoras?
Harry mordeu o lábio, tentando se lembrar exatamente dos passos que Hermione o passara. Água de mel? Xarope de heléboro? Ou talvez ramos de hortelã? Ele não se lembrava. Antes que tivesse a chance de responder, o professor o interrompeu bruscamente.
— Detenção, Potter. Hoje à noite.
— Mas... – Harry abriu a boca para reclamar, dizendo que ele tinha treino de quadribol e não podia perder, mas o professor já caminhava para fora da sala, deixando-o sozinho nas masmorras com ódio correndo pelas veias.
***
Na mesa de jantar, Harry empurrava a comida pelo prato. Ele não estava com fome. Tudo que conseguia pensar era no sonho estranho que tivera de manhã. Ele tentava ao máximo não dirigir seu olhar para a mesa da Sonserina, onde Malfoy e seus leais súditos, Crabbe e Goyle, riam sem parar.
Percebendo o olhar distante do amigo, Ron foi o primeiro a falar.
— Ele não podia ter dado detenção por isso. – bufou ele – Eu cheguei atrasado também e não peguei detenção. E além disso, qual o problema de não saber a resposta de uma pergunta? O propósito da escola não é aprender?
Harry concordava com o amigo, mas sabia que quando se tratava de Snape, a palavra justiça nunca se aplicou. Ele o odiava mais do que todos os outros alunos, mesmo que ele não soubesse o motivo.
Hermione ficou calada. Harry sabia que ele nunca discordaria de um professor.
— Tudo bem, Ron. Já estou acostumado.
Ele realmente não se importava de pegar mais uma noite de detenção, considerando as inúmeras que já tinha pego antes. O que realmente o chateava era perder os treinos. Voar era a única coisa capaz de esvaziar sua mente agora.
Terminando seu prato, ele se despediu dos amigos e rumou até a sala de Filch, o zelador do colégio, responsável pelas punições.
— Ora, ora... Se não é você de novo. – o velho torceu o nariz. Seus passatempos favoritos incluíam mimar sua gata e torturar os alunos. – Tenho um trabalho interessante pra você hoje.
Pegando o garoto pelo punho, ele o puxou escada acima, parando diante dos milhares de quadros de bruxos e bruxas que ficavam nas escadas do castelo.
— Alguém precisa limpar todos os eles. Um por um.
Harry olhou para as enormes paredes que se erguiam diante dele. Deveriam ter milhares de quadros no total, espalhados pelas paredes altas.
— Aqui. – Filch o entregou um balde cheio de água misturado com um líquido verde que cheirava a ovo podre e um pano sujo. – A escada está aqui, para alcançar lá em cima. Boa sorte. – dando uma risada abafada, ele desapareceu pelas escadas.
***
Quando Harry terminou o primeiro corredor, seus braços doíam e suas pernas estavam bambas. A escada de Filch dera não era instável, e ficava pendendo para os lados, fazendo-o quase cair várias vezes. Checando o relógio em seu pulso, ele viu que já passavam das onze da noite. Ele passaria a noite toda para limpar tudo, e mesmo assim não seria capaz de terminar.
Resolvendo tirar um intervalo de descanso, ele desabou no chão, apoiando sua cabeça na parede de pedra fria. Sua cabeça doía de cansaço. Ele pensava em sua cama quentinha e convidativa.
Depois de alguns minutos massageando os músculos dos braços que latejavam, ele ouviu passos nas escadas. Pondo-se de pé imediatamente, ele fingiu voltar ao serviço.
— Parece que você terá ajuda afinal. – Filch trazia, arrastrando atrás de si, outro estudante
Harry não viu quem era, fingindo estar esfregando um quadro de um cavaleiro que reclamava de ser acordado.
— Perambulando pelos corredores a noite... Esses pirralhos ainda vão me matar! – reclamando consigo mesmo, o zelador seguiu seu caminho escada acima, provavelmente animado consigo mesmo por ter conseguido colocar dois alunos para trabalhar em um só dia.
Quando o barulho de seus passos apressados cessou, Harry encarou o menino que fora pego andando pelos corredores. Malfoy.
É claro que é ele, Harry bufou em seus pensamentos, irritado. Não consigo um diazinho dia de folga!
Jogando um pano surrado em sua direção, Harry voltou a trabalhar, fingindo que o outro menino não estava lá. Quem sabe se ele se concentrasse muito, poderia esquecer de sua presença, pensava ele.
Sem dizer uma palavra sequer, os garotos trabalharam limpando os quadros empoeirados por vários minutos. Harry apoiou a escada sobre a parede irregular e subiu alguns degraus para alcançar um grande quadro de duas meninas vestindo chapéus de bruxo que ficava no alto da parede. Elas reclamaram alto enquanto ele esfregava a tela com o líquido fedorento.
Sob seus pés, a escada balançava de um lado para outro. Ele esfregava a tela com raiva, descontando todo o ódio que sentia em seu peito – de Snape por colocá-lo em detenção, de Filch por fazê-lo limpar aqueles malditos quadros e de Malfoy por... vários motivos.
Devido a brutalidade de seus movimentos, a escada deslizou para o lado e seu pé escorregou, fazendo Harry escorregar pela escada de madeira. Ele tentou agarrar os degraus com as mãos, mas não obteve sucesso.
Quando ele estava a apenas alguns centímetros do chão, algo agarrou sua cintura. Draco. Os braços fortes de Malfoy seguraram a cintura de Harry, elevando-o.
Harry recuperou o equilíbrio e se pôs de pé. As mãos de Draco demoraram alguns antes de soltá-lo abruptamente, e o menino se afastou rapidamente. Ele limpou a garganta e continuou a trabalhar nos quadros.
Um flash de memórias passou pela mente de Harry. As mãos firmes que o tocavam em seu sonho, deslizando por cada centímetro de seu corpo. O local onde a mão de Malfoy estivera, apenas alguns segundos atrás, formigava com o toque firme. Era como se sua pele estivesse em chamas.
Forçando-se a parar de pensar no assunto, Harry murmurou um agradecimento, fingindo indiferença.
Eles passaram mais vários longos minutos fazendo o trabalho de limpeza. Harry se surpreendeu com o fato do garoto da Sonserina não reclamar nenhuma vez de estar trabalhando, nem mesmo ameaçar contar para seu pai. Eles limparam em harmonia até que, finalmente, depois do que pareceram horas, Filch retornou e os liberou para que pudessem ir a seus dormitórios.
— Malfoy... – Harry começou, sem saber exatamente o que queria dizer. Contudo, antes que pudesse completar a frase, Draco já descia furiosamente as escadas, sem olhar para trás.
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