Felix Felicis
4 A solidão da meia-noite.
Notas iniciais

"A pior solidão é aquela que invade o seu coração mesmo quando você está rodeado de pessoas."
Os dias que seguiram foram estranhos. Harry sentia como houvesse um buraco aberto em seu peito. Era como se alguém tivesse tirado algo de lá e ele estivesse vazio por dentro.
Ele não viu mais Draco Malfoy pela a escola. No começo, ele achou que fossem apenas desencontros. Contudo, depois de duas semanas sem vê-lo, Harry começou a se preocupar. Ele não atendia mais as aulas que a Grifinória e a Sonserina tinham juntas – Poções e Trato das Criaturas Mágicas – e nem os almoços e jantares no Salão Principal.
Para evitar ter que se explicar para seus amigos, Harry não contou a seus amigos que o sumiço de Malfoy o preocupava. Na verdade, nem ele próprio sabia dizer o motivo da sua preocupação com ele. Eles nunca tinham sido amigos antes, e não fazia nenhum sentido mudar isso apenas por algumas noites sem significado. Além do mais, Draco nem sabia que Harry tinha o seguido até a Sala Precisa, e claramente não parecia se importar com ele.
Por mais que tentasse evitar, Harry não podia deixar de sentir seu coração afundar ao olhar para Crabbe e Goyle e não ver seu fiel companheiro no meio dos dois. Era uma sensação nova e bizarra para Harry.
Os dias se emendavam, um atrás do outro, como um grande e vazio nada. Passavam em câmera lenta e pareciam nunca ter fim. Harry seguia sua monótona rotina, atendendo as aulas e fazendo suas tarefas, em um infinito loop de melancolia amarga.
O único momento que ele conseguia tirar sua mente das preocupações era no treino de quadribol. Voar era como deixar tudo pra trás. No momento que ele montava em sua vassoura e sentia o ar agitar seu cabelo, nada mais o apreendia.
Ele passara grande parte dos dias que seguiram escapando para o campo de quadribol entre as aulas e em períodos livres, onde podia ficar sozinho com seus pensamentos e refletir.
Numa tarde fria, quando retornava do treino de quadribol distraído, Harry cruzou com uma pequena multidão de pessoas aglomerada nos jardins do colégio. Vários estudantes – provavelmente do primeiro ou segundo ano, Harry pensou – se empurravam em um pequeno círculo, dando risadinhas abafadas. Ao passar ao seu lado, Harry captou algumas palavras do que eles sussurravam.
— Vocês viram o Malfoy? – uma garotinha loira de cabelos cacheados e gravata amarela da Lufa-Lufa deu um sorrisinho.
— Ele está horrível! – comentou outro garoto, de cabelos escuros e dentes grandes.
Harry sentiu seu coração disparar ao ouvir o nome de Malfoy. Ele odiava se sentir assim, tão frágil, como se fosse quebrar a qualquer instante quando alguém mencionava o nome dele.
Se apresando para dentro do castelo, ele correu para o dormitório, tentando ignorar todos os murmúrios que se espalhavam pelos corredores sobre Draco. Pequenos grupos de estudantes se espreitavam pelos cantos em sussurros maldosos.
Ao passar pelo retrato da Mulher Gorda, Hermione veio correndo em sua direção, respirando rapidamente.
— Você viu, Harry?
Harry deu de ombros, confuso.
— O Malfoy! – Hermione exclamou, como se fosse óbvio. – Todos estão falando disso!
— O que tem ele? – Harry fingiu indiferença, como se ouvir o nome dele não revirasse seu estômago.
— Ele está péssimo, cara. – Ron se juntou a eles, dando uma risada abafada. Por um segundo, Harry sentiu raiva deles por agirem daquele jeito.
— Como assim, péssimo? – ele questionou, seu coração batendo rápido no peito. O que estava acontecendo? Ele ficava semanas sem ouvir notícias dele, e de repente todos no colégio falavam dele.
— Você vai entender quando vê-lo. – Ron deu de ombros – Vamos, já é hora do jantar e eu estou com fome.
Revirando os olhos, Hermione puxou Harry pelo braço e os amigos andaram juntos até o Salão Principal, onde grande parte da escola já se reunia nas quatro mesas compridas degustando o jantar. A conversa no ambiente era mais baixa do que o normal. Todos sussurravam entre si, curiosos. Os amigos encontraram seu habitual lugar, perto de Fred, George e Gina, e Ron começou a comer desesperadamente como se não visse um prato de comida há meses.
— Caramba, Ronald! – Fred riu, arregalando os olhos.
Tentando não parecer muito interessado, Harry fingiu não perceber a grande comoção na mesa da Sonserina. Havia um aglomerado de estudantes vestindo vestes verdes no canto da mesa, se empurrando para disputar espaço.
Ele empurrou o máximo de comida que conseguiu por goela abaixo, tentando ao máximo agir normalmente para não alertar os amigos de sua preocupação anormal com Draco.
Quando Ron já estava no terceiro prato e Hermione reclamava de sua gula com irritação, foi quando Harry conseguiu ver o que causava o furdunço pela escola. Lá estava ele, Draco Malfoy, sentado entre duas meninas da Sonserina com olhares preocupados, que acariciavam seus cabelos como se ele fosse uma criança mimada. Seu rosto estava todo machucado, coberto por feridas nos lábios e nas sobrancelhas. Seu olho esquerdo tinha uma marca roxa intensa, como se alguém o tivesse socado com força.
Para a surpresa de todos, Draco não parecia feliz em receber toda aquela atenção. Harry se lembrou de quando ele levou um coice de Bicuço, e ficou choramingando por semanas para receber carinho e piedade do resto dos Sonserinos. Mas dessa vez algo parecia diferente. Seu rosto estava estampado por uma expressão frígida e abatida.
Mesmo que tentasse não encarar, Harry não podia tirar os olhos de Draco. Ele desejava mais do que tudo entender o que estava acontecendo, e por que ele havia desaparecido e retornado todo machucado. Toda a situação era no mínimo muito estranha.
Do outro lado do Salão, Draco passou seus olhos por ele. Seus olhares se encontraram por uma fração de segundos, antes que Harry olhasse em outra direção rapidamente. O olhar de Malfoy era triste e pesado, o que fez Harry lembrar da noite na Sala Precisava quando ele chorava desesperadamente achando que ninguém estava vendo.
Harry acreditava ter descoberto uma parte de Draco Malfoy que ninguém mais conhecia. Um Draco sensível e machucado, que precisava de alguém para entender sua dor. Harry, por mais estranho que parecesse, queria ajudá-lo. Queria pegá-lo pelas mãos e dizer que entendia sua dor, mesmo que não soubesse o motivo dela. Queria que Draco confiasse nele.
— Trágico, não? – a voz irônica de Ron, que mastigava enquanto falava, puxou Harry de seus pensamentos.
Forçando um sorriso de canto de boca, Harry sacudiu a cabeça em confirmação e voltou a encarar o prato, sentindo o buraco em seu peito se alargar cada vez mais.
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