Felina
4 Volta
Lúcio morara em Olaria quando criança, naquela mesma rua. Os pais se separaram. Continuou o pai ali residindo por algum tempo, não se lembrava muito bem de quanto, então Olaria ainda era sua casa aos fins de semana, segundo o regime de guarda compartilhada. Agora, aos vinte anos, tinha a possibilidade de para ali retornar. O pai queria retornar ao velho bairro, ao que Lúcio inicialmente se opunha, mas agora tinha motivos para apoiar.
Rejeitava a ideia porque o pai, assim lhe contava a mãe, tinha feito a promessa de nunca morar com a nova esposa na casa onde foram casados. Fizera isso por iniciativa própria, para, talvez, compensar de alguma forma a esposa que traíra, ou simplesmente para evitar conflito. Repetia, como o vulgo, que dava um boi para não criar conflito. Ratificava isso quando o boi não bastava e o conflito se instaurava: dava uma boiada para dele não sair.
Talvez fosse pela separação dos pais que Lúcio tinha horror à traição. Achava que a pessoa – homem ou mulher – que traía cometia um crime tremendo contra todos e contra Deus, e, portanto, nunca trairia ou seria pivô de uma traição. Por isso interessava tanto se Marcinha tinha namorado. Se tivesse, não interessava. “Mulher de outro pra mim é homem”, costumava repetir.
Pensava nisso quando, na sua mente, passou um vulto de mulher. Era a senhorita que o fitara por dois segundos. Parente de Marcinha, provavelmente. Prima, talvez irmã. Quando Marcinha entrou e seus olhos puderam se fixar em outra coisa reparou na moça. Era bonita, daquelas belezas categóricas, que homem nenhum contesta. Lúcio também sabia amar a beleza categórica, mas preferia a beleza oculta. Essa, como um poço escondido num deserto, era capaz de satisfazer plenamente quem ousasse a procurar. E reluzia como uma estrela única entre a miríade que pontua a abóbada celeste.
Mas algo naquela mulher também o instigava, o punha curioso. Ela o examinara por dois segundos. Ele, naturalmente, disse “boa noite”. Ela não respondeu. Bateu-lhe a porta como se usa fazer com um vendedor chato ou um testemunha de Jeová na sua eterna missão conversiva. E quando o rapaz dizia “Sou católico.”, os evangélicos se horrorizavam e o chamavam de idólatra.
Aliás, o rapaz achava curioso como os testemunhas de Jeová criticam os católicos pelas imagens, mas eles mesmos falam o nome, que é como fosse uma imagem, de Deus. Não satisfeitos dizem os outros nomes de Deus: Jesus Cristo e Jeová. Seria tanta idolatria quanto. Mas Deus não proibiu que lhe fizessem menção, seja pelo símbolo que fosse, desde que não em vão. Há sim, católicos idólatras, que fazem uma apoteose de São Jorge, por exemplo.
Mas há também pastores idólatras, que usam o Nome em vão. “O problema com alguns desses camaradas” pensava Lúcio “É que enxergam tudo na forma mais literal possível. Isso em si não era o problema, mas junto a isso não vinha uma reflexão que completasse o sentido literal, uma visão do Evangelho como uno que oriente e dê coerência aos versículos esparsos.”.
Lúcio era um estudante de Direito. Sua paixão era Direito Constitucional, que fazia a duras penas suportar a ida para o mundo de blocos de concreto acinzentados que chama UERJ. E Lúcio comparava a hermenêutica bíblica com a hermenêutica constitucional: Toda parte deve retomar ao todo, pois é o todo que dá coerência às partes. Essa reflexão é que norteava seu estudo, desde quando se tornou católico efetivo.
Lúcio era um católico, como chamam, “não praticante”. Não buscava a religião com frequência, nem estudava; nem ia às missas. O fato conversor foi um pensamento vago. O rapaz ouvia “Highway 61 Revisited” do Bob Dylan e ficou com a imagem de um Deus que manda Abraão sacrificar um filho na cabeça.
Ora Deus está no plano da eternidade. Sabe de tudo. Sabia de todo esforço que empreenderia em sua economia para chamar o homem para si. Então é lógico que Deus sabia que enviaria o próprio Filho em sacrifício. Saber se o patriarca escolhido era capaz de sacrifício semelhante era algo cabal ao qual Lúcio nunca tinha atentado. Então haveria de ter uma coerência entre os Evangelhos, coerência que vinha desde os tempos mais antigos. O Novo Testamento e o Velho teriam de ser uma só essência, um só espírito. E isso se parecia em muito com o que estudava com tanto gosto na faculdade.
Do estudo, a fé fraca se fortaleceu e agora se sentia muito mais católico, mas ainda um pecador torpe e vil porque humano. E estudava e mais cria, mais cria, mais estudava, num divino círculo virtuoso. Antes rezava um terço sem metade da fé com que reza agora, a cada noite, suas quatro orações habituais.
Quando deu por si já estava defronte ao prédio de sua infância. Dormiria na casa de sua tia, que ali ainda residia. Entrou, cumprimentou sua tia e conversaram um pouco. Conversar é modo de dizer. Lúcio era melhor ouvinte que falante, e sua tia, o oposto. Era talvez por isso que se dava. Ela falava, ele ouvia calado. E ambos, cada um em sua função de preferência, eram felizes.
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