Marcinha adentrou a casa com um sorriso no rosto. Seria possível que aquele rapaz gostasse dela? Ela era feia e todos a lembravam constantemente disso. Não que dela falassem mal, pelo menos não na cara dura, mas a gente a tratava como fosse inferior como mulher. Como se ser bela fosse uma obrigação feminina, obrigação essa que ela não cumpria. No mais não abundava em corpo, era delgada. Magra, mas não uma etíope, e tinha curvas. Tinha curvas que muitas mulheres bonitas não possuíam e tinha certo orgulho das próprias curvas.

Foi ao quarto e mirou-se no espelho. Se não fosse o rosto... Pôs-se de perfil. De costas se podia dizer que era bonita. Mas aquele rapaz a viu de rosto e mesmo assim a tratou como se tivesse interesse. Talvez tivesse interesse. Mas como? Era impossível que ela, Marcinha, tivesse despertado nele interesse. A esperança, que é “Highlander”, era que pregava uma peça. Era impossível. O rapaz deveria ser apenas um sujeito bom, cortês e desinteressado, que a ajudou por humanidade. Era, talvez, o último homem capaz de humanidades. Estava nisso, quando a irmã adentra e começa a falar:

“Anda agora de namoricos na vizinhança, Marcinha?”

“Oxalá fosse. Cortesia do rapaz, só.”

“Nesse tipo de ‘cortesia’ sou muito mais escolada que você. Vê só, Marcinha, vê só.”

“Mas que mal tem?”

“Que mal? Eu não conheço o rapaz, não é daqui. Pra mim todo homem é canalha até que se prove o contrário.”

“Mas e se for um morador novo? E se gostasse de mim?”

A irmã quis rir, mas conteve-se para não a humilhar. Um rapaz, gostar de Marcinha? Impossível. Se fosse carnaval e a irmã usasse máscara, talvez. Mas assim, vendo o rosto – vendo que não era bonita? Impossível. Mas tamanha cortesia era realmente de estranhar. Era capaz de o rapaz ser louco também, seria um sintoma. Ou até podia dar-se a hipótese rodrigueana de um homem que gosta de feias.

“Não fala nada?” Disse Marcinha, interrompendo o raciocínio da irmã. “Acha impossível?”

“Acho.”

“Porque sou feia.” A irmã hesita e recua levemente. “Anda, Laís, responde!”

“Não. Porque não acredito em amor. Principalmente assim, à primeira vista. Nem se conhece e já se ama?”

“Você é falsa, Laís.”

“Sou nada. Não acredito e ponto.”

“Falsa e cínica. Ao menos seja sincera, confessa que me acha feia e indigna de amor.”

“Não é questão disso, minha irmã. O rapaz também não era o primor da beleza.”

“Não era feio, também.”

“Nem bonito. Normal.”

“E agora me responde com sinceridade. Na sua opinião, as feias podem ser amadas?”

“Você fala como se a beleza fosse uma obrigação feminina.”

“E é. Beleza é fundamental. Fundamental, ouviu?”

“É você quem está dizendo. A beleza é uma virtude facultativa. Até para a mulher.”

“Facultativa?” Marcinha ri. “Você não respondeu minha pergunta. Podem ou não podem?”

“Podem...” Respondeu com um tom meio vago de incerteza.

“Você mente, descarada.”

“Você não é feia, Marcinha.”

“Mente com uma naturalidade! Sou feia. Eu sei, você sabe. Todo mundo sabe, Toda a gente me olha enviesado, como se eu não fosse mulher. De costas, sou mulher, de rosto já não sei mais o que sou. Um tucano, talvez.”

“Beleza é um negócio meio relativo”

“Ah, tenha santa paciência!” Começa a se despir. “Saia, Laís. Vou me trocar e dormir.”

Laís sai do quarto. Mentira descaradamente para a irmã. Não tinha culpa. Não via nela beleza alguma, mas tinha escrúpulos de confessar esse fato assim, à queima roupa. Quanto à possibilidade de as feias serem amadas ficara incerta. Mas tendia a acreditar que não. O homem tende a querer o que é bom e repelir o que é mau, e era assim com o belo e o feio. A não ser aquele personagem do Nelson, ninguém poderia amar a feiura. Mas talvez aquele rapaz visse alguma beleza em Marcinha. Num contato superficial, só podia ser uma beleza física. Nesse caso, concluiu Laís, só cabiam duas hipóteses: Ou o rapaz enxergava bem demais ou mal demais.

Marcinha ficara no quarto se despindo. Nua se pôs novamente defronte ao espelho e admirou a própria nudez. Não era feia de corpo, nem o tinha em abundância. É então tomada por um súbito pudor da própria nudez e veste a camisola como se a mesma fosse a folha de parreira original. Ajoelha-se ao pé da cama e reza. Em sua oração pede para reencontrar aquele rapaz. Quem sabe ele não estava de fato apaixonado? Terminou a reza e se deitou. Se deitou e dormiu. Dormiu e sonhou.