Feelings Insanes
12 Murderess.
Notas iniciais
Feelings Insanes
O garoto seguia à frente em escola à figura encapuzada.
Caminhavam pelo corredor fúnebre, o toc toc dos sapatos contra o cascalho ecoavam no ambiente em conjunto ritmado com o que esperava-se ser apenas alguma goteira d’água por aí, que possivelmente já formara uma poça em um dos declives do piso, ambos bem comuns nas masmorras úmidas e velhas demais da mansão.
A única fonte de luz em meio aquela negritude que não permitiria enxergar nem uma palma em frente aos olhos, fazia-se na labareda imóvel, se não por alguns pequenos desvios em resposta do mínimo inidicio de movimento próximo, na pequena vela que derretia sobre o castiçal, que um dia talvez tenha sido dourado, que repousava na mão do garoto que caminhava alguns passos à frente.
Nunca pensara que a superfície faria tanta falta, até é claro, adentrar alguns metros nela. Tudo o que ocupava sua cabeça no momento era em como o subsolo conseguia ser úmido, sufocante e claustrofóbico demais.
Suspirou pesarosamente, permitindo-se olhar em volta por um instante, pelo corredor. Sobre sua cabeça a intervalos constantes, via os suportes de ferro tomados pela ferrugem, ainda ocupados pelas cinzas e partes do que um dia fora tocos de madeiras queimadas.
Talvez o fogo não tivesse resistido à estranha brisa inexplicável que soprava hora ou outra naquele lugar. Ou foram ocasionalmente apagadas. Não importava de qualquer forma. O que realmente chamava atenção eram as pesadas portas de ferro distribuídas ao longo do corredor, a sua direita e a sua esquerda a intervalos constantes.
Estariam ocupadas?
Em resposta a sua pergunta silenciosa, sobressaltou-se com um forte estrondo de algo batendo em direção a porta ao seu lado direito um grito gutural saindo abafado, em seguida do esquerdo e uma atrás das outras ao longo do corredor, tornando uma explosão de gritos ininteligíveis e estrondos ensurdecedores.
– SOSSEGUEM – ordenou autoritariamente.
Silêncio se fez obedientemente. Tanto que não exagerava se dissesse que era possível ouvir um alfinete cair contra o chão.
– Quanto a você, dirija atenção a seu caminho, apenas.
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– Chegamos – anunciou subindo a longa escadaria.
O jovem entregou-lhe o castiçal, ao fim da escadaria, em frente às portas duplas finamente entalhadas em mogno com maçanetas douradas refletindo as chamas, e abriu-as, segurando-as a espera que quem o seguia, entrasse.
Tal figura encapuzada, prosseguiu a passos lentos, apagando o fogo com um sopro, já que deixara de ser necessário, e deixou o castiçal em cima de uma mesa qualquer ali ao lado.
– Seja bem-vinda, Maka – saudou Medusa.
A porta se fechou com um baque surdo. As mãos doentiamente pálidas surgiram pela capa, abaixando o capuz, revelando longos cabelos loiros-acizentados que ondulavam e emolduravam lhe a face graciosamente, esta agora, muito mais fina e marcada à osso, olheiras fundas e escuras sob seus olhos indicavam muitas noites mal dormidas e os lábios antes rosados, agora tinham um tom morto que apontavam a saúde debilitada.
Olhou em volta indiferente. Encontrava-se em um enorme salão ao estilo clássico. Pilastras aos dois lados sustentavam o teto a vários metros de distância. Dispostos em torno da mesa, cadeiras para todos os convidados ali presentes que se levantaram para recebê-la provavelmente, já que todos a estudavam curiosamente. Muitas das pessoas ali que nunca havia visto, não fazia à mínima ideia de quem eram e muito menos fazia questão de conhecê-los.
A longa mesa de jantar estava coberta pela toalha pérola cintilante, e dispostos sobre ela, os aparelhos de jantar de prataria e castiçais com longas velas vermelhas. Ao fundo da sala, próximo à extremidade oposta da mesa, encontrava-se as imensas janelas que confirmavam que finalmente haviam saído do subsolo, e sob elas, a crepitante lareia acesa exatamente ao centro, certamente que para amenizar a sensação fria, e iluminar parcialmente partes do salão que o magnifico lustre de cristais ao centro da sala não dava conta, embora não adiantasse de muito.
Maka desfez o laço que prendia a capa em seu pescoço soltando-a de seus ombros e essa que foi rapidamente removida e cuidadosamente dobrada de encontro ao braço do jovem que a escoltava, que seguiu em seu encalço enquanto ela caminhava pelo tapete vermelho que levava a mesa, e ao lugar vago na extremidade mais próxima, que acreditava ser o seu.
– A convidada tão esperada chegou. Nossa querida Ojoo-sama, por favor, sente-se. Daremos inicio, ao banquete — comunicou Medusa, anfitriã.
O garoto afastou a cadeira para a loira, Maka ajeitou o longo vestido em veludo preto e sentou-se elegantemente, sendo imitada por todos, que se sentaram logo depois dela.
Olhou de relance o garoto, cujo não sabia o nome, prostrar-se a suas costas.
– Mosquito, mandem que sirvam-nos – pediu Medusa.
O mordomo sumiu ao fim do salão prontamente. E um dialogo frio e desinteressante se instalou entre os convidados, quebrando o silêncio. Conversas fúteis que Maka apenas preferiu ignorar e dar atenção a qualquer outra coisa mais importante.
Tomou em mãos a taça prateada a sua frente, observando seu reflexo distorcido distraidamente, girando a entre seus dedos. Só finalmente desviando a atenção quando percebeu que o mordomo não voltara só, mas acompanhado de fragrâncias que trouxeram a sede e a fome, até então ignorada, para primeiro plano e sua mente.
As "deliciosas fragrâncias" que haviam feito seu estomago reclamar, e despertado sua fome e sede, vinham das bandejas cheias de almas azuis cintilantes e dos serviçais que a carregavam. Humanos.
Engoliu em seco enquanto eles dispunham as bandejas sobre a mesa, e afastavam-se amedrontados.
Sem esperar um segundo convite, todos os convidados se serviram, espetando as almas em seus respectivos garfos e abocanhando-as sem hesitação alguma. Ainda pulsantes, arriscava em dizer que podia ouvir elas vibrando em socorro.
Maka desviou o olhar de imediato, desligando-se e fingindo que não podia ouvir nada.
Aquele incrível “circo de horror”, como passara a chamar, lhe enojava. Independente de quantas vezes viesse a vê-los.
Mas tinha um porém.
Juntamente com o nojo que tinha, não podia ignorar o fato de que estava cada vez mais difícil mentir sobre o quanto estava faminta.
– Precisa se alimentar – comentou a voz, casualmente.
– Eu tenho me alimentado.
– Me refiro a comer algo em que não bote pra fora logo em seguida. – desdenhou.
– E o que sugere?
– Me deixe no controle, docinho. — a voz do kishin ecoou em minha cabeça
Maka riu
– Francamente. Sente e apodreça de tanto esperar – respondi, expondo o quão ridículo achava a proposta dele.
Fora a vez dele rir.
– Poderia apenas se alimentar sem pensar no que esta fazendo de errado. É a lei da sobrevivência dos mais fortes.
– Essa lei é repulsiva.
– É assim que funciona a natureza, querida.
– Maka. Creio que sua sede e fome devem estar no mínimo... Piores e mais aflitivas do que antes. Estou certa de minha suposição? – pronunciou-se, Medusa.
Demorou alguns segundos para Maka perceber que tais palavras haviam sido dirigidas a ela, dando lhe atenção temporariamente apenas para responder o mais educada que conseguia ser, nas últimas semanas.
– Nunca esteve tão equivocada na minha humilde opinião – mentiu Maka. Em contradição a sua mentira, sua garganta ardeu como se estivesse em chamas, sufocando-a. Maka tocou a garganta tentando amenizá-la.
Medusa riu sarcástica. Todos haviam se calado, atentos ao monólogo que se instalava entre as duas.
– Não se cansa de sua teimosia?
– Talvez não – disse Maka, leviana, dando de ombros, encarando-a desafiadoramente – E você? Não se cansa de me encher o saco?
Alguns murmuraram entre si em relação a ousadia de Maka em soltar uma resposta com aquela.
Medusa riu.
– Ora, não posso simplesmente ignorar, que minha querida convidada – disse Medusa, dando ênfase ao querida, Maka tentou resistir ao impulso de vomitar ali mesmo – Não tem se alimentado direito. Pelo menos do que seu corpo realmente precisa. Acho que sabe bem do que estou falando.
Maka lhe deu devida atenção, cerrando os dentes, irritada.
Claro que, convenientemente, havia alguém me espionando e reportando-a sobre minhas atuais sessões de vômitos indesejadas, resultado de uma ingestão forçada do que obviamente deixara de ser o que seu corpo e alma precisava. Comida humana.
– Você tem sede. Mas não por qualquer coisa. Estamos falando de sangue, querida.
Maka a olhou furiosa, respirando fundo, levantou-se para retirar-se do recinto antes que saltasse a distância que havia entre elas e cravasse suas unhas de encontro ao seu pescoço até que aquela mulher estivesse morta, ou de qualquer inocente ali caso cedesse a sua fome até que se satisfizesse.
– Vamos ver o quanto resiste – comentou Medusa – Faça as honras, por favor. – dirigiu-se ao garoto que segundos atrás estava atrás de Maka, agora estava atrás de uma das serviçais, a lâmina de sua espada a milímetros de distância do pescoço da mulher em prantos.
– O que você pensa que vai...?! NÃO! – gritou Maka, correndo até ele, segundos antes do sangue esguichar, respingando em seu rosto e corpo.
Passou a mão por seu rosto, olhando os dedos manchados daquele sangue inocente. Engoliu em seco, trêmula.
O corpo agora, jazia no chão, sobre uma poça de sangue que se formava do liquido viscoso que ainda saia de sua jugular estraçalhada, os olhos dela vidrados, e as lágrimas ainda marcadas em seu rosto. E a alma brilhante saindo de seu peito.
Percebeu um homem correr até o corpo da humana morta, agachando-se, as lágrimas saindo tormentosamente de seu rosto, como um dia saíram dos olhos de qualquer um que amou e perdeu este de suas mãos. E em pouco tempo seu pescoço também fora estraçalhado, e ele jazia ao lado da outra humana.
O cheiro ferroso agora espalhara-se por todo o ar. Sua garganta ardeu em protesto. Fechou as mãos em punho, com força demasiada para que suas unhas ocasionassem-lhe cortes dolorosos o suficiente para que lhe deixasse sã.
– Vamos! Admita Maka! Está em seus olhos. – disse Medusa. Pelo seu tom de voz, notava o quanto estava deliciada com a cena.
Só então Maka percebeu que a taça prata ainda jazia em suas mãos. Com sua atenção na prataria concentrou-se em seu reflexo novamente. Os olhos alternavam de verde opacos a vermelho vividos e injetados, as presas sobrepujando-se sob seus lábios. Soltou a taça instantaneamente, que contra o piso ecoou o ruído metálico por todo o ambiente em silêncio sepulcral, recuando.
Maka levou as mãos ao rosto, escondendo seu desejo sanguinário ali exposto. Em seguida olhou para os serviçais, que estavam juntos uns aos outros, assustados como ratos, perante um gato. Desviou a atenção deles e caminhou para mais perto dos corpos, levantando a barra do vestido, pisando por sobre a poça de sangue, e agachou-se, ao lado dos corpos, fechando-lhe os olhos.
Recitou um reza baixinho.
– Descansem em paz – sussurrou Maka para que apenas eles pudessem ouvir, e levantou-se, caminhando até o garoto que ainda empunhava a espada desembainhada. Parecia escolher qual seria a próxima vítima. Quando finalmente pareceu ter escolhido, sua espada foi impedida de continuar o percurso até onde seria o alvo, atingindo outra coisa.
A loira, em poucos segundos prostrara-se entre os humanos e o garoto, impedindo o ataque mortal com a espada cravada em seu braço esquerdo, de onde agora o sangue negro escorria por toda a extensão da espada, em direção ao chão.
– Tola! Como ousa... – grunhiu o garoto, preparando-se para afastá-la e retomar seu ataque.
– Recue – pediu Maka, sem olha-lo, a franja cobrindo os olhos.
– Você não tem o direito de me dar ordens – riu com ar de superioridade.
– Recue agora – alertou, olhando-o, os olhos vermelhos intensos e injetados. O rapaz recuou alguns passos instantaneamente, intimidado.
– O que vai fazer se não te obedecer? – desafiou, tentando sem hesito, esconder o medo evidente.
– Bom... Simples – disse Maka, observando o sangue escorrendo por seu braço e pingando contra o chão ritmicamente. – Você morre – sorriu diabolicamente quando uma lâmina surgiu em seu braço, e antes que ele pudesse ao menos perceber o que havia acontecido, decepou sua cabeça, e este desapareceu em cinzas, deixando a alma vermelha cintilante para trás, flutuando a sua frente.
Lambeu a lâmina da foice que havia em seu braço, ainda suja do sangue do rapaz, e a fez sumir, agarrando a alma vermelha com a ponta dos dedos, observando-a enojada antes de abocanhar e engolindo-a inteira.
– Ele arruinou o meu vestido – reclamou Maka observando o tecido rasgado e manchado de sangue.
Agachou pegando a espada que antes era dele, agora no chão observando que seus olhos voltaram a ser verdes e sua aparência bem mais saudável. Um alívio lhe bateu instantaneamente.
Rodando-a entre os dedos habilidosamente, virou-se para os humanos ainda mais assustados. De relance percebeu, Medusa sorrir, achando-se vitoriosa.
Provavelmente minha vida ia virar um inferno, não que já não fosse. Porém, podia piorar.
Mas, quer saber de uma coisa? Não ligo à mínima.
Rodou-a uma última vez entre os dedos habilidosamente antes de virar-se bruscamente para a mesa e jogar a espada com toda a força que pôde, como se fosse uma lança, em direção a Medusa que teve parte dos cabelos cortados e um leve arranhão em seu rosto, ocasionados pela lamina afiada que agora cravara-se na parede da lareira atrás dela. Desviara-se bem em tempo.
– Ops – disse Maka, sorrindo irônica a olhando debochadamente, observando a expressão de divertimento de Medusa desabar de seu rosto sendo tomada pela fúria — Parece que eu errei, não é? Vamos de novo, na próxima eu tenho certeza que não vou errar.
– Como ousa... – disse Mosquito.
– Apenas um pouco de diversão, meu caro – sorriu cinicamente — Está incomodado? Posso dar um jeito nisso — ameaçou-o e este intimidou-se recuando por bom-senso.
– Perdoe-me, Medusa. Acho que acidentalmente acabei matando-o. Era um cachorrinho tão obediente, não era? – colocou a mão sobre a boca, em falsa comoção – Bom, sua alma estava deliciosa, de qualquer forma. Obrigada pela refeição! — disse com a mão sobre a barriga. Virou-se para os humanos, que encaravam-na surpresos, alguns desconfiados.
– Retirem-se – disse aos humanos em tom gentil, apesar das palavras rudes. Eles obedeceram prontamente, retirando-se apressados.
Caminhou até sua cadeira, pegando sua capa e vestindo-a por cima do vestido e pegou uma vela acesa de uns dos castiçais ali de cima da mesa. Levando-a consigo.
– Bom... – comentou Maka fez uma reverência por demasiado exagero em direção a mesa – Passem nada bem, senhores. Com sua licença – sorriu falsamente, dirigindo-se a porta com a vela na mão.
Levou as mãos até a maçaneta, girando-a para abrir a porta.
– Maka – disse Medusa, interrompendo-a.
Maka parou prontamente, porém sem virar para vê-la.
– Sei o quanto está sedenta e faminta. Sabe que não pode resistir para sempre, você cederá ao seu desejo uma hora, ou outra. Nem que eu tenha de usar dos piores artifícios para isso.
Maka continuou calada.
– É só isso que tem para falar? — indagou Maka, impaciente.
– Entendeu? – perguntou a espera de resposta, ignorando a pergunta feita anteriormente.
– Perfeitamente – disse Maka, encerrando aquele curto diálogo, recolocando o capuz e adentrando o corredor escuro a porta atrás de si fechando-se e deixando-a finalmente sozinha, ou quase isso.
To be continued...
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