Feelings Insanes
16 Meetings and Mismatches
Notas iniciais
Feelings Insanes
Estava presa, meus pulsos atados pelos ramos do velho arbusto que afundava seus espinhos em minha pele, tal arbusto, que há um tempo longo demais, jazia em sua existência morta.
O tempo era como o sangue que escorria dos furos produzidos pelos ramos dos braços até o chão, reproduzindo lentamente a dor que corria por toda a minha essência, dor que rasgava minha existência e perfurava-me por dentro, como uma lâmina afiada, penetrando em cada entranha e se retirando, tornando a repetir o processo, em uma dor infinita.
Estava cansada do silêncio, da impossibilidade, da dor física, da dor emocional, da solidão.
Cedi ao cansaço, sentando sobre os calcanhares. Olhando em volta.
Podia enxergar a redoma de escritas que postava-se ao meu redor, suas escritas em um idioma desconhecido para mim, mas que sabia agir como um selo para manter-me presa ali dentro.
Encontrava-se em uma prisão mental, e o mais frustrante estar presa em sua própria mente, sem qualquer mínima possibilidade de fuga à vista.
Tornava-se um fardo mais e mais pesado me manter sã do que viver ali em si, minha memória fragmentava e nublava a cada segundo, minuto, hora ou dia que passava, já não sabia mais se o tempo ali era o mesmo do que um dia fora sua realidade.
Respirei fundo e à todos os pulmões, guardando fôlego, e com as lágrimas ainda rolando por minha face, gritei.
E gritei como se a dor fosse sair com o som doloroso da minha voz.
Apenas por gritar, apenas para ver se a dor excruciante passava nem que só por um mísero segundo. Precisava de mais uma certeza que um dia, ainda estivera na realidade para que não perdesse sua sanidade de vez.
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– É patético — disse a figura loira, largada sobre o trono balançando as pernas esbeltas sob trapos negros que usava como roupa, entediada. Sua mão se estendeu para o prato na mesa que residia ao lado do trono, os dedos enfeitados em longas unhas vermelhas, agarraram uma alma azul que se debateu levemente antes de ser levada a boca, e engolida ruidosamente.
– Ainda não consegue ser tanto quanto você — sussurrou Eruka, esperando não ser ouvida, venenosamente mais para si própria que para qualquer um.
A loira levou seu olhar ao transmissor de tal comentário maldoso à sua esquerda um instante antes de saltar suavemente com a agilidade de uma felina, parando o corpo junto ao dela uma unha apontada em seu pescoço, imobilizando-a, a outra mão contornando pela cintura da bruxa.
– Eu teria mais cuidado com suas palavras, Eruka-san — sussurrou ameaçadoramente ao pé de sua orelha.
Passando sua língua pela pele pálida do pescoço da bruxa, em seguida arrastando lentamente a unha, forte o suficiente para que deixasse um corte superficial que fez com que poucas gotículas de sangue surgissem, com a garganta seca, abriu a boca pronta para morder o pescoço da bruxa, observando os demais súditos na sala olharem indiferentes para ambas. Suspirou entediada com a falta de plateia, e tornou a fechar a boca.
Passando os dedos pelo corte, limpando-o, afastou-se alguns passos levando os dedos úmidos de sangue até boca, enquanto a observava superior, a bruxa caindo ajoelhada aos seus pés.
Deu as costas a Eruka, voltando-se a sentar no trono, desleixadamente.
– Isso tem sido um saco. Ela ainda tem força para tomar o controle por breves segundos — reclama a loira, bufando — E ainda me deixa uma terrível dor de cabeça quando parte.
– Não é por muito tempo, você sabe, Ojoo-sama — diz Mosquito, com devido cuidado, sabendo o quão ela estava irritada com a bruxa dos sapos.
A loira virou-seu olhar penetrante a ele, que se encolheu.
– Obviamente, querido Mosquito-san. Em pouco tempo, ela vai estar fraca o suficiente para que eu assuma o controle total sem impedimentos — sorriu sarcástica mostrando os caninos pontiagudos.
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À frente, os dois homens caminhavam, guiando o restante grupo, o sábio mais velho da vila à esquerda, um homem de estatura mediana, os cabelos e a longa barba já brancos pela idade avançada, acompanhados de rugas que não sabia-se tais linhas de expressão fundas fincadas em sua testa eram realmente da velhice ou obra da preocupação das últimas semanas, quem sabe a junção dos dois, ninguém sabia dizer realmente.
Apoiando-o, seu neto ou qualquer possível geração direta obviamente pela aparência do rapaz que resumia-se a uma versão mais jovem do homem, postava-se ao seu lado, ambos em uma conversa calma e contínua com os demais, porém presente neste, um clima pesado e preocupado instalava-se insistentemente no diálogo.
– As vilas do leste e do sul foram totalmente destruídas — disse o mais velho — Temo que nossa vila seja o próximo alvo.
– Enquanto estivermos aqui, nós não deixaremos que nada de mal aconteça — disse Soul
– É realmente um alívio qu… — disse o neto, sorrindo para Soul.
Soul o olhou confusamente, seus ouvidos zumbiram, impedindo de ouvir o resto da frase.
– Perdão, o que disse? – indagou tenso, as sobrancelhas unidas.
– O quanto nos alivia que vocês estejam aqui justamente nestes tempos tão sombrios — repetiu o rapaz, gentilmente.
– Ah. Nós que agradecemos por nos acolher aqui na... — Soul interrompeu-se, trincando os dentes quando um flash de um acontecimento passado passou por sua memória.
– Está se sentindo bem, Soul-san? — indagou o jovem, olhando-o.
– Onii-chan...? — chamou a garotinha apertando levemente sua mão, o albino virou-se para olhá-la, sorrindo fracamente.
– Estou bem — disse, os dentes apertados em uma tentativa de distrair a dor para outra parte.
Estendeu a perna para mais um passo, sua visão embaçada, o suor frio começando a brotar em sua testa em pequenas gotículas, piscou lentamente a respiração pesada ecoando em sua cabeça. Ofegante, passou as costas da mão, na testa em um ato inútil de secar o suor que logo tornava a brotar em sua testa.
Levou seu pé mais um passo à frente e seus joelhos cederam ao peso cansado, seus ouvidos reproduzindo apenas os zumbidos dos sons advindos das pessoas que o rodearam preocupadas.
Ajoelhado sobre a terra úmida, sua visão perdeu o foco aos poucos.
– Soul-san! — exclamou o jovem, apoiando-o a mão pousando sobre sua testa — Por Kami-sama! Oji-san, ele está ardendo de febre!
O senhor, abaixou-se, pegando o braço de Soul, e puxando levemente as bandagens sujas de cima dos ferimentos da pele brilhante de inchada, um líquido viscoso cor de petróleo saindo misturado ao sangue.
– Isso é… veneno?
Ouviu a voz grave do senhor, antes de sua visão enfim ceder, turvando-se até se tornar um breu, perdendo a consciência.
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Abri os olhos de súbito, reconhecendo-me no mesmo cenário do sonho anterior. Dei um passo à frente, saindo portão a fora, que se fechou com grande estrondo surdo atrás de mim fazendo uma pequena brisa advir e sumir em seguida.
O céu vermelho postava-se acima, as nuvens brilhando com a tempestade de raios que se instalara ali.
Dei alguns passos à frente, notando a enorme redoma feita de escritas em um idioma esquisito à mim, em meio aos mesmos escombros de antes. Aproximei-me observando entre as fendas que se abriam entre as escritas.
Bem no meio, podia notar a figura pequena, de corpo feminino, sentada, a cabeça baixa fazendo com que todo o cabelo viesse a cobrir suas expressões, cabelo este que comprido o suficiente caia leve até alcançar o chão, e os braços finos permaneciam presos por seja lá o que, perfurando a pele pálida em um elegante branco e tingindo-os de negro do sangue que escorria deste.
Um choque me atingiu de súbito.
– Maka — chamei, alto. Minha voz ecoando pelo ambiente deserto — Maka! é você, não é? — tornei a falar em plenos pulmões — Maka, eu sei que é você! Olhe pra mim!
A figura, levantou a cabeça, olhando em minha direção. Podia ver plenamente os olhos verdes marejados. E seus lábios rosados sussurrando o que me pareceu o meu nome.
Estendi a mão para tocar a redoma, quando a percebi olhar preocupada em minha direção, flexionou as pernas para se levantar, lutando contra os ramos e arrebentando os que estavam ali cravados em sua pele com plena força bruta. Lutando incessantemente para conseguir permanecer em pé, tornou a gritar algo em minha direção, enquanto novos ramos voltavam a surgir, prendendo-a de novo mais e mais forte.
Ela pareceu gritar mais uma vez, inaudível à mim.
Encostei a ponta dos dedos na superfície brilhante e recebendo uma espécie descarga elétrica no mesmo instante que me jogou para trás vários metros, fazendo-me rolar até bater de encontro a uma parede em ruínas, onde enfim parei, sentei-me dolorido, limpando o sangue que escorria pela lateral de minha boca com as costas da mão.
– Mas que porra foi essa? — perguntei irritado.
Inspirando fundo olhando em direção a redoma, as mãos apoiadas nos joelhos, ofegante pela pancada nas costas, levantei-me lentamente batendo nas roupas livrando-me de parte da poeira incrustada no tecido, minha cabeça, pesando como se tivesse uma tonelada, reproduzindo perfeitamente uma bela de uma ressaca de uma noite anterior de muita bebedeira, se é que isso fazia algum sentido.
Caminhei até a redoma novamente, tornando a limpar o sangue que voltou a escorrer pela minha boca.
É, talvez tenha sido realmente uma boa pancada.
Maka me olhou, ajoelhada em ramos repletos de espinhos, os mesmos que envolviam sua cintura, pernas e braços, afundando os espinhos na pele pálida que tingia-se de negro, as lágrimas passaram a escorrer dos olhos verdes que tanto amava, dos olhos ao limite da face, pingando no chão.
Observei a negar com a cabeça, não podia ouvir o que ela falava, mas sabia exatamente do que se tratava, meu peito apertou indescritivelmente.
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Ainda sentada sobre os joelhos, olhei para baixo, impotente.
– É muito mais fácil se você simplesmente ceder — sussurrou uma voz em minha cabeça — Quando deixar que a insanidade tome sua existência, não vai mais doer, bem aqui — disse apontando para o coração.
Então era isso? Era só ceder?
– Maka! — ouviu uma voz que não advinha de sua cabeça como as outras — Maka! é você, não é? — repetiu — Maka, eu sei que é você! Olhe pra mim!
Com um choque reconheci a voz, que busquei bem no fundo de minha memória nevoada.
Arregalei os olhos levantando a cabeça. Meus olhos marejaram na hora. Soul estava ali, como a prova da realidade que vinha pedindo. Não sabia se era apenas minha cabeça me pregando uma peça, como uma última dádiva antes da morte, antes da insanidade ou se era realmente real, mas isso nem importava mais, era o mínimo que minha mente me devia depois de tudo.
A memória mais concreta que tinha dele depois de tanto tempo, era bom que me fosse dada justamente agora.
Lutei contra os ramos, tentando-me levantar, arrebentando-os com uma força bruta que nem sabia de onde estava tirando. Mesmo que eles voltassem a crescer e me prender de novo, eu continuava a tentar me levantar, porque Soul estava ali, mesmo que a metros de mim, e mesmo que estivéssemos separados, ele estava bem ali.
Observei o estender a mão em direção a redoma.
Arregalei os olhos de novo. Não. Ele não podia tocar nela.
– NÃO! Não toque! Não se aproxime dessa redoma — gritei e tornei a repetir. Não sabia que efeito elas teriam sobre quem quisesse entrar.
Observei como em câmera lenta uma espécie de força emanar do campo, e em questão de milésimos de segundos depois, Soul sendo arremessado para trás.
Senti a dor como se eu mesma tivesse recebido tal descarga elétrica ou seja lá o que o impulsionou para trás.
As lágrimas escorreram de meus olhos, enquanto eu ainda tentava resistir aos ramos que agora, enrolavam-se mais grossos e mais fortes em minha cintura, pernas e braços, afundando os espinhos na minha pele, fui forçada a ajoelhar. Puxei os braços mais uma vez, resistindo a dor da pele sendo rasgada.
– Soul...
Observei-o se aproximar, limpando o sangue que escorria da lateral de seus lábios com as costas da mão.
Ele não conseguia me ouvir, entendi isso. Mas tinha plena certeza que ele entenderia o que quer que eu tivesse falado, ou iria falar.
Respirei fundo e disse alto o suficiente para eu mesma ouvisse minha voz em meus ouvidos desacostumados. Meu coração parecia ter começado a afundar em meu peito, naufragando como o um navio que agora tinha o forro perfurado. Ele estava tão perto…. E tão longe.
– Soul…
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Afastei o punho pronto para dar um soco.
Tinha de destruir essa redoma, nem que a base de chutes e pontapés.
Em questão de segundos, tomando o máximo de força que pude, deixei que meu punho avançasse, até perceber os pequenos ramos negros que saiam da porta aberta atrás de mim, enrolarem-se em meu punho e o resto do corpo impedindo-me de chegar a redoma, me puxando de volta para dentro da porta. Lutei contra elas, olhando para Maka, que permanecia ali impossibilitada, as lágrimas escorrendo sem fim.
Sabia que ela podia ouvir, mesmo que eu não. Estendi a mão e apontei-a em direção a ela.
– Eu vou voltar, Maka! Me espere, ok? — gritei, soltando-me de uma das que me prendiam — Eu prometo que eu vou voltar. Até lá, por favor, não desista! — disse antes de enfim ser arrastado para dentro, a porta fechando-se na minha frente.
To be continue...
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