Feeling that flies

1 Something absolutely wrong for you


Notas iniciais


Eu nunca te contei que houve uma época em que eu ouvia a musica os barcos do Renato Russo pensando em você. Nem que eu realmente acreditei que você fosse minha Wonderwall, nem que naquela época, eu queria te escrever uma carta como quero agora.

Eu nunca te disse que eu me arrependo de não ter beijado você naquela noite fria em que eu ria sem parar, daquele jeito que você conhece.

Nem que na manhã seguinte, quando você disse que eu parecia estar bêbada de noite, eu quis dizer que eu estava bêbada de felicidade por você estar ali. Nem que chorei por você ter dito, dois dias antes, que você não viria por um ano. Eu nunca disse que quase te amei.

Que boca, a sua. Não é que depois de um tempo, a gente não se comunicou por praticamente um ano?

Não se preocupe, o romance acabou.

Mesmo voltando a falar com você, sinto saudade de quem você era. Hoje você está tão distante. Você se afastou tão facilmente de mim. Você insiste nas pessoas que você mesma diz que são erradas, tendo a esperança de muda-las. Você me contraria até no automático sem saber. Eu sempre me neguei a acreditar nisso, mas acho que nós não somos saudáveis uma para a outra.

Ambas estamos machucadas de várias formas. Precisamos dar um tempo ou vamos nos machucar mais ainda.

Não é uma boa época para nenhuma de nós, você está mais frágil, morde e assopra e só quer si reafirmar, e eu com aquela dose de estupidez que você disse que eu não tinha. Mentira. Eu tenho, e muito.

Minha cabeça não está mais conseguindo engolir tantos sapos, você viu o que acontece quando eu engulo sapos demais.

Você se sente suja, eu não me encaixo em nenhum molde há anos. Não estou tendo paciência para experimentar mais moldes e sustentar a teoria de que um dia caberei em um. Você sabe que eu preciso de um tempo o tempo inteiro. Nossas feridas estão esperando serem curadas por mãos inválidas.

E eu não vou retirar tão cedo todas as palavras afiadas que estão dentro de mim.

Esse foi um dos escritos que escrevi sobre o sentimento que sentia por você no começo desse ano. Foi esse sentimento, de rejeição, que me fez brigar com você.

Esse é só mais algo que escrevo que você não vai ler — mesmo tentando me contrariar, não consegue contrariar a si mesma, você não vai me ler.

Eu não escrevo somente a seu respeito, você sabe disso, — como você, que não me procura exceto se... não houver mais ninguém, última opção — mas você não é a minha última opção de tema, não é assim que rola comigo quando escrevo. Escrevo o que sinto. E demoro, demoro muito porque enquanto escrevo me sinto livre. Enquanto procuro a palavra, o sentido, a ordem, a simetria dos sentimentos traduzidos. Enquanto apago, acrescento, corrijo, leio para compreender, é no processo, e só no processo que me sinto livre. Isso em qualquer coisa. Sou metódica, mesmo que eu tenha me desencaminhado das boas manias e virtudes, o correto. E que bom. Eu realmente fico feliz, mesmo que eu escreva antologias de coisas densas, ácidas, pesadas, é melhor — para mim, unicamente para mim — do que escrever restritamente sobre alguém... inacessível. É isso o que a maioria dos amores — ou quase amores, no meu caso — são (na verdade, ouso dizer que quase todas as coisas o são).

Acabei de reler o último parágrafo. Está bom, apenas bom. Eu sei o que digo, e você sabe que eu estou certa. É na minha certeza que você quer me ver falhar. Gosta de ver a minha cara de espanto e de surpresa por ter errado. Acha engraçado a primeira e última tentativa minha de mostrar que estou certa. Gargalha por dentro com o meu silêncio reflexivo seguinte que tenta entender um erro inventado.

Ha, isso não parece algo amorzinho. Com amor ou rancor?

Certamente ambos, infelizmente. Eu gostaria de ter apenas coisas bonitas.

Tentei várias — duas, mas para mim são várias — vezes escrever sobre aquela manhã de domingo em que estava acordada chorando na sua cama enquanto você dormia. Eu chorava e olhava para você dormindo e me perguntava como posso ser tão suja? Obscura? Carregar esse peso, essa densidade dentro de mim? Fico entediada como você não entendeu ainda. Sim, eu disse certo, entediada. Eu te disse isso quando briguei com você. Que me sentia suja, podre, próxima a você. Você faz isso com as pessoas, sem querer. E sabe, eu sei porquê uns não gostam de você. Essa sua maneira de tá tudo bem não cola. É como se você dissesse que tudo fosse perfeito, e não é. Você se contradiz tanto por afeto, tentando agradar a todos. Só que ninguém, ninguém vai com a cara de quem quer agradar todo mundo. Você se tornou tão forçada que eu não acredito em praticamente nada do que você diz. E nem nas suas lágrimas.

Essa última parte foi um soco no estômago até para eu que escrevi isso.