Fechado Para Reforma!
13 Thunder
Notas iniciais
CAPÍTULO 13: Acampamento Meio-Sangue – Thunder.
Segundo Dia – Parte 5.
Poseidon e Atena caminhavam lentamente até o pavilhão refeitório. Rachel não tinha voltado desde que saíra para acompanhar Apolo, o que era, de fato, muito, muito suspeito.
O deus colocou as mãos no bolso da bermuda jeans, parecendo um pouquinho desconfortável. Atena franziu levemente as sobrancelhas. Quer dizer, eles estavam se dando razoavelmente bem. Um recorde de quase vinte e quatro horas sem brigar pra valer. Bem, então eles não deveriam ficar tão calados assim, certo?
—Huh. – Atena começou e Poseidon olhou para ela como se fosse um ser anômalo de dezoito olhos. – Está tudo bem?
Poseidon piscou duas vezes para se certificar de que não estava imaginando sua rival puxar conversa com ele.
—Hã. Claro.
—Então porque você está tão calado? – Ela deslizou a mão pelos cachos loiros e ele pôde perceber que ela estava um tanto nervosa. – Sabe, você não é o tipo de pessoa que fica sem implicar comigo por mais de dois segundos.
—Só estava pensando.
Ele deu de ombros e Atena abriu um sorrisinho tímido.
—Wow! Não sabia que você era capaz de tanto. – Ela disse, rindo e Poseidon não se conteve também.
—Lesada. Você é que não consegue ficar sem me atormentar.
—É mais forte que eu.
—Compreensível. – Ele concordou e coçou a nuca. – Hm. Eu tava tentando entender nosso progresso nesses últimos dois dias. Quer dizer, nós brigamos. Fizemos um milhão de acordos. Não cumprimos a maioria deles. Brigamos mais nas aulas conjuntas. Você me ameaçou de morte uma porção de vezes, aí eu te irritei mais. Falamos de desenhos e eu descobri que o Patrick ama a gêmea assassina dele.
—Acho que isso é um avanço e tanto. Ao menos eu não tentei te matar fisicamente. – Atena deu de ombros. – Mas isso foi estranho. Considerando que você bolou uma analogia entre os deuses e Bob Esponja.
Poseidon abriu um sorriso enviesado e ergueu as sobrancelhas.
—É. E foi muito div... – Poseidon meneou a cabeça, percebendo o que quase falara. A deusa olhou para ele, entre surpresa e feliz. – Até que não foi tão chato assim.
—Não era isso que você ia dizer.
—Claro que era!
—Mentira! – Atena parou de súbito e se postou na frente dele, fazendo com que Poseidon parasse de andar também. – Você ia dizer que foi divertido! HÁ.
—Não ia não! – Ele negou infantilmente – Você está agindo feito uma criança.
—Eu? Aham... Você que não quer assumir suas próprias palavras.
—Porque eu iria assumir uma coisa que nem terminei de falar?
—Yeah! Isso significa que você ia dizer. E eu estava certa o tempo todo!
—Huh. Droga. Isso não vale. – Poseidon rolou os olhos. – Não é justo me influenciar a falar o que você quer ouvir.
—Admita, Poseidon, você ia falar de qualquer jeito. – Atena desdenhou, fingindo-se de indiferente. – Porque eu sou incrível.
—Sabe, estou começando a achar que você está fazendo toda essa pressão, só porque você quer dizer que minha companhia é excelente e estão sendo os melhores dias da sua imortalidade.
Atena o fitou, levemente atordoada. Poseidon se conteve para não sorrir como quem diz “eu sei que sou o ser mais foda de todo o universo”.
—Eu já disse isso e agora tenho total certeza. Sua mente distorce a realidade. – Ela revidou, estranha e levemente irritada. – Sem falar que essa é a pior teoria da conspiração que eu já ouvi. Sinceramente, inverter as posições com o oponente? Isso é mais velho que Gaia, Poseidon.
—Huh, eu tenho idéias distintas sobre esse negócio de posições. – Poseidon sorriu maliciosamente e Atena sentiu as bochechas formigarem. – Mas não se restringe apenas aos oponentes.
—Você é perturbado!
Poseidon respirou fundo duas vezes.
E uma tensão quase palpável se instalou entre os dois . Atena cruzou os braços em um gesto muito impaciente e deu as costas a ele, voltando a andar em direção ao refeitório.
Oh, droga. Eu não acredito que estávamos tendo outra discussão imbecil! – Pensou Atena, caminhando o mais rápido possível. – Mas era mesmo impossível que ficássemos mais de um dia sem brigar, claro que era. E é verdade que foi uma briga bem idiota, e que eu fiquei irritada sem nenhum motivo. Mas se aquele acéfalo acha que eu vou pedir desculpas, está muito enganado. Porque eu não vou. – Ela ouviu os passos de Poseidon atrás de si e franziu as sobrancelhas instintivamente. – Argh. Eu não quero pedir desculpas por uma explosão sem sentido, mas não seria justo. Droga, droga, droga. Por Hades! Porque logo eu tenho que ser a deusa da Razão?
Atena se virou para trás, pronta pra pedir desculpas.
Poseidon estava a menos de um passo dela, e o resultado foi que Atena acabou esbarrando nele, e seguiu cambaleante quase caindo sentada.
Quase. Porque por mero instinto ele a segurou pelos ombros, impedindo que ela de fato caísse. Atena sentiu a cabeça rodar levemente e seus braços rodearam o corpo dele, buscando desesperadamente um apoio.
Poseidon riu levemente e a deusa franziu as sobrancelhas, confusa com aquilo.
—Você tem o hábito de cair o tempo todo ou só gostou de me abraçar mesmo? – Ele perguntou em um sussurro, com uma pontinha de divertimento na voz. – Porque se for problema de equilíbrio, devia rever isso, não é legal derrubar as pessoas, como você fez comigo na primeira aula de esgrima. Se bem que eu acho a segunda opção mais provável...
—Outch! – A deusa resmungou, recuando um passo e fechando os olhos. – Você quem me derrubou na aula de esgrima.
Poseidon não retrucou nem nada, esperando pelo momento de falar alguma coisa. Alguma coisa que, milagrosamente, não fosse arrogante ou perversa. Quando a deusa abriu os olhos e o encarou, ainda tão perto dele, foi que o deus resolveu dizer aquilo que precisava:
—Me desculpe.
As palavras saíram mais claras do que ele previa, e isso foi um alívio. Atena arregalou brevemente os olhos e concordou com a cabeça, incapaz de dizer qualquer coisa.
Por algum motivo, aquelas duas palavras abrangiam muito mais do que o recente começo de discussão. Pareciam pedir desculpas por todo aquele tempo que eles se consideravam inimigos.
—Eu estou com fome. Vamos?
Poseidon sorriu de canto, mal acreditando que, apesar de algumas recaídas e brigas que naturalmente aconteceriam dali para frente, a trégua estivesse mesmo de pé no final das contas. E naquela noite, pela primeira vez, eles não brigaram nem discutiram coisas imbecis enquanto comiam. Apenas o silêncio confortável mostrava que as coisas estavam se ajeitando.
–X-
Atena bateu com o pé no chão no ritmo da música entoada pelos filhos de Apolo. As chamas da fogueira estavam relativamente altas e brilhantes e a deusa gostava do calor que emanava dali.
É claro que ela preferia ter ido direto para a cama, depois de um dia tão desgastante e potencialmente esquisito como aquele. Mas fora simplesmente impossível deixar os campistas sem supervisão por mais uma noite. Até que não estava tão ruim assim, afinal de contas, Beatles era sempre bom de ouvir.
—All you need is love...
A deusa ouviu a voz familiar de Poseidon cantarolar, enquanto ele se sentava ao seu lado, na arquibancada, em uma pose muito displicente.
—Love, is all you need.¹– Ela completou baixinho demais para que ele escutasse. – Huh, não achei que você fosse ficar para a cantoria e histórias em volta da fogueira.
Poseidon deu de ombros.
—É ligeiramente divertido.
—Hm, quer dizer que uma música é divertida e minha companhia não?
—De novo esse assunto? – Ele rolou os olhos, um sorrisinho divertido deslizando pelos lábios do deus. – Mas você não está querendo se comparar com a melhor banda dos anos 60, certo?
—Claro que não! – Atena riu. – Só acho muito injusto admitir que eles são bons e eu não.
—Eu nunca disse que você não era boa.
Atena nem precisou olhar para o sorriso mais que malicioso que Poseidon exibia naquele momento para entender a colocação. Ela suspirou fortemente ao perceber que devia estar muito, muito, muito corada.
—Você ainda é um grande, grande idiota.
—Eu sei. – Ele riu. – Mas só estava brincando.
—Porque você tem amor a sua vida. – Ela completou.
—Sou imortal, meu bem. De qualquer jeito, acho que vou ter falar mesmo que às vezes, vezes muito raras – Poseidon fez questão de enfatizar o muito. – você é um pouco, hm... legal.
—Eu sei. – A loira repetiu as palavras dele com um sorrisinho meigo.
—Achei que só meu ego fosse imenso. – Ele desdenhou. – E eu ia dizer que passar um tempo com você está sendo diferente, não divertido.
—Tudo bem, Poseidon. – Atena rolou os olhos e se ajeitou melhor na arquibancada. – Acho que seria ferir demais esse seu ego enormemente-gigante pedir pra que você diga a verdade. Mas eu finjo que acredito nessa sua desculpa fajuta.
—Pfff. Desculpa nada.
Poseidon arqueou as sobrancelhas, mentindo perfeitamente.
—E porque é diferente?
Merda. Ele não contava que ela aceitasse com tanta facilidade. E Poseidon não havia pensado em nenhuma desculpa para definir o tempo que passara com ela como diferente. Quer dizer, eles haviam se torturado e feito tudo que estavam acostumados a fazer na companhia um do outro. Bem, eles também tinham se abraçado. Duas vezes. Só aquilo tinha sido diferente (e incrivelmente bom, a propósito). Mas ele nunca, jamais, em toda a eternidade, falaria aquilo.
—Porque você não me criticou, xingou, humilhou e, definitivamente, não disse que eu era um ser acéfalo e estupidamente aproveitador por ter ficado com uma campista.
O deus disse a primeira coisa que veio à cabeça, se arrependendo meio segundo depois. Atena o fitou com um misto de curiosidade e surpresa, cruzou as mãos sobre o colo e suspirou.
—Não foi certo o que você fez. – Ela começou. – Mas eu não me vejo no direito de esfregar isso na sua cara, apesar de ter certa vontade. Acho que é íntimo demais para que eu interfira.
—Você está dizendo que não falou nada só porque não é da sua conta?
Atena concordou com a cabeça e Poseidon se calou, analisando a conclusão dela. O silêncio que se formou entre os dois não foi nem de longe tão confortável quanto o do jantar, mas se manteve até que a próxima música começou a ser tocada pelos campistas.
Um sorriso anormalmente feliz se formou nos lábios da deusa, e ela começou a cantarolar. Os cachos loiros balançavam conforme ela mexia a cabeça e Poseidon se permitiu admirá-la por um segundo. Os olhos cinzas estavam claros e translúcidos, refletindo a fogueira. E ela ficava inegavelmente bonita parecendo tão tranqüila.
—Que foi? – Atena perguntou, ao perceber que o deus a fitava.
—Você gosta?
—De quê?
—Da música. Thunder. – Ele indicou e percebeu o sorriso dela triplicar. – Do Boys Like Girls.
—Sim. – Atena voltou-se para a fogueira, levemente corada sem motivo aparente. E cantou – “I tried to read between the lines. I tried to look in your eyes”
_Mas é claro! A filhinha do papai tinha que gostar de uma música que fala de trovões.
A deusa rolou os olhos da provocação proposital e riu, estranhamente feliz.
—Idiota.
—“I want a simple explanation; what I’m feeling inside...”²– Foi a vez dele completar a música.
E nada fez mais sentido naquele momento.
–X-
¹Trecho de “All You Need Is Love” música da banda The Beatles.
²Trecho da música “Thunder” da banda Boys Like Girls.
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