Fechado Para Reforma!
5 Tempo Livre
Notas iniciais
CAPÍTULO 05: Acampamento Meio-Sangue – Tempo Livre.
Primeiro dia –Parte 4.
Finalmente.
Finalmente.
Finalmente Atena teria paz.
Ao menos era isso que ela esperava, enquanto andava para a Casa Grande, com um sorriso estampado no rosto. Agora ela estava livre por duas horas, para ir ao seu quarto ler, ou na biblioteca que Jenny mencionara, ou tomar um banho relaxante, ou, quem sabe, ajudar alguns de seus filhos com seus projetos incríveis.
Eram tantas as perspectivas boas que Atena sorria só de imaginar. Mas isso tudo foi por água a baixo quando ela viu o deus mais irritante de todos os tempos parado na porta de entrada, a encarando.
–X-
Poseidon tinha acabado de almoçar e percebeu que nem Atena nem Rachel estavam mais no refeitório.
Tempo livre, seu cérebro apitou. E ele esboçou um sorriso de satisfação.
Decididamente ele iria dormir. Ninguém merecia acordar às sete da manhã e ainda treinar aqueles pestinhas tão cedo. Nem mesmo Dionísio.
Poseidon lembrou-se de sua cama arrumadinha no segundo andar e se tele transportou para a porta da Casa Grande. Ele estava prestes a entrar quando viu quem estava indo pra lá também.
Di Imortalles! Até mesmo no tempo livre ele tinha que dividir o mesmo teto que ela?
Com sorte – pensou Poseidon. – ela vai ler em algum lugar enquanto eu durmo quietinho na minha cama e... – Ele abriu um sorriso malicioso. – É. Meu sono pode esperar.
Atena viu que ele a encarava e cruzou os braços, irritada. Ele sorriu ainda mais.
—Ei, o que você vai fazer agora? – O deus perguntou, tentando soar casual.
—No que isso te interessa?
—É sério. O que você vai fazer?
—Ler. – Disse ela, dando de ombros.
—Hm. Quando eu fui pegar o boné, antes de sairmos de manhã, dei uma olhada no terceiro andar e a biblioteca só fala de mitologia. –Ele rolou os olhos. – Acho que você não precisa ler isso de novo, sabe, você tem um conhecimento considerável dos deuses.
—Poseidon, o que você quer?
—Eu?
—É. Não venha me dizer que você se importa com o que eu leio.
—Tudo bem. Eu não ligo para o que uma deusa sem graça como você faz.
Atena o encarou, ele parecia realmente indiferente.
—Eu não sou sem graça!
—É sim.
—Não sou! Eu sou culta, inteligente, civilizada... – Ela deu ênfase na palavra.
—Modesta – Ele a interrompeu, mas ela ignorou.
—Bonita e...
—Bonita? – Poseidon arqueou uma sobrancelha e desceu o olhar para as pernas dela.
—Ei! Tire os olhos daí agora, se quiser continuar com eles no rosto. – Ela disse, um pouquinho histérica.
—Eu só estava avaliando se você é mesmo bonita.
—Não precisa. Eu sei que eu sou.
—É.
Atena arregalou os olhos, não esperava que ele concordasse.
—Mas todas as deusas são. – Concluiu Poseidon.
—Ártemis que não ouça você falando isso.
—Por quê?
—“Os homens não prestam” “Um bando de sem-vergonha” E tudo mais que ela vive repetindo.
—Mas eu não tenho culpa se são todas gostosas. – Ele rebateu e Atena ficou mais vermelha que os cabelos de Rachel.
—Ártemis está mesmo certa.
—Não está não. Ela é ingênua demais para aproveitar a imortalidade. – Ela percebeu a insinuação na frase dele.
Atena ficou ainda mais vermelha e Poseidon sorriu, ele adorava deixá-la sem graça. Sem ouvir mais uma palavra ela entrou e bateu a porta deixando o deus do lado de fora.
–X-
Pelos Deuses! Eu sou uma deusa casta! Não preciso ficar ouvindo essas coisas constrangedoras. Ainda mais quando é aquele asqueroso do Poseidon a dizer. – Pensou Atena, enquanto descia as escadas do terceiro para o segundo andar. – E o pior é saber que ele estava certo. Só tem mitologia nessa biblioteca. Hm, espero que na mala que Afrodite preparou tenha ao menos um exemplar de Harry Potter, ou algum livro da Jane Austen...
A deusa chegou ao segundo andar e foi direto para o banheiro do corredor. Por mais que ela quisesse tomar um banho demorado e relaxante na hidromassagem o tempo que tinha para descansar era pouco, então ela acabou tomando uma ducha rápida.
Atena abriu o armário de toalhas ao lado do chuveiro e reparou que lá dentro tinham três pilhas de toalhas felpudas. Em uma das pilhas, as toalhas eram impecavelmente brancas e tinham uma corujinha bordada. A pilha do meio era de toalhas amarelas e cheia de desenhos divertidos, provavelmente de Rachel. E na outra, um tridente marcava as toalhas azuis.
Oh, não. Não. Só pode ser brincadeira. – Ela resmungou. – Os quartos tem que ser suíte. Eu não vou dividir o banheiro com ele.
Atena se enrolou na toalha branca e foi para frente do imenso espelho da pia.
Ela penteou o cabelo loiro e o prendeu em um coque malfeito, escovou os dentes e procurou suas roupas para vestir.
Oh oh.
A deusa nem sequer passara no quarto antes de entrar no banho. Ela xingou em grego antigo, enquanto espiava pela fresta da porta se não tinha ninguém no segundo piso. E saiu correndo só de toalha até a porta de seu quarto, que, graças aos deuses, não ficava nem a dez passos do banheiro.
Atena fechou a porta e abriu sua mala gigante sobre a cama.
E por muito pouco ela não gritou.
Deuses, onde Afrodite estava com a cabeça? Não havia uma única peça de roupa que Atena considerasse decente. Os vestidos eram ou justos ou decotados demais, ou os dois. As calças jeans eram apertadas e exuberantes, os shorts eram curtíssimos e as blusas e camisetas eram apertadas e com toda certeza evidenciavam a cintura e os seios.
Atena nunca vestiria uma coisa daquelas! Só que ela não tinha muita opção. Ou vestia aquelas roupas, ou andava sem roupas.
A deusa fez uma careta ao abrir a parte de lingeries. E dessa vez ela não conseguiu conter um grito.
Ela mataria Afrodite.
Oh, sim. Mesmo que fosse impossível, Atena tentaria.
Uma morte bem lenta e dolorosa.
Atena já estava até tendo uma idéia do que fazer com os doze pares de salto alto que a irmã colocara na mala. Ela poderia facilmente fazer com que Afrodite engolisse um a um.
Todos os conjuntos de sutiãs tinham renda, seda, penas, frufrus, e qualquer outra coisa que não fosse discreta. Eles eram vermelho, vinho, rosa, azul petróleo, preto, mas nada – absolutamente nada! – era branco, marfim ou bege.
Atena escondeu o rosto nas mãos. O que ela iria vestir?
Depois de analisar as roupas três vezes se decidiu pelo que parecia mais normal. Ela separou as roupas em duas pilhas, classificadas como “Nunca vou usar” e “Razoáveis”.
Escolheu uma camiseta limpa do Acampamento – tinha no mínimo uma dúzia delas. – e uma calça jeans clara e não tão justa. Calçou as meias e um All Star branco, que era um dos poucos sapatos sem salto.
Ela estava prestes a voltar na pequena biblioteca do andar de cima e escolher qualquer livro de mitologia quando o viu sobre a escrivaninha. Na capa, uma garota com um guarda-chuva vermelho em meio à neve.
Enfim ela pegou o exemplar de A Menina que Roubava Livros e se sentou na cama para ler.
–X-
Poseidon entrou na casa logo depois de Atena bater a porta na cara dele. Ele subiu direto para o seu quarto no segundo andar, pra tomar um banho.
Só que não tinha um banheiro no quarto dele.
O único que ele tinha visto no segundo piso ficava no corredor. O deus sabia que perto da sala de estar do andar de baixo tinha um banheiro também, mas esse nem sequer tinha hidromassagem.
Poseidon suspirou enquanto abria a mala à procura de uma toalha e um conjunto de roupa. E ele gemeu ao ver as roupas escolhidas por Afrodite.
Graças aos deuses a maioria fazia o estilo dele, tirando o fato de não haver nenhuma camisa havaiana. Mas ele teve que rolar os olhos ao ver uma gravata e uma camiseta sport fino.
Alguém estava tentando matá-lo de calor? Primeiro as forjas, e depois aquilo.
Há, mas eu não uso essa roupa de pinguim nem por decreto. – Pensou ele, enquanto pegava uma toalha azul bordada com um tridente, e abria a porta indo para o banho.
E só então ele ouviu o barulho do chuveiro ligado.
Droga, só me falta que ela demore meia hora no banho. – Ele resmungou, enquanto fechava a porta novamente e caia na cama.
Não passou nem dez minutos e Poseidon ouviu o barulho de passos no corredor. Passos muito apressados por sinal, e uma porta bateu.
Ele se levantou, um pouquinho sonolento, e foi até o banheiro lavar o rosto. Foi só ele por o pé para dentro e sentir o quão quente o banheiro estava (o espelho embaçado de tanta fumaça) que ele desistiu de tomar banho.
Poseidon lavou o rosto, escovou os dentes, e já estava quase descendo a escada para o primeiro andar quando mudou de idéia. Ele andou calmamente até a porta do quarto de Atena e bateu, esperando resposta.
—Quem é? – Ela gritou. Poseidon não respondeu, até que ouviu a voz dela novamente. – Se for você, Poseidon, não entre!
Ele abriu a porta e entrou no quarto. Era claro, com alguns livros espalhados e tinha algumas roupas e lingeries amontoadas em um canto, mas ele não teve tempo de reparar mais nada pois um travesseiro o acertou em cheio.
Atena estava sentada na cama, com um livro em mãos, e vermelha de raiva. Ela provavelmente o vira analisando “suas” roupas íntimas.
—Eu mandei você ficar fora! Eu podia estar me vestindo, seu pervertido. Saia já daqui!
Poseidon olhou para os sutiãs rendados e depois para Atena. Ele arqueou uma sobrancelha e escondeu um sorriso malicioso. E outro travesseiro o acertou.
—Ai!
—Tchau, Poseidon. – Ela se controlou para não expulsá-lo dali a pontapés.
—Espera. Se fosse qualquer outra pessoa, você deixaria ficar aqui?
—Provavelmente.
—E por quê?
—Porque as outras pessoas não são tão irritantes e perturbadas mentalmente como você.
—Essa não é uma boa desculpa. – Ele rolou os olhos.
—Não é uma desculpa. É um fato.
—Tanto faz. De qualquer maneira, eu vim propor um acordo.
—Não estou interessada.
—Você nem ouviu!
—Nem vou.
Ela voltou a atenção ao livro e ele suspirou.
—Eu juro que não é nada pervertido.
—É isso que eu tenho que fazer para que você saia daqui? – Atena perguntou, irritada por interromper a leitura pela segunda vez.
—Exatamente. – Poseidon sorriu vitorioso.
—Tudo bem. E o que eu ganho com esse seu acordo?
—Pra começar, uma trégua temporária.
—Sério?
—Sim. E também a primeira hora na aula de esgrima, só pra você não usar a desculpa de que eu cansei os campistas e por isso sua aula foi péssima.
—Me parece bom. E o que eu tenho que fazer?
—Ler pra mim.
Atena começou a rir histericamente. Ela não conseguiu parar até perceber que ele não estava brincando.
—Eu vou ter mesmo que ler pra você?
—Depois eu que tenho problemas mentais. Pois é, vai.
—Eu leio e você para de me atormentar?
—Eu tento.
—Acho que isso é o melhor acordo que eu vou conseguir. – Atena colocou um dedo no queixo, pensativa.
—Eu também.
—Mas porque, diabos, você quer que eu leia? Você sabe ler, não é?
—É claro que eu sei! – Ele a encarou, um pouquinho irritado. – Não seja idiota. É só que eu estou com sono.
—Aposto que não é só isso. – Ela rolou os olhos e ele não respondeu. – Tudo bem. Eu não vou contar pra ninguém que você é analfabeto. – Atena segurou uma risada. – A TV Hefesto se encarregará disso.
—Eu não sou analfabeto! Você é mesmo insuportável.
Poseidon chegou mais perto da cama dela e eles apertaram as mãos, selando o acordo. Atena sentiu um pequeno choque ao apertar a mão dele, era como se as pequenas faíscas dos olhos verde dele passassem pela mão dela.
A deusa pegou o livro novamente enquanto ele se jogava displicente na cama. Ela lançou um olhar maligno de “desça da minha cama nesse segundo”, mas ele ignorou completamente. Atena suspirou.
—Pode se sentar na cadeira da escrivaninha. – Ela comentou.
—Estou bem aqui.
—Poseidon!
—É uma trégua Atena. Qual o problema de eu ficar aqui?
—O problema é você.
—Vai ler ou não? – O deus questionou impaciente.
—Como se eu tivesse escolha.
Atena leu o primeiro parágrafo fluentemente até que Poseidon a interrompeu:
—Essa apresentação da morte é estranha. Acho que Hades não é tão sistemáti—
A deusa trincou os dentes e pôs uma mecha solta do cabelo atrás da orelha. Poseidon reprimiu um sorriso retardado.
—Posso continuar?
—À vontade.
A próxima página foi lida em menos de dois minutos. E Atena já estava até se esquecendo de que um ser infame (Leia-se Poseidon) estava deitado em sua cama, enquanto ela se encolhia para ficar o mais longe possível dele, quando o deus resolveu comentar novamente:
—Ah, o negócio da cor do céu. É uma das partes mais divertidas. A analogia é bem maluca e...
—“Mesmo assim, é possível que você pergunte: por que é mesmo que ela precisa de férias? De que precisa se distrair? O que me traz à minha colocação seguinte. São os humanos que sobram.”¹ – Continuou ela, como se não tivesse escutado.
—É nessas horas que é ótimo ser imortal. E divino.
—Você pode ficar calado, por favor?
—Ah, claro. – Ele fingiu indiferença, enquanto ria internamente por vê-la tão irritada.
A deusa leu mais dez minutos, sem interrupções, até que percebeu que ele olhava pela janela distraído.
—Poseidon, você nem está prestando atenção!
—Hã? – Ele perguntou desatento. – O que você falou?
Foi o que bastou para que Atena se levantasse furiosa e o empurrasse porta a fora. Ele começou a rir e ela a acertá-lo com um soco a cada risada.
—Seu idiota! Você queria me irritar! Argh, nojento, estúpido, infeliz! Vou te mandar para o Tártaro, Poseidon.
Ele segurou os pulsos dela, de modo que Atena só se contorcia, sem conseguir bater nele. Poseidon sorriu maroto e ela teve certeza de que se estivesse com as mãos livres quebraria cada maldito dente dele.
—Estamos em trégua, lembra? Depois você continua a ler pra mim. Eu preciso ir dormir.
—Pegue essa droga de trégua e...
—Não acredito que você vai concluir uma frase dessas, Atena, que horror! – Poseidon desafiou.
—SEU. CANALHA. Suma daqui!
Ele deu as costas para Atena, ainda rindo da reação exagerada da deusa quando ouviu a porta do quarto dela bater e ela gritar:
—Não leio mais nenhuma palavra!
—Impossível. – Ele murmurou, enquanto seguia para seu quarto.
Poseidon desabou sobre a espaçosa cama azul e pensou se aqueles sutiãs eram mesmo dela. Ah, sim, porque depois de tanta confusão, o que mais o impressionava era perceber que talvez não tivesse sido tão ruim se ele entrasse no quarto alguns minutos antes. E foi aí que ele adormeceu.
–X-
¹Trecho de “A Menina que Roubava Livros” de Markus Zusak.
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