Fechado Para Reforma!
32 Segredo Revelado.
Notas iniciais
CAPÍTULO 32: Inglaterra – Segredo Revelado.
Sexto dia– Parte 3.
Poseidon estacionou o carro abruptamente na rua de Atena, em frente a mansão da deusa. Ela soltou o ar ao perceber que já estava em segurança. O deus tinha corrido mais do que nunca na volta para a casa e ainda mantinha aquela expressão que a assustava. Ele parecia realmente bravo, mas a deusa não sabia o motivo de tanta fúria.
Ele bateu a porta do carro e não fez nenhuma gentileza, passando direto por ela enquanto a deusa descia com todas as sacolas de compras nas mãos. Atena o seguiu, disposta a perguntar mais uma vez o que estava acontecendo e fez com que o portão se abrisse magicamente e que as sacolas se tele transportassem para seu quarto no segundo andar.
Poseidon adentrou o enorme gramado pisando duro. Tudo o que ele queria era atravessar aquela imensidão verde do jardim e chegar até a Casa, aonde poderia ficar sozinho. Não precisava de Atena em seu encalço. Mas a deusa não sabia disso e o seguiu. Quando ambos estavam na metade do caminho ela suspirou baixinho. Porque ele estava a ignorando?
—Poseidon?
Ele parou subitamente e arqueou as sobrancelhas esperando que ela continuasse.
—O que houve? – A deusa questionou, estendendo uma mão para tocá-lo. Poseidon recuou. – Eu achei que fossemos bater dessa vez, você estava correndo.
—Eu já disse que sei dirigir, por mais que você duvide da minha capacidade. Mas já que você estava com tanto medo assim porque não pegou uma carona com o George? Ele parece ser responsável e lento. Apesar de não perder tempo com outras coisas.
—Do que você está falando?
Poseidon a fitou, extremamente sério.
—Você não sabe Atena? Pelo amor dos deuses, não se faça de ingênua!
—O que eu fiz? – Ela perguntou, ficando levemente irritada com a histeria de Poseidon.
—Você estava flertando com o cara do restaurante! “Oh, obrigada. O senhor é muito gentil. Oh, esse idiota me acompanhando não significa nada, quer ir ali dar uns amassos, a propósito?” – O deus fez uma péssima imitação da voz dela.
—Eu não disse isso! – Atena replicou, massageando as têmporas com a ponta dos dedos. – E não acredito que você está com... com ciúme!
—E PRECISAVA DIZER? Estava estampado na sua testa que você estava à disposição do cara, que ele faz seu tipo, que ele era mil vezes melhor pra você do que eu! Ele estava te cantando e você passou o seu telefone para ele! E SIM, EU ESTOU COM CIÚME!
A deusa respirou fundo. Tudo o que Poseidon estava insinuando era absurdo! Ela não tinha “um tipo”, nem estava interessada no cara. E ninguém em todo o mundo seria mais perfeito para ela do que Poseidon.
Atena afastou esse último pensamento.
—Poseidon, você está paranoico. Eu... só conversei com ele sobre Medicina! Eu não percebi que ele estava me “cantando”, se é que ele estava mesmo fazendo isso. – Estava mais ocupada prestando atenção em você, seu imbecil. Ela engoliu as palavras com certa dificuldade. – E não grite comigo!
—EU GRITO O QUANTO QUISER ATENA! Porque eu estou cansado de ser tão idiota! Cansado de ficar correndo atrás de você, de ser rejeitado um trilhão de vezes e quando finalmente faço alguma coisa que dá certo pra nós dois ver você dando mole pra um cara qualquer! Eu deveria ter ido embora, mas nãããão... Não basta ser trocado por um desconhecido, tem que ser burro o suficiente para ficar assistindo!
—EU JÁ DISSE PRA NÃO GRITAR COMIGO! EU NÃO TE TROQUEI PORCARIA NENHUMA! – Ela respondeu, com os olhos azuis ficando mais tempestuosos a cada segundo.
—AGORA VOCÊ TAMBÉM ESTÁ GRITANDO COMIGO! – O deus acusou. Antes que ele pudesse pensar duas vezes reuniu o máximo de sarcasmo que conseguiu para provocá-la. – E eu tenho todo o direito de corresponder, lembra?
Atena ofegou e tentou controlar as lágrimas que estavam prestes a desabar. A deusa preferia que ele tivesse gritado mais uma vez com ela, que ele tivesse a ignorado, que ele fizesse qualquer coisa... Qualquer coisa que não envolvesse aquela ironia tão dolorosa. Porque a ironia de Poseidon era o que mais a machucava, fazendo com que o coração da deusa se comprimisse e virasse pó. E ele tinha plena consciência disso.
—AO MENOS EU NÃO COMEÇEI A BERRAR INSANAMENTE COM VOCÊ QUANDO FOMOS AO BURGUER KING E A ATENTENDE PRATICAMENTE SE JOGOU EM CIMA DE VOCÊ! – A deusa apenas gritou em resposta.
—NÓS NÃO ESTÁVAMOS JUNTOS! – Ele continuou a torturá-la, fazendo com que cada palavra fosse pontuada com um pouco de veneno.
A deusa sentiu seu coração pesar mais um pouco, sentiu as lágrimas escorrendo livremente pelo rosto, sentiu as pernas bambeando. Sentiu a vontade de fugir, de se esconder, de ficar só e remoer as palavras que ecoavam em sua mente.
—Nós não estamos juntos. – Foi tudo o que ela disse. O deus se calou, surpreso, esperando que ela terminasse de falar. – Você sempre soube, Poseidon! Não tem como dar certo. Eu e você... Sempre foi errado. Não há como existir um “nós”. Fizemos um acordo. Só enquanto permanecermos em Londres. E depois... Bem. Não há nenhum depois pra gente. Você tem o seu reino, seus domínios, seu herdeiro. E eu tenho o meu juramento.
—Então é isso? – Ele perguntou, com a voz falha. – Não significa nada pra você?
A deusa soluçou baixinho. Ela não podia ser fraca... Não naquele momento.
—Não.
O ar pareceu ser expulso dos pulmões de Poseidon. Ele não acreditava no que estava ouvindo. Não podia ser verdade.
—Eu achei que fosse especial, Atena.
—E eu achei que você fosse diferente. – Ela respondeu num sussurro.
—Diferente de quê?
—Não... Não te interessa.
Poseidon teria rolado os olhos se não estivesse tão incrédulo. Ele estava ficando irritado novamente por ser deixado no escuro, por não compreender o que ela estava dizendo. O deus suspirou.
—Mas é claro que interessa!
—Não. – A deusa balançou negativamente a cabeça. – Vá embora.
Involuntariamente, ele se aproximou.
Era uma atitude idiota. Ela estava pedindo para que ele se afastasse. Mas o cérebro de Poseidon não conseguia processar isso. Ele não sabia o que fazer. Em toda sua imortalidade nunca havia sido rejeitado. Mas essa nem era a pior parte.
O que mais doía era perceber que ele estava perdendo Atena. Ela era tudo o que importava. Depois de tanto tempo para aceitar que ele estava apaixonado não podia simplesmente deixá-la.
A deusa se afastou a passos largos.
—Vá embora... – Ela implorou. As palavras pairaram entre os dois e nenhum deles ousou dizer mais nada.
E naquele momento, a loira desejou ser uma mortal.
Ela queria morrer.
Queria desaparecer.
Faria qualquer coisa para que aquela dor passasse. Qualquer coisa.
Sem dúvida, mandá-lo embora estava sendo mais difícil do que ela imaginara. Era doloroso ver as próprias palavras sendo absorvidas pelo deus. Ver a reação dele. Ver as sobrancelhas negras se juntando em um vinco, vê-lo engolir em seco, vê-lo se aproximar sem poder fazer nada. Quando tudo que ela mais queria era abraçá-lo. Prometer que tudo ficaria bem, que eles tentariam outra vez... Mas ela não podia.
Atena se virou de costas para Poseidon e saiu correndo para a porta da casa, atravessando o gramado o mais rápido que conseguia. Ela sentia as lágrimas geladas escorrendo por sua face e não conseguia enxergar o caminho. Tudo que fazia era fugir, como sempre.
Poseidon ficou estático a observando partir. E aquilo doeu como nunca. Ele não podia deixá-la. Era insustentável. O deus suspirou e passou a mão nos cabelos desalinhados antes de ir atrás dela.
—Atena. – Ele sussurrou, a segurando pelo braço a dois passos da porta de entrada.
A deusa fungou e se desvencilhou de Poseidon, entrando rapidamente na sala de estar e o deixando do lado de fora. Ele ouviu a porta bater ruidosamente e girou a maçaneta, sem se importar se ela queria ficar longe dele, sem se importar se ele estava sendo idiota, sem se importar com o pedido dela para que ele fosse embora. Tudo o que precisava naquele momento era esclarecer as coisas, porque ele não aceitaria assim tão fácil as palavras dolorosas de Atena.
Poseidon bufou extremamente frustrado. Não dava pra adiar o que estava sentindo e nem engolir todas as palavras que o sufocavam por mais tempo. Ele ouviu os passos dela e a viu subindo a escada a alguns metros de distância.
—Atena? – Ele chamou mais uma vez. A deusa não respondeu.
Tudo pareceu se passar em câmera lenta.
A voz dele chamando o nome dela fez com que Atena parasse de subir os degraus, sem forças pra continuar. Parecia que os pés da deusa pesavam um milhão de toneladas e o vestígio do que um dia fora o coração dela pulsou mais uma vez.
E no segundo seguinte Atena cambaleou. Seu corpo inerte balançou-se para trás e ela perdeu o controle sobre suas pernas, caindo do degrau que estava parada. A loira tentou inutilmente segurar o corrimão, mas seus dedos não a obedeciam. Ela já podia imaginar a dor da queda de um lance tão alto de escadas, não que ela se importasse muito com aquilo, pois tudo dentro da deusa já doía.
Mas ela não caiu.
Poseidon subiu a escada correndo e quando deu por si estava segurando Atena no colo. A deusa aspirou o perfume delicioso de menta que emanava do deus e fechou os olhos, sentindo os braços fortes e torneados dele em volta do seu corpo frágil. Aquilo não estava certo.
O deus a colocou sentada em um dos degraus e se sentou um degrau abaixo dela. Poseidon segurou as mãos da deusa entre as suas e sentiu uma dor intensa no peito ao ver os lindos olhos azuis dela cheios de lágrimas prestes a desabar.
—Hey. – Ele passou um dedo na bochecha dela, secando as lágrimas. – Psiu. Atena o que está acontecendo?
A deusa precisou de alguns segundos para recuperar a voz e sussurrou em resposta:
—Você não entende?
—Não muito bem. Eu... fui um tremendo idiota por ter ficado com ciúme daquele cara. E mais imbecil ainda por ter gritado com você. Mas eu sei que não é só por isso que você está assim. E eu não sei o que está acontecendo entre a gente. Já tentei analisar e... não dá, Atena. Não dá. Parece que estou sempre no escuro, que você está escondendo algo de mim. E mesmo sendo tão cafajeste e detestável eu acho que merecia saber.
—Eu sei, Poseidon.
—Então porque você não me explica o que houve?
—Porque eu não posso.
—Atena. – Ele implorou, seus olhos ficando verde opaco. Atena se contorceu ao vê-lo sofrer. – Você disse que me achava diferente... O que isso significa?
—Eu também disse pra você ir embora. – Ela respondeu esquiva, sentindo mais lágrimas escapando de seus olhos. Era melhor que ele não soubesse.
—Mas eu não vou. Eu não posso ir. Eu nunca vou te deixar. Entende?
—Vai sim Poseidon. Porque, no fim das contas, você não é diferente.
Poseidon absorveu aquelas palavras tentando entendê-las. Não sabia ao que ela estava se referindo. Não sabia por que ela não abaixava logo as muralhas de gelo e contava tudo a ele.
E subitamente ele percebeu... só podia ser uma coisa.
—Isso... tem a ver com seu juramento, não é?
A loira afundou o rosto nas mãos e não respondeu. Poseidon esperou calado. Ele esperaria até que ela estivesse disposta a falar do assunto. Atena ergueu a cabeça cerca de um minuto depois, seu rosto ainda estava vermelho e úmido, mas ela não derramou mais nenhuma lágrima.
—Se você quer mesmo saber. Sim. Está totalmente relacionado ao meu juramento e ao motivo de eu tê-lo feito.
—Eu quero mesmo saber.
—Mas... eu não posso te contar, Poseidon.
—E por quê?
—Porque você não entenderia.
—Você nunca vai saber se não me contar, Atena. Eu preciso que você confie em mim e me conte de uma vez por todas o motivo da sua insegurança. Eu preciso saber por que é que você está desistindo de nós.
—Eu nunca contei isso pra ninguém Poseidon. Ninguém. Porque, todos os dias, eu tento esquecer o que aconteceu. Todos os dias eu tranco essas memórias para que elas nunca voltem. Todos os dias eu tento levar o juramento a diante. – A deusa disse com pesar. Poseidon abriu a boca para falar algo, mas ela não deixou. – Não... Não me interrompa.
“Tudo aconteceu pouco depois de eu ter saído da cabeça de Zeus. Era tudo muito novo. Eu estava descobrindo os mortais, conhecendo a maioria das pessoas e dos deuses. Como a Deusa da Sabedoria, obviamente eu já sabia tudo o que precisava, mas só na teoria. A prática era realmente diferente. Tinha se passado cerca de uma semana do meu nascimento quando o Núcleo da Civilização Ocidental se mudou da Grécia para Roma e eu tive que atuar como uma deusa Romana também, mesmo que em Roma eu fosse uma deusa muito menor e mais ignorada. Até então, eu só conhecia Afrodite, Zeus e Hera.
“Meu pai decidiu que nós quatro nos mudaríamos para Roma primeiro, para concretizar a crença dos Deuses Romanos. E nós fomos. Se você se lembrar, eu só conheci você e os outros deuses quase seis meses depois de ter nascido e na Itália. E eu já tinha um juramento a manter.
“Hera e Zeus estavam bastante ocupados, arrumando tudo para que a Civilização Ocidental se fixasse no novo país e eu passava todo meu tempo com Afrodite, aprendendo um pouco mais sobre os mortais e seus costumes. Era divertido tê-la como amiga e eu adorava aprender mais e mais. Até que um dia as coisas deram completamente erradas.
“Eu estava indo assistir as justas no Coliseu quando me perdi de Afrodite. Fiquei completamente apavorada, a um primeiro momento. Eu não podia usar meus poderes porque estava cercada de mortais e não tinha ideia do que fazer. Foi quando o encontrei. Seu nome era Heráclito. Ele esbarrou acidentalmente em mim e a primeira coisa que vi foram seus olhos verdes. Ele me perguntou se estava tudo bem e eu sorri. Não sabia como reagir.
“E nas próximas duas semanas tudo que fazia estava diretamente ligado a ele. Heráclito era meu mundo. E, honestamente, eu me sentia estranha longe do mortal. Eu o adorava. Cada minúscula partícula do meu ser necessitava da companhia dele. Eu amava o sorriso de lado dele, amava o jeito charmoso com que ele despenteava o cabelo loiro-cacheado, amava quando discutíamos algo potencialmente estúpido e amava o jeito que ele me provocava, me deixava irritada com as menores bobagens e depois me surpreendia. E então eu percebi que era coisa de Afrodite. Eu estava apaixonada por ele.
“E estava confusa também. Heráclito era o mais intrigante mortal que eu já conhecera na vida e eu confiava nele como nunca havia confiado em ninguém. Nossa relação era um paradoxo. E ele acreditava fielmente nos deuses. Talvez tenha sido isso que mais me encantou nele. De todo modo, depois de mais de um mês não havia mais como negar meus sentimentos. Foi quando ele resolveu me beijar. Aquela era a melhor e a pior sensação do mundo. Era tudo. E foi isso que bastou. Um maldito beijo.
“No dia seguinte o levei ao Olimpo. Ele não acreditou, dizia que era surreal, que não podia ser verdade. Que ele amava uma deusa. Eu não esperava por aquilo, nem em um milhão de anos. Passaram-se mais dois meses. E então eu convenci Zeus. O que, sem dúvida foi o maior erro da minha vida. Eu convenci meu pai a fazê-lo imortal. E assim foi. No segundo em que lhe concebemos imortalidade, ele se tornou um deus menor. E eu fiquei extremamente surpresa ao perceber do que ele se tornara deus. Heráclito era o mais novo deus do Ódio e do Caos.
“Nos primeiros momentos neguei que aquela fosse a verdadeira vocação dele. Ele não era mau, não podia ser um deus de sentimentos tão ruins. Mas eu estava enganada e só fui perceber isso tarde demais. A cada dia que passava Heráclito conseguia mais poder e influência sobre o povo Romano, disseminando o Ódio e a injustiça. Eu tentei contê-lo, nós estávamos juntos e nos amávamos. Ao menos era isso que eu pensava.
“Uma pequena guerra civil foi gerada pelos poderes de Heráclito e eu contive a batalha. Quando voltei para o Olimpo ele me esperava lá. Mas não estava sozinho. Ele tinha concebido a imortalidade para uma garota. E só então eu entendi. Ambos planejavam tomar o poder e me manter afastada na guerra. Eles só queriam comandar o Olimpo. Desde o começo ele sabia que eu era uma deusa, ele era um mortal quando o conheci, mas um mortal como Rachel, que não é enganado pela névoa. Ele tinha me usado.
“Tentei impedi-los, mas só consegui detê-los com a ajuda de Zeus. Meu pai revogou a imortalidade dos dois e os condenou a uma eternidade nos Campos de Punição do Mundo Inferior. Eu estava arrasada. Não sabia o que fazer. Afrodite se desculpou, dizendo que era culpa dela eu ter me apaixonado, mas não era. E então eu decidi fazer O juramento. Eu juraria pelo Estige nunca mais me envolver emocionalmente com nenhum homem e de me manter casta, pois havia colocado em risco todos os deuses e o Olimpo. Meu pai teve que concordar, pois era o certo a se fazer e era uma de suas obrigações como o Deus da Justiça e nós apagamos essa parte trágica da guerra da história. Mas de última hora Hera me convenceu a não jurar pelo Rio Estige, pois ela como Deusa do Casamento, não compactuava com a ideia de um destino tão triste para mim. Então eu apenas jurei perante o Rei e a Rainha dos Deuses.
“Os outros três meses passaram voando, e eu tentei me recompor. Foquei nos estudos, em aumentar meus conhecimentos e acima de tudo em esquecer o passado. E funcionou. Bem... até o momento em que voltamos para a Grécia. Nós íamos passar apenas um mês na Grécia, pois a cidade de Atenas (até então sem nome) precisava ser nomeada. Conheci os outros deuses. E obviamente, conheci você Poseidon. Um calafrio estranho percorreu a minha espinha quando te vi pela primeira vez e eu pensei ter algo bastante conhecido em você. Mas só percebi o que era no dia em que você criou aquela maldita fonte de água salgada e eu criei a oliveira para presentear os cidadãos na disputa pelo nome da cidade.
“Eram seus olhos. Eu os conhecia. Eram idênticos aos de Heráclito. Mas a aparência física não foi o que mais me assustou em você, pois nesse quesito vocês só tinham os olhos em comum, uma vez que ele era loiro, baixo e não-musculoso. Então eu fui percebendo outras semelhanças entre vocês dois. A maneira como seu sorriso era desconcertante. A maneira como você despenteava os cabelos. O jeito como você me provocava, ou me deixava com vergonha... Porque, Poseidon? Porque você tinha que ser tão malditamente parecido com ele?
“Eu me perguntei isso durante dias, sem conseguir chegar a uma conclusão. E então tudo que pude fazer foi me afastar de você. Foi começar a odiá-lo. Foi brigar com você, foi tomar as brigas e dores de Zeus, guardar rancor e te considerar o ser mais desprezível da face da Terra. E depois de alguns anos isso foi se tornando minha realidade, você foi se tornando meu inimigo, você passou a ser apenas uma criatura marinha asquerosa da qual eu precisava me afastar. Porque eu sabia que você seria minha perdição.”
A deusa terminou de contar toda a história e encarou Poseidon no fundo de seus olhos verdes. Se sentindo estranha por observar aqueles olhos outra vez. E foi só aí que ela percebeu que ele era diferente de Heráclito. Porque Atena soube, ao olhar naquelas duas orbes reluzentes, que ela realmente o amava. Como nunca havia amado ninguém. Mas talvez fosse tarde para ela perceber isso.
Poseidon se levantou da escada e soltou a mão dela, ainda em estado de choque. Ele não acreditava em tudo que tinha acabado de ouvir. Não conseguia formar uma linha de raciocínio, não sabia como lidar com a situação.
—Eu preciso ir. – A voz do deus soou metálica e sem emoção e no segundo seguinte ele desapareceu deixando para trás apenas o cheiro de brisa marinha.
Poseidon disse que nunca ia me deixar. E agora ele se foi, conforme eu pedi. Ele realmente se foi. – Foi o único pensamento de Atena ao sentir suas lágrimas incontroláveis escorrendo pelo rosto. E ficou onde estava. Despedaçada e chorando.
–X–
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