Fechado Para Reforma!
43 Reinauguração do Olimpo
CAPÍTULO 43: Monte Olimpo – Reinauguração do Olimpo.
Atena se enrolou na toalha e prendeu o cabelo molhado em um coque malfeito. A deusa se analisou no espelho por alguns momentos após o banho. Ela não era fã de maquiagem nem nada do tipo, mas essa noite certamente era uma daquelas ocasiões em que ela teria que usar pó, base e outros produtos no rosto e não somente porque iria a uma Festa Olimpiana, mas também para esconder os sinais de que estava extremamente cansada e que estivera chorando.
Ela fitou o teto por longos segundos para impedir que mais lágrimas caíssem. Não adiantava nada chorar. A loira suspirou, meio frustrada e saiu do banheiro indo em direção a seu closet gigantesco. Deuses, como ela havia sentido falta de suas próprias roupas!
Atena tinha combinado com Poseidon que cada um iria para seus aposentos no Monte Olimpo para se prepararem para a festa e que se encontrariam em frente à fonte no jardim do Palácio Principal as oito em ponto.
Todos os deuses tinham quartos no Palácio Principal, caso desejassem se hospedar ali, mas também tinham seus Templos e Palácios Privados espalhados pelo Monte. Atena normalmente morava no Palácio Principal, devido à praticidade de acesso a biblioteca e também para ficar mais perto de seu pai. Poseidon, por outro lado, ficava com frequência em seu próprio palácio no monte, pra ficar longe de Zeus. Aquele dia não era diferente.
Atena estava decididamente curiosa para visitar o templo de Poseidon, mas devido às circunstâncias achou melhor ficar na sua cobertura. Oh, sim, porque o “quarto” de Atena era um enorme apartamento.
A deusa parou de divagar e passou os olhos por todos os vestidos que estavam pendurados no seu closet. Metade deles era branco ou marfim, largos no corpo e um pouco justos na cintura, nenhum desses batia acima do joelho. Alguns outros eram mais curtos, mas não eram de festa e a deusa os usava para ficar em casa. Sem chance de ela ir à Reinauguração com qualquer coisa que estava ali.
Sem perder tempo Atena atravessou seu apartamento até seu quarto e se deixou afundar na penteadeira que Afrodite tinha colocado ali há muito tempo atrás. Por mais que ela se negasse a admitir aquele era um bom momento para que a deusa do amor aparecesse com alguns vestidos e conselhos.
Atena levou alguns segundos imaginando como Poseidon se viraria para se arrumar, sendo que devia cuidar de John ao mesmo tempo. Ele dissera que provavelmente pediria ajuda a uma ninfa para olhar o bebê por alguns instantes, mas Atena não o imaginava fazendo isso.
Ela teve a agradável visão de Poseidon em um terno e foi aí que se lembrou de que ela tinha um vestido para usar. A deusa abriu um sorriso antes de correr até a sua enorme mala de viagem.
–X-
Duas batidas na porta foram o suficiente para que a deusa da sabedoria sentisse o coração acelerar e suas mãos ficassem geladas. Poderia ser Poseidon, descumprindo o combinado e se esgueirando para seu quarto; poderia ser Zeus, vindo dizer a ela que havia mudado de ideia e que agora ela não passava de uma mortal, ou, pior, poderia ser Afrodite querendo conversar sobre os sentimentos de Atena. Só de pensar nessas possibilidades ela sentiu a cabeça girar.
—Atena? – A voz não era de ninguém que ela esperava. Hera abriu a porta e colocou a cabeça no vão, olhando para dentro do quarto. – Você está aqui?
—Sim! Pode entrar.
Hera entrou no apartamento e foi até o quarto de Atena, parando educadamente na porta.
—Wow, você está linda, Atena. Acho que nunca te vi nessa cor de vestido, o tom fica perfeito em você.
—Obrigada. – A deusa da sabedoria abriu um sorrisinho de canto. – A que devo a honra da visita da Rainha dos Deuses?
—Oh, pare com isso. – Hera dispensou as formalidades com um aceno de mão e se sentou na beirada da cama de Atena. – Vim ver como você está.
—Bem. – A loira mentiu.
—Atena, te conheço a três mil anos. Eu sei quando as coisas estão erradas. Além do mais, Afrodite me disse que você estava passando por um momento emocional difícil e eu vi que Zeus parecia um pouco chateado quando cheguei ao Olimpo. Quer falar sobre isso?
Atena batucou com a ponta dos dedos no tampo da penteadeira. Ela poderia matar Afrodite por ser tão linguaruda. Hera provavelmente percebeu a expressão assassina no rosto da deusa, pois acrescentou:
—Não fique brava com Afrodite. Todos nós sabemos que ela simplesmente não consegue se manter neutra quando o assunto é sentimental.
—E onde ela está?
—Oh, em algum spa em Manhattan. Ela disse que era melhor dar um tempo pra você pensar. Ainda sim, achei que seria bom vir até você.
Atena sorriu, realmente agradecida.
—Tudo bem. Seria ótimo ter alguém pra conversar.
—Oh, sou toda ouvidos. Espere – A morena fez uma pausa dramática e analisou Atena com um dedo no queixo. – acho que posso te ajudar com seu cabelo enquanto você me conta.
—Isso seria mesmo incrível. Eu não faço ideia de como arrumá-lo.
Hera riu e pegou um punhado de cremes, fixadores, grampos, escovas e enfeites e começou a pentear o cabelo loiro de Atena.
A deusa da sabedoria gaguejou algumas vezes enquanto contava absolutamente tudo que tinha acontecido desde que ela colocara os pés fora do Olimpo. Ela falou sobre Poseidon, sobre os dias no Acampamento, sobre o que eles haviam feito em Londres (diferentemente do que Afrodite teria feito, Hera não perguntou nenhum detalhe picante ou sórdido), sobre como ela não percebera que estava apaixonada, sobre o pedido de namoro, sobre o bebê e Anfitrite e por fim repassou a conversa com Zeus.
Hera escutou tudo com atenção enquanto trabalhava no penteado e hora ou outra a deusa do matrimônio erguia uma sobrancelha ou deixava uma expressão de surpresa passar pela sua máscara de concentração. Quando Atena acabou de contar a morena já estava aplicando spray fixador em um coque elegante e bem-feito que deixava a franja e algumas das mechas de cabelo soltos emoldurando seu rosto.
—Eu quebrei meus votos e gostaria de me redimir, pois fiz o juramento perante você e a meu pai.
—Atena. – A morena pegou nas mãos dela e a guiou até a beirada da cama, para que se sentassem frente à frente. – Lembra-se que quando você foi fazer o juramento eu pedi para que você não jurasse sobre o rio Estige?
Atena anuiu.
—Não posso dizer que sabia que você iria se apaixonar, ou que quebraria seus votos, longe disso. No entanto, eu achei que aquela punição era dura demais, até mesmo pra você. Você cometeu um grande erro, mas não foi irreparável e eu não achei justo que você pagasse por ele durante toda sua eternidade. Nossas escolhas moldam os nossos caminhos, mas não nos moldam. E você não deveria sofrer ou afastar-se do amor para sempre por causa da sua escolha errada. Mas conhecendo você do jeito que eu conhecia, eu sabia que demoraria muito tempo para que você se perdoasse, Atena. Então permiti que você fizesse o juramento, mas desde que ele fosse feito a mim e a Zeus, porque assim se ele fosse quebrado, eu estaria disposta a te perdoar. Não acho que quebrar esse juramento seja um erro, de maneira alguma, acho que é na verdade uma forma de você se consertar.
Atena sentiu as bochechas esquentarem e mordeu o lábio inferior. Ela estava sem palavras, não imaginava que Hera pudesse ser tão... amável. É claro que ela sabia da bondade da morena, mas a rainha dos deuses também era conhecida por ser vingativa. Atena definitivamente não esperava aquela reação.
—Só estou um pouquinho surpresa por ter quebrado os votos com Poseidon. – Hera ergueu uma sobrancelha bem delineada, com um olhar atrevido. – Não muito, sabe como é...
A loira riu e abraçou a madrasta.
—Oh, Hera! Muito obrigada. Sério. Eu não sei como te agradecer por ser tão compreensível.
—Eu sei. Me convide pra ser madrinha do casamento. – A deusa piscou.
Atena arregalou os olhos e fez com que a outra risse.
—Não estamos pensando nisso ainda.
—Pfff. Não me venha com essa, querida. Sei que Poseidon é lerdo, mas nem tanto. Ah, e quanto a seu pai, não se preocupe. Ele te ama demais e não aguentaria de te perder, mesmo que isso signifique que ele terá de aturar Poseidon como genro pelo resto da eternidade. Ele vai superar isso e te perdoar.
—Espero que sim.
—Pode ter certeza. Bem, agora vou me arrumar para a Reinauguração, já são quase seis e meia e eu ainda não fiz nada! Di Imortalles!
—Tudo bem, obrigada pela conversa.
—Oh, imagine. Sempre que precisar.
A deusa do matrimônio desapareceu dos aposentos de Atena alguns segundos depois e a loira se sentiu ao mesmo tempo imensamente aliviada por ter falado com Hera e pesarosa por ainda ter que se maquiar.
–X-
Poseidon sentia um frio na barriga ao esperar por Atena ao lado da fonte do jardim. Ele encarava os anjos perfeitamente esculpidos que esguichavam água e imaginou pela milionésima vez porque alguém construía fontes com anjos. Não fazia o menor sentido colocar a imagem daquela criaturinha nua em meio a luzes e água extremamente gelada.
Ele bufou ao perceber o rumo que seus pensamentos estavam tomando. Devia ser o nervosismo. O deus apertou o pequeno John ainda mais contra si mesmo, fazendo com que o bebê dorminhoco ficasse mais bem acomodado. O pequeno John era relativamente grande para sua idade (dois dias), já que ele aparentava uns dois meses. Mas isso era normal, considerando que ele era um deus menor. Normalmente, os deuses menores se desenvolviam mais rápido na primeira semana de vida (chegando há aparentar seis meses) e depois entravam em um ritmo bem lento de crescimento, até que com um ano se equiparavam a um humano no peso e na idade adequada.
Poseidon tinha colocado um macacão fofinho no bebê, que imitava o modelo de um terno, apesar de ser bem confortável e também penteara os volumosos fios pretos de cabelo para que ele ficasse ainda mais fofinho. Ainda sim, era difícil esquecer a sensação de que o seu estômago estava afundando de nervosismo. Pela primeira vez na vida ele estava no horário e Atena atrasada, okay, cerca de três minutos, mas ainda sim atrasada.
O deus estava prestes a consultar o relógio novamente quando a viu. E perdeu o fôlego, literalmente.
Atena estava usando um vestido azul royal que contrastava perfeitamente com a pele clara dela, e tinha também um decote bem profundo que valorizava o colo da deusa. O vestido era justo até a cintura e depois se soltava do corpo e ia até os pés em uma cauda rodada. Ela estava absolutamente linda com um coque e com as bochechas coradas.
—Wow.
—Exagerado?
—Perfeito.
Ele inclinou-se para ela para juntar seus lábios, mas Atena se desviou e passou a mão pelo cabelinho de John, depositando um beijo na testa do bebê. Poseidon franziu as sobrancelhas.
—O que foi?
—Er... Eu acho melhor não nos beijarmos até anunciarmos que estamos juntos.
—Tudo bem. – O deus deu de ombros e indicou um dos braços para que a deusa segurasse, uma vez que ele não podia dar a mão para ela já que segurava John. – Me acompanhe, Lady Atena.
—Hm... Poseidon?
—Sim.
—Tudo bem se nós não entrarmos juntos também? – Ela perguntou, cautelosa. – É só que... seria um choque muito grande, considerando que você já vai entrar com o John.
Ele pensou por alguns segundos.
—Tudo bem. Vou esperar mais um pouco e pular a recepção e os agradecimentos à Annabeth e entro antes do banquete começar. Te encontro depois, ok?
—Ok.
A deusa observou os olhos verdes que mais pareciam duas esmeraldas brilhantes do deus antes de sussurrar um “Eu te amo” e desaparecer por entre os arbustos a caminho do salão de festas.
–X-
Atena cumprimentou Annabeth que estava acompanhada de Percy na porta do salão e a parabenizou pelo trabalho. De fato, o Olimpo tinha ficado incrivelmente lindo com o trabalho de restauração e reforma coordenado pela semideusa. Os dois eram os únicos convidados do Acampamento Meio-Sangue para a comemoração olimpiana.
Após alguns minutos conversando sobre arquitetura com a filha a deusa se retirou para a enorme mesa de jantar. Cerca de cem deuses menores haviam sido convidados, além dos doze
Olimpianos e de Hades, então a deusa se sentiu meio perdida, pois não sabia onde se sentar já que seu pai não tinha sequer lhe lançado um olhar.
A deusa passou por alguns deuses, dizendo olá a todos eles até que viu Ártemis balançar a mão enfaticamente apontando para cadeira a seu lado. Atena se esgueirou até lá e se sentou entre Ártemis e Deméter. Afrodite passou por lá e sorriu para a loira, parando para dar dois beijinhos na bochecha e sussurrar que queria detalhes quentes antes de seguir para o próprio lugar.
—Olá, Deméter.
—Olá querida, como está? Ah, estou péssima. Aquela semana extra no Mundo Inferior foi tão desgastante, você nem imagina! Aquele cabeçudo do Hades sequer deixou eu colocar mais cereais nas refeições de Afrodite e de Perséfone...
Deméter começou seu discurso interminável falando das mil e uma inutilidades de Hades e a deusa da sabedoria ficou satisfeita ao ouvir a voz de Ártemis ao seu lado, a tirando daquele monólogo.
—Olá, Atena.
—Oi, Ártemis. Como está?
—Bem. Agora.
—O que houve?
—Achei que Afrodite fosse se sentar aqui e quase tive um ataque. Ela me perseguiu a semana toda.
A loira se sentiu meio culpada, mas riu daquilo.
—Acredite, eu te entendo.
—Argh. Eu gostaria de matá-la.
—Podemos bolar um plano. – Atena sugeriu.
—Quem dera ela fosse o único ser imortal do qual eu quero me livrar. – Ártemis olhou rapidamente para Apolo antes de fitar as próprias unhas.
—Você está falando do Apolo? – A deusa da sabedoria fez-se de desentendida.
—Não é uma boa hora para falar sobre isso.
—Por quê?
—Ah... Hm... – A ruiva ficou com as bochechas da cor dos cabelos e não ousou olhar para Atena. – É que ele é bem irritante e foi horrível passar a semana com ele.
—Mesmo? Eu adoro Apolo. Ele é sempre tão divertido, espirituoso e carismático. E tem um coração de ouro.
—Mas... Ele é homem. – Ártemis insistiu.
—E ainda é incrível, um amor de pessoa.
—Eu sei. – Ela sussurrou tão baixo que Atena jurou ter imaginado aquela resposta.
A deusa estava extremamente surpresa. Ela nunca tinha visto Ártemis reconhecer absolutamente nada de positivo em nenhum homem. Nenhum. Se Atena pudesse apostar, diria que de um modo ou de outro Apolo conseguiria conquistar a irmã gêmea, mesmo que levasse mais mil anos.
Ela estava prestes a falar algo quando Zeus começou seu discurso. Ele agradeceu o trabalho de Annabeth, falou dos deuses e também da civilização ocidental. Se Poseidon estivesse ali ele teria imitado o pai dela e rolado os olhos. Só que ele ainda não tinha entrado.
Todos os deuses se sentaram para comer e Atena estava começando a ficar preocupada quando as portas se abriram e John e Poseidon entraram. O deus abriu um sorrisinho convencido e o nível de silêncio no salão foi o maior já registrado na história do Olimpo. Todas as pessoas presentes o fitaram, sem saber o que estava acontecendo. Zeus ergueu o olhar, mas não parecia estar querendo fuzilar Poseidon, cortá-lo ao meio e jogar as sobras no tártaro. Apenas fuzilar estaria bom.
—Boa noite. – Ele disse simplesmente.
Os burburinhos começaram assim que o deus dos mares se dirigiu a mesa e escolheu uma cadeira do lado oposto ao de Atena. Ele manteve-se de pé com John no colo até que todos se calaram novamente.
—Meu irmão já acabou o discurso, certo? – Ele ergueu as duas sobrancelhas esperando uma confirmação. – Bem, então acho que é minha vez de falar.
–X-
A reação dos deuses fora muito melhor do que Poseidon jamais imaginaria. Eles ficaram um pouco chocados ao verem o bebê, mas todos já sabiam que o deus dos mares esperava um herdeiro, então não ficaram encarando por mais que meia hora. Além disso, eles também fizeram um minuto de silêncio dedicado à Anfitrite.
Após o jantar, Héstia e mais umas cinco deusas menores tinham ido correndo até Poseidon querendo ver o pequeno John. Na função de deusa que prezava pela família, Héstia pediu para tomar conta do bebê e ele aceitou de bom grado.
Quase todos os Olimpianos tinham ficado para a festa, sendo que apenas Hefesto tinha ido embora logo após o banquete. Isso queria dizer que Poseidon levou quase uma hora recebendo os parabéns por ‘ter um filho tão lindo’. Não que aquilo fosse surpresa, considerando a beleza exorbitante do pai. Ele só conseguiu se desvencilhar de Hermes após prometer que checaria a correspondência do Palácio Subaquático com mais frequência do que a cada cem anos.
O deus dos mares tentava se aproximar sorrateiramente de Atena, mas toda hora que ele olhava para ela a loira estava cercada de um grupo de pessoas. A situação dele não era tão diferente.
—Hey, Apolo!
—Hey, Poseidon. Como vai? – O loiro abriu um sorriso gigantesco. – Estava comentando com Dionísio que seu discurso hoje foi muito mais interessante que o do meu pai.
—Até porque o discurso de Zeus é o mesmo há dois mil anos. – Dionísio replicou, com desdém. – Mas a única diferença foi que você falou do seu novo herdeiro. Acho que o único discurso menos entediante aqui seria o de Hades.
—Eu não faço discursos. Essas ideias ridículas são exclusividade dos meus irmãos. – Hades girou os olhos incrivelmente negros. – Tenho mais o que fazer.
—Como treinar um novo exército!
—Ares! – Eles ouviram a voz de Zeus trovejar a alguns metros dali, como um aviso.
—Qual é! Zeus se sente ameaçado o tempo todo. – O deus da guerra começou a roer uma unha, irritado.
—Heeeeeeeeeey! – Afrodite apareceu, arrastando Atena e Ártemis com ela. – Alguém viu a Deméter? Preciso conversar com ela sobre a nova coleção de roupas maravilhosa inspirada em flores primaveris.
—Acho que ela estava conversando com Perséfone e Ariadne perto da mesa de frios.
—Obrigada, Apolo querido. E você – Ela lançou um olhar malicioso e mortífero para Ares. – Vem comigo que eu preciso ter uma conversa em particular. Ah, não pensem que eu terminei com vocês, Ártemis e Atena.
A deusa do amor deu uma risadinha e piscou um olho para as meninas, Ares apenas ergueu brevemente as sobrancelhas antes de ajeitar o terno e seguir Afrodite. Atena e Ártemis pareciam pálidas e desconcertadas com a deusa do amor. Se Poseidon pudesse apostar diria que Afrodite estava torturando as duas ao tentar extrair informações picantes.
—Preciso ir falar com Zeus. – Hermes declarou, antes de se retirar também.
—Se eu fosse ele não interromperia Zeus enquanto ele está discutindo com Hera. – Apolo debochou e passou um braço por cima do ombro de Ártemis. – E aí, Art, quer dançar comigo?
—Tire essas suas mãos nojentas de mim! – Ártemis protestou e deu uma cotovelada no estômago do gêmeo, saindo de lá o mais rápido possível, não sem antes mandar um olhar como quem diz ‘viu?’ para Atena. Apolo a seguiu.
A deusa da sabedoria riu baixinho. Apenas ela, Poseidon, Dionísio e Hades ainda estavam naquela rodinha. Os outros deuses estavam espalhados pelo salão, interagindo com ninfas, seres da natureza e deuses menores. Uma típica festa Olimpiana. O deus dos mares já
conseguia ver Afrodite se jogando publicamente em Ares, devido ao alto nível de bebida. Ele mesmo segurava um copo de whisky, mas estava completamente sóbrio.
A loira olhou para o copo na mão dele e arqueou levemente uma sobrancelha, com uma expressão divertida no rosto.
—Onde está o seu herdeiro? – Ela perguntou, mantendo as aparências.
—Héstia decidiu cuidar dele para mim essa noite. Ela está simplesmente encantada com a criança, fazer o quê, charme é de família.
Ela riu sarcasticamente, quando na verdade queria concordar.
—Poseidon, você se tem em alta conta.
—Nada disso, eu apenas sei meu lugar. Sou o deus mais cotado do Olimpo.
—Wow. O Olimpo está bem decadente então.
—Haha. Pois é. Eu percebi isso quando te contrataram para Deusa da Sabedoria.
—Não seja tão invejoso, Poseidon. Não é só porque você é um ser acéfalo que tem que destilar tanto veneno pra cima de mim.
—Inveja, você disse? – Ele arqueou a sobrancelha e piscou um olho. – Eu esperava um argumento melhor, honestamente. Acho que sua cota de criatividade se esgotou.
Hades fitava os dois interessado na discussão e Dionísio mantinha sua clássica expressão de tédio.
—Vocês dois ainda estão nessa de brigar? Sério? Já tá ficando chato.
—Pois é, até eu tenho que concordar. – Hades deu de ombros. – Muito previsível.
Ambos se viraram para os dois deuses com expressões idênticas de incredulidade. Eles estavam se empenhando tanto em manter as aparências e fingir que ainda se odiavam para que eles ficassem entediados? Tudo bem que não era assim tão difícil simular uma de suas discussões, porque eles tinham milênios de experiência em provocar um ao outro, mas ainda sim...
Atena pegou uma taça de vinho branco na bandeja de um garçom que passava por ali bebeu todo o líquido de uma vez e devolveu a taça vazia para a bandeja antes de cruzar os braços sobre os seios, com uma expressão de desafio. Poseidon também se livrou do seu copo e estendeu uma mão para ela.
—Me concede uma dança?
—Com toda certeza. – Ela respondeu.
Os dois não precisaram se virar e ver a cara de Dionísio e de Hades para saber que eles estavam chocados. Jamais imaginariam uma cena daquelas.
—Acho que Atena bebeu demais... – O deus do vinho comentou, mas eles não ouviram a resposta de Hades, pois já estavam perto da pista de dança.
A loira sorriu vitoriosa e Poseidon teve que rir. Ele passou os braços ao redor dela e pode perceber que muitas pessoas os encaravam. Decidiu ignorar aquilo.
Uma música lenta tocava e Atena teve que se controlar para não apoiar a cabeça no ombro dele. Ela apenas fitou aquele rosto perfeito do deus dos mares e sentiu suas bochechas esquentarem. Era muito estranho ficarem tão próximos em público. Ela podia sentir o braço dele apoiado em suas costas e a ponta de seus dedos formigando ao segurar na mão do deus.
Poseidon a conduziu pela pista de dança por alguns minutos sem dizer nada e fez um giro perfeito com a deusa antes de sussurrar:
—Você está muito sorridente, meu amor. Não se esqueça de disfarçar, ou as pessoas vão perceber que você está completamente derretida pelo meu divino ser.
Ela deu um soco no ombro dele, mais forte do que pretendia e ele fez uma careta de dor.
—Outch.
—Foi mal. – A loira voltou a sorrir, sem parecer de fato arrependida. – Largue de ser ridículo, Poseidon. Nem tudo gravita a sua volta.
—Então o que te deixou assim tão contente?
—Zeus veio falar comigo há mais ou menos uma hora, quando você estava sendo atacado por ninfas que queriam ver o John.
—E? – Ele se inclinou inconscientemente mais para perto dela. Atena não se afastou.
—E foi uma conversa meio complicada demais para esse seu cérebro de sardinha entender. – Ela deu de ombros e abriu um sorriso implicante. – Mas, basicamente, ele disse que tinha pensado muito a respeito e–
—Pensado muito? Zeus? Há! Duvido.
—Poseidon! – A deusa estreitou os olhos. – Não me interrompa. Enfim, ele pensou a respeito de tudo que falamos hoje...
—Tudo mesmo? Tipo, o bebê e Anfitrite ou só o juramento e o fato de estarmos juntos?
Ela trincou os dentes e o encarou como se mandasse ele ficar quieto novamente.
—Oops. Foi mal. Vou ficar calado e te ouvir.
—Por favor. Bem, ele pensou em tudo, como eu disse. E não está muito feliz com a situação, mas vai pegar leve conosco. E quando eu digo ‘conosco’ incluo John. Sabe, ele não poderia ficar a eternidade toda brigando comigo, de qualquer jeito.
—Ele está à eternidade toda brigando comigo, porque seria diferente com você? –Poseidon apontou com desdém.
—Porque eu sou adorável e ninguém consegue me odiar. – Ela piscou os olhos fofamente repetidas vezes, como que para provar o que estava falando. Poseidon riu.
—Tem certeza disso?
—Absoluta. Veja você, por exemplo. Você me odiava até uma semana atrás e agora me ama mais do que imaginou ser possível. Isso prova que eu sou irresistível. – A deusa encarou os olhos verdes de Poseidon fervorosamente, até que pensou em algo melhor. – Não! Espera.
Esqueça isso. Na verdade, você sempre me amou em segredo, mas só agora teve coragem para admitir.
Dessa vez o deus rolou os olhos enquanto ria.
—Pobre Atena, tão iludida... – Ele apertou levemente a bochecha dela, daquele jeito irritante que se faz com uma criança. – Só está certa em uma coisa. Você é irresistível.
Poseidon deslizou a mão que estava na bochecha dela para a linha do queixo e encostou os dedos brevemente nos lábios dela antes de trazer Atena mais para perto. Ela se aninhou mais nele e enlaçou o pescoço do deus com as duas mãos, aproveitando para deslizar os dedos pelo cabelo preto sedoso. Poseidon sorriu para ela, que retribuiu, antes de beijá-la.
Atena sentiu a corrente elétrica que já tinha se tornado familiar perpassar seu corpo e também percebeu que tinha o estômago cheio de borboletas. Aquela sensação era simplesmente tudo que ela poderia querer. Ele colocou as mãos na cintura dela e Atena torceu os dedos no cabelo dele, puxando o deus e aumentando o contato entre eles.
Nada poderia acabar com aquele momento perfeito.
Exceto, é claro, pelos gritos e exclamações de surpresa de todas as pessoas que estavam na festa.
A deusa se separou dele, completamente assustada e afundou o rosto na curva do pescoço de Poseidon, para que ninguém visse o quão embaraçada ela estava. O deus dos mares apenas abriu um de seus sorrisos safados enquanto a abraçava.
—Acho que esqueci de mencionar durante meu discurso que nós estamos namorando.
–X-
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