CAPÍTULO 28: Inglaterra – Praia.

Quinto Dia– Parte 4.

—Está tudo aí, Poseidon?

O deus colocou a sua mochila, a bolsa de Atena e o guarda-sol no banco traseiro e saiu para ir se juntar a ela no banco da frente. Finalmente ele estava satisfeito. Bem, o almoço estava bom, era verdade, eles não tinham realmente brigado aquele até então e iriam para a praia. No fim das contas, estava sendo agradável passar um tempo com a deusa.

—Yeap, baby.

Atena riu e conferiu todos os itens necessários antes de ligar o carro. Poseidon esticou a mão até alcançar a mochila com comida e porcarias e também pegou suas latinhas de Coca-Cola que estavam em uma espécie de bolsa térmica.

—Hm. O que você vai querer? Temos chocolate, chocolate aerado, chocolate ao leite, chocolate meio amargo, chocolate amargo, e meu favorito: chocolate branco. Também tem aqueles chocolates com recheio de licor, caramelo e qualquer coisa alcoólica. – O deus lhe estendeu uma latinha de refrigerante.

—Não, obrigada. Nós acabamos de almoçar.

—E?

—Não é hora pra comer tanta besteira.

—Não existe hora pra comer chocolate, Ateninha.

—Você é tão cabeça dura, argh.

—Qual a graça de fazermos uma viagem à praia se não vamos comer doce?

—Poseidon, a praia fica a menos de duas horas de Londres. E nós nem saímos da cidade, não estamos tecnicamente viajando ainda.

Ele sorriu triunfante e bebeu um gole de sua Coca, observando os prédios grandiosos de Londres se afastarem, o que queria dizer que estavam quase na estrada.

—A partir do momento que saímos de casa ou do meu palácio ou do Olimpo é uma viagem. Estamos em uma viagem pela Inglaterra.

—Tudo bem. – Ela rolou os olhos com um sorrisinho. – Eu não vou discutir com você. Poderia pegar meus óculos de sol na repartição exterior da minha bolsa, por favor?

O deus dos mares se esticou até pegar a bolsa e lhe entregou os óculos, colocando os dele também. Poseidon olhou para o som do carro e ficou imaginando onde a deusa guardava os CDs.

—No porta-luvas.

—Hm?

—Os CDs.

—Como você sabia que eu estava pensando nisso?

—Eu estou lendo a sua mente. – Ela riu.

—Não tá nada.

—Estou fazendo isso outra vez.

—Então no que estou pensando? – Ele questionou com um de seus sorrisinhos maliciosos.

—Em nada.

—Há. Errou.

—Mentira, Poseidon.

—Eu estava pensando no seu biquíni.

O queixo da deusa despencou alguns centímetros e ele riu. Ela era tão previsível algumas vezes.

—Seu imbecil!

—Mas é sério. Como foi Afrodite que arrumou sua mala posso até ter uma ideia do que ela separou para a praia. Espero que não me decepcione.

—Oh, Poseidon, cale a boca! Escolha algum CD e me deixe dirigir em paz.

O deus deu de ombros e abriu o porta-luvas. Poseidon pegou uma pasta preta para CDs e imaginou o que Atena teria ali. Bethoveen, Mozart, Chopin... Mas nada nesse mundo poderia descrevê-lo quando analisou melhor o gosto musical da deusa. Poseidon ficou completamente espantado com a quantidade de bandas que ambos gostavam.

—Red Hot Chili Peppers? – Ele perguntou. – Oasis? Coldplay? Aerosmith? The Beatles? Pearl Jam? Kings? Maroon 5? Desde quando você gosta dessas bandas?

Atena fitou-o sem entender.

—Desde sempre. E também tem Paramore, Taylor Swift, Bon Jovi, Guns n’ Roses... Qual o problema?

—Eu achei que você só escutasse música clássica.

Ela riu.

—Música clássica é muito bom. E ópera também. Mas eu gosto do velho Rock.

—Nada de Michel Teló ou aquelas modinhas que estão estourando por aí? – Poseidon fez uma careta.

—Eu realmente dou uma chance para quase todos os estilos, mas, bem... é complicado.

Poseidon concordou com a cabeça.

—Muito. E aí, o que você quer ouvir?

—Hmmm. Oasis.

—Okay. – Ele pegou um disco e o analisou antes de por no aparelho. – É uma das minhas bandas favoritas. Qual sua música predileta deles?

Atena pensou por um tempo enquanto uma melodia acolhedora soava baixinho. Poseidon esperou pacientemente até que ela repassasse toda a discografia da banda na cabeça.

—É tão difícil escolher só uma música. Todas parecem tão perfeitas. Mas eu acho que fico com Don’t Look Back in Anger. E você?

—Wonderwall. – Ele respondeu, sem pestanejar. – Okay, isso soou muito clichê e gay e tudo o mais.

Ela riu.

—Não se preocupe, não vou contar pra ninguém que você é tão sentimental Poseidon.

O deus riu e se recostou no banco. Ele fechou os olhos e deixou que o vento despenteasse ainda mais seu cabelo, enquanto Atena dirigia em direção à praia e a caminho de uma tarde incrível também.

–X-

Atena estacionou o carro na entrada da praia, em um acostamento perto da estrada. O vento soprava forte e fazia com que os fios loiros dela ficassem em uma desordem completa. Poseidon desceu do carro com o maior sorriso do tipo tenho-trinta-e-dois-dentes, feliz de estar “em casa” outra vez. A praia tinha aquele efeito sobre ele.

A deusa pendurou os óculos na gola da camisa e pegou todas as tralhas que estavam espalhadas no banco de trás, entregando a mochila de comida e a mochila do deus para ele. Ela pegou a própria bolsa e ativou o alarme.

—Vamos?

—Wow, mas é claro. A areia deve estar quente por causa do sol alto, é melhor você já calçar o chinelo. – Ele advertiu, apontando para o próprio pé que já estava de chinelo. – Bornemouth não é muito cheia, apesar de estarmos no verão. Mas você pode por o biquíni aqui no carro se quiser.

A deusa balançou negativamente a cabeça.

—Deixe de ser cabeça de bagre por um minuto, Poseidon. Eu já estou de biquíni. – Ela sorriu erguendo a alça do biquíni que estava por baixo da saída de praia. – Na verdade, a praia está quase deserta. Eu imaginei que as praias de Londres fossem mais cheias.

—E são. Mas os turistas vão para Brighton nessa época do verão e se esquecem de vir aqui. O que é ótimo, porque se na entrada já está vazio assim certamente não vai ter ninguém perto do Chalé do Sol.

A deusa riu e se certificou de que tudo estava pronto antes de pisar na areia. Poseidon seguiu ao lado dela. Eles ainda não conseguiam ver o mar, mas já dava pra escutar o barulho das ondas quebrando nas pedras e imaginou que andariam por uma longa faixa de areia.

—Chalé do Sol? Eu não consigo imaginar se isso é coisa sua ou de Apolo. Não tem um Chalé da Guerra também não? Ares ficaria contente.

O deus rolou os olhos e começou a caminhar para noroeste, se distanciando dos pouquíssimos mortais que estavam indo para o mar também. Atena não perguntou nada, mas achou estranho já que todas as pessoas tomavam a direção contrária da que eles iam.

—O Chalé foi construído por mortais, na verdade. Não é, oficialmente, meu. E o nome se deve a visão que se tem do por do sol. Atualmente, ninguém vai lá simplesmente porque não sabem que existe. É a parte mais bonita dessa praia, porque é em uma ilha.

—E como vamos até lá?

—Tem um pequeno bote ancorado no antigo cais, que é meu.

—E leva muito tempo?

Poseidon deu de ombros.

—Mais uns vinte minutos seguindo na faixa de areia a noroeste e depois meia hora de barco. Não é realmente muito. Mas se você quiser podemos nos teletransportar pra lá.

A deusa arqueou as sobrancelhas, insegura.

—Os mortais não conseguem ver a ilha da faixa litorânea?

—Não. Precisa de um guia ou coisa do tipo, mas não existe nenhum aqui. Então cerca de uns quinze anos atrás eu meio que isolei a ilha completamente.

—E quem cuida do chalé? –Ela não se conteve.

—Ninguém. – Ele riu. – Não está habitável há algum tempo. Mas ainda é uma construção bonita. E então?

A deusa mordeu o lábio inferior a ajeitou melhor a bolsa no ombro.

—Tudo bem, vamos pro Chalé do Sol o mais rápido possível.

Ele sorriu e pegou delicadamente a mão dela, percebendo pela milésima vez que suas mãos se encaixavam perfeitamente, e os levou para uma ilha deserta.

Yeap. Sozinhos em uma ilha.

–X-

Atena abriu os olhos e a primeira coisa que viu foi o mar extremamente verde e límpido a sua frente. O sol não estava mais tão forte e estreitando os olhos ela conseguiu enxergar, a muitos quilômetros de distância, uma pequena faixa litorânea que deveria ser a praia de Bornemouth.

—Home, sweet home! – Ela ouviu a voz de Poseidon e teve que rir com aquilo.

—Às vezes me esqueço de que você é uma criança com três mil anos de idade.

Poseidon deu de ombros, sem se aborrecer com aquele comentário, um sorriso se espalhando pelos lábios perfeitos do deus. Atena se virou e ficou estarrecida com a visão do chalé. Era lindo. Completamente feito de madeira,

—Deuses! A gente tem que reformar esse lugar, é incrível Poseidon!

—Oh, me desculpe. – Ele rolou os olhos com uma risadinha. – Eu esqueci a minha serra e os pregos em casa.

—Não agora, seu besta. – A deusa andou até ele e lhe deu um leve tapa na nuca, sorrindo. – Sério, é uma construção linda pra ser destruída.

—Eu achei que você nunca mais fosse querer passar algum tempo comigo depois dessa semana.

—Por quê? – Ela perguntou. E ao perceber o sorrisinho sarcástico dele mudou sua pergunta. – Por que eu iria querer passar mais algum tempo com você?

—Você acabou de dizer que nós precisamos reformar o Chalé.

—Bem, hm... Não seja insuportável, Poseidon. – A deusa reclamou, colocando as mãos no quadril.

—Você que disse que quer passar mais tempo comigo! – Ele se defendeu.

—Eu não disse isso, propriamente. Você e seu cérebro de mula distorcem as coisas!

—Heys! Eu sei que você não me acha insuportável, benzinho.

—Acho sim. Um insuportável, irônico e com graves problemas mentais.

—E você vai passar o resto da eternidade ao meu lado.

—Oh, pelos deuses! Esqueça isso de uma vez por todas! Eu não me casaria com uma pessoa que quase colocou fogo na casa.

Poseidon riu e apertou levemente uma das bochechas de Atena, para irritá-la.

—Okay. Vou arrumar nossas coisas ali, ao lado do Chalé, e estender as toalhas e o guarda-sol a uns dez metros do mar.

—Huh, algum problema se eu explorar o Chalé do Sol enquanto isso?

—Não. Fique a vontade, Indiana Jones.

A deusa rolou os olhos azuis e sorriu, indo cuidadosamente para mais perto da construção. O lugar estava parcialmente destruído, com metade do teto caído e as paredes instáveis. Atena podia ver uma pilha de madeira seca aonde teria ficado, há muitos anos atrás, uma escada que dava para a pequena sacada que um dia existira no segundo andar, da onde as pessoas provavelmente observavam o por do sol.

Ela precisava seriamente convencer o deus a restaurar aquele lugar. Era encantador. Ela ainda estava pensando em como faria isso quando saiu de lá e foi procurá-lo. Como Poseidon havia avisado, as provisões deles estavam perto do Chalé e ela podia ver o guarda-sol há uns dez metros do mar.

Atena pegou os óculos e o chapéu de praia e os colocou, aproveitou também para encontrar o protetor solar de Medéia (fator 5000), pendurou a bolsa outra vez no ombro e andou calmamente até onde ela imaginou que Poseidon estaria. Mas ele não estava lá, ao lado das toalhas estendidas no chão. Ela sentou-se em uma delas e tirou o chinelo.

O dia na praia estava simplesmente lindo e ela não saberia dizer se o mar calmo e translucidamente verde era coisa dele ou não, mas aquilo não importava muito. A deusa sorriu ao ver uma pequena concha ao lado de sua toalha. Isso ela podia apostar que era coisa dele. Uma concha não estaria assim tão longe do mar, se alguém não a carregasse. Ela só não sabia porque ele tinha a colocado lá.

A deusa pegou o livro que – inevitavelmente – estava em sua bolsa e começou a ler, imaginando onde diabos Poseidon havia se metido.

–X-

Poseidon sentiu as ondas quebrando nos seus dedos dos pés e sorriu ao sair da água salgada. Deuses, ele já estava sentindo falta do mar. Ele passou a mão desajeitadamente pelo cabelo e espirrou água pra todo lado.

O deus estreitou os olhos até encontrar o guarda-sol colorido que ele havia colocado na areia e viu que Atena já tinha acabado sua “exploração” no Chalé. Ele quase sorriu ao vê-la analisando a pequena concha que por algum motivo desconhecido ele tinha deixado ao lado da toalha. Quase. Porque no segundo seguinte ela pegou um livro e o deus quase surtou.

Pelos deuses! Quem em sã consciência lia em uma praia? Ele rolou os olhos e andou até lá tentando não fazer muito barulho e ficou satisfeito ao perceber que a deusa sequer tinha notado sua presença.

Antes que ela tivesse tempo de ver o que estava acontecendo, Poseidon tomou o livro de suas mãos e colocou-o de lado, com um sorrisinho malicioso ao se sentar em frente a deusa apoiado nos joelhos.

—Hey!

—Wow. – Ele se inclinou para mais perto dela. – Eu não acredito que você está lendo, Atena. Você pode fazer isso na biblioteca.

—Eu posso ler onde eu quiser. – Ela deu de ombros. – Na biblioteca, na escada, nas festas... aqui.

Poseidon segurou a mão da deusa antes que ela pudesse pegar o livro outra vez.

—Você está na praia há quase meia hora.

—E?

—É inaceitável que ainda esteja seca.

A deusa se encolheu minimamente ao perceber que ele estava encharcado. Poseidon, rindo internamente da reação dela, chegou ainda mais perto.

—Vamos mudar isso agora.

—Não. Você não teria coragem.

—Tem certeza? – Ele deu de ombros e sacudiu os cabelos, fazendo com que litros e mais litros (okay, quanto exagero, apenas muitas gotas geladas) de água espirrassem nela.

—Poseidon!

—Huh, já é um bom começo.

—O que você está fazendo? – A loira perguntou quando ele tirou o chapéu e os óculos de sol que ela estava usando.

—Nós estamos na praia, Atena. Será que dá pra largar de ser tão medrosa e confiar em mim?

—Não! – Ela respondeu, assustada, quando ele puxou uma alça da sua saída de praia.

Poseidon rolou os olhos.

—Não, meu bem, eu não quero te deixar nua e indefesa. Só acho que você não vai querer que sua roupa se molhe.

—E porque ela se molharia?

—Porque vamos entrar no mar. – Ele sorriu divertido.

—Não vamos não, Poseidon! Pela milésima vez. Eu não vou sair daqui!

—Okay. Então eu posso te carregar até lá, ou trazer o mar até aqui.

Ele piscou pra ela e Atena observou as ondas ficarem mais fortes à medida que os segundos passavam e ele esperava uma resposta. Ela não duvidava de que ele realmente inundaria a ilha só para molhá-la. Mas em hipótese alguma ela deixaria que ele a carregasse.

Poseidon rolou os olhos e passou um de seus braços pelas costas dela e outro por baixo das pernas bem torneadas da deusa. A loira arregalou os olhos quando percebeu que ele estava a erguendo.

—Me. Ponha. No. Chão. Poseidon! Eu não vou pedir outra vez!

—Nops.

—POSEIDON!

—Ai, meu ouvido! Você poderia parar de berrar?

—Não! Poseidon! – A deusa começou a espernear enquanto ele andava calmamente com ela no colo até o mar.

—Wow, graças aos deuses essa é uma ilha privada. Ou poderiam pensar que eu estou abusando de você ou coisa do tipo.

—Você está praticamente fazendo isso.

—Se eu te por no chão você vai correr?

—Não. – Ela respondeu.

Atena respirou fundo duas vezes para se acalmar. Ela não deveria entrar em pânico. Não era uma situação tão ruim assim, ignorando a parte de que ele estava a levando a força para um banho indesejado no mar. E que eles estavam terrivelmente próximos. E que ela estava reparando nele. Oh, sim. Era mesmo muito grave.

Ela mordeu o lábio inferior tentando manter o olhar longe dos braços tonificados dele, ou do seu cabelo encharcado e tremendamente sexy, ou dos olhos verdes hipnotizantes, ou da sensação que a pele macia e bronzeada do deus causava ao roçar na sua. E, principalmente, tentando ignorar o fato de que ele estava só de sunga.

Mas as gotículas de água que escorriam pelo tórax – passando pelo abdômen dele e indo parar deuses sabem onde – não estavam facilitando o trabalho dela. Di Imortalles! Atena não deveria estar pensando em uma coisa dessas. Não devia sequer estar tão perto dele assim. Ela era uma deusa casta. Casta! Casta e completamente pura.

A loira desviou o olhar para as próprias mãos pelo que parecia ser a milésima vez quando Poseidon parou de andar, finalmente acreditando que ela não fugiria. Mesmo que tentasse, eles já estavam bem próximos do mar, então, basicamente ela estava à mercê do deus.

—Eu já disse que não vou correr, Poseidon.

—Que bom que você sabe que não adiantaria de nada.

—Oh, então faça o favor de me pôr no chão.

Relutantemente, ele a colocou no chão. Por algum motivo, Poseidon não se afastou dela. A deusa arqueou as sobrancelhas esperando que ele dissesse algo.

—Eu já te pus no chão. Agora pode entrar no mar, não vou tentar te afogar ou coisa do tipo.

—Yeah, você morreria se tentasse. Mas eu ainda estou me preparando psicologicamente pra água gelada.

—Qual é! – Ele rolou os olhos. – O mar nem está gelado. Está bom. Os peixes estão felizes com essa temperatura. Nós podemos mergulhar e perguntar pra eles.

Atena riu e se espreguiçou.

—Ou eu posso voltar pra debaixo do guarda sol e ler mais um pouco.

—Vai mesmo querer molhar a sua roupa?

—Como é que é?

—Não diga que eu não avisei. – Ele deu de ombros.

Poseidon a abraçou pelas costas e a enlaçou pela cintura enquanto Atena gritava freneticamente. O deus não conteve um sorriso ao sentir a espuma das pequenas ondas nas solas dos pés. Atena fechou os olhos e tentou fingir que aquilo era apenas um sonho. Um pesadelo. Ou qualquer coisa. Menos realidade.

Mas nada poderia ser mais real que o calor que emanava da pele dele, ou o contato que a arrepiava completamente ou a maior onda de todos os tempos que encharcou os dois.

–X-

—Poseidon! Você é um idiota. – Foi a primeira coisa que a deusa disse após sair do mar.

Ela sorria e estava visivelmente cansada depois de quase meia hora de uma luta subaquática. Poseidon deu de ombros e se sentou na areia, sendo prontamente seguido por Atena, que praticamente despencou em cima dele. Ela tomou fôlego e tentou desembaraçar o cabelo com a ponta dos dedos.

—Você só está dizendo isso porque eu ganhei!

—Ganhou o quê, Poseidon? Não estávamos competindo.

—É verdade. Mas eu consegui te manter no mar, enquanto você tentava fugir. Então eu não sou um imbecil e você está dizendo isso só porque eu ganhei! – Ele repetiu aquilo, como se fizesse algum sentido ao ser dito duas vezes.

—Não, eu estou dizendo isso porque você é mesmo um idiota trapaceiro.

—Claro que não. Só sou mais forte e bonito que você.

—O que beleza tem a ver com isso? – Ela perguntou, rindo. – Aham. E porque puxou meu pé.

—Você quase chutou meu nariz! – Ele protestou.

—Instinto de defesa, caro Poseidon.

—Defesa? Poderia ser um animal marinho puxando seu pé!

—É por isso que é instinto de defesa. Poderia ser uma baleia. E eu não queria passar o resto da eternidade no estômago de uma baleia.

—Estômagos não são tão ruins assim, em geral. – Ele deu de ombros. – Okay. Na verdade são sim. O estômago de Cronos era terrível. Acho que passar a infância lá foi o que me fez ter a ideia de picá-lo em pedacinhos depois de tomarmos o poder. Mas isso não era motivo para que você agredisse um dos meus súditos! Um animal marinho, Atena! Eu não acredito que você faria isso. Estou decepcionado.

A deusa deu um pequeno soco no braço dele e ele a empurrou para o lado, sem parar de rir por um minuto.

—É por isso que eu disse que você é idiota. Não consegue falar sério nem por um minuto, Poseidon. Okay. Eu não agrediria um animal marinho. Mas eu sabia que era você, então não tinha problema em te chutar. Porque você estava tentando me afogar! – Ela fez questão de dar ênfase na última parte. – Seu desonesto. Eu que estou decepcionada. E eu achei que a ideia de cortar Cronos tivesse sido do meu pai.

—Oh, Zeus sempre leva a glória mesmo. – O deus bufou.

Atena resolveu não retrucar nada para que eles não começassem a brigar de verdade. Não valia a pena estragar um dia na praia por causa de coisas tão idiotas. O silêncio perdurou por algum tempo, até que Poseidon resolveu quebrá-lo.

—Atena?

—Hum?

—Quantas horas?

—Eu não sei. – Ela respondeu, olhando para o sol. – Provavelmente por volta das três.

—Quer dizer que ainda temos cerca de três horas aqui?

—Yeap. O que foi? Você está sério.

Poseidon sorriu sem graça e balançou a cabeça negativamente.

—É só que... Bem, eu estava me lembrando do Palácio e consequentemente de Anfitrite.

Atena engoliu em seco.

—Oh, não precisa pensar ou falar disso se você não quiser. Podemos fazer qualquer coisa por enquanto.

—Tudo bem. Eu vou ter que te contar o resto um dia mesmo.

—Vai?

—Eu prometi, não foi? Pois é. Não falta muita coisa, é que eu não estou preparado para essa coisa de um novo herdeiro.

—Bem, você ainda tem um tempo pra se acostumar com isso, não é? – Atena perguntou. – Quer dizer, até essa criança nascer.

—Er. Digamos que eu não tenha realmente muito tempo.

A deusa arregalou os olhos e levou um certo tempo até retomar a conversa.

—Ela está grávida de quantos meses?

—Nove.

—Nove?

—Yeap. Foi isso o que eu acabei de dizer.

—Oh, meus deuses. Eu achei que ela ainda estivesse no começo da gravidez.

—Eu não transei com Anfitrite há dois meses atrás.

—Poseidon! Eu... argh. Não preciso de detalhes.

Ele riu e afagou a bochecha avermelhada dela.

—Não teria tanto efeito te contar se você não ficasse sem graça, Atena.

—Você não tem mais nada para fazer, além de me atormentar?

—Eu posso te pedir um conselho sobre isso, mesmo que eu não use esse conselho futuramente?

—Argh. Eu espero que seu filho não seja tão repulsivo quanto você. – Ela brincou, apesar das bochechas permanecerem coradas. – Wow. Eu não sei o que te dizer.

—Você não sabe? Deuses é o apocalipse! A toda poderosa Deusa da Sabedoria não sabe o que me dizer.

—Oh, agora eu sei. Cale a boca.

Poseidon despenteou os cabelos e estirou a língua pra ela. Típico.

—Já percebeu que você só menciona os assuntos sérios quando estamos na praia?

—Eu não tinha pensado nisso. Só parece mais fácil falar de todos os problemas perto do mar.

—Hm, é uma boa teoria. Eu poderia fundamentá-la com base em alguns estudos e...

Poseidon arqueou as sobrancelhas para a deusa.

—O que foi? – A loira questionou.

—Você é anormal.

—Poseidon você é pervertido, irônico, infantil, estranho, desonesto, gosta de deixar as pessoas molhadas e eu que sou anormal aqui?

—Wow. Sua roupa já está secando. – Ele comentou, ignorando a pergunta retórica da deusa.

—Aleluia. Eu estava encharcada.

—Então acho melhor você tirá-la e ficar só de biquíni.

Atena cruzou os braços escondendo um sorrisinho de canto.

—Por quê?

—Porque você não vai querer molhá-la outra vez quando entrarmos no mar.

A deusa se levantou rapidamente antes que ele pudesse segurá-la e saiu correndo com Poseidon em seus calcanhares. Ela poderia até ser pega e voltar para outra briga subaquática, mas nunca, nunca mesmo, facilitaria para o deus.

–X-

Ela estava enrolada na toalha enquanto Poseidon comia algumas bolachas e dispunha alguns chocolates enfileirados em uma pequena bandeja (que parecia com uma daquelas mesinhas montáveis). Felizmente, ele havia concordado em parar com a perseguição para que comessem.

Atena agitou seu suco de caixinha outra vez e esperou até que o deus organizasse todas as guloseimas para pegar um Kit Kat e mordiscá-lo. Poseidon bebeu outro gole da sua Coca e abriu mais alguns chocolates.

O silêncio entre eles era agradável e nenhum dos dois se preocupou em dizer alguma coisa. Ela observava a paisagem e pensava em conversar com ele mais tarde sobre a possível restauração do Chalé. Oh, sim, porque Atena ainda estava com aquela ideia na cabeça.

—Poseidon?

—Oi.

—Existe algo na mochila de mantimentos que não seja completamente calórico ou doce?

—Não. A não ser que você tenha colocado algo a mais aqui.

Ela suspirou.

—Então acho que chega de comida pra mim, porque eu não aguento mais chocolate.

—Você pode ter todos os indícios contra minha pessoa, Atena. Mas o simples fato de você enjoar de chocolate te torna mais estranha que eu. Isso é indiscutível.

De fato, Atena não discutiu e esperou pacientemente até que ele terminasse de comer.

—Vamos?

Poseidon olhou pra ela desconfiado.

—Yeap. Você vai entrar no mar de roupa outra vez?

—Não.

—Então o que está esperando?

—Eu não vou me despir na sua frente.

—Não seja idiota, Atena, só temos mais duas horas de praia. E não há nada que eu queria ver aí. Você é completamente sem graça.

—Eu me lembro de quando você me disse que eu não era sem graça, no Acampamento. – Ela sorriu triunfante. – Qual o problema de me dar um minuto de privacidade?

Ele bufou.

—Não há problema. Pode ir tirar sua roupa no Chalé, ou onde você quiser, já que não faz a menor diferença. Enquanto isso eu vou para o mar.

—Okay. – A deusa deu de ombros e pegou a toalha antes de sair correndo até longe da vista de Poseidon.

Ele rolou os olhos e guardou toda a comida, antes de andar até o mar.

Sinceramente, não precisava de todo aquele drama. Não era como se ele realmente quisesse ver Atena de biquíni ou qualquer coisa do tipo. Porque não fazia a menor diferença. Não mesmo.

O deus entrou no mar e deu um mergulho, aproveitando o sol do fim de tarde e a temperatura agradável da água. Quando submergiu, Poseidon não pensava em ficar na superfície, mas, aparentemente, o ar tinha sido expulso de seus pulmões – mesmo que aquilo fosse impossível – porque seu cérebro não conseguiu processar nenhuma informação quando a viu caminhando até onde ele estava.

E naquele momento, naquele exato momento, Poseidon soube que estava ferrado. Porque tudo que Afrodite tinha dito até então passou a fazer sentido.

A deusa estava com um biquíni azul claro que combinava perfeitamente com o tom dos olhos dela e promovia um contraste muito bonito com a pele dela. E, definitivamente, o corpo dela era perfeito. Não era culpa dele não conseguir parar de olhar.

Atena tinha a cintura muito fina, as pernas esguias e bem torneadas. Era proporcional em todas as partes e tinha todas as curvas nos lugares. E, infelizmente, ela também tinha a mania de se esconder sob um punhado de panos e roupas longas. Poseidon não entendia como só agora tinha percebido o quão bonita ela era. O sorriso tímido dela também era lindo e o cabelo ao vento também era responsável por boa parte daquele charme.

—Poseidon? – Ele ouviu a voz dela e piscou para por os pensamentos em ordens. – Algum problema?

—Ooh. Não. Eu só estava pensando que não vai dar tempo de assistir o por do sol. Temos que voltar antes das sete, certo?

A deusa mordeu o lábio inferior, entrando de uma vez por todas na água.

—Sim, antes das sete. E então? Achei que o todo poderoso Deus dos Mares sequer ia me deixar pisar no mar sem fazer com que um tsunami viesse pra cima de mim.

Ele riu.

—Essa era a intenção.

—Bem, e o que você está esperando? – Ela provocou. – Eu ainda ganharia qualquer luta com você, mesmo nos seus domínios. Está com medo de me machucar ou qualquer coisa do tipo? Há, que fofinho.

A ironia na voz dela era quase palpável quando Atena estendeu a mão para apertar a bochecha dele em um gesto irritante. Mas, sem que ela se desse conta, a única coisa que a deusa fez foi pousar a mão na bochecha do deus. Ele sorriu.

—Não. Eu só acho que posso fazer coisas muito melhores do que brigar com você na água.

E então Poseidon a puxou para mais perto de si. E a beijou.

Milhares de tsunamis pareciam ter atingido Atena de uma vez só, mas ela não se importava. Poseidon sentiu-se extremamente grato pelo fato de ambos serem deuses e não precisarem respirar, porque ele não pretendia parar de beijá-la tão cedo.

E agora Percy e Annabeth tinham um forte concorrente na categoria de melhor beijo subaquático de todos os tempos.

–X-

Notas finais
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