Fechado Para Reforma!
22 Pelas ruas de Londres
Notas iniciais
CAPÍTULO 22: Inglaterra – Pelas ruas de Londres.
Quarto Dia– Parte 4.
Atena poderia muito bem ter recorrido a uma minúscula fração de seus poderes para organizar a sala em dois segundos, mas ela estava assustada demais para pensar com coerência. E, de qualquer maneira, ela gostava de chamar Marie – assim como gostava de conversar com Richard – em certas emergências. E aquela com certeza era uma delas.
A deusa mal sabia como tinha chegado até o telefone do seu quarto e discado para a ajudante, sem gaguejar nenhuma vez enquanto falava com Marie, que chegaria dentro de minutos.
Atena desviou os olhos do chão para fitar seu quarto, o que foi um grande erro, pois só de ver a enorme mala preta dele dentro de seus aposentos fez com que seu coração acelerasse idiotamente e um arrepio perpassasse pela sua coluna. A deusa suspirou tentando conter as malditas lágrimas que ameaçavam escorrer.
Droga, droga, droga! Isso não pode estar acontecendo outra vez. – A deusa balançou a cabeça para afugentar as lembranças que a assombravam. – Ele não tinha o direito de me beijar! Aquele insolente! Eu estava ignorando o primeiro (e horrível, diga-se de passagem) beijo que aquela criatura asquerosa me roubou. Mas... Por Hades, eu não posso ignorar dois beijos. É bem capaz de Poseidon pensar que eu realmente não importo com o fato dele ficar me beijando a torto e a direito sem a minha permissão. Ou pior. Pode pensar que eu gostei. Deuses, por que isso tem que acontecer justo comigo?
Atena levantou-se da cama e começou a andar de um lado ao outro, para pôr os pensamentos em ordem. Ela suspirou, sabendo que estava soando infantil e injusta. A deusa poderia parar Poseidon a qualquer momento, mas estava completamente sem voz! Nem um fiozinho ou resquício de voz que o detivesse.
Era melhor Atena parar de andar feito uma maníaca ou abriria um buraco no chão. Ela sentou-se na mesinha e decidiu que falaria com Poseidon e colocaria limites em toda aquela loucura. Ela não ia o deixar agir insanamente só porque estavam passando um tempo juntos.
Um início de sorriso apareceu nos lábios da deusa e ela ficou internamente satisfeita ao tomar uma decisão responsável e sensata em dias. A deusa ajeitou um cacho sobre o ombro e estava quase descendo para o primeiro andar quando ela pousou os olhos sobre a escrivaninha e seu sorriso morreu instantaneamente.
E eu que achei que as coisas não poderiam ficar pior. – Ela resmungou mentalmente, ao voltar até a mesa e pegar a carta rosa choque que, sem dúvidas, era de Afrodite.
Atena sabia que era melhor não ignorar dois bilhetes da Deusa do Amor e foi por isso que ela abriu a carta, com as mãos tremendo. Ela franziu as sobrancelhas e revirou o papel. Não havia nada escrito.
Ela murmurou alguma coisa inteligível e ia jogar a carta fora quando quase teve um ataque do coração. A letra de Afrodite apareceu lentamente no papel e Atena teve que estreitar os olhos para ler aquele rabisco floreado que a outra deusa chamava de letra:
“Oh, irmãzinha! Estou muito magoada porque você não leu a minha primeira carta, fique sabendo. De qualquer modo, eu sei o que está acontecendo entre você e Poseidon! Isso é tão, tão, tão perfeito! Vocês são o casal mais fofo do ano! Tenho vontade de ir até aí e apertar as bochechas dos dois até que se declarem apaixona...
NÃO OUSE TERMINAR ISSO. – Atena pegou uma caneta sobre a mesa e escreveu rapidamente. – Pelos deuses, Afrodite, você quase me mata de susto! Por um momento pensei que pudesse ser Tom Riddle ressurgindo e...
Tom Quem?
Esqueça. Você não conhec...
Ah! O vilão bonitinho de Harry Potter e a Câmara Secreta! É ele, certo?
Atena encarou o papel abismada.
É. Como você sabe disso? Quer dizer, é Afrodite mesmo quem está escrevendo?
Há há, bobinha, sou eu sim. Noite passada Ares colocou esse filme para que nós assistíssemos. Ele acha divertido as pessoas petrificadas e a cobra gigante. Mas não terminamos de ver porque ele resolveu me mostrar outra cobra, se é que você me entende...
Eca! Eca! Eca! Não precisava ter entrado em detalhes. Eu sou uma deusa casta.
Por enquanto Ateninha, por enquanto. Mas vamos ao que interessa. Eu já disse o quão fofos vocês são juntos? Oh, deuses, daqui a pouco vou explodir em glitter cor-de-rosa de tanta alegria.
Não faça isso. Hades vai odiar ter o chão do Mundo Inferior todo sujo de mini-partículas rosa.
Duh, verdade. Mas porque é que você está se desviando do assunto?
Porque é uma invenção da sua cabeça. Nós não estamos juntos.
Então você poderia me explicar o que foram aqueles dois mega beijos?
Atena suspirou. Afrodite era tão insistente quando punha uma ideia absurda na cabeça. As mãos da Deusa da Sabedoria formigaram e ela sentiu um pouquinho de remorso ao começar a escrever sua resposta.
Aquilo foi um impulso irracional de Poseidon. Afrodite, você tem certeza de que não há um casal mais fofo no Olimpo?
Hmmmm... Não mesmo. As brigas de vocês são tão divertidas! Mas de quem você está falando?
Atena sorriu ao ver que Afrodite estava agindo como o esperado. Aquilo era muito, muito bom.
Bem, Apolo não disse nada sobre não te contar, então acho que posso fazer isso.
Apolo? Ele certamente está apaixonado por Ártemis mas... Hey, o que você está em escondendo?
Nada. Só achei que você pudesse ajudar os dois.
Oh, Atena! Você é mesmo um gênio! Deuses, tenho que escrever para Apolo urgentemente! E fazer Ártemis perceber que ama o irmão. Não se preocupe, ainda estarei de olho em você e em Poseidon! Tão lindos, haha. Agora, tenho muito que fazer. Beijinhos.
Atena sorriu brevemente, se sentindo um pouquinho culpada. Ártemis ia sofrer com as maluquices de Afrodite, sem a menor sombra de dúvidas, mas talvez ela e Apolo realmente tivessem uma chance. Não era tão errado assim, afinal.
E era muito injusto que Atena aturasse Poseidon e Afrodite, de todo modo. Ela deu de ombros, enquanto rasgava a carta cor-de-rosa.
–X-
Atena estava descendo as escadas quando o interfone tocou. Ela saiu correndo até a sala, tomando o cuidado de não tropeçar na bagunça que ela e Poseidon tinham feito alguns minutos antes, e atendeu prontamente. Era Marie e Atena apertou o botãozinho que abria o portão.
A loira virou-se para o sofá e encontrou um Poseidon muito sonolento deitado como se estivesse cogitando a possibilidade de dormir a tarde toda. O deus se sentou, resmungando, e espreguiçou-se.
—Vizinhos?
—Não.
Ele arqueou uma sobrancelha negra esperando algum complemento, mas Atena manteve-se calada até o momento que ouviu dois toques na porta da frente.
Uma mulher com menos de um metro e sessenta, cabelos castanhos encaracolados até o meio das costas, cerca de trinta anos e realmente muito bonita para uma humana entrou na sala com o sorriso mais simpático que Poseidon já vira em toda vida.
Atena andou até ela com um de seus sorrisos estonteantes e Poseidon se perguntou porque ela nunca sorria daquele jeito para ele, se arrependendo um milésimo de segundo depois. Ele estava agindo como um idiota apai... Como um idiota.
O Deus dos Mares se levantou do sofá tão confortável e andou até as duas que estavam se abraçando perto da porta de entrada. Atena se soltou da mulher (agora que Poseidon reparava bem, a deusa era apenas alguns centímetros mais alta que ela) e o encarou.
—Poseidon, essa é Marie Winewaller.
—Poseidon? – Marie disse, com uma vozinha suave e agradável e riu como se aquela fosse a piada do século. – Outro nome grego?
—Sim. Ele é meu... – Atena mordeu o lábio inferior enquanto pensava. Ela não poderia dizer que Poseidon era seu tio, porque ele não parecia mais velho que ela. Talvez seu irmão ou...
—Namorado? – Marie questionou.
Poseidon quis rir da perplexidade de Atena, mas ela já estava vermelha o suficiente e não era bom deixá-la irritada também.
—Não. Atena é minha prima. – Ele respondeu, estendendo a mão para a mulher. – Prazer, Miss Winewaller.
—Oh, não me chame assim. Marie está bom.
Atena baixou os olhos para os pés e esperou que os dois acabassem de se apresentar.
—Bem, Marie vai arrumar a bagunça enquanto nós estivermos fora, para que você não atrapalhe, Poseidon.
O deus rolou os olhos e coçou a nuca.
—Não tem necessidade, Senhorita Atena, podem ficar aqui se quiserem.
—Tudo bem. – Poseidon deu de ombros antes de sorrir maquiavelicamente. – Vamos almoçar fora.
Atena arregalou os olhos e concordou com a cabeça, indo até o sofá e pegando a bolsa que estava jogada por lá.
—Então vamos, priminho. – Ela disse, irônica, ao puxar as chaves do carro de dentro da bolsa e girá-las nos dedos.
–X-
—Você nunca me disse que tem um carro.
—Você nunca perguntou. – Atena deu de ombros, enquanto corriam pelas ruas de Londres.
Poseidon estava sentado no banco do passageiro, observando tudo maravilhado. As árvores passavam tão rapidamente que era como se eles estivessem se teletransportando.
—Quando se tem esse carro ninguém precisa perguntar. – Ele rolou os olhos apontado para o automóvel. Atena riu e esperou pacientemente até que todos os pedestres atravessassem a rua.
—Não sabia que era tão importante assim mencionar.
—Bem, digamos que se for um Porsche Carrera GT é muito importante.
—Ganhei de presente do meu pai. – Atena comentou. – Uma pena que tele transporte é muito mais prático.
—Essa vida é mesmo muito injusta. – Poseidon resmungou. – Você que pode andar todos os dias em um dos melhores carros do planeta é muito ocupada para isso. E eu moro em um palácio subaquático onde não posso ter nada além de cavalos marinhos.
Atena voltou a rir procurando por uma vaga para estacionar. Poseidon apontou um lugar em uma das ruas mais movimentadas e centrais e a deusa fez uma manobra perfeita. Atena desceu e esperou Poseidon na calçada, enquanto guardava as chaves na bolsa e conferia se não tinha algum dracma ou dinheiro mortal na bolsa. Era humilhante depender do financiamento de Poseidon.
—E então, onde vamos almoçar?
—Porque você acha que eu indiquei uma vaga bem ao lado do Burger King? – Ele retrucou, com um daqueles sorrisinhos sacanas e presunçosos.
—Não acredito nisso. – Ela rolou os olhos. – Será que não podemos comer comida saudável um dia sequer?
—Talvez. – Ele deu de ombros, abrindo a porta da lanchonete segurando-a até que Atena entrasse. – Mas não enquanto você estiver saindo comigo.
Atena enrubesceu só de ouvir as palavras “saindo comigo” e abaixou a cabeça para que o deus não visse. Com toda certeza aquilo só soara malicioso na sua mente neurótica, como Poseidon estava cansado de ressaltar. Ela andou até a fila tentando afastar aqueles pensamentos estranhos e infelizes. Afrodite estava implantando ideias loucas no cérebro de Atena, só podia ser isso.
Poseidon seguiu Atena até a fila e olhou desaprovadoramente para a carteira nas mãos da deusa.
—O que diabos é isso?
—Uma carteira.
—Oh, obrigada. Eu nunca adivinharia se você não esclarecesse. – Ele comentou, tão irônico quanto era capaz.
—Então porque me perguntou?
—Quero saber o que isso está fazendo em suas mãos.
De repente as sapatilhas de Atena pareceram muito mais interessantes que os olhos verdes e brilhantes do deus a sua frente e ela ficou encarando os próprios pés por um bom tempo.
—Eu tenho algumas libras que certamente podem pagar meu almoço por mais quatro dias.
Poseidon pegou a carteira de Atena e um simples roçar de dedos foi suficiente para que um choque elétrico passasse pelo corpo dos dois. O deus ignorou a sensação de seres voadores dentro do estômago e rolou os olhos com veemência.
—Não precisa se preocupar com isso, Atena. Eu disse que pagaria nossas contas durante esse tempo. E não é questão de cavalheirismo – Ele disse, quando a viu comprimir os lábios. – Fizemos um acordo.
—Você é tão machista.
—Você é tão cabeça-dura. Quando vai entender que isso não é machismo?
—Nunca.
Poseidon riu e se virou para a atendente, que esperava para anotar os pedidos. A garota que estava atrás do balcão devia ter pouco mais de vinte anos, o cabelo loiro platinado e liso emoldurava um rosto bonito e infantil. Ela sorriu de um jeito antiquado para Poseidon e ignorou Atena ao perguntar o que ele queria.
O deus analisou os cartazes com os sanduiches e girou nos calcanhares para olhar Atena. A deusa sorriu instintivamente, se sentindo vitoriosa ao ver o olhar irritado que a atendente lhe lançava.
—O que você vai querer?
—Hm. Algo com muito cheddar e hambúrguer duplo.
Poseidon franziu as sobrancelhas surpreso com a resposta.
—Você não é vegetariana?
—Não. – Atena respondeu achando engraçado o fato de ele ter considerado a hipótese. – Por quê?
—Você tem cara de vegetariana. E você estava comendo lasanha vegetariana no Acampamento.
—Era a única lasanha que tinha. O que você vai querer?
Ele se voltou pelo que parecia ser a milésima vez para o balcão.
—Outro combo igual ao primeiro, por favor. E dois cookies para cada.
Atena sorriu propositalmente para a atendente ao pegar o papel com os pedidos e andou até a próxima fila esperando o almoço nada-saudável dos dois. Poseidon tinha ido pegar os refrigerantes e escolher uma mesa.
Depois de pegar as duas bandejas cheias de comida, Atena andou até uma mesa ao lado da janela, onde Poseidon estava sentado confortavelmente.
—Aqui está seu almoço.
—Obrigada. Agora que eu estou pensando no assunto, você poderia ser uma ótima garçonete, Atena.
Ela sorriu ironicamente e desembrulhou o sanduiche, tentando, sem sucesso, não sujar a ponta dos dedos. Poseidon arrumou o sanduiche e as batatas simetricamente na bandeja e Atena riu fofamente, porque isso era o tipo de coisa que ela faria.
—O que foi?
—Depois eu que sou paranoica. Você deve ter algum tipo de transtorno obsessivo compulsivo, Poseidon.
—É um ritual. – Ele se defendeu pegando primeiro o biscoito com gotas de chocolate e dando uma grande mordida.
—Hey! Você não pode comer isso primeiro! É um tipo de sobremesa.
Ele deu de ombros e continuou comendo normalmente.
—Não é não. Primeiro eu como o biscoito, depois as batatas e no fim o sanduiche. A sobremesa é algo bem mais doce e cheio de açúcar.
—Você é algum tipo de ET com necessidade alterada de glicose. – Ela declarou, enquanto sorria de canto e começava outro debate sem o menor sentido com Poseidon.
–X-
—Isso é errado, Poseidon.
—Ninguém vai descobrir, relaxe.
—Não deveríamos fazer uma coisa dessas. Eu me sinto como uma traidora.
Poseidon rolou os olhos enquanto pagava os sorvetes. Ele entregou o com calda de amora para Atena e ficou com o de chocolate para si.
—Não é como se o Burger King estivesse nos observando para ver se vamos comprar sorvete no McDonalds ou não.
—São duas redes de fast-food inimigas! – Ela protestou.
—Mas o sorvete do McDonalds é muito melhor. Acho que se as duas lanchonetes se unissem iriam dominar o mundo.
Atena negou com a cabeça enquanto andavam até o carro. Poseidon tinha cada ideia absurda. Quer dizer, era tremendamente improvável que algo daquele porte acontecesse. Inimigos mortais não deixavam de se odiar mesmo que tivessem uma causa em comum, ou que fossem obrigados a ficarem juntos.
Ela não sabia ainda, mas pela primeira vez na vida a Deusa da Sabedoria estava completamente errada.
–X-
Poseidon entrou no carro e Atena teve que se controlar para não oferecer um babador. Ele ainda estava deslumbrado e ela esperou até que o deus dissesse alguma coisa potencialmente idiota (o que era bem comum).
—O que vamos fazer agora? – Ele perguntou, saindo do transe.
—Podemos ir ao cinema.
—Fazer o quê?
Atena suspirou e pôs a chave na ignição.
—O que as pessoas fazem no cinema, Poseidon? Pense um pouquinho, não é tão difícil assim adivinhar.
Poseidon sorriu de um jeito malditamente sedutor e se aproximou dela, ficando a menos de dez centímetros do rosto da deusa.
—Se agarram. – Ele sussurrou, voltando a se recostar no banco.
Atena respirou fundo algumas vezes e ignorou a vermelhidão evidente em seu rosto, consciente de que Poseidon ainda a observava.
–X-
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