Fatos Reais
1 Estrupo
Notas iniciais
Comecei a cantarolar uma musica animada enquanto seguia pelo emaranhado de ruas.
Minhas mãos estavam apertadas no bolso do casaco de inverno que vestira apressadamente está manha.
As sacolas de liquidação balançavam presas em meus pulsos. Ventava muito esta tarde.
Era o segundo dia de inverno e nos já estávamos congelando. Quem dirá quando ficar mais frio...
Virei na próxima esquina, mantendo meu ritmo compassado com a minha respiração pesada. Os carros passavam apresados ao meu lado.
Eu não devia ter vindo tão longe só por causa de uma liquidação... Tinha sido irresponsabilidade minha. Com o frio que estava – devia fazer 0º graus – daqui a pouco eu iria congelar. Se o ônibus estivesse no ponto as coisas seriam mais fáceis. Mas senão...
O ponteiro da torre do relógio soou onze horas da noite.
Teria que ligar pra mamãe, ela ficaria histérica se não me encontrasse em casa as duas horas da manha. Ela podia negar, mas eu sabia que mamãe me espiava toda noite quando chegava, assegurando do meu bem estar. Sempre tão preocupada.
Virei mais uma rua e me deparei com um beco.
Ops... Eu devia chegar à estrada principal?
Devia ter pegado à rua errada... Voltei uma rua, prestando atenção na sinalização.
Não, eu veria ter passado demais. Segui pela minha direita, tentando me localizar. Poucos carros seguiam linha reta na direção oposta.
Resolvi segui-los.
Mas o trafego foi diminuindo no decorrer do caminho. De repente, eu me encontrava em uma rua deserta.
Olhei ao redor, tentando não entrar em pânico. Eu só estava perdida em uma rua deserta, as onze horas da noite, longe do lugar onde devia estar. Pare para pensar. O que você tem que fazer?
Chamar alguém. É, pegue o celular Katherine, ordenei a mim mesma.
Busquei o celular em algum lugar jogado dentro da minha bolsa vintage. Apertei o botão de discagem rápida, tentando desesperadamente encontrar o numero de Suzi. Ela era minha melhor amiga, poderia mandar alguém pra cá. Assim chegaria em casa antes mesmo que mamãe notasse minha falta.
Tururu, tocou o telefone no meu ouvido, desligando.
Oh, mas que droga, sem bateria!
Isso não podia estar acontecendo.
Tudo bem, você ainda tem um orelhão, Kate.
Continuei caminhando, tentando encontrar o lado mais forte do trafego.
Foi quando eu o vi.
De longe parecia mais um vulto preto, alguma lona ou coisa parecida. Mas agora em que chegava mais perto, o volto foi se definindo.
Era um homem.
Ele usava botas pretas e jaqueta jeans. Seu cabelo estava descabelado e sua boca um pouco contorcia pro lado – o começo de um sorriso.
Parei de supetão.
Eu podia pedir ajuda, mas ele era um completo estranho. E tinha cara de poucos amigos. Ainda por que... Quem fica a espreita em uma rua deserta como essa, há essa hora da noite?
Dei meia volta, tentando raciocinar.
Ele não iria me seguir. Não, neguei. Não seria burro o bastante.
Eu nem era tão bonita assim... Tá, que sendo frágil e desprotegida já ajudava muito para um cara assim, de acordo com o que diziam os noticiários. Mais eu tinha sardas! Era uma ruiva esquelética que não sabia dar três passos sem cair. Numa superfície lisa, o que era pior. E eu tinha apenas vinte anos... Ele não iria querer alguém tão novo, não é? Mas ai, eu me lembrei dos ataques em menores e comecei a andar mais rápidos.
Espiei pelo ombro.
Um suspiro de alivio escapou pela minha boca rosada. Ele havia sumido.
Continuei pela rua, depois virei e contornei a quadra, seguindo pela quadra seguinte. Eu tinha que ir naquela direção, afinal era onde estava mais movimento, o que significava: telefones públicos. Mais eu queria ter certeza que me encontrava beem longe daquele sacana.
Andei mais uma três quadras até que encontrei mais dois caras. Eles tinham a mesma expressão irônica e as roupas velhas e desgastadas.
Suspirei, resignada.
Onde estava a sorte, quando você precisava?
Passei pelo outro lado da rua, desejando que eles não notassem a minha presença.
Virei de novo na esquina, temendo ser seguida. Olhei pelas minhas costas, mas eles não estavam mais ali. Andei mais duas quadras, só para encontrar mais deserto e outro cara a espreita.
Desviei, seguindo reto.
Foi quando me encontrei com um beco sem saída.
Virei assustada.
O mesmo cara pelo qual acabara de passar me olhava sorrindo, enquanto seus colegas – os dois da outra esquina e o primeiro das duas quadras atrás – estavam ali.
Percebi perplexa, que tudo havia sido uma armadilha. Eles não haviam deixado de me seguir. Estavam me guiando para o lugar perfeito do bote.
Engoli, percebendo minha garganta seca.
O primeiro cara, com as botas pretas, sorriu pra mim, se encaminhando em minha direção.
Oh Deus, o que eu podia fazer?
Eles iriam me massacrar sem nenhum esforço.
Respirei fundo, relembrando os exercícios de kung fu que aprendera na quarta serie.
“Encontre seu ‘chi’ – sua verdadeira força interior – feche os punho e mire para o ponto mais fraco do adversário. Você só precisa de um golpe certo e nem vai precisar lutar.”
Eu sabia onde acertar.
Soltei minhas sacolas, prendendo os punhos e mirando com o olhar o meio das pernas dele.
_E ai, doçura? _disse ele. Sua voz parecia um motor de carro enferrujado, o som lento e rancoroso. _Pronta pra um pouquinho de diversão?
Continuei concentrada, com medo de errar meu alvo.
Só tinha uma chance.
Meu plano A era: Bater no primeiro, esperar que os outros dessem uma brecha e correr o mais rápido que pudesse. Mesmo que eu caísse, ganharia um tempo para me afastar deles.
Plano B? Bem, esse eu não tinha, então o plano A desnecessariamente precisava dar certo.
Ele chegou mais perto de mim, tão perto que pude sentir seu cheiro. Era o fedor de fumaça e álcool. Os outros fecharam o cerco.
_Olhe só a cara de pânico dela, Cara! _gritou um dos dois moribundos que encontrara na esquina.
Fiz uma careta. Será que eu estava com tanto medo assim?
O “líder” fez sinal para que ele ficasse quieto.
_Você não vai gritar? _perguntou em meu ouvido. Seu bafo cheirava a uísque. _Seria tão divertido...
Me preparei para acertar suas bolas.
_ Ande logo, Mark. _disse o ultimo que encontrei. Suas roupas eram mais novas que as dos outros, a jaqueta vermelha com uma etiqueta solta no lado de fora. _Nos não temos o dia inteiro.
_É. _concordou um outro. _Os tiras devem vir logo.
Mark não pareceu prestar atenção neles.
Seus olhos continuavam concentrados em meu rosto.
_Tenho certeza que você nunca provou um homem de verdade, doçura. _disse, sua mão grande e suja deslizando pelo meu rosto. _Vou te foder como nunca.
Acertei na hora um chute no meio das suas pernas, lhe dando um murro no rosto com toda aminha força. Me lancei no meio dos outros, tentando passar. Eles levaram um tempo para perceber o que estava acontecendo, antes de me agarrarem com força.
_Sua vadiazinha imunda! _exclamou o líder, gemendo de dor no chão.
Braços fortes me prenderam – braços impenetráveis.
Tentei me soltar inutilmente dos homens que me cercavam. Eu estava perdida.
O cheiro de urina, cigarro e uísque estavam me deixando enjoada.
_Você vi ver só, sua vaca. _sussurrou Mark, se levantando lentamente do chão.
Ele me segurou com força, me jogando no piso frio.
Varias mãos começaram a rasgar minhas roupas, um corpo forte me empurrando pra baixo.
_Não! _tentei gritar, mas minha voz não saia.
Uma boca molhada mordeu meu peito, outra apertou minha bunda.
Fechei os olhos, tentando não sentir o frio penetrar meus ossos. Suas mãos ásperas apertavam, perfuravam, penetravam minha carne. Era como tortura.
De repente um pau grosso entrou em minha virilha, machucando.
Eu podia ouvi-lo gemer incontrolavelmente contra o meu rosto. Depois que esse saiu, veio outro e mais outro. Eles viraram o meu corpo inerte raspando feito pano no chão.
Outra penetrada por trás e eu já não sentia mais nada. Um liquido gosmento escorria pelas minhas coxas e apenas quando pude toca-lo percebi que era sangue.
Depois de alguns segundos percebi que não havia mais nada em cima de mim.
Eles foram embora, suspirei.
Tentei me virar de frente, mas todos os meus músculos ardiam como navalha. Tentei aspirar o máximo de ar que pude, meus pulmões doloridos. O vento era como um congelador vivo, passando de hora em hora pelo meu rosto e corpo – me martirizando.
Lutando para continuar consciente tentei avistar minha bolsa.
Droga, ela estava longe demais. E eu não conseguia me mexer. Será que morreria ali, exposta a noite feito um animal?
Minha visão começou a ficar turva. O ar não chegava com facilidade.
Lembrei do rosto de minha mãe, desesperado, quando “espiasse” em meu quarto – como toda a noite – e não me encontrasse ali.
Ao longe pude ouvir barulhos de sirenes.
Sorri.
O ultimo pensamento que tive foi à imagem dos meus malfeitores e do rosto horrorizado do líder Mark ao entrar no camburão da policia.
Notas finais
Prometo postar mais fatos reais, o próximo até já esta definido... Acidente.
Beijinhos,
Lice Carlie
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