Fatos Reais
2 Assassinato
Notas iniciais
Respire fundo; repeti a mim mesma.
Meu pensamento saiu extremamente alto se comparado com o restante da sala. Tudo era um silencio mortal. Só o que ouvíamos era a minha respiração e o seu sangue pingando pelo chão.
Tentei manter minha mão firme, enquanto ela insistia em tremer vergonhosamente. Meu sangue corria tão depressa por minhas veias que eu podia senti-lo, a adrenalina aumentando os meus sentidos ao ponto de me deixar tonta. Senti cheiro de naftalina, mas ignorei essa parte, tentando, em vão, me concentrar no meu objetivo.
Varri mais uma vez meus olhos pelo local.
O grande galpão estava instantaneamente escuro, pois o sol já se punha no horizonte, mas mesmo assim pude identificá-lo facilmente.
Ele estava exatamente no mesmo lugar, seu corpo meio inerte meio vivo, entre um estado de torpor dilacerável. Suas mãos pousavam em seu colo, sua cabeça tombada levemente sobre a cadeira, o tronco contorcido pela má posição. Seus olhos encaravam o chão, mas eles não encaravam um ponto fixo, simplesmente se perdiam em linhas tortas, vislumbrando o nada. O sangue escorria de seu couro cabeludo até o pescoço e esparramava-se por sua blusa azul-claro, á manchando. Eu havia feito um corte e tanto com aquela faca de cozinha, do qual não poderia me arrepender ou ao menos deixar de ter orgulho. Seus pés tentavam apóia-lo, mas ele não parecia ter forças pra isso. Além disso, seu semblante era de alguém que acaba de perder sua ultima ficha. Aquela pessoa que desiste por só não ter forças para continuar. Aquele alguém que se perde em si mesmo. Era horrível vê-lo assim. Apesar de ser eu a causa de toda essa dor e desse desinteresse. Ainda era angustiante.
Mas eu não podia voltar atrás. Tinha que continuar. Deveria fazê-lo, antes que me arrependesse e fosse tarde demais. Antes que eu me perdesse também.
Com coragem obriguei meus pés á se aproximarem mais dele. Era como lutar contra uma ventania em plena tempestade, mas minha vitória foi garantida ao me encontrar com sua cadeira escondida pelas sombras da escuridão, encostando minha arma em sua cabeça machucada. Lagrimas começaram a deslizar pelo meu rosto sem querer. Elas chegaram a minha boca, e senti seu gosto salgado outra vez. Eu já havia chorado tanto... Porém nunca tão dolorosamente quanto agora. Eu era uma criança soluçando por um brinquedo, um homem implorando por seu emprego ou uma mulher com coração partido. Uma garota pronta para assassinar seu amor verdadeiro.
Respirando ruidosamente, mordi meu lábio inferior com medo de gritar. Gritar de desespero, gritar de angustia. Gritar de ódio. Delicadamente acariciei seu cabelo macio, o puxando pra cima, para que ele pudesse me encarar. Seus olhos piscaram, voltando a realidade.
_Por quê? _sussurrou, sua voz quase inaudível, caso não estivéssemos tão próximos.
Solucei antes de responde-lo, um buraco crescendo em meu peito ao perceber que iria realmente fazer aquilo.
_Amo você. _disse, num misto de raiva e tristeza, minha emoção transtornando minha mente ao lembrar da verdade que corroia minha alma, dia após dia, desde que descobri que o amava, que faria tudo por ele, até dar minha vida.
Verdade essa que ele desprezou.
Isso me fez lembrar os motivos para minhas ações e meu coração deu um salto, me deixando gogue, enquanto seus olhos fechavam-se suavemente, igual uma criança caindo em sono profundo. Eram olhos da cor das águas, olhos tão inocentes que nunca alguém poderia suspeitar. Eram olhos hipnotizadores e apaixonantes. Eram olhos iguais aos meus.
Como tais olhos podiam me trair? Como tais olhos podiam me castigar sucessivamente, encantando-se por outra pessoa que não era eu?
Raiva borbulhou em minha língua, a mesma raiva que eu sentira quando ele me mostrou a foto da garota apaixonada. Será que ele era tão estupido assim, para acreditar fielmente que aquele meu carinho e dedicação eram apenas demonstrações de um afeto amigo, sem malicia alguma?
Como eu desprezava aquela sua simplicidade ao falar de suas namoradas, repetidas vezes, sem notar meu desespero... Poderia tudo ser tão simples! Eu queria que fosse simples. Mas infelizmente, ele, meu melhor amigo, meu amante, meu companheiro, não me via com os mesmo olhos amorosos e, se ele não conseguiria me ver assim, não veria mais ninguém.
Fora o que eu havia decidido, quando encontrei aquele galpão abandonado, fui até a sua casa, o apaguei com uma faca de cozinha e o trouxe até ali. Eu não permitiria que ele fosse imaculado por outra vadiazinha. Eu era orgulhosa demais para aceitar isso, ainda que significasse essa loucura.
Não, ele era meu e de mais ninguém.
_Amo você. _repeti em seu ouvido, minha alma se despedaçando juntamente com minhas lágrimas e com a certeza da minha voz, a certeza que causaria aquela dor insuportável e que, igualmente como uma tragédia de Shakespeare, resultaria em um desfecho abrasador.
Então, acomodei minha arma e sem hesitar, puxei o gatilho.
Notas finais
Lice Carlie
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