Fate/Legends - Ashe
8 Ashe - Batalha em Outro Mundo
Notas iniciais
– Ei, Ashe! Ashe! – Chamou John.
– Hã? O quê? – A arqueira se assustou.
– Você está bem? Você parecia péssima. – Disse John.
– Eu estou bem. Só alguns pensamentos. – Respondeu Ashe.
John não disse nada. Pararam em um semáforo e Ashe olhou ao redor. Viu um outdoor de propaganda do zoológico da cidade. A imagem do leão, que era o centro da imagem e em maior tamanho que as demais, estava totalmente rasgada, mas o restante dos animais e do outdoor estavam intactos.
– Vândalos. – Disse John. – Vi outros outdoors do zoológico rasgados da mesma maneira.
O sinal abriu e o carro andou. Ashe esqueceu os leões rasgados e voltou a pensar sobre a recordação que ela nunca esquecera, e que uma década depois, ainda podia lhe provocar pesadelos.
Nunca mais aquilo vai acontecer! Nunca! Esse mundo é tão farto…se o Graal tem mesmo o poder de realizar qualquer desejo, então eu preciso vencer. Não, eu TENHO que vencer. Não importa quem apareça pelo caminho.
Ashe e John passaram mais algumas horas andando pela cidade. O parque e a praça, assim como uma avenida, seriam lugares ótimos para Ashe batalhar. Sendo uma arqueira sem aptidão para combate corpo a corpo, ela precisava de amplo espaço de manobra.
As ruas lhe lembravam túneis ou quando lutava com montanhas ou lagos nos lados para evitar ser flanqueada. Além disso, haviam diversos carros, cabines telefônicas, postes, placas e diversas casas e lojas. Isso era muita cobertura, que poderia ser usado pelos inimigos para avançar ou recuar.
Na verdade contra soldados comuns as ruas eram espaçosas o suficiente. Mas contra outros Campeões, isso seria extremamente problemático.
Também não haviam lugares altos que poderiam servir de esconderijo. Os prédios tinham habitantes e ela precisaria subir de elevador ou pelas escadas. E caso fosse descoberta, o elevador e as escadas serviam tanto de entrada como de saída, o que significava que a única real chance de despistar alguém ou ganhar terreno seria pular de uma altura ridícula.
Numa montanha, morro ou floresta isso era totalmente diferente. Primeiro que na montanha o inimigo tinha que avançar sobre uma chuva de flechas, a maior parte do tempo sem proteção de terreno. Segundo, o inimigo ficava lento, pois teria que subir uma encosta. Os com armadura ficavam ainda mais lentos e os sem proteção morriam facilmente. E terceiro, mesmo que a alcançassem, ela podia simplesmente descer pelo outro lado da montanha ou do morro.
Na floresta os disparos eram totalmente de surpresa. Mesmo em florestas cheias de árvores que podiam servir de escudo, era possível mudar de ângulo se movendo ao mesmo tempo que continuava escondida. Também era possível atacar de cima de árvores e mudar para outra caso necessário, com escadas escondidas ou até mesmo escalando.
Nessa cidade não havia nada disso. As ruas eram totalmente planas e ela não teria terreno alto e nem poderia simplesmente entrar nos prédios que quisesse. Os diversos objetos ajudariam o inimigo a se proteger, mas lhe tirariam espaço, tornando possíveis rotas de fuga ou movimentação previsíveis.
As ruas também só permitiam se mover para frente ou para trás, já que em ambos os lados haviam casas, prédios e lojas. O ideal então talvez fosse lutar perto de esquinas ou cruzamentos, que teriam mais espaço. De qualquer maneira, ela teria que lutar atirando flechas e correndo do inimigo, o que não era uma boa situação para um arqueiro.
Ashe fazia notas mentais de tudo isso. O parque, a praça, a avenida e algumas ladeiras poderiam lhe dar alguma vantagem. Ela lamentava que tudo isso fosse apenas teoria. Como ela descobriu através dos anos, a prática sempre trazia algo inesperado.
– Estamos a alguns quarteirões do centro comercial. – Disse John. – Você acha que encontraremos alguma coisa no meu escritório?
Antes que ela pudesse responder, teve a sensação de algo.
– Pare! – Gritou Ashe. Seu vestido azul fora logo substituído pelo vestido de batalha negro, com a capa e capuz que ela usava. O arco de Avarosa também surgiu.
– O que foi?
– Tem alguém lutando mais a frente! Fique aqui.
Ashe desceu do carro e correu na direção do combate. O som de metal batendo contra metal estava cada vez mais forte. Alguns objetos deviam estar sendo atingidos, pois o som mudava às vezes. Ela se aproximou devagar e se escondeu atrás de um carro para observar.
Um homem alto, com uma armadura dourada e uma lança gigantesca, trocava golpes furiosamente com uma garota que usava uma espada quebrada. Ashe quase a confundiu por um garoto, devido ao cabelo curto, da mesma cor branca que o dela, mas não tão claro.
Ashe achou que a garota estava perdendo, pela espada quebrada. Mas não haviam pedaços dela em nenhum lugar. Mesmo parecendo ser muito frágil ( a garota parecia mais magra que Ashe ), ela continuava atacando e se defendendo com ferocidade, por vezes acuando o lanceiro.
O lanceiro deu uma estocada em direção ao pescoço da jovem. Ela desviou e deu três ataques rápidos, se movimentando com saltos leves graciosos. O homem se defendeu de dois e sua armadura absorveu o terceiro. Imediatamente revidou com uma estocada que atingiu um carro e o lançou pra dentro de uma loja.
Então os dois se entreolharam e tomaram distância um do outro. O homem de armadura dourada se virou e gritou:
– Saia! Sabemos que está aí! Quanta desonra, espreitar um duelo alheio!
Como ele…claro. Da mesma maneira que eu os senti lutando aqui, eles podem sentir que estou aqui. Aram disse que os Campeões poderiam sentir outros próximos.
O homem estava indignado. A garota observava a direção onde Ashe estava, sem expressão de preocupação ou raiva. Era uma postura de alguém confiante e destemida.
Ashe se levantou e disse: — Estou aqui. Não pretendia atacá-los. Mas não pude deixar de notar a batalha de vocês. Deu pra sentir suas presenças a uma distância enorme. Deveriam ser mais cuidadosos.
– A intenção era essa mesma, atrair alguém aqui para um combate. Afinal, apenas um pode vencer, não é mesmo? – Replicou o homem.
A garota não disse nada e Ashe suspirou. Bem, eu sabia que acabaria encontrando alguém assim cedo ou tarde.
– Mas precisa mesmo ser assim? Não podemos nos reunir e tentar encontrar alguma solução? – Perguntou Ashe.
– Você viu o poder do Graal. Como iríamos confiar um no outro, sabendo disso e desconhecendo os outros? – Replicou o homem.
Agora era um momento perigoso. Ela podia se revelar ali e torcer para que no mínimo que a respeitassem pelos esforços diplomáticos da League. Ou daria informações valiosas a não apenas um, mas a dois inimigos de uma vez. Ela pensou um pouco: O cavaleiro era claramente de Demacia, mas nada sobre a garota dava uma pista de onde viera. Decidiu arriscar.
– Eu sou Ashe, rainha de Freljord, líder dos avarosianos.
O homem estava boquiaberto e a garota esbugalhou os olhos de surpresa. É claro que eles tinham sido informados sobre a perda de memória. E agora alguém se revelava diante deles, dando informações vitais sobre si mesma.
– Cavaleiro! Você disse que era uma desonra eu ter espreitado seu duelo! Agora uma mulher e soberana revelou sua identidade a você! Pela sua honra, você deve fazer o mesmo! – Disse Ashe.
O homem se curvou, num gesto de formalidade.
Esse pode ser um aliado. – Pensou Ashe.
– Princesa Ashe. – Disse o homem, e Ashe não deixou de reparar que ele não se referiu à ela como rainha. – Sou o Príncipe Jarvan Lightshield IV, protetor e herdeiro do trono de Demacia.
Jarvan? Por Avarosa, isso pode ser péssimo.
Ashe nunca conversou a fundo com o príncipe demaciano, mas já ouvira falar dele por diversas fontes, incluindo o próprio pai, Jarvan III. Algumas coisas boas, outras bem ruins. Ela sabia que ele era impulsivo e emotivo, ao contrário do que a aparência sugeria. Discutia constantemente em reuniões que participava, se envolveu no incidente em Kalamanda com Swain, entre outras coisas.
Ele preferia lutar do que aturar uma discussão diplomática. Afinal, cresceu ouvindo que Demacia era a força de Runeterra, invencível e uma fonte de justiça num mundo decadente e perigoso. E que ele seria o herdeiro desse reino.
E aqui estava ele, admitindo que se fez presente e visível no meio da cidade para atrair alguém e arrancar o primeiro sangue da Guerra do Graal.
– Príncipe Jarvan… — Ela disse.
– Antes disso, é a vez dela. – Disse ele, apontando para a garota que estava enfrentando.
A garota simplesmente encarou Jarvan, sem expressão alguma.
– Vai se identificar? Ou não tem honra? – Provocou Jarvan.
– Honra? – Disse a jovem, zombando da palavra. – Essa é uma palavra bonita, mas não passa de mais uma mentira. Eu joguei essa “honra” no lixo há muito tempo atrás.
Jarvan rangeu os dentes e preparou sua lança para o ataque. A espadachim também se preparou.
– Esperem! Você…eu não sei quem é, mas agora você sabe quem eu e Jarvan somos. Nós temos como encontrar uma solução! – Disse Ashe.
– Em Runeterra vocês dois podem ser reis, mas aqui não passam de mais dois plebeus. A única coisa que sabem é mentir e manipular para conseguirem poder e “glória”. Não tenho a menor intenção de mais uma vez ser uma marionete política, mais um peão a ser sacrificado. – Respondeu a jovem.
Jarvan estava vermelho de raiva. Ashe imaginou quem ela poderia ser.
– Mas… — Tentou Ashe mais uma vez.
– Senhorita Ashe. – Interrompeu a jovem. – Eu não tenho nada contra você, mas também nenhuma simpatia. Então permita-me terminar meu duelo com Jarvan, um contra um, sem interrupções. Vou confiar em sua “honra”.
– Muito bem dito! – Gritou Jarvan e avançou, lança empunhada.
Espada e lança se chocaram. Jarvan era mais forte e tinha armadura, mas a garota era muito mais rápida e seus golpes mais precisos.
Ashe não sabia o que fazer. Não conseguiria interromper o duelo. E sua posição era totalmente desfavorável. Pela descrição de Aram, Jarvan era da classe Lancer e a garota da classe Saber. Ambos especialistas em combate corpo a corpo. Decidiu esperar e assistir mais um pouco.
A garota atacava furiosamente. Jarvan então pegou uma segunda lança menor, que tinha a bandeira de Demacia embrulhada. Ele jogou o estandarte em direção à garota, e a bandeira se desenrolou. Surpresa, a visão dela foi bloqueada. O príncipe aproveitou a chance. Conectou a ponta de sua lança ao estandarte e foi puxado, trombando com todo o peso de seu corpo e armadura na garota, que voou e soltou um grito. Ela foi arrastada pelo asfalto, gerando esfolações nas costas e no braço esquerdo.
– É agora! – Gritou Jarvan, pronto para empalar a jovem.
Ashe agiu. Soltou uma rajada de flechas, que fez Jarvan desviar.
– O que diabos você está fazendo, Ashe? – Gritou furioso.
– É RAINHA Ashe. Não posso deixar você matá-la sem saber quem ela é. – Disse Ashe friamente.
– Então você também é uma inimiga. É melhor assim, já me livro de dois concorrentes de uma vez.
Ashe estava estupefata. Era assim mesmo que diziam que Jarvan resolvia as coisas. Não podia imaginar o que seria de Demacia com ele como rei.
– Tudo se resume a lutar? Não pode controlar esse seu fogo por um minuto sequer? – Cuspiu Ashe.
– O quê? Como ousa, eu sou o príncipe… — Dizia Jarvan quando foi interrompido por uma espada.
– Eu tinha gerado meu escudo rúnico, principezinho. Seu ataque seria bloqueado e você decapitado. Ashe na verdade te salvou. – Disse a garota, golpeando Jarvan.
Jarvan se defendia habilmente com sua lança, que não era exatamente a melhor arma para um combate corpo a corpo tão próximo e rápido. Ashe disparou uma flecha na direção da espadachim, que pulou pra trás.
– Hmph…tanta “honra”.- Disse a jovem.
– Será que vocês não podem me ouvir? – Perguntou Ashe.
– Vocês falam DEMAIS! – Gritou Jarvan – São as AÇÕES que fazem um homem!
Ashe e a jovem olharam o avanço de Jarvan e se prepararam. Elas sabiam o que ele ia fazer.
– DEMACIA!
Um terremoto destroçou o asfalto e a calçada, erguendo-os e formando uma muralha circular de mais de três metros de altura. Alguns carros foram levantados pelo impacto, disparando alarmes. Vitrines e até algumas janelas de prédios se despedaçaram. Dois postes caíram.
Ashe e a garota foram derrubadas pelo impacto do tremor. Jarvan avançava em direção à Ashe, para perfurá-la. Rapidamente se levantou e disparou três flechas, bloqueadas pela armadura e a barreira de Jarvan. Ele jogou o estandarte na direção dela. Se ele a derrubasse seria o fim. Ela desviou do impacto corporal, mas agora a luta seria corpo a corpo. A garota se aproximava por de trás dela. Ela estava cercada.
Uma luz brilhou e ela não estava mais dentro da muralha de Jarvan, e sim na rua.
O quê…
Ashe se virou e viu John escondido atrás de um carro. Ele tinha flashado ela pra fora. Ela sorriu.
Nada mal.
Flash era um feitiço interessante. Nos Campos da Justiça, ele podia ser usado até mesmo para atravessar paredes. Mas às vezes acontecia do invocador errar o Flash. Ela se lembrava até hoje de uma vez que seu invocador tentou usar Flash através da parede do dragão, errou e Ashe dera de cara com a rocha. O saldo foi um nariz e dois dentes quebrados. E em seguida uma morte quando o time inimigo a alcançou.
Ela imaginou se John tivesse errado o Flash. Poderia ter batido na muralha de Jarvan. Ou pior, uma parte de seu corpo fosse teleportado pra fora e outra parte dentro das pedras. Estremeceu ao pensar o que poderia acontecer.
– John! Saia daqui, está perigoso demais. – Disse Ashe.
Seu invocador entendeu e se escondeu em uma loja de roupas que teve a vitrine e o piso destroçados pelo terremoto de Jarvan. Ashe subiu em cima de um poste inclinado, procurando ver o que estava acontecendo dentro da arena de asfalto.
Jarvan estava atacando freneticamente a garota. Sem espaço para usar sua velocidade, ela estava acuada pela força superior do príncipe. O invocador dela não estava ali ou não sabia usar os feitiços de invocador para ajudá-la. Logo Jarvan conseguiu feri-la na perna, fazendo uma perfuração superficial na coxa direita da jovem, pouco acima do joelho. Ela tentou ganhar um pouco de espaço pra respirar, mas Jarvan estava implacável.
Ashe se lembrou do que dissera mais cedo. Ela pretendia resolver as coisas pacificamente, mas como previra, não podia ser tão ingênua de esperar que tudo saísse conforme o esperado. Ainda mais com o Santo Graal como prêmio.
Suspirou. Jarvan não iria cooperar e ela não sabia quem era a garota.
A tentativa diplomática fracassara. Pegou seu arco e forçou as cordas invisíveis, concentrando uma aura de gelo que formava uma enorme flecha, a Flecha Encantada de Cristal. Ela disparou no centro da arena de Jarvan, onde ele e a jovem ainda lutavam. Acabaria com os dois com um único golpe.
Jarvan e a garota viram a gigantesca flecha se aproximando.
– Merda! – Disse Jarvan.
Ashe observou quando um brilho de luz envolveu Jarvan. Ele tinha sido flashado pra fora de sua muralha, que ao contrário dos Campos da Justiça, não possuía tempo limite na vida real.
A garota, entretanto, continuou lá. Se não saísse, seria totalmente congelada. Morreria de hipotermia ou teria o corpo estilhaçado por algum ataque em seguida.
Ela pegou sua espada quebrada e passou a mão sobre as runas encravadas. onde uma luz verde percorria a lâmina, reforjando-a. Uma enorme espada, até maior do que a própria garota que a empunhava, surgiu. A jovem fez uma pose como se fosse rebater a flecha de gelo.
Não adianta, qualquer impacto causará uma explosão de gelo.
– Golpe de Vento! – Gritou a jovem, golpeando o ar com a gigantesca espada.
Uma energia verde destruiu a muralha de Jarvan. O vento gerado pelo golpe jogou pedaços enormes de asfalto por todos os lados. Ashe pulou pra se desviar da rajada, mas foi atingida, sentindo uma forte dor. O vento a jogou longe, assim como o poste onde estava.
Ela conseguiu ver sua Flecha Encantada de Cristal ser quebrada em três pela rajada verde, os pedaços sendo espalhados em diferentes direções pelo vento.
Impossível. Pensava Ashe, atônita.
Uma parte da flecha colidiu com o quarto andar de um prédio, congelando aquela área. Outra se espatifou no meio da calçada, congelando a passagem e a entrada de uma loja. A última caiu entre dois carros, congelando-os parcialmente.
Ashe se desviou de um carro que passou bem perto dela, arremessado pelo vento. Jarvan, mesmo de armadura, também foi atirado pra dentro de uma loja, quebrando uma vitrine e destruindo mercadorias eletrônicas.
O uivo do fortíssimo vento enfim cessou. A área ficou ainda mais destruída do que já estava. Ashe viu a jovem saindo da muralha pelo rombo que ela fizera, com sua gigantesca espada sobre o ombro.
Como Aram disse, ela se lembraria dos campeões quando eles se revelassem ou usassem seu poder máximo.
Riven.
Ashe não sabia absolutamente nada sobre Riven, a Exilada. Chegaram a lutar juntas e contra em diversas batalhas nos Campos da Justiça, mas nunca se falaram. Nem mesmo durante os combates. Ela era de Noxus, e segundo os rumores, tinha desertado.
O pouco que sabia era que os campeões de Noxus a odiavam pela deserção. Os de Demacia, por ser noxiana e suspeita. E os de Ionia pela invasão noxiana, da qual Riven era uma das comandantes. As barbaridades da campanha foram imensas. Teria sido por isso que ela se exilou. Outros diziam que era um disfarce que ela usava para atuar como espiã para Swain.
Ashe se lembrou do que Riven disse no começo da batalha. Ela parecia sincera. Mas agora isso não importava mais. Porque ninguém odiava Noxus mais do que Jarvan IV.
– Riven! Claro, por isso você não quis se identificar. O que esperar de uma vagabunda de Noxus! – Jarvan exalava ódio.
Riven não respondeu. Alternou o olhar entre Jarvan e Ashe, como se avaliasse o melhor cenário de ataque.
– Você vai pagar por todos seus crimes, Riven! Ou você achou que poderia simplesmente dizimar vilas inteiras em Ionia e sair impune? Como você consegue encarar a si mesma? Você deve sonhar com aquele massacre e sorrir, não é mesmo? Como a Liga aceitou alguém como você? – Cuspia Jarvan.
Ashe concordava com Jarvan. Ela tinha as mesmas dúvidas, mas não em relação à Riven, mas a vários outros Campeões. Mas isso não seria motivo algum pra uma aliança entre os dois, totalmente irreparáveis depois que se atacaram. Notou que a expressão de Riven mudou quando Ionia foi mencionada, mesmo que por pouco tempo.
Ashe se levantou e sentiu uma dor queimando em seu braço esquerdo. Olhou e viu um corte enorme, rasgando metade de seu braço, provocado pela rajada de energia. O corte tinha sido profundo, ela sentia dores enormes ao mexer o braço. Agora seria dificílimo empunhar o arco de Avarosa.
Isso porque ainda me desviei, senão aquilo teria arrancado meu braço. Ou me cortado ao meio.
Ashe novamente se surpreendeu com o poder dos campeões fora dos Campos da Justiça. Ela já viu Riven usar esse golpe, mas nunca com esse magnitude.
Jarvan correu em direção a Riven e começaram a trocar golpes. A espada reforjada era enorme e agora atacava Jarvan de muito mais distância. Curiosamente, Ashe pensou que isso na verdade favorecia Jarvan. Com a espada quebrada Riven tinha que correr mais riscos para se aproximar do demaciano, mas ao mesmo tempo tornava difícil um contra-ataque, pela lança dele não ser tão eficaz a uma distância curta. Agora a espada dela parecia ter mais alcance que a lança do príncipe, mas ele também tinha mais espaço para dar estocadas e se defender.
Ashe empunhou o arco, grunhindo de dor pelo ferimento no braço. Ela esperou o momento em que Riven e Jarvan cruzassem lâminas. Disparou nesse momento. Atingiria as costas de Jarvan ou Riven.
Jarvan ouviu o silvo da flecha e levemente se inclinou. A flecha penetrou no ombro de Riven, que grunhiu de dor e recuou.
Poucos conheciam o verdadeiro efeito das flechas do arco de Avarosa. Nos Campos da Justiça ele era limitado a reduzir o movimento dos inimigos, mas no mundo real era muito mais fatal. A flecha de gelo produzida causava congelamento dos músculos, nervos, veias e tecidos da área afetada. Era extremamente doloroso em Freljord, onde além do congelamento gradual do ferimento, ainda havia a exposição ao frio local.
A pele ficava roxa ou até mesmo preta pelo congelamento. Perda de sensibilidade ou até controle do membro vinha em seguida. Até o sangue congelava, entupindo veias e levando a tonturas, dor de cabeça e a um ataque cardíaco. A solução quando o ferimento atingia esse nível era amputar a parte congelada.
Era possível recuperar-se do ferimento de uma flecha do arvo de Avarosa, removendo-a rapidamente, e então repousando e aquecendo a parte atingida. Afinal, a flecha congelava aos poucos.
Mas não era o caso da Flecha Encantada de Cristal, que causava congelamento instantâneo. Ela se lembrou de um soldado atingido, que teve toda a parte inferior congelada enquanto corria em direção à ela. Ele caiu e suas pernas e bacia se estilhaçaram, e os órgãos do homem escorriam pelo chão enquanto ele gritava de agonia. Ainda assim uma vez conseguiram salvar alguém, usando um delicado e difícil processo de descongelamento e recuperação.
Riven retirou a flecha e olhou para Ashe. Ela provavelmente pensou que era o alvo da arqueira, e começou a lutar com Jarvan de maneira diferente. Ela se mantinha em alguma área com carros ou destroços, enquanto deixava o demaciano visível na rua.
Bem, tenho que vencer os dois de qualquer maneira.
Ashe, com dificuldade, disparou mais duas flechas, mirando Jarvan. Ele desviou, mas isso deu a brecha que Riven precisava. Ela correu atrás de carros e destroços, e veio na direção de Ashe.
Merda. Ela queria tirar Jarvan de cima dela.
Aconteceu aquilo que Ashe temia. Riven usava os diversos obstáculos da rua, que estava cheia deles, para bloquear a visão da arqueira e se proteger das flechas. Sem visão clara e com o braço ferido, ela recuou, mas Riven era muito rápida. Mesmo com o ferimento na coxa provocado por Jarvan ela a alcançou e desferiu um golpe.
Ashe só teve tempo de colocar seu arco na frente. O impacto ocorreu, e Ashe foi jogada para trás, mas se manteve em pé, se equilibrando com vários passos.
Riven estava incrédula. – Como você….
– É de Gelo Verdadeiro. Inquebrável, mesmo pra você. – Respondeu Ashe.
A exilada não esperava aquilo. Ela nunca esperaria que um mero arco fosse deter sua gigantesca espada rúnica.
Jarvan agora vinha na direção das duas. Riven bloqueou a estocada. Ashe disparou uma flecha, com a intenção de atingir o peito do cavaleiro, mas devido ao braço ferido, atingiu a perna esquerda do príncipe, que não gostou nem um pouco.
Deixou Riven e desferiu uma violenta estocada, que Ashe novamente bloqueou com o arco de Avarosa. Mas Jarvan era muito mais forte que Riven, e ela foi arremessada no ar dessa vez, estilhaçando o pára-brisas de um carro.
Ashe grunhiu de dor. Vários cacos de vidro tinham cortado seus braços e costas. Ela retirou alguns que se fincaram na pele e concluiu que não havia nenhum ferimento mais grave.
Enquanto isso Jarvan e Riven continuavam a se digladiar. Jarvan levava vantagem, pois tinha os dois braços e Riven apenas o direito. Ela começara a sentir o efeito da flecha que a atingira. Mas logo Jarvan também sentiria em sua perna.
Antes disso, porém, o demaciano aproveitou a vantagem. Bloqueou a espada com seu estandarte na mão esquerda. Com a direita tentou atacar, mas Riven trouxe a espada de volta para se defender. Era isso que ele queria. Jarvan então chutou com toda a força o ferimento de Riven na coxa. A força mais o peso da armadura fizeram a jovem gritar de dor e cair no chão.
Jarvan tentou perfurá-la caída, mas Riven bloqueou. E ela fez a mesma coisa: caída, chutou a flecha que estava na perna de Jarvan, fazendo-a penetrar ainda mais fundo. O príncipe gemeu, dando tempo para a exilada se levantar, mas Jarvan imediatamente atacou.
Dessa vez Riven não conseguiu bloquear. A lança atravessou sua clavícula direita. Ela então reuniu todas as forças e antes que Jarvan puxasse a lança, desferiu um golpe fortíssimo em diagonal. Jarvan recuou um passo, o que provavelmente salvou sua vida, pois foi cortado da bacia do lado esquerdo até as costelas do lado direito.
Ele pulou pra trás de dor, e com isso puxou sua lança, que abriu ainda mais o ferimento de Riven, pelos ganchos laterais da lança. Outro grito da noxiana.
Ashe viu tudo e se aproximou. Os ferimentos de Riven não eram fatais, mas ela agora tinha o braço esquerdo com alguns nervos e músculos congelados e praticamente o ombro direito destruído. E um ferimento na perna. Com dificuldades, ainda empunhava a enorme espada.
Como ela consegue segurar aquilo? Ela é mais magra que eu.
A batalha tinha praticamente acabado pra ela. Pra sorte dela, Jarvan estava pior. A flecha na perna ainda não tinha sido retirada, um grave erro. E seu torso tinha um corte profundo, que jorrava sangue e que ele tentava segurar com a mão esquerda. Podia usar os dois braços, mas será que teria forças?
Ashe também não estava melhor. Seu braço esquerdo tinha piorado com o impacto no carro, suas costas estavam em péssimo estado e qualquer movimento era um martírio.
Mas alguém teria que sair vencedor dali. Ela só torcia pra que toda essa luta não atraísse outro Campeão, que apenas iria limpar a rua com os três.
Ela tentou se comunicar com John, como fazia com um invocador nos Campos da Justiça:
John, pode me ouvir? Se puder, tente me curar. Posso terminar isso.
Ela recebeu uma resposta: Já usei o feitiço de Cura quando aquela espadachim gerou aquele furacão. Você tinha um corte enorme na lateral do tronco.
Por um lado, isso afirmava que podiam se comunicar mentalmente, como nos Campos da Justiça. Por outro, que ele já tinha usado Cura e ela nem havia percebido. Viu que seu vestido tinha um enorme rasgo do lado esquerdo, assim como a pele estava manchada de sangue.
A dor aguda que senti naquele momento foi esse ferimento então, não o braço.
Por sorte seu invocador tinha percebido e resolvido o problema. Mas agora a situação estava num impasse. Todos estavam cautelosos. Riven e Jarvan não sabiam se conseguiriam dar outro golpe e também se defenderem. Ashe não conseguia empunhar seu arco. Se um deles ainda tivesse forças para correr até ela, seria o fim, ela poderia bloquear com o arco, mas não atacar.
O impasse prosseguia, até uma luz envolver Jarvan.
Teleporte. O invocador dele o está teleportando.
Com certeza o invocador de Jarvan estava assistindo a batalha. Concluiu que o príncipe estava em péssimas condições e decidiu não arriscar. Jarvan não disse nada, nem Riven e Ashe fizeram qualquer pretensão de ataque. Por fim, o demaciano desapareceu.
Riven caiu sobre um joelho, ofegante. A região da clavícula direita estava totalmente destroçada. Ashe se aproximou. A exilada pareceu surpresa e Ashe por um segundo achou que Riven tivesse se esquecido dela.
– Riven! Espere! – Disse Ashe. – Não precisamos fazer isso, não é mesmo?
Ashe tirou suas últimas forças para empunhar o arco e conjurar uma flecha de gelo. Riven poderia atacar se a visse indefesa.
Mas a noxiana não se moveu, apenas encarou Ashe.
– Riven, eu não conheço nada sobre você. Por isso não tenho como te pedir coisa alguma, mas…poderia pensar no que eu disse? Por favor? – Perguntou Ashe.
Riven se surpreendeu. Ashe não a culpava. Provavelmente ela esperava tudo, menos aquilo. Ainda mais dela, que tentara matá-la congelando-a e a forçou a usar sua espada reforjada.
– Eu lembro do que você disse no começo da luta. Que não queria ser mais uma marionete, mais um peão sacrificado. Então por favor, me escute. E se Aram estiver fazendo exatamente isso?
Aquilo a atingiu. Pra falar a verdade, nem Ashe havia pensado naquilo até aquele momento. Riven perguntou:
– O que você propõe?
– Podemos nos encontrar? No Parque de Springfield, amanhã. Três da tarde?
Silêncio permaneceu no ar por alguns segundos. Ashe baixou o arco. O braço cedeu e não subia, mesmo ela querendo.
– Vou pensar. – Respondeu a noxiana. – Afinal, você me atacou.
– Vocês dois não me deixaram escolha. Se eu não estivesse aqui, um de vocês, ou os dois, estariam mortos.
Riven não disse nada, mas Ashe sabia que ela concordava. E achou melhor não dizer nada sobre o fato que ela tentara matar os dois com a Flecha Encantada de Cristal, quando viu que a luta era inevitável.
– Agora conhecemos três dos sete envolvidos. Eu, você e Jarvan. Ele ainda é o príncipe de Demacia. Ele poderia ter grande influência sobre os outros, dependendo de quem são.
– Ou provocar mais lutas. – Replicou Riven.
– É verdade. E Assassin e seu invocador querem sangue. Tome cuidado com eles. – Disse Ashe.
– Você sabe quem Assassin é? – Perguntou Riven.
– Não. Uma mulher ruiva, de roupas pretas. Ataca com facas a distâncias e tem um curto teleporte. É tudo que sei. – Disse Ashe. – E você sabe algo sobre os outros três?
– Não. Jarvan foi o primeiro que vi, e depois você. – Respondeu Riven.
– Bem, vamos embora daqui? Se mais alguém sentiu toda a batalha que aconteceu aqui, vamos estar mortas. – Disse Ashe.
– Nem tinha pensado nisso.
A espada de Riven voltou a ser uma lâmina quebrada e ela a guardou. Isso relaxou Ashe. As duas começaram a caminhar.
– Como você consegue empunhar essa espada? – Perguntou Ashe.
– Haha, é um segredo! – Respondeu Riven, encabulada. – Mas o seu arco também me surpreendeu, nunca encontrei algo que eu não pudesse quebrar. Mesmo a lança do Jarvan acabaria quebrando em uma luta prolongada. E aquela sua flecha? Olha só o que ela congelou…Se eu não tivesse usado o Golpe de Vento…
– Eu quase fui cortada ao meio, sabia? E a minha Flecha Encantada foi quebrada Não achava que isso era possível. – Disse Ashe, constrangida.
As duas mulheres caminhavam lentamente e com dificuldade, Ashe segurando seu braço esquerdo e Riven tentando parar o sangramento no ombro direito. Chegaram ao epicentro da batalha, o Cataclisma de Jarvan. Metade da muralha ainda estava de pé.
– Ashe! – Gritou John.
Ashe não queria que a noxiana visse seu invocador, mas agora era tarde.
Pensando nisso, onde estava o invocador dela, que não a ajudou em momento algum na batalha?
– É o meu invocador. – Disse Ashe pra Riven. — Está tudo bem, John, ela está comigo. – Bem, por enquanto.
– Você está bem, Ashe? Meu Deus, o que é isso? – Perguntou John, mais chocado com os ferimentos de Riven do que os de Ashe.
– Bem, ninguém morreu. Não tenho nenhum ferimento grave. – Ashe olhou para o horrível ferimento de Riven. – E você, Riven? Aliás, onde está seu invocador?
Ela olhou em silêncio para os dois. Ashe se lembrou que Aram disse que um dos Campeões tinha tentado atacar o próprio invocador.
Será que foi ela? Afinal, ela disse que não queria ser uma marionete.
– Minha invocadora está ocupada. – Por fim a jovem respondeu. – Ela nem sabe que vim aqui. O trabalho dela é…importante.
Isso explicava porque Riven não recebeu nenhuma ajuda durante a luta. Mas também surgia outro problema.
– E como você vai voltar pra sua base nesse estado? – Perguntou Ashe.
O olhar de consternação de Riven dizia à Ashe que ela não podia responder sem comprometer onde sua base era. Então era algum ponto importante na cidade.
– Riven, venha conosco por enquanto. John pode deixá-la onde você quiser.
Tanto Riven como John estavam surpresos.
– Por que você faria isso? – Perguntou Riven.
– Porque quero conversar com você amanhã, lembra? Não vamos poder fazer isso se você cair por aí ou for encontrada por outro Campeão nesse estado. – Disse Ashe, num tom amável.
– Eu…posso andar normalmente.
– Não, não consegue. Vamos. – Disse Ashe.
John trouxe o carro. Ashe entrou no banco da frente e Riven atrás.
– Como sabe que não vou simplesmente atacar vocês dois pelas costas?
– Vou confiar na sua “honra”! – Riu Ashe.
Riven estava incrédula. Mas também riu. Isso fez Ashe refletir. De alguma maneira, sentia simpatia por ela, embora não soubesse explicar o por quê.
– Você não parece nem um pouco com o que os rumores dizem, Riven. Todos retratam uma monstra, mas eu sinto como se pudesse confiar em você. – Disse Ashe.
Riven corou. A arqueira tinha um ótimo instinto pra essas coisas. Resultado de muita intriga, superações e batalhas em Freljord.
Depois de alguns quarteirões, Riven desceu do carro, auxiliada por John.
– Vou pensar na sua proposta. Mas não garanto nada. – Disse Riven.
– Pelo menos pense. – Respondeu Ashe.
Riven acenou com a cabeça e começou a caminhar. Ela não estava bem, mas manteve-se firme e atenta.
Ela é forte. Jarvan e Assassin são inimigos declarados. Dependendo de quem são os outros três, ela pode ser a única aliada.
Ashe só queria chegar na base. As dores eram tremendas e agora se espalhavam pelo corpo inteiro. Durante os momentos de tensão a dor tinha sido amenizada pela adrenalina, mas quando entrou no carro e relaxou um pouco, viu o quão ruim era seu estado.
Fechou os olhos e dormiu, torcendo pra que o resto dos dias nesse mundo não fossem como esse.
–---------------------=/=------------------------
No telhado de um prédio de quatro andares no centro comercial, uma mulher ruiva observava a devastação causada pelo combate que acontecera.
Katarina Du Couteau sorria. Ela descobrira a identidade de três Campeões de uma vez só, incluindo qual defendia John Donovan, único invocador que ela conhecia. Sua habilidade da classe Assassin permitia que não fosse detectada por ninguém, mesmo estando muito próxima a outro Campeão.
Ela observara a maior parte da batalha. Jarvan tinha sido teleportado e incrivelmente, Ashe tinha dado uma carona pra Riven. Ela não tinha como seguir o carro, mas estava satisfeita.
O círculo estava se fechando.
–------------------=/=----------------------------------
Fale com o autor