Fate

2 Capítulo 2


Muito relutantemente, ele se virou para encará-la. Deveria ter sido mais rápido para entrar naquele maldito carro. O fato de estar na chuva embriagado já o tirara do sério. Agora, essa mulher histérica vinha correndo com sua presa (quase morta) nos braços. A idéia de noite agradável que esperava ter quando saíra de casa simplesmente já se dissipara por completo de sua cabeça. Então, forçou uma expressão preocupada no rosto.

O que aconteceu?

Esta... esta menina, senhor!

Sua filha? ~ em algumas situações, o melhor é perguntar pelo improvável.

Não! ~ a negação veio mais firme do que o esperado. ~ Eu a encontrei desmaiada num banco! A pulsação é mínima, mas com certeza, está viva. ~ merda de sangue doce, ele não fora capaz de beber o suficiente para matá-la.

O que devemos fazer? A senhorita sabe alguma coisa sobre ela? ~ talvez fosse a babá ou alguém que procurasse por ela.

Não conheço esta criança! Por favor, o senhor tem carro, será que poderia me ajudar a levá-la até o hospital mais próximo?

Claro. Deixe-me ajudá-la com a porta. Cuidado com a cabeça da menina. ~ ele teve vontade de matar as duas. Matar as duas por terem estragado toda aquela bela noite de chuva.

A mulher ia no banco de trás, segurava a cabeça da boneca de porcelana com uma das mãos. Um cheiro conhecido pairava ali dentro. Ela sangrava pela mão esquerda e, provavelmente, bebera um ou dois copos de vinho. Fye estava intrigado: por que aquele sangue o deixava com uma estranha sensação? Por que aquela mulher lhe era tão familiar? Talvez a boneca o tivesse deixado confuso, tonto...

Ele a examinava pelo retrovisor, uma figura exótica. Usava um casaco vermelho que contrastava bem com seus cabelos negros (totalmente bagunçados, vale ressaltar) e a blusa bege de lã com gola alta lhe colava ao corpo. Olhos levemente puxados e tão verdes encontraram os seus através do espelho. O coração da mulher acelerou (por que?). Ele pôde ouvir as batidas.

Um pensamento passou rápido por sua cabeça: ainda bem que havia enfraquecido com o sangue, assim sua figura aparecia no reflexo do espelho...

U-uma bela garotinha. Não deveria estar p-perdida. ~ ela sorriu sem ânimo com o coração apressado.

Sim. Uma bela boneca de porcelana. Esses cachinhos são raros. ~ ele forçou um sorriso dócil, amigável.

Boneca de porcelana. ~ ele a viu deslizar a mão branca no rosto esverdeado da menina. Seus olhos demonstravam preocupação e carinho, mas ela se mantinha firme. Uma moça intrigante.

Ali, logo mais à frente, passando da ponte, é o hospital. ~ ele apontou. Se o carro perdesse o controle de repente e despencasse, elas não sobreviveriam, não é mesmo? Uma pena... era um bom automóvel. Ele deixou o veículo deslizar para a borda quando...

Senhor, cuidado! ~ o vampiro sentiu dedos frios tocarem a sua pele sensível no pescoço. Ele se assustou e colocou o carro na direção correta da pista.

Chegaram à emergência. O servo que lhe ajudava sempre que necessitava veio em seu socorro. Trocaram algumas palavras, ele não precisava dizer muito. O rapaz levou a garota diretamente para receber uma transfusão. Para o alívio daquela mulher de olhos verdes, encontraram uma carteira de documentos em um de seus bolsos (bonequinha esperta). A mulher estava em uma outra sala recebendo os cuidados necessários por causa da mão cortada.

Ele queria sair dali, queria sair da frente daquela mulher. Nunca pensara duas vezes quando precisou tirar a vida de alguém; e, dessa vez, aqueles dedos o deixaram tão desconfortável a ponto de desistir de... O que eram aqueles dedos gelados?

Obrigada, senhor. Se não estivesse lá, eu não sei o que teria feito. ~ se ela não estivesse lá, ele estaria em casa relaxando ou num bar com alguma mulher de verdade... Ele pegou o copo de café (odiava café) que lhe fora oferecido.

Não se preocupe. Mais importante, como está a boneca? ~ sentiu a ponta dos dedos aquecer através do plástico do copo e a irritação crescendo no peito.

Boneca? Oh! Sim, ela está bem. Já faz meia hora que está sendo examinada. A enfermeira me disse que até agora não encontraram nada de suspeito, apenas uma profunda anemia.

Entendo. E a sua mão?

Está bem. Quase nova em folha. ~ ele a viu se sentar na poltrona ao lado.

Que bom. ~ fingiu uma ligação ~ Com licença. Meu celular.

Fique a vontade. ~ ele viu um sorriso forçado no rosto da mulher.

Sim? Oi, querida. São exatamente ~ olhou o relógio no pulso ~ uma hora da manhã. Estou no hospital. Uma criança estava desmaiada quando a encontramos. Eu e uma moça. Não a conheço. Só posso ir quando ela for liberada. ~ e através de uma falsa ligação no celular, ele colocou as frustrações para fora. Então, mais calmo, voltou a sentar na poltrona da sala de espera.

Você se esqueceu. ~ disse a mulher.

De que?

Não disse que estava no Parque dos Amores.

Não tenho porque dar uma explicação sem importância. Talvez tenha para você. Estava lá com seu namorado? ~ e um sorriso extremamente malicioso veio à superfície.

N-Não! ~ uma discreta mancha rosada surgiu nas maçãs de seu rosto feminino.~ Na verdade, eu desci do carro e ele foi embora. Aquele imbecil! Bati a porta com tanta força que espero ter quebrado.

Então foi você...

Hã?

Nada. Na verdade, eu gostaria de saber se a senhorita se incomoda de ficar aqui? Estou mesmo preocupado com minha mulher, ela tem problemas cardíacos. Quando tem um acesso de nervos, eu...

Não se preocupe. ~ fácil demais, ela quer algo em troca. ~ Eu ia dizer algo do tipo “pode ir para casa ou sua mulher vai querer divórcio”! Que bobagem a minha. ~ seus dentes eram perfeitamente espaçados e dispostos na boca quando sorria, os lábios bastante rosados. Quase um convite...

Então, estou indo. Boa noite, ahn...

Bianca. Apenas Bianca. ~ apertaram as mãos.

Então, até nunca mais... Bianca. ~ seus longos dedos tocaram a testa da mulher. Apagou toda a memória de sua face, de sua voz e de qualquer ligação que pudesse fazê-la lembrar de como ele era fisicamente.

Era assim que seus poderes psíquicos agiam. Podia manipular toda a memória de alguém. No caso dos olhos verdes, Fye apenas apagou sua existência. Seria a pior sensação de todas, mas ele não se importava... Algo naquela mulher o irritava...

Ao inferno com aquela mulher!

\"\"

Com a menina nos braços, correu até o Jaguar prata. Um homem alto muito bem vestido encarou-a preocupado. Sentiu olhos frios (talvez raivosos) a examinarem.

O que aconteceu? ~ sua voz era firme.

Esta... esta menina, senhor! ~ ela tentou se controlar também.

Sua filha? ~ que pergunta idiota... Ela nem tinha idade para ter uma filha daquele tamanho!

Não! Eu a encontrei desmaiada num banco! A pulsação é mínima, mas com certeza, está viva. ~ ainda bem que participara daquele curso de primeiros socorros na empresa.

O que devemos fazer? A senhorita sabe alguma coisa sobre ela?

Não conheço esta criança! Por favor, o senhor tem carro, será que poderia me ajudar a levá-la até o hospital mais próximo?

Claro. Deixe-me ajudá-la com a porta. Cuidado com a cabeça da menina.

O carro era mesmo confortável. Ela reconhecera a marca imediatamente, seu chefe tinha um daqueles. A diferença era que aquele ali era muito mais personalizado. Com bancos de couro branco e volante com um singelo neon azul. Aquele homem tinha bom gosto. Falando nele (esquecendo completamente do carro), era muito bem apessoado. Sua imagem no espelho estava um pouco embaçada, talvez por causa da bebida...

O rosto era fino e bem definido, seus olhos encaravam a rua à frente, frios e sem expressão. Os cabelos curtos eram negros como o céu acima deles. A pele, rosada, lembrava um pêssego maduro. Deveria ser casado. Aliança? Tentou olhar disfarçadamente suas mãos no volante: nenhuma. Tinha certeza de que já o vira antes; mas ‘onde?’ era a pergunta. Aquelas feições realmente a faziam lembrar de alguém que conhecia. Amaldiçoou o vinho que bebera, estava atrapalhando até mesmo sua boa memória.

A garota continuava imóvel em seu colo. O “mais próximo” já havia sido tirado da rota, ela sabia. Estavam indo rápido para o Hospital Himon. Era muito bem conceituado. Por que iam para lá? Algo específico o ligava ao hospital, talvez. Ela acariciou de leve o rosto frio da menina.

O que haveria de ter acontecido? O que fazia naquele parque? Por um momento, percebeu: aquele homem estava sozinho, a garota estava sozinha, não havia mais uma alma viva naquele parque (exceto por ela). Oh não! Talvez tivesse escolhido a pessoa errada para uma carona? De repente, viu que ele a estava observando pelo retrovisor. Seu coração deu um salto.

U-uma bela garotinha. Não deveria estar p-perdida. ~ Bianca disfarçou o nervosismo.

Sim. Uma bela boneca de porcelana. Esses cachinhos são raros. ~ os lábios dele se abriram num belo sorriso.

Boneca de porcelana. ~ ele era louco... O que fez com aquela menininha? Acariciou seu rosto. A mão cortada ainda lhe doía.

Ali, logo mais à frente, passando da ponte, é o hospital. ~ ela o ouviu dizer. Mas por que o carro estava tão próximo da beirada? E se despencassem?!

Senhor, cuidado! ~ ela apontou à sua frente; e ele, prontamente, correu o volante e os colocou na pista corretamente.

Ao chegarem à emergência, o enfermeiro chefe reconheceu o homem que a acompanhava. Após terem uma breve conversa, ele tirou a garota de seus braços e a levou rapidamente para ser examinada. Bianca estava inquieta.

Enquanto estava sendo tratada, não parava de pensar que a possibilidade de ele mesmo ter sido o atacante era grandiosa demais. Apesar da atitude preocupada e angustiada do homem, ele não parecia estar sentindo nenhuma daquelas emoções. Ela não tinha provas, mas ele era mesmo um ser humano estranho.

Para tentar anular o efeito do álcool, foi até a recepção e pediu por café quente. Pegou dois copos.

Obrigada, senhor. Se não estivesse lá, eu não sei o que teria feito.

Não se preocupe. Mais importante, como está a boneca? ~ ele pegou de sua mão o café.

Boneca? Oh! Sim, ela está bem. Já faz meia hora que está sendo examinada. A enfermeira me disse que, até agora, não encontraram nada de suspeito, apenas uma profunda anemia.

Entendo. E a sua mão?

Está bem. Quase nova em folha. ~ ela balançou a mão e sentou cambaleante na poltrona.

Que bom. Com licença. Meu celular.

Fique a vontade. ~ ela sorriu para afastar a angústia de estar falando com um possível psicopata.

Sim? Oi, querida. São exatamente uma hora da manhã. Estou no hospital. Uma criança estava desmaiada quando a encontramos. Eu e uma moça. Não a conheço. Só posso ir quando ela for liberada. ~ ele voltou e sentou na poltrona.

Você se esqueceu. ~ ela notou que ele não mencionara o lugar onde estavam.

De que?

Não disse que estava no Parque dos Amores. ~ aquele poço de vulgaridade.

Não tenho porque dar uma explicação sem importância. Talvez tenha para você. Estava lá com seu namorado? ~ viu um sorriso intimidador nos rosto daquele homem.

N-Não! Na verdade eu desci do carro e ele foi embora. Aquele imbecil! Bati a porta com tanta força que espero ter quebrado.

Então foi você...

Ahn? ~ ela o que?

Nada. Na verdade, eu gostaria de saber se a senhorita se incomoda de ficar aqui? Estou mesmo preocupado com minha mulher, ela tem problemas cardíacos. Quando tem um acesso de nervos, eu...

Não se preocupe. ~ se estivesse no lugar da mulher daquele homem, ela teria saído para procurá-lo assim que ele colocasse os pés para fora de casa... ~ Eu ia dizer algo do tipo “pode ir para casa ou sua mulher vai querer divórcio”! Que bobagem a minha. ~ ela sorriu sem jeito. Aquele era o psicopata mais sensual que já tinha visto! (se é que já tinha visto algum psicopata na vida).

Então, estou indo. Boa noite, ahn... ~ ele estendeu a mão para cumprimentá-la.

Bianca. Apenas Bianca.

Sentiu a sala com cheiro de éter rodopiar. A voz rouca e baixa daquele homem estranho ficara distante.

O álcool, talvez?