Fate
3 Capítulo 3
Seu trabalho de bom samaritano já estava feito. Levara a garota até o hospital, não matara ninguém e, ainda por cima, fora extremamente comedido. “O que havia acontecido?” era a pergunta que insistia em ficar na sua cabeça. Nunca antes algo o tinha feito parar em meio a um assassinato. Nunca pensara duas vezes. Nunca vacilava. Aquela mulher, aqueles dedos, aquele sangue...
RAIOS! ~ chutou a mesinha de centro da sua sala de visitas. O móvel fez um barulho alto e partiu ao meio.
Encarou a bolsa preta de couro que havia colocado em cima do sofá ao lado de sua pasta de trabalho. Os olhos verdes esqueceram-na no banco de trás do seu carro. Não iria devolvê-la. Já haviam se passado 2 dias desde aquele incidente do parque. Ainda estava enfurecido com aquela mulher (por qual motivo exatamente?). Fye não entendia o que estava acontecendo, por que uma simples humana o estava deixando tão atordoado?
Ah... Se algum dia, em alguma ocasião, a visse novamente, não ia se segurar. Deitado na larga cama de colchão d‘água, imaginou-se envolvendo-a em seus braços, depois colocando a mão ao redor de seu pescoço fino e pulsante e, por fim, estrangulando-a (sem piedade, apenas por prazer). Não sugaria seu sangue, não o dela. Os olhos verdes eram um tipo de troféu. Um troféu raro que merecia ser quebrado ao meio. O cheiro do vinho misturado ao doce perfume do seu sangue inundou suas memórias.
Bianca. Bianca... ~ ele sussurrou, para então fechar os olhos e morrer.
Horas depois, acordou atordoado quando sentiu o coração voltar a bater. Estava exausto quando chegara em casa naquela manhã, depois de passar a noite resolvendo problemas administrativos do setor de marketing da Across. Ainda tinha que voltar lá para assegurar que os funcionários estavam seguindo suas instruções. Deu uma rápida olhada no relógio metálico de pulso: quase 4 horas da tarde. Levantou da cama e andou preguiçoso até o banheiro. Mentalmente, fez a sua agenda do dia:
1- passaria no escritório, checaria se tudo estava em ordem
2- reunião com o diretor da empresa associada
3- liberdade para sair com alguma mulher.
Na verdade, poderia ficar 1 semana sem beber sangue. Contudo, a sensação de cravar suas presas no frágil pescoço de alguém era viciante. Às vezes, o fazia automaticamente.
Saiu do chuveiro. Andou até o quarto ainda molhado, colocou seu paletó depois de seco e deixou o apartamento. A empregada chegaria a qualquer instante. Alguns segundos antes de alcançar a porta, ele ouviu um discreto barulho vindo da bolsa em cima do sofá. Algo vibrava dentro dela. Levou o celular ao ouvido dentro do elevador e, após dizer “alô”, soou uma voz conhecida:
Finalmente atendeu! Olá, aqui quem fala é Bianca. Eu não sei onde deixei minha bolsa. Tive esperança de que alguém a encontrasse. Eu gostaria de saber quem fala e se poderia me dizer onde posso encontrá-lo. ~ ele ficou quieto por um instante, eram os olhos verdes.~ Alô? Alguém aí?
Sim. Meu nome é Bernard Glen.
G-Glen? Bernard Glen? Da empresa Across? ~ então, ela o conhecia. Seu sorriso alargou-se dentro do elevador; e ele fitou o espelho que, no seu reflexo, mostrava um elevador vazio.
Sabe quem eu sou?
C-claro que sim. Meu chefe já encomendou o trabalho de vocês algumas vezes. C-como minha bolsa foi parar com você? Onde posso recuperá-la?
Encontre-me no prédio da Across. Agora.
Oh, sim. Seria cômodo o suficiente. Vou esperar pelo senhor no saguão principal, então. Até mais... ~ desligou o celular e caminhou até o carro.
Que bela presa caíra em suas garras sem que precisasse ter feito o mínimo esforço. Seria um prazer tirar a vida daquela mulher. Seus dias de frustração haviam terminado antes mesmo que pudesse dizer “raios” novamente.
Deixou o enorme edifício pela garagem subterrânea. Era uma tarde escura, tanto que parecia noite. Um vento frio e sombrio rondava a cidade. A frustração que o estava consumindo já deixara seu peito, e agora sentia um pingo, quase imperceptível, de gratificação. Lembrou-se da mesinha de centro que havia quebrado durante a madrugada e acrescentou à sua lista mental: “1,5- comprar uma nova mesa de centro”.
Dirigiu até um prédio no centro da cidade onde ficava seu escritório e toda a sua empresa. Entrou pela enorme porta de vidro da frente e andou até o saguão principal. Um discretíssimo sorriso veio-lhe à face, lá estava ela: Bianca.
Sua pele branca, levemente rosada, contrastava com a blusa preta de manga que vestia. Uma saia vermelha longa até os joelhos (lhe definia a cintura e as pernas torneadas) combinava com o cachecol enrolado em seu pescoço fino. Teve a impressão de que aquela mulher preocupava-se em sempre cobrir o pescoço, o que Fye considerou um toque sensual.
Ele a imaginou se despindo para ele, revelando uma lingerie possivelmente branca. Seus cabelos longos e negros estavam presos e exalavam um cheiro adocicado de mel. Ele pôde sentir quando se aproximou.
Bianca? ~ disse de maneira cordial. O coração dela disparou. Garota sensível.
Sim. Sou eu. ~ a voz saiu contida e educada. ~ Minha bolsa?
Está aqui. Gostaria de me acompanhar até o escritório? Eu quero que você verifique se está tudo aí.
Eu posso fazer isso ago... ~ no momento em que ela tentou abrir a bolsa, ele rapidamente a fechou.
Receio que seja melhor no meu escritório. Siga-me.
Fye percebeu uma ondulação surgir entre as finas sobrancelhas negras, mas ela o seguiu sem dizer palavra alguma.
Ainda bem que estava de folga. Se estivesse trabalhando, com certeza, precisaria do celular. Tentara ligar milhões de vezes e não fora atendida. Já quase chegava à conclusão de que ninguém achara a bolsa ou (na pior das hipóteses) ela havia sido roubada. Há dois dias não entrara em contato com Lucas (o cafajeste do parque). E, há dois dias, estivera no Hospital Himon com uma garotinha de 14 anos chamada Kimberly. Encontrara a menina desmaiada num parque obsceno e, com a ajuda de um estranho, conseguira levá-la até o hospital. Foi aí que perdera sua bolsa de vista.
Fazia frio. Bianca terminou de tomar o café da manhã e correu para a cama para se enrolar na coberta com Paul ao seu lado. O único aspecto que conseguia lembrar era que havia sido ajudada por um homem lindo, corou levemente com o pensamento. O resto ficara esquecido, ela amaldiçoou o vinho de excelente qualidade que tomara.
Sua companhia a encarava intrigada, Paul sabia que algo a preocupava. Ela tirou a mão direita (que não estava machucada) de dentro da coberta e acariciou com força a cabeça grande e peluda do animal. Precisava descobrir quem seria a pessoa que lhe ajudara. Isso a deixara ansiosa durante aqueles dois longos dias.
Levantou-se abruptamente da cama, lembrando que havia marcado uma visita ao orfanato onde fora criada. A reverenda tinha entrado em contato pedindo que ela fosse até lá. Correu para o banheiro do quarto.
Um sorriso de satisfação surgiu repentinamente em seus lábios enquanto a água do chuveiro caía sobre ela. Estava se auto elogiando por ter a esperteza de sempre deixar uma chave reserva (da casa e do carro) nos cofres da recepção. Por ter ido morar sozinha aos 15 anos de idade, sempre teve medo de uma possível perda. E agora, oito anos depois, ela conseguira esse feito. Bem, não poderia chorar sobre o leite derramado, não é mesmo?
Colocou uma roupa comportada (não que usasse algum outro tipo), já que era uma ocasião especial. Um vestido de alças bege com uma blusa branca de gola alta por baixo dele. Uma mocinha, sorriu.
Esperou alguns minutos até a babá de seu rottweiler chegar. Era uma boa menina de seus 16 anos, criara uma afinidade incrível com Paul, e isso a mantinha mais tranqüila quando precisava sair de casa. Terminou de se vestir e deixou o apartamento.
Dirigiu sem pressa até o orfanato, o trânsito também não ajudou muito. Ao chegar, atrasada, encontrou algumas crianças brincando de roda nos jardins. Uma delas a acompanhou até a sala de reuniões onde a reverenda costumava ficar.
Nada mudou, tudo continuava em seu respectivo lugar, apenas rostos novos perambulavam eufóricos com sua visita. Deu três batidas na porta de madeira simples; um “entre” ecoou de dentro da sala.
Madre? Bianca. Estou aqui.
Entre, entre, querida. Chegou cedo. ~ a voz saiu rouca e fraca. ~ Algo chegou às nossas mãos uns 3 dias atrás.
Uma carta? Endereçada a mim? ~ ela pegou o envelope que lhe fora estendido e percebeu uma chave de porta antiga quando o abriu junto com um papel fino.
Julguei estranho, afinal os únicos dizeres são: Para Bianca Mathus. De Carmélia Mathus. Nenhum tipo de remetente, endereço. Nada que possa identificar quem a mandou. Apenas o seu mesmo sobrenome.
AVISO: Peço que leia sozinha e que não revele o conteúdo desta carta.
Pequena Bianca, nem sei se ainda tenho permissão para chamá-la assim, mas era desta maneira que a chamávamos quando criança. Desculpe-me pelo contato tardio e perdoe-me pela total ausência. Se você está lendo esta carta, é porque eu não pertenço mais a este mundo. Esse ano, você completará o seu vigésimo quarto aniversário. Precisamos que tome consciência sobre formas de vida que habitam o nosso mundo: vampiros. Pessoas normais não precisam saber de sua existência. Porém, nós que somos parte da Família Mathus, temos o dever e o direito de saber sobre tudo que envolve essas criaturas. Seus pais foram mortos poucos anos depois de esconderem você nesse lugar. Eles estavam sendo perseguidos por um fugitivo do Clã Vampírico. Nós, da família, a encontramos e a deixamos crescer dentro desta vida pacata e normal, mas está chegada a hora de você aprender o seu lugar na sociedade à qual verdadeiramente pertence. Você é a última da nossa família, a única que leva o nome Mathus. Procure por Fye Willians, ele irá lhe mostrar o que fazer, e você aprenderá sua verdadeira função. Com amor; sua avó, Carmélia.
PS: O destino de sua vida, com certeza, a guiará e eu estarei ao seu lado sempre.
Atordoada, Bianca encarou a madre à sua frente. Releu o papel mais duas vezes. Só poderia ser uma brincadeira (do pior tipo). Claro! Por que alguém mandaria uma carta falando sobre vampiros? Encarou a chave de metal desgastada que segurava e passou uma terceira olhada no nome que fora indicado por sua suposta “avó”. Talvez, se o procurasse encontraria as respostas...
Levantou-se depressa.
Madre! Como esta carta chegou aqui?
Bem... pelo correio, como uma carta normal. É algo importante, minha filha?
Sim. Fala sobre meus pais. Desculpe-me, mas não posso deixar que a senhora a leia.
Oh. Não se preocupe com isso. É algo pessoal, querida. Além disso, eu não sou mais a sua guardiã. ~ a senhora sorriu timidamente.
Ela saiu da sala da madre, despediu-se de todos e entrou no carro. Por que tão de repente? Seus pais estavam mortos há anos, e sua única possível parenta já não estava mais viva... No final, estava mesmo sozinha (fosse verdadeira ou não aquela carta).
No carro, uma lágrima solitária escapou, escorreu face abaixo e pingou até atingir seu colo. Ela balançou a cabeça, não precisaria chorar, poderia tentar encontrar Fye Willians. Quem diabos teria um nome tão estranho? Só poderia ser uma brincadeira... (e se não fosse?). O sinal fechou.
Distraída com suas preocupações passou o olhar em um cartaz no meio da rua: “Bernard Glen, o maior publicitário de todos os tempos! Venha conferir a palestra e saber como [...]”. Ao ver o rosto estampado no anúncio, sentiu como se seu cérebro tivesse uma mancha branca. Já vira aquele homem pessoalmente antes! Eles estavam... Onde estavam?
Balançou a cabeça mais uma vez. Não tinha tempo para imaginar loucuras. Precisava procurar por sua bolsa, tentaria ligar mais vezes. Sem seu celular não poderia trabalhar corretamente, a bolsa havia custado caro, a carteira estava com todos os seus cartões de crédito e, ainda por cima, um estranho possuía as chaves de seu apartamento (o endereço estava anotado num papel dentro da carteira).
Quando chegou em casa, providenciou uma pizza para o almoço. Ela e a babá comeram e conversaram. Bianca precisava se distrair, precisava encher a cabeça com outros pensamentos... Estava sentindo como se uma parte de sua memória houvesse sido completamente deletada.
A menina fora embora e ela resolvera começar sua pesquisa sobre Fye Willians na internet. Apenas sites relacionados à metade do nome... Turismo, empregos, pornografia... Nada que pudesse levá-la a encontrar uma pessoa concreta. Após 1 hora de ininterrupta procura, encontrara absolutamente nada. Tentaria novamente num computador público com alguém que pudesse auxiliá-la, decidiu. Deitou-se no sofá e caiu no sono. Era muita informação para uma simples manhã de folga. Qual porta poderia ser aberta por aquela chave? Que tipo? Ela imaginou.
De repente, tinha um sonho estranho. Conduzida por um homem, abria uma antiga porta de madeira. Presas perfuravam seu pescoço, e alguém a enchia de carícias. Quem era? Ele a envolvia com mãos firmes em seus braços e a fazia pensar loucuras. Quem seria capaz de lhe despertar tais sentimentos? Levou as mãos trêmulas ao rosto sem face do homem e o segurou sutilmente. Encarou-o agitada.
Quem é você?
Fye Willians, minha...
Seu espanto a fez despertar com o coração acelerado. Aquela história a estava deixando com parafusos a menos. Andou até a cozinha, sorveu uns goles de água e pegou o telefone da sala. Passavam das 4 da tarde. Estava decidida; ligaria pela última vez. Daria por roubada a bolsa, cancelaria seus cartões de crédito e chegaria cedo no trabalho para resgatar os telefones de clientes importantes. Pela última vez, discou os próprios números. Depois de alguns segundos, enfim...
Alô. ~ uma voz masculina estranhamente conhecida atendera. Bianca deu um salto do sofá.
Finalmente atendeu! Olá, aqui quem fala é Bianca. Eu não sei onde deixei minha bolsa e tive esperança que alguém a encontrasse. Eu gostaria de saber quem fala e se poderia me dizer onde posso encontrá-lo. ~ nenhuma resposta. Ela insistiu. ~ Alô? Alguém aí?
Sim. Meu nome é Bernard Glen.
G-Glen? Bernard Glen? Da... da empresa Across?
Sabe quem eu sou? ~ ela ouviu sua voz rouca e baixa do outro lado da linha, o coração disparou.
C-claro que sim. Meu chefe já encomendou o trabalho de vocês algumas vezes. C-como minha bolsa foi parar com você? Onde posso recuperá-la?
Encontre-me no prédio da Across. Agora.
Oh, sim. Seria cômodo o suficiente. Vou esperar pelo senhor no saguão principal, então. Até mais e obrig... ~ a chamada fora terminada do outro lado da linha antes que ela pudesse terminar a fala.
Voou até o quarto, enfiou-se numa roupa, colocou Paul no quarto especial para ele e saiu apressada de casa. Ao descer o elevador, olhou sua imagem no espelho. Estava bem vestida. Aquele conjunto custara caro, mas servia para qualquer circunstância.
Sentia-se nervosa. Oh, meu Deus! Falara com o chefão da mundialmente conhecida Empresa Across! Era algum tipo de piada! E, naquele exato momento, estava indo se encontrar com o próprio. O que ele estava fazendo com sua bolsa? Por que sua voz lhe parecera tão familiar, apesar de nunca ter falado com ele? Apenas seu chefe o conhecia. Talvez, por isso ele não quisesse se apresentar no hospital?
... O que? Por que pensara no hospital justamente naquela hora? Ele nada tinha a ver com o fato... Ou tinha? Bem, deixaria para esclarecer as dúvidas quando o encontrasse. Ainda bem que morava muito próximo ao centro da cidade. Tão próximo que o prédio inteiro da Across podia ser visto de seu apartamento.
Não se passaram 5 minutos, lá estava ela. Esperava em pé, angustiada, pela chegada do homem que possuía sua bolsa.
De repente, sentiu uma mão fria tocando-lhe o ombro direito.
Bianca?
Sim. Sou eu. Minha bolsa? ~ seu coração deu um salto e foi parar na boca (quase escapulindo).
Está aqui. ~ ele lhe estendeu o objeto. ~ Gostaria de me acompanhar até o escritório? Eu quero que você verifique se está tudo aí.
Eu posso fazer isso ago... ~ fora impossibilitada de abrir a bolsa. No momento em que tentou, Bernard Glen a fechou imediatamente.
Receio que seja melhor no meu escritório. Siga-me. ~ ele tomou a bolsa de suas mãos e saiu na frente.
Qual o problema em abrir a bolsa ali? Ah, bem, algumas pessoas eram estranhamente desconfiadas. Ela conhecia bem esse tipo... Seu chefe era igualzinho. Seguiu-o.
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