Fascínio
41 Perto demais
Notas iniciais
Eu estava sentada nos primeiros degraus da escada de frente para Finn quando ele acordou. Provavelmente ele não enxergava nada, diferente de mim. Ele se sentou e levou uma mão a cabeça resmungando coisas que eu não entendi.
– Você está bem? – Perguntei.
Ele arregalou os olhos e olhou a redor procurando enxergar alguma coisa. Eu ri.
– Quem está ai?
– Sou eu, Anne.
– Anne? Anne... As vampiras apareceram no sítio assim que você foi embora. Eu não consegui contra elas... Mais uma vez.
– Está tudo bem Finn. De verdade.
Ele suspirou. Quando abaixou a cabeça eu vi os furos no seu pescoço.
– Elas te morderam? – Minha voz saiu trêmula.
– Uma delas... Uma das morenas...
Ilona. Era sempre ela. – Respirei fundo tentando fazer com que a raiva passasse, mas não adiantou nada. Olhei por cima do ombro a saída no topo da escada. Eu já havia tentado abrir aquela porta de várias formas. A única maneira era abrindo-a do lado de fora.
Voltei a encarar Finn.
– Isso é tudo culpa minha. – disse. – Não devia ter te envolvido nisso.
– Anne, isso não é verdade. Eu me envolvi. E eu jamais te deixaria sozinha, jamais desistiria de você. – Ele sorriu.
– Mas agora estamos presos aqui. Você está fraco porque já foi sugado e vai chegar uma hora que eu também vou querer te matar.
– Você jamais me mataria.
– Não devia confiar nisso.
– Anne, pare de se condenar, tudo bem? Eu confio em você.
– Não devia...
– Eu sei que agora você é uma vampira, e pode ser muito perigosa, mas você já provou que pode se controlar.
– É mesmo?
– Sim.
A confiança dele estava me dando nos nervos.
– No dia que eu acordei nesta casa, como uma vampira, eu estava morrendo de sede. O conde me trancafiou aqui e disse que se eu não bebesse sangue eu morreria. Aqui embaixo havia uma garota que não devia ter nada a ver com isso, e eu tive que escolher entre a vida dela e a minha. Adivinha?
– Anne... Você não teve culpa. Ficou com medo, estava desesperada e confusa...
– Não Finn! Eu devia ter escolhido ela! – Mais uma vez a vontade que eu tinha de chorar não foi concedida.
– Mas se você não a matasse. Se escolhesse a vida dela ao invés da sua. Quando o conde aparecesse e te visse morta a mataria do mesmo jeito.
– Ainda assim... – eu respirei fundo. Finn precisava saber. – Eu não devia ter feito porque ela era Kate.
Fiquei muda por alguns segundos esperando enquanto ele digeria aquela informação.
– Era ela, Finn. Minha prima que eu tanto amava. Eu devia ter escolhido ela, mas não o fiz. Eu não pude me conter.
Escondi meu rosto nas palmas das mãos. Finn não podia me ver, ainda assim sentia-me envergonhada demais para deixar meu rosto à mostra. Se eu pudesse mudar o passado... Mas o que estava feito, estava feito.
– Anne. – A voz dele fraquejou quando disse meu nome. – Eu... Sinto muito. Não sei o que dizer nem o que pensar.
– Devia estar com medo de mim. – Minha voz saiu abafada por causa das mãos que cobriam meu rosto.
– Mas não estou.
Olhei para ele confusa. Por que Finn tinha que ser tão estranho?
– Eu ainda acho que podemos sair daqui. – Ele continuou. – Por favor, não seja pessimista como de costume. Levante-se e tente pensar em alguma coisa. Eu vou tentar também, mesmo achando que você está em condições melhores.
Ele tinha razão. Não adiantaria nada ficar parada se lamentando. Tínhamos que agir.
Sentia-me mais fraca a cada minuto. O sol devia estar nascendo, o que significava que o conde adormeceria. Se quiséssemos fugir, aquela seria a hora.
Fechei os olhos procurando uma forma de escutar novamente os pensamentos do conde. Se ele estivesse dormindo eu saberia. Não havia nada.
Levantei-me e subi as escadas em direção à saída do porão. Não bati na porta, apenas fechei os olhos e tentei escutar qualquer coisa do lado de fora. Uma conversa, passos... O canto dos pássaros também serviria para sinalizar o amanhecer.
Escutei passos subindo a escada. Era Finn, estava lento e cansado.
– Eu posso tentar abrir a porta.
– Você? – Suspirei. – Não adianta Finn. Nem mesmo eu consegui.
– Você sempre me dá o maior apoio. – Ele tomou a dianteira de mim.
Ficando diante da porta procurou o buraco da fechadura.
– Não seria difícil se eu tivesse as ferramentas certas... – Ele resmungou ainda espiando pelo buraco.
Escutei passos se aproximando e puxei Finn o afastando da porta. Alguém havia encaixado algo no buraco da fechadura o tampando.
– O que houve? – Perguntou Finn.
Escutei o som de uma chave virando e em seguida a porta se abriu, revelando um homem agitado do outro lado. Era Ren.
– Rápido se quiserem sair daqui.
Finn e eu não esperamos por uma segunda chamada antes de seguir Ren. Corremos pelo corredor escuro, com portas que levariam à salas que eu nem imaginava o que continham. Estávamos chegando ao hall de entrada quando algo surgiu diante de Ren e, com uma mão, o ergueu pelo pescoço.
– O que pensa que está fazendo? – O conde apertava o pescoço de Ren o impossibilitando de respirar.
O rosto de Vlad estava branco como papel, tinha veias escuras saltadas por todo ele, as mais grossas eram as do pescoço e as dos braços também brancos. Seus olhos eram completamente vermelhos como sangue. Ele sorria deixando exposto seus caninos pontudos e finos. Ele se parecia com o padre que quase me matou na noite que vi minha mãe pela primeira vez como vampira. Era assustador pensar que eu poderia ter aquela aparência também.
– Solte-o! – Gritei.
O conde sorriu para mim. Não dava para saber onde seu olhar repousava já que não tinha pupila.
– Com prazer. – Ele disse.
Vlad apertou ainda mais o pescoço de Ren até quebrar e só então o soltou. Ren caiu morto diante de mim.
– Ele já estava ficando velho. – Ele observava o corpo de Ren no chão como se fosse um tapete que precisava ser trocado. Depois ergueu a cabeça e sorriu para mim.
– Agora vamos lidar com você. – Ele disse.
Vlad passou por cima de Ren, pisando no peito dele e vindo à minha direção.
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