Fascínio
15 Mortos caminham
Notas iniciais
Ela saltou em cima de mim me derrubando no chão. A lamparina caiu em algum canto e se apagou. Escuridão total e comecei a ficar apavorada.
Isso não está acontecendo, isto não é real... – Ficava repetindo em minha mente. Como acreditar naquilo? Mas eu a sentia em cima de mim, muito sólida e real. Talvez fosse um sonho maluco, mas não me lembro de ter ido dormir.
Escutei uma risada macabra e sabia que vinha do ser em cima de mim que se parecia com minha mãe, mas não poderia ser ela, ela havia morrido há dias.
Estava consciente do seu rosto bem próximo do meu apesar de não poder enxergá-lo, por isso coloquei a mão em sua testa e tentei empurrá-la para longe, mas ela era muito forte.
- Sai de cima de mim! – Gritei. Pensei ter visto um brilho no escuro, a saída talvez.
Mesmo empurrando sua testa para longe ela se aproximou sem esforço. Senti quando suas unhas penetraram a carne dos meus braços e deixei que um grito escapasse fazendo a coisa rir ainda mais.
- Socorro! – Gritei. E se os outros mortos também levantassem de suas tumbas?
Eu iria morrer, demônios estavam possuindo os mortos!
Senti quando sua língua passou pela pele do meu pescoço, sabia o que viria em seguida – a mordida – então untei todas as minhas forças e consegui chutá-la para longe. Não esperei para que ela me pegasse novamente. Corri me batendo nos caixões até encontrar a escada e fugir dali.
No cemitério comecei a desviar das lápides, nem pensei para onde estava indo, quando me dei conta estava diante de uma capela de madeira, modesta e toda branca. Entrei e fechei as portas bem a tempo. A coisa na forma de minha mãe bateu com força nas portas quase as abrindo. Escutei um som que parecia água fria em contato ao metal muito quente e aquela coisa gritou. Depois disso veio o silêncio.
Continuei segurando a porta por precaução. Meu coração batia desgovernado e minha respiração estava longe de se estabilizar. Deveria me sentir segura por estar dentro de uma igreja, mas não estava nem um pouquinho. Fechei os olhos e me afastei das portas. Tentei entender o que havia acontecido, mas em resposta recebi uma terrível dor de cabeça. Andando de costas não via que me aproximava dos bancos, acabei tropeçando e batendo com a cabeça no chão.
A dor era para ter me apagado, mas permaneci acordada. Ainda deitada olhei em volta, para os vitrais ao redor de toda a igreja, havia sombras se movimentado lá fora. Sombras dançando dentro de sombras.
- Annie... – Ouvi a voz de minha mãe cantarolar do lado de fora me causando arrepios de medo. Aquela era a voz de minha mãe, mas ela jamais falava daquela forma. Seu tom de voz sempre era doce, delicado e não provocante e ameaçador . Aquilo estava realmente acontecendo. Alguma entidade maligna se apossou da carcaça vazia de minha mãe.
- Deus... – Comecei a choramingar.
- Pare de dizer o nome dele! – A coisa gritou do lado de fora. Não era mais a voz de mamãe, era um som distorcido agora. Acredito que era a voz do demônio. Então a voz de minha mãe retornou: – Ele não pode ouvir você querida.
Voltei a encarar os vitrais. Não havia mais sombra nenhuma, apenas a noite, infinita e imperatriz.
Seu rosto apareceu de repente colado ao vitral mais próximo me assustando. Aquele não era o rosto de minha mãe! Olhos vermelhos brilhavam na cor do sangue, seu rosto pálido tinha veias negras saltadas e quando ela sorriu dentes terríveis se revelaram, eram todos pontudos e encravados na gengiva como dentes de tubarão.
Eu me levantei, mas como sairia dali? Ela me pegaria assim que pisasse do lado de fora da igreja.
Virei-me quando ouvi sons de passos atrás de mim. Um homem com roupas de padre se aproximava. Tinha as mãos atrás das costas e um sorriso caridoso nos lábios.
- Padre... – Disse aliviada. – O senhor precisa me ajudar. Precisa expulsar aquela coisa que está do lado de fora. Tem um demônio lá fora, precisa fazer algo!
- Acalme-se minha filha. – Ele pediu. – Me explique direito o que está havendo.
Respirei fundo para falar com mais calma. Sei o quanto aquilo soaria louco, mas ele acabaria vendo.
- Tem uma coisa lá fora. Um demônio.
- Um demônio. – Ele repetiu e quando riu notei que havia algo de errado com ele. – Você é bem esperta Annie. – Ele voltou a se aproximar de mim. Sua voz mudava a cada palavra, assim como seus olhos escureciam e seus dentes apontavam. – Para uma criança criada afastada de tudo, você até que entende as coisas bastante rápido.
Queria me mexer e evaporar dali, mas o medo me paralisara, até roubara minha voz. Como? Estávamos em solo sagrado.
- Solo sagrado. – Ele repetiu meu último pensamento. – A casa do Senhor. Acredita que até mesmo nós somos recebidos nelas? – Ele riu. – Elas não foram feitas para proteger ninguém e sim para guiar as pessoas, ensiná-las sobre o que é pregado. – Ele parou diante de mim e segurou meu pescoço. Passou a apertá-lo, eu não conseguia respirar. – Mas as pessoas não sabem disso. – Ele continuou falando enquanto eu tentava tirar sua mão em volta da minha garganta. – Se soubessem não viriam à igreja.
Ele me ergueu como se eu fosse de papel e me jogou na direção do altar da igreja. Minhas costas bateram em alguns dos bancos de madeira o quebrando em vários pedaços. A dor não permitia que eu me movesse.
Em um piscar de olhos o padre possuído estava em cima de mim. Ele prendeu minha cintura ao chão a envolvendo com suas pernas, depois pegou meus pulsos com uma única mão e os segurou em cima da minha cabeça. Não tinha como me mexer, a ponta de uma madeira quebrada ainda fincava minhas costas toda vez que eu respirava, e suas unhas estavam cravadas em meus pulsos.
Ele soltou uma gargalhada macabra e com a mão livre passou a massagear meus seios. Eu me debatia, mesmo a estaca de madeira nas minhas costas estando a pouco de perfurar minha pele. Tentaria escapar dele a todo custo.
- O mestre ficará chateado quando eu contar a ele o que houve com você. – Ele disse com sua voz diabólica. – Mas estou pouco ligando para ele.
Ele abriu a boca mostrando os caninos ainda maiores e mais pontudos dos que os outros dentes. Então um de meus pulsos escapou. Não tinha tempo para pensar, só peguei a primeira coisa pontuda que vi no caminho e cravei no peito daquela coisa. O não-padre arregalou os olhos surpreso por eu ter cravado uma estada de madeira no seu coração e tombou para o lado, onde começou a murchar até parecer um homem muito magro e enrugado.
Chutei seu corpo esquelético de cima de mim e me levantei. Massageei minhas costas onde a estaca estivera, mas o que mais doía eram minhas costelas.
Peguei uma estaca de madeira do chão por precaução e, quase tendo um treco de tanto que meu coração batia por causa do medo que sentia, deixei a capela.
Fale com o autor