Fascínio
16 Desacreditada
Notas iniciais
– Finnick! – Eu sussurrava o mais alto possível na janela do quarto dele. Tinha medo de acordar a pessoa errada. – Finn...
Como eu havia parado ali? Ah, é mesmo. Depois de deixar a capela havia corrido como uma destrambelhada pelo cemitério. Tropeçando nas lápides e com a visão embaçada por causa do cansaço. Saltei o muro com dificuldade e encontrei meu cavalo com mais dificuldade ainda. Finalmente havia chegado à chacra e ao invés de me esconder na segurança de minha casa fui procurar meu amigo.
– O que houve? – apareceu na janela. Antes que eu dissesse ele fez um sinal para eu esperar e se afastou. Alguns segundos depois estava lá fora comigo. – O que aconteceu?
– Eu fui ao cemitério ver minha mãe e... – Como dizer isso sem parecer impossível? – Ela não estava mais no túmulo.
– Ã... – Ele parecia confuso. – Alguém deve ter tirado.
– Este não é o problema, o problema é que ela... Estava...
– Calma Anne. – Ele segurou meu ombro. – Você devia resolver isso com o seu pai. E por que foi lá há esta hora?
– Não! Você não entende. Ela estava... Estava...
– Anne, eu estou cansado e...
– De pé.
Isso o calou. Ele ficou me olhando por um longo tempo, pareceu ainda mais cansado.
– Não tenho tempo para isso. – Ele se virou para ir embora, mas eu o segurei pelo braço.
– Espera, tem que acreditar em mim! – Eu tentava puxá-lo de volta, mas ele era muito forte. – Ela quase me matou! E havia um padre. Ele falou umas coisas esquisitas, sobre mestres... Acho que estão atrás de mim. Precisa me ajudar. Ninguém acreditaria em mim.
– Tem razão! – Ele se soltou de mim puxando seu braço com força. – Ninguém acredita.
– Mas...
– Eu estou cansado Anne. Deixe-me em paz.
Aquilo me magoou. Não pude conter as lágrimas e sai correndo para que ele não me visse chorando. Por que não tentava acreditar em mim? Como inventaria algo como isso?
Quando entrei em casa fechei a porta, e conferi se as outras também estavam fechadas. No meu quarto tranquei a porta, as janelas e fechei as cortinas. Sem ter muito que fazer fiquei na cama abraçando meus próprio joelhos, atenta a qualquer ruído, a qualquer sombra. Rezei e chorei.
No que minha mãe havia se transformado? A quem recorreria?
Quando amanheceu ignorei meu pai e a mesa posta para o café e fui direto ao estúdio tocar piano, mas chegando lá descobri que estava trancado. Desci correndo.
– Por que o estúdio está trancado? – Perguntei ao meu pai que comia relaxadamente à mesa.
– Porque não quero você enfurnada lá dentro o dia inteiro.
– Isso é problema meu!
– Eu não quero discutir com você hoje Marianne. Sente-se e coma alguma coisa. Se tudo correr bem, eu penso em abrir o estúdio novamente.
– Está me tratando como uma criança isso não é justo!
– Eu decido o que é justo por aqui!
Fiquei em silêncio. Não iria sentar naquela mesa nem amarrada.
– Sinto falta da minha mãe. – Disse antes de voltar ao meu quarto, sabendo o quanto aquilo o machucaria.
Por que eu era assim? Uma menina mimada, que sabia muito bem o que era certo e errado, e ainda assim, escolhia os caminhos ruins. Meu pai merecia uma filha como eu? É claro que não. Bem, talvez ele merecesse um pouquinho...
Sai do meu quarto mais tarde e infelizmente dei de cara com aquela menina feia. Como ela se chamava mesmo? Não lembro, mas lembro do quanto a odiava. Vir falar comigo por causa de Finn? Quem ela pensava que era? Já estava na hora de colocá-la em seu lugar. Vi que segurava uma vassoura e por isso quando passei por ela derrubei um vaso de cerâmica, que um dia fora da mãe de meu pai. O vaso se quebrou e já sabia quem teria de limpar.
– Foi tão belo... – Kate falava.
Minhas primas e eu estávamos sentadas na mesa da varanda tomando chá enquanto conversávamos. Ali parecia tão entediada quanto eu, mas fingíamos ouvir Kate muito bem. Ela estava contando como havia sido seu passeio com o irmão de Alan no dia passado e de vez em quando Alicia lhe fazia perguntas para que não parasse de falar. Elas me deixavam ficar em silêncio. Sabia que era por pouco tempo. Logo elas começariam a me chamar para sair, a ir junto comigo para decidir algumas coisas do casamento, tudo para me “animar”. A verdade era que a morte de minha mãe era apenas uma de minhas preocupações. Os monstros no cemitério não deixavam minha cabeça.
Havia sonhado com eles, havia escutado eles a noite inteira. Parecia que quando rezava melhorava, porém não por muito tempo. Temia que aquilo me levasse à loucura.
– Anne! – Alicia gritou comigo, trazendo-me ao presente. – Ela suspirou quando olhei para ela. – Sei que a morte de sua mãe foi difícil, mas precisa superar. Tia Lilian iria querer isso.
– Eu sei. – Minha voz saiu mecânica, minhas respostas vinham automaticamente.
– Não, não sabe. Que tal um passeio?
Kate sorriu animada.
– Vão me abandonar no cais novamente?
– Já pedimos desculpas. – Disse Kate, mas olhei para Alicia.
– Pediram?
Alicia suspirou. – Eu sinto muito Anne pelo o que fiz. Aquilo não foi certo.
– Tudo bem. – Olhei para meu chá intocado na mesa. – Vocês podem ir, mas vou ficar por aqui hoje.
– Mas...
– Por favor.
As duas não disseram mais nada. Pensei em contar a elas o ocorrido no cemitério, mas se nem Finn acreditara em mim... Às vezes nem eu acreditava. Queria crer que aquilo não passara de um pesadelo – mesmo não sendo.
Depois que minhas primas se foram encontrei meu pai chorando em seu escritório. A porta estava entreaberta e quando ele me viu pela fresta se levantou e a fechou direito. Revirei os olhos. – Que se dane!
Mais uma noite com medo. Tranquei tudo, rezei, segurei firme um crucifixo que havia pegado nas coisas de minha mãe e dormi – mais uma noite com pesadelos.
Então estava no jardim observando as flores favoritas da minha mãe quando ele surgiu. E estava furioso.
– Qual é o seu problema? – Finn gritou comigo.
Olhei em volta para me certificar que não havia ninguém olhando. Não, estávamos sozinhos.
– Do que está falando?
– Ela não te fez nada para descontar seu mau humor nela.
– Quê? O que...
– Caroline. E não finja que não sabe quem ela é.
Caroline... Procurei por uma imagem em minha mente que me lembrasse de quem é essa pessoa, mas não encontrei nada.
– Eu não sei quem ela é. – Fui sincera.
– Como... – Finn interrompeu sua frase com uma gargalhada cínica. – Eu me enganei mesmo a seu respeito. Todo este tempo, pensei que fosse diferente dos outros, mas estava enganado. Você é igual para pior. Só está... Me usando.
– Do que está falando?
– Eu sei que sua mãe morreu, mas pensei que fosse melhor do que isso!
Ele jogou uma coisa aos meus pés. Vi que era um caco de cerâmica, reconheci a estampa: o vaso que era da minha avó.
Caroline! Aquela...
– Ah... – Entendi. – Está ofendido por causa de uma...
– Cuide bem o que você vai falar. – Ele me avisou, mas não dei importância.
– Empregadinha.
– É! É assim que você a vê? Deixa eu te contar uma coisa. Eu também sou um empregadinho, porém para se esfregar em mim lá no galpão eu fui prestativo.
Arregalei os olhos, meu rosto esquentava. Ele não havia dito aquilo! Plena luz do dia, no meio do jardim. Sem pensar duas vezes bati no seu rosto.
Ele sorriu satisfeito.
– Era só o que eu precisava.
– Volte aqui Finnick! – Gritei e ele continuou andando. Ainda andando gritou:
– Eu também vou me casar, então, seria bom que ficasse longe de você.
– Do quê...
– Adeus!
Respirei fundo. Eles estavam rindo com a minha cara. Queria ver o que meu pai faria se contasse tudinho a ele. Ah, sim. Ele me mataria.
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