Uma floresta. Se você estiver num lugar alto o suficiente, talvez consiga enxergar a fumaça saindo da chaminé da maior – e provavelmente única – casa com habitantes fixos. Não existe um dia que não existam comentários sobre aquela família, mas não por simplesmente viverem no meio de um lugar perigoso, e sim pelas histórias de pescador que correm pelo vilarejo Tenori. Naquela região comercial a temporada de caça é onde as histórias sempre se renovam, com os relatos dos homens que passam mais tempo na floresta procurando animais para o abate para garantir mais algumas moedas no bolso.

Independente do boato novo que aparecia, certas coisas nunca mudavam. O homem, Axel Isolet, também conhecido como fênix aparentemente não tinha o menor pudor em exibir grandes asas de chama azulada por ai. Muitos até diziam ver o brilho azul pairando no céu durante a madrugada. Além dele tínhamos sua esposa chamada Black Fang, o que demorou um bom tempo para ser descoberto já que ela era bem mais reservada a conversar com estranhos. Vale mencionar que só ficaram sabendo disso por meio de Axel e sua boca relativamente grande. Tinham também duas filhas Gwen e Elis. A primeira era a mais velha das duas e já andava com uma enorme corrente em volta dos punhos com um peso afiado nas pontas, enquanto a mais nova parecia o ser mais normal daquela família. Para sorte ou azar dos membros do vilarejo, mesmo com todas essas esquisitices eles nunca aparentaram nenhum mal e até desciam da montanha para fazer comércio de peles e carne.

Felizmente para eles, boatos geralmente não passam de boatos até que se prove o contrário então não são eram todos que acreditavam naquilo, por mais que não deixasse de ser verdade. Pelo menos até a vez que Axel apareceu de lugar nenhum e fez picadinho de um dragão na frente do vilarejo inteiro, eliminando qualquer dúvida que ainda restava sobre eles serem gente normal.

— Como assim você quebrou a cabeça da estátua de Labe?! O que diabos você tinha na cabeça pra fazer uma coisa tão imbecil?! – esbravejava Black dentro da casa.

— Eu não tenho culpa se aquele lugar é envolto na névoa e aquela estátua de dragão estava em tamanho real! Além do mais, eu posso consertar depois, sabia? – rebatia Axel que tentava manter a compostura, mas sabia que ver sua esposa de mau humor não era um bom sinal.

— Ah, claro. Cadê seus instintos de caçador de dragão agora? Acha mesmo que aqueles monges não vão vir atrás da gente cobrar os reparos?! Isso se eles não quiserem a sua cabeça como indenização por tudo isso!

— Calma, calma, calma. Não é pra tanto também. Você mesma disse que eles são amigos do seu clã então não tem como eles virem atrás de mim.

— Serem aliados do meu clã não quer dizer que você possa chegar lá e quebrar a cabeça do deus dragão sem mais nem menos. Fora que quem tem a imunidade dessa relação entre lobos e dragões sou eu e não você!

— Argh, tá bom, já entendi. Quer saber? Eu vou pro quarto até você esfriar a cabeça. Quanta irritação por causa de uma estátua. – e deu de costas, subindo as escadas para o quarto enquanto ela continuava bufando no andar debaixo.

— Mamãe, o papai fez besteira de novo? – perguntou Gwen puxando a ponta da sua roupa.

— Nem me fale. Dessa vez ele conseguiu assinar uma sentença de morte com os monges de Labe. – cruzou os braços, deixando os caninos afiados à mostra. – Essa fixação por dragões vai acabar nos deixando em maus lençóis. – bufou novamente antes de respirar fundo. – Mas não é como se eu quisesse ir parar no Inferno de novo, então é melhor resolver isso de uma vez. – e subiu as escadas. – Não venham aqui, entenderam? – perguntou para as crianças.

— E-entendemos.

- * -

Com um pequeno rangido na porta de madeira se fechando, Black entrou no quarto. Axel estava no batente da janela, olhando pra fora. Pelo visto também já tinha feito algo para relaxar já sabendo que Black viria para conversar.

Mas nada foi dito. Ela só chegou perto, mais perto, mais perto ainda, encarando-o concentrada.

— O que foi? Tem algo na minha cara? – perguntou, fechando a cara novamente — Olha, se você ainda quer falar algo sobre aquela estátua é melhor falar log- mas foi interrompido por algo mortal: cócegas. – E-e-e-e-e-ei, o que você tá fazendo?! – sem resposta. – Blaaaaaaaack, p-para com isso! Para! S-sério, para com isso! – e segurou as mãos da garota, ofegante e lacrimejando. – C-chega. Eu perdi, tá bom?

— Claro que perdeu. Não conseguiu manter o mau humor, então não tá realmente irritado. – e o sorriso desafiador na cara dela era o suficiente pra confirmar que estava certa.

— Não é como se eu pudesse fazer algo contra uma máquina de cócegas ambulante, sabe? – uma leve onda de calor invadiu o quarto. – Enfim, acho que esse tempo não tem sido muito bom pra minha cabeça então...já viu, né? –e esfregou a cabeça, desviando o olhar.

— É, falou o cara que vive envolto em chamas. – retrucou, apoiando-se no batente.

— Você sabe muito bem que eu sou uma exceção à regra. – e jogou-se na cama, fitando o teto. – As fênix não são afetadas pelo calor já que elas são feitas de fogo e o frio também não é nada para elas, mas esse meu lado humano sempre traz o pior de ser um híbrido. Sinceramente eu sinto inveja da minha mãe, mesmo sem nunca tê-la encontrado.

— Você vai encontrá-la logo. – adiantou-se Black, sabendo que aquele não era um assunto muito agradável. – ...intuição canina. – concluiu.

— Há, duvido bastante disso. Eu reencontrei meu pai no inferno quando te salvei daquela vez, mas não acho que terei a mesma sorte com a minha mãe. Já faz 38 anos e não vi nem sombra dela, nem sequer uma foto! – e num impulso levanto, sentando-se na cama. – Meu pai podia ter um relacionamento normal com uma mulher normal, mas não, tinha que ser com uma criatura mística.

— Bem, acho que se você tivesse nascido um ser humano comum, sua vida não seria tão emocionante. E do jeito que fala, nem parece que as fênix podem tomar forma humana. Isso dá um sentido bem errado pra coisa, não? – o que fez Axel pensar na possibilidade.

— De certa forma acho que tem razão. Além disso provavelmente eu não teria te conhecido, então talvez no final das contas eu seja grato. Se não fosse por você, — desviou o olhar, já que nenhum dos dois estava acostumado a fazer essas declarações, mesmo estando a sós. – talvez o fato de não morrer fosse muito mais assustador.

Black saiu da janela e sentou perto da cabeceira da cama, afagando o cabelo de Axel.

— Você sabe que o mesmo vale pra mim. Não é todo o dia que encontramos alguém que vive mais que um ser humano comum, não é? – e ambos riram.

— Quanto mais eu penso que nos conhecemos daquele jeito, menos eu tendo a acreditar em coincidências.

— Dragões, contrabandistas e uma loba fugitiva. – começou a contar. — É, não é algo que se vê todo dia. – mas percebeu que Axel a observava, confuso. – O quê foi? Com essa cara nem parece que você se lembra

— Para ser honesto, — fechou os olhos e colocou a mão sobre a testa- desde a luta com Delios eu sinto que algumas memórias minhas ficaram turvas ou simplesmente desapareceram. Provavelmente foi pelo golpe daquela foice. Eu achei que era um efeito temporário, mas agora que você mencionou, parece que eu não consigo me lembrar de coisas que deveriam ser óbvias.

Realmente estava se esforçando para lembrar. Sabia que aquilo tinha acontecido, mas nenhuma menção a essa parte do passado trazia imagens a sua mente. De fato Delios dissera que sua foice cortava a alma e não o corpo, mas ainda assim....

— Tudo bem então. – disse Black, jogando-se na cama de braços abertos. – Pelo visto vou ter que contar tudo até você se lembrar. Pronto?

Na verdade estava confuso. Ela realmente ia contar a história de como se conheceram? Podia não se lembrar direito, mas sabia que não era algo curto.

— Claro, Black.

— Certo. Então vamos começar um pouco antes de nos encontrarmos.

Notas finais
Fangs & Wings é uma saga com várias histórias que giram em torno de Black Fang e Axel Isolet. Nem todas estão diretamente conectadas, então podem ser lidas sem a necessidade de conhecer as outras partes. Tears of the Past é uma delas, embora faça menções a algumas passagens de Blue Fury que você pode ler aqui: http://fanfiction.com.br/historia/425337/Blue_Fury/
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.