Fangirl-ily
4 3. Sirius Black
Notas iniciais
[TERÇA-FEIRA — 28 DE JUNHO, 2016]
Quando Lily pensava nas piores coisas que poderiam acontecer e sua vida, sempre imaginava apenas duas alternativas: a) ficar menstruada e manchar as roupas no primeiro dia da faculdade e b) as pessoas descobrirem que, no fundo de seu coração gótico e das trevas, ela shippava Luke/Leia em Uma Nova Esperança. Por Vader! Ela estaria destruída se algo como aquilo fosse divulgado nas redes! Eles eram irmãos, por Vader – literalmente por Vader – e, francamente, Han/Leia era seu OTP! Quão vergonhoso seria se aquilo caísse na boca do povo? Os leitores de Lily a deserdariam! Estremecia somente de pensar.
De qualquer forma, em toda sua vida jamais havia pensado em algo pior e mais vergonhoso do que aquelas duas coisas (certo, talvez tivesse pensado, mas aquelas ainda se sobressaiam), contudo, naquele momento, enquanto era observada por dois pares de olhos estreitos e desconfiados, Lily soube que o terceiro item fora adicionado à lista: c) nomear o cachorro com o nome de alguém e, claro, enquanto estivesse chamando o cachorro – que estava dando uma de tarado no parque – o dono original do nome aparecer para presenciar aquele momento.
Oh, como a vida era cruel.
Imaginando qual desculpa poderia dar ou que diabos faria diante de tal situação, jamais teria imaginado o desdobramento dos acontecimentos a seguir:
— ODETTE! — James praticamente berrou, atirando-se na direção da cadela e puxando-a para seu colo com muito mais força do que Lily jamais teria. Em menos de um segundo ele havia resolvido a situação que ela não conseguira entre berros e humilhação pública. Os olhos de James ergueram-se para ela e parecia o mesmo olhar de decepção que Luke tinha ao descobrir que Darth Vader era seu pai. — Ela está com problemas! Ela não podia ter nenhum... Acasalamento com outro cão!
— Eu... ah... não sabia — Lily tentou parecer convincente, porém ela lembrava perfeitamente do último vídeo postado por James e tudo o que ele havia falado sobre Odette.
— Se ela estiver prenha, ela muito provavelmente vai morrer! — James parecia totalmente fora de si e continuava encarando Lily em descrença.
— Eu... — ela tentou falar novamente, mas ele simplesmente deu as costas e continuou na direção oposta.
Lily observou-o se afastar sem saber como reagir, afinal de contas, de todas as reações que poderia ter esperado da parte de James, aquela, definitivamente, não era uma delas.
— Então... Padfoot?
Lily gritou de susto, sentindo o coração quase sair da boca ao perceber que o segundo garoto estava ao seu lado, encarando-a enquanto se divertia com a reação dela.
— Ai, meu Vader! Você quase me matou! — Ela colocou uma mão sobre o coração, respirando profundamente antes de processar as palavras dele. E então, obviamente, ela corou. — Ah... o nome...
Sirius sorriu um pouco mais, parecendo gostar demais daquela situação, o que somente aumentou ainda mais o desconforto de Lily.
— Padfoot? — Ele repetiu de forma lenta, apreciando as palavras.
— Eu, ah, bem, o cachorro...
— Não é seu? — Ele indagou, estreitando os olhos que brilhavam, maroto. — É de alguma amiga? Ou é da sua irmã?
Lily sentia como se seu rosto fosse entrar em combustão a qualquer segundo. Encarava Sirius – SIRIUS BLACK – sem saber como reagir. Ele parecia saber bem demais que nenhuma daquelas desculpas era verdadeira. Milhares de desculpas novas surgiram na mente dela, cada uma delas mais absurda do que a outra – sua mente de ficwriter era mesmo muito criativa – mas ela sabia que de nada adiantaria. Ela havia sido pega.
Oh, por Vader, como era humilhante.
— Bem, você parece saber a resposta, não é? — Lily disse e deu de ombros, tentando parecer casual e não alguém que havia perdido toda a dignidade. — Acho que deveria ir atrás do seu amigo, afinal ele parece bem chateado. — E voltou a encarar o ponto negro em locomoção no qual James Potter havia se transformado ao se afastar.
— Bom, Odette é como uma filha para ele, Maraudete. — Ele sorriu, malvado, ao pronunciar o nome carinhoso que os Marauders usavam para apelidar seus fãs. — Creio que ele não deve estar muito feliz com a possibilidade de que ela possa morrer...
Lily ofegou, sentindo-se imensamente culpada.
— Não fale uma coisa dessas, por Vader! — Baixou os olhos para o cachorro que não parecia em nada com o demônio no cio de segundos atrás. — Talvez eu devesse pedir desculpas e levar a Odette no veterinário ou algo assim.
— James não deixaria você nem mesmo terminar a primeira frase antes de te mandar embora. — Sirius adicionou, parecendo apreciar as palavras mais do que o necessário. — Pelo menos eu não deixaria.
Lily se irritou.
— Ah, mas pelo amor de Anakin Skywalker, o que você quer, afinal? Por que está aqui e não lá com o seu amigo? — Encarou-o, uma sobrancelha arqueada enquanto sentia sua irritação crescer ainda mais ao perceber a expressão marota aumentar no rosto do garoto.
— Eu estou te avaliando. Não sei se me sinto confortável com alguém fanático morando na casa ao lado.
— Como você sabe que... o quê? — Lily arfou, estupefata. Ela ouvira James chamá-lo de chato uns milhares de vezes nos vídeos, mas nunca havia pensado que era verídico. — Quem você pensa que é?
— Aparentemente, sou o cara de quem você roubou o nome e colocou no cachorro.
— Meu Vader, você é insuportável! — Ela estava tremendo, só não sabia dizer se era de vergonha ou raiva. Talvez os dois. Como era possível alguém irritá-la tanto em tão pouco tempo? E Lily havia pensado que depois de Snape ninguém conseguiria tirá-la do sério tão fácil.
— Lily! — A voz de Alice ecoou, próxima, fazendo com que Lily se sentisse levemente aliviada em poder desviar a atenção do garoto à sua frente.
A amiga corria em sua direção, mas parou a alguns metros de distância, franzindo o cenho ao notar a companhia de Lily.
— As garotas de Hogsmeade são bastante bonitas, hm? — Sirius comentou, baixinho, de forma que somente Lily ouvisse. Ela rolou os olhos para ele, preferindo ignorá-lo do que irritar-se ainda mais com sua presença intragável.
— Hey, Allie! — Lily chamou-a. A garota se aproximou, cumprimentando Sirius com a cabeça. Ele sorriu.
— Olá.
— Oi. — Alice voltou-se para Lily rapidamente, obviamente desconfortável com o olhar inquiridor do garoto. — Você achou o...
— Padfoot. — Sirius completou, fazendo com que ambas o encarassem. — Sorte a dela, encontrou não apenas um, mas dois. — E, sorrindo ainda mais, de uma forma que parecia prestes a rasgar seu rosto ao meio (e internamente Lily estava torcendo por aquilo), ele se afastou. — Nos vemos por aí, ruiva.
— Aquele não era o...
— Padfoot, amigo do Prongs, youtuber famoso, integrante do The Marauders? Era ele mesmo. — Lily voltou-se para Alice. — Agora me diga, Allie, existe alguém mais azarada do que eu?
Alice rolou os olhos.
— Eu não chamaria aquilo de azar. — Alice deu uma boa encarada no garoto que se afastava. — Que Frank nunca saiba que eu disse isso! Certo, acho melhor ligarmos para a Marley, ela ainda está procurando pelo Pads.
Lily assentiu, ainda meio sem reação, tentando processar os últimos minutos onde parecia que sua vida havia virado – ainda mais – de cabeça para baixo. Como ela havia passado de total desconhecida, para vizinha de um youtuber e então para dona do cachorro incontrolável que atacava a cadela do youtuber em questão? E tudo em menos de uma semana, por Vader!
— Hey! — Marlene disse, fazendo com que as duas garotas erguessem os olhos para ela. Lily não sabia dizer por quanto tempo ficara perdida em pensamentos, mas a expressão de desgosto de Alice indicava que ela estivera tentando chamar a atenção da ruiva em vão. — Onde ele estava?
— Acasalando com a Odette! — Lily praticamente explodiu, seu tom de voz um oitavo mais alto do que o habitual, fazendo com que suas amigas a encarassem com expressões idênticas de confusão. — Vocês têm a mínima noção do quanto é pequena a possibilidade de ser vizinha de um youtuber famoso? E de você, por acaso, ser superfã desse youtuber? E que ele vá almoçar na sua casa? E que ele tenha uma cadela que não pode acasalar porque pode morrer e o SEU MALDITO CACHORRO DECIDIR QUE É UM ÓTIMO MOMENTO PARA DAR UMA RAPIDINHA COM A CADELA DO SEU VIZINHO QUE TAMBÉM É O YOUTUBER FAMOSO QUE ALMOÇOU NA SUA CASA?
— Nossa... — Alice começou a falar, mas parecia não encontrar palavras para expressar qualquer coisa, então calou-se.
— Ah, e como se não bastasse, eu tinha de colocar o nome do maldito cachorro como homenagem ao melhor e estúpido amigo do James Potter! E, claro, esse amigo precisava estar junto quando toda essa humilhação aconteceu. — Lily respirou fundo, abaixando-se para encaixar a guia na coleira de Padfoot que a encarava com aqueles olhos pidões. Foi o que bastou para que a irritação dela diminuísse. E sua vontade de morrer aumentasse. — Céus, eu quero morrer!
— Certo, Dramily, vamos embora, tome um café ou algo assim. Nem foi tão ruim... — Marlene começou a falar, colocando uma mão no ombro da ruiva antes de começar a empurrá-la pelo caminho. — Mas... O Potter, como ele reagiu?
Lily gemeu, evitando responder.
— Acho que não muito bem. — Alice murmurou.
X—X
Após se despedir de suas amigas, Lily pensou em mil maneiras de entrar na sua casa sem ser notada, porém como ela não conseguia atravessar paredes, nem ficar invisível e tampouco voar, teve de se contentar em tentar ser imperceptível ao entrar pela porta da frente. Mas, aparentemente, o destino não queria que fosse assim. Nunca queria.
— Deixe esse cão longe dos meus gatos! — A inconfundível e irritante voz do Sr. Tom Riddle, o vizinho infernal da casa em frente, fez com que Lily desse um pulo e Padfoot latisse. Que grande maravilha.
O som da porta da casa do novo vizinho sendo aberta indicava que ela tinha plateia. Evitando olhar naquela direção, Lily voltou-se para encarar o Sr. Riddle que estava parado perto do portão de sua casa, trajando seu pijama de sempre e a mirava com os olhos estreitos.
— Você nem tem gatos, Sr. Riddle! — Lily falou, irritada.
— Mas poderia ter! — O homem bufou em resposta, afastando-se para dentro e batendo a porta atrás de si.
A risadinha cínica que soou nos ouvidos de Lily era conhecida demais depois de muitas noites de maratona no The Marauders. Céus, como ela podia odiar tanto alguém que havia admirado horas antes?
Ainda sem olhar na direção do garoto, sabendo que encontraria um Sirius Black debochado, adentrou sua casa, fechando a porta com mais força do que seria necessário, exatamente como o Sr. Riddle. Somente Petunia estava em casa, pois seus pais estavam trabalhando àquela hora, portando soltou Padfoot da guia, e observou-o se afastar em direção à porta dos fundos. Por fim, decidiu que a melhor forma de lidar com tudo aquilo era tomar um banho.
Não foi um banho feliz. Nenhum plot maravilhoso para alguma fanfic nova surgiu, nenhuma ideia para um desfecho maravilhoso para o próximo capítulo de Every Other Star apareceu. Tudo em que Lily conseguia pensar era no fato de que a) seu novo vizinho a odiava, b) ela odiava o melhor amigo do novo vizinho, c) ela precisaria se desculpar de alguma forma e d) ela teria de fazer isso quando o maldito Sirius Black não estivesse lá. Mas quando ele iria embora? Ele demoraria muito?
Pelo que Lily sabia eles nunca se desgrudavam. Dias antes ela teria achado aquilo maravilhoso e muito fofo, mas, naquele momento, só conseguia achar muito irritante.
Quando saiu do banho, desceu até a cozinha, pretendendo conseguir alguma coisa para comer e, é claro, café. Derrubou algumas coisas no caminho, xingando-se de forma veemente.
— Minha vida é uma merda! — Resmungou consigo mesma enquanto subia as escadas, uma caneca grande de café na mão esquerda e dois bolinhos na mão direita. Precisou fazer malabarismos para evitar o encontrão que Petunia teria dado nela ao descer as escadas apressada. — Olha por onde anda, filhote de Wookiee.
— Vou ignorar a nerdice que você falou e vou te informar que eu estou saindo e só volto amanhã. Tem comida no forno!
— A mamãe sabe que você está saindo?
— Você vai avisá-la. — Petunia sorriu.
— Ela vai ficar furiosa, Tuney! — Lily reclamou, incrédula. Ela preferia enfrentar um exército de Stormtroopers do que Helena Evans furiosa.
— Tenho certeza de que você vai acalmá-la. — Petunia afastou-se em direção à porta.
— E se eu não quiser acalmá-la?
— Bem, talvez seu vizinho goste de saber sobre seu vício inegável e potencialmente assustador nele. — E, com um sorriso maligno, ela saiu, deixando Lily sozinha e inconformada.
Ou, bem, mais inconformada do que ela já estava, de qualquer forma.
— E quando você pensa que não pode piorar... — murmurou ao encaminhar-se para o seu quarto. — Pelo menos eu vou estar sozinha. — Suspirou.
Caminhou até sua escrivaninha, depositando o café e os bolinhos sobre o tampo antes de ligar seu notebook. Tentaria assistir uma série – Vader sabia o quanto estava atrasada em The Flash, Supernatural e Sherlock— ou um filme. Tudo sempre melhorava com a presença daNetflix.
Tomou alguns goles de sua superxícara de café extraforte, suspirando ao sentir o gosto maravilhoso em sua boca e então preparou-se para maratonar. Infelizmente o ator de The Flash era parecido demais com seu novo vizinho, o que não ajudava em nada o fato de ela estar tentando evitá-lo. Supernatural tinha muito bromance, o que fazia com que Lily lembrasse dos melhores amigos Prongs e Padfoot, localizados a poucos metros de distância e que provavelmente a odiavam. Por fim restou apenas Sherlock, com sua inteligência e frieza emocional. Parecia perfeito.
O episódio começou e parecia mesmo que iria funcionar. Ela tinha café forte. Tinha bolinhos. Tinha suas pantufas confortáveis e seu pijama de Star Wars. Tinha uma série maravilhosa para assistir.
E uma campainha para atender.
Sabendo que o que estava fazendo era totalmente errado, Lily ficou quieta, esperando para ver se a pessoa insistiria na campainha. Se não tocasse de novo, então não deveria ser urgente e ela não precisaria sair do conforto de seu quarto. Mas, claro, a campainha tocou. De novo e de novo.
— Pela força... — Lily resmungou ao descer as escadas sem a menor vontade, rezando para que não fosse algum parente. Ela não queria ter de fazer sala para parentes. Ela não gostava de socializar com parentes. Soltando um longo e lamuriante suspiro, Lily escancarou a porta e desceu até o portão, abrindo-o. E então o fechou quase imediatamente.
— Isso não foi muito educado. — Sirius Black disse, tocando a campainha novamente.
— Não era para ser. — Lily respondeu, esticando-se para vê-lo através das grades do portão. Ele estava sozinho e tinha aquele maldito sorrisinho irritante nos lábios. — O que você quer?
— Se você abrir eu poderei dizer. — Black retrucou.
— Ótimo. — Ela resmungou, abrindo o portão e encostando-se nas grades. — O que você quer?
— Oh, direto ao ponto. Eu gosto. — Ele sorriu ainda mais, parecendo se divertir com a situação. — Bem, meu queridíssimo amigo decidiu levar a pobre cadelinha ao veterinário e eu fiquei sozinho.
— E...?
— E eu estava entediado, portando, para me ocupar, achei que seria ótimo se pudéssemos nos conhecer melhor. Ou, bem, eu te conhecer, afinal eu tenho certeza de que você já deve me conhecer bastante bem. — Adicionou, maroto.
Bufando, Lily encarou-o, incrédula.
— Você é sempre tão irritante assim ou só com pessoas que acabou de conhecer? — Ela estava furiosa.
— Oh, não, isso eu estou reservando apenas para você, ruiva. — Ele piscou.
— Meu nome é Lily.
— E o meu é... ah, você já sabe! — O sorriso do garoto aumentou ainda mais.
— Certo, se você veio até aqui para tentar me fazer odiá-lo, então você conseguiu. Agora já pode ir embora! — As bochechas dela ferviam, provavelmente mais vermelhas do que um tomate, fazendo-a sentir-se quente e muito, muito irritada.
— Eu falei que queria te conhecer melhor, Lily. Estava pensando se você não vai me deixar entrar?
— Pensou certo, eu não vou. — Ela estreitou os olhos e ele fez o mesmo, sustentando o olhar por vários segundos silenciosos. E então, como parecia ser o habitual, ele sorriu.
— Eu gosto de você. — Black disse simplesmente, como se estivesse falando do tempo ou qualquer coisa assim. — Você é divertida. — E, ignorando o fato de que ela não o havia convidado, esquivando-se pelo lado de Lily, ele entrou pelo portão, subindo em direção à porta da frente. — Bela casa, parece confortável. E a sua irmã?
— Não é da sua conta! Black, isso é invasão domiciliar!
— Oh, viu só? Você disse Black. — Mas ele não a estava encarando, estava observando o ambiente, curioso. — O que estava fazendo?
— Tentando ser feliz, coisa que você estragou completamente. — Ela murmurou, depois de correr até a porta, encarando as costas do garoto na expectativa de que ele percebesse que não era bem-vindo e fosse embora. Mas, obviamente, ele não foi. Pelo contrário: parecia sentir-se confortável até demais ali. — Você não vai ir embora?
Sirius voltou-se para ela, uma sobrancelha arqueada.
— Eu pareço com alguém prestes a ir embora? — Indagou.
— Não, você parece com alguém muito irritante! — Ela retrucou, mas fechou a porta atrás de si, imaginando que somente se cansaria se continuasse ali.
— O que exatamente “tentando ser feliz” significa? Estava vendo os meus vídeos?
— Eu não qualificaria os seus vídeos como felicidade, Black. — Ela suspirou. — Estava me preparando para assistir Sherlock.
Os olhos do garoto brilharam.
— Eu adoro Sherlock!
— Nem pense nisso!
X—X
Lily não conseguia distinguir exatamente o que os personagens estavam falando, embora soubesse que deveria prestar atenção, afinal adorava aquela série. Mas a presença inquieta e totalmente inusitada do Marauder no seu quarto, parecendo tão absurdamente confortável no meio de todos aqueles cartazes de Star Wars e prateleiras de livros, fazia com que ela não conseguisse focar em mais nada.
— Se você não vai assistir a série é só avisar, ruiva. Eu sei que minha presença é inebriante.
— Se por “inebriante” você está se referindo à “pessoa completamente sem noção que invade casas alheias para irritá-las” então sim, você é inebriante. — Lily bufou, mas pausou a série, encarando-o logo em seguida.
— Você parece bastante fã de Star Wars... — Sirius comentou, observando o ambiente. — Legal. Eu gosto também, embora eu não seja tão exagerado.
— Eu não sou exagerada! — Ela imediatamente se defendeu. Uma coisa era falar que ela era uma stalker, mas outra totalmente diferente era falar barbáries sobre seu amor incondicional por Star Wars.
— Claro que não. — Ele rolou os olhos, debochado. Lily estava prestes a abrir a boca para contestar quando ele a interrompeu. — Então você é fã de youtubers?
Ela poderia mentir. Ela poderia simplesmente ignorá-lo e esquivar-se das perguntas até que ele cansasse e desistisse. Não era obrigada a responder. Mas ela sabia que ele não desistiria e que ela acabaria cedendo. Então, porque adiar?
— Bem, de alguns. — Deu de ombros, minimizando seu fanatismo por vloggers.
— Você é fã do Prongs? — Sirius parecia surpreso com a resposta dela e Lily imaginou que ele deveria estar esperando por alguma negação.
— Eu assisti alguns vídeos. — Murmurou, sentindo suas bochechas esquentarem. Sirius arqueou uma sobrancelha. — Ou talvez todos.
Ele sorriu.
— E você conhece o The Marauders?
Lily rolou os olhos.
— É meio óbvio.
— Você assiste o meu canal? — Ele parecia realmente interessado.
— Uhum.
— Legal! Sabe, Lily, você é uma das poucas fãs que encontrei até hoje que não pularam no meu pescoço. — Sirius riu.
— Eu provavelmente teria feito isso se eu te visse na rua alguns dias atrás, antes de James Potter se tornar meu vizinho e você se demonstrar uma pessoa intragável. — Deu de ombros, sentindo-se estranhamente aliviada por finalmente falar aquilo para alguém além de suas melhores amigas. E então arregalou os olhos, horrorizada. — Não conte isso para ele! Por Vader! Já é vergonhoso o suficiente ter praticamente berrado o nome do meu cachorro na frente de vocês... se o Potter souber que eu sou uma fanática louca é provável que ele se mude.
— Ele não faria isso, James adorou aquela casa. — Sirius meneou a cabeça. — Mas fique fria, ruiva, eu não vou contar para ele que mora ao lado de uma Stalker.
— Eu não sou uma stalker.
— Se você diz...
— Meu Lorde, você é mesmo insuportável. — Lily jogou as mãos para cima, fazendo-o rir.
Antes, porém, que Sirius falasse qualquer coisa, o som de carro estacionando na casa ao lado fez com que ele se erguesse e caminhasse até a janela. De forma cuidadosa, ele afastou um pouco a cortina, olhando para a casa ao lado.
— Bem, Lily, foi realmente muito interessante nossa conversa, mas eu preciso ir. O dever de melhor amigo me chama. — Sirius disse, fazendo uma falsa mesura para ela.
Lily ergueu-se da cadeira onde estava sentada, acompanhando Sirius para fora do quarto.
— Ele está muito irritado comigo? — Ela não conseguiu se conter antes de perguntar.
O garoto parou de andar, meneando a cabeça enquanto parecia pensar na resposta.
— Ele não está exatamente irritado, se quer mesmo saber. Ele está chateado na verdade. Ele ama aquela cadela.
— Eu sei... — Lily suspirou, sentindo-se cansada.
— Mas logo vai passar, ruiva. James não é de guardar rancor. — Sirius adicionou, parecendo perceber alguma coisa na expressão de Lily.
— Ótimo! Até porque a culpa nem foi minha na verdade! Quero dizer, se a cadela está no cio, que diabos ele estava pensando ao levá-la para passear? O Pads não tem culpa de... oh, céus, isso foi realmente estranho. — Ela resmungou ao perceber a expressão no rosto de Sirius. — Apenas vá embora, pelo amor de Vader! — Lily deu um pequeno empurrão no garoto em direção aos portões, fazendo-o rir. Por Merlin, será que ele ria de tudo?
— Até qualquer dia, Lily! — Ele se despediu.
— É... — E então fechou o portão, sentindo-se estranhamente sozinha. Rolou os olhos para si mesma. — Deve ser porque você está sozinha, idiota.
Voltando para seu quarto, tentou processar todas as informações que pairavam em sua mente. Somente quando se deitou na cama, depois de desistir de assistir a série, pois não conseguia prestar atenção, é que se deu conta do que havia acontecido.
— Eu assisti série com Sirius Black! Ele esteve na minha casa! Ele conversou comigo! — Ergueu-se de um salto, correndo até a janela no que parecia estar se tornando um hábito. Mas a janela do quarto azul estava fechada, portanto ela voltou para a própria cama.
Sem prestar muita atenção no que estava fazendo, ligou para Marlene.
— Marley, você não vai acreditar!
— O quê? Justin Timberlake se mudou para a casa ao lado? — E então riu da própria piada. — O que houve, Lily?
Sem delongas, Lily contou sobre a visita estranha que recebera e a conversa que tivera com Sirius Black. Parecia ainda mais inacreditável quando ela falava em voz alta.
— Para resumo de conversa: você tem muito azar, mas tem sorte ao quadrado! — Marlene parecia tão empolgada quanto ela. — Mas, e aí, vai pedir desculpas para o vizinho nº 1?
— Eu acho que sim..., mas não hoje. Eu não sei se vou aguentar mais um round de “você vai matar a minha cadela” por agora.
— É, você tem razão. Bem, Lily, eu realmente preciso ir. Meu irmão está definitivamente destruindo a casa e eu preciso impedi-lo antes que a Interpol venha buscá-lo.
Lily riu, rolando os olhos para o drama da amiga. Ela sabia que Jonas, o irmão de dez anos de Marlene, era hiperativo, mas também sabia que Marlene exagerava um pouco nas descrições.
— Certo. Até mais! — Então desligou, ouvindo no mesmo instante o som da porta da frente ser aberta.
Bem, aparentemente os rounds com a sua mãe começariam muito em breve. Respirando fundo e pedindo para que a força estivesse com ela, Lily voltou a descer as escadas, rogando pragas interestelares para a existência da Petunia.
[QUARTA-FEIRA — 29 DE JUNHO, 2016]
— Você está atrasada! — Foram as primeiras palavras de Aberforth para Lily quando ela chegou ofegante no Movie-Maker.
— Eu sei, Aberforth, me desculpe! Eu esqueci que hoje eu tinha turno duplo e acabei dormindo demais...
— É melhor se apressar então, a loja está movimentada hoje! — O senhor comentou, afastando-se para o seu escritório.
Lily olhou por entre as prateleiras, bufando ao perceber que Aberforth estava, como sempre, exagerando.
Não havia uma única alma dentro daquela loja além deles dois. Se aquilo era movimento, então a entrada de Guga Jones iria causar congestionamento nos corredores vazios.
— Hey, Lily! — A garota cumprimentou-a, aproximando-se do balcão onde Lily guardava sua bolsa. — Parece ofegante.
— Cheguei atrasada. — Lily rolou os olhos, sorrindo para a garota que retribuiu, parecendo muitointeressada.
— Está bonita hoje. — Jones comentou, piscando.
Lily tentou não se sentir muito desconfortável diante do olhar que a garota lhe lançava, mas sentiu as bochechas esquentarem.
— Em que posso te ajudar, Guga? — Apressou-se a adotar o tom profissional, enquanto desviava o olhar da garota que pareceu entender o recado, coisa que Lily agradeceu internamente, afinal não precisava de mais alguma coisa que pudesse fazer com que seus pais pensassem ainda mais que ela era gay. Se bem que ela não teria problema algum em se assumir se Angelina Jolie desse em cima dela. Francamente, que mulher!
— Bem, eu estou procurando por um LP dos Beatles. O Abbey Road. Vocês têm? — A indagação de Guga arrancou-a de seus devaneios, fazendo-a corar ainda mais ao perceber que estivera se imaginando aos beijos com a esposa do Brad Pitt.
— Sim! No terceiro corredor à direita. Na prateleira “Especiais”.
— Obrigada! — Guga murmurou antes de se afastar na direção indicada.
Enquanto o rubor de Lily diminuía, ela começou sua rotina: ligou o computador e, enquanto esperava, colocou a cafeteira para funcionar. Depois de ter seu café em mãos e o computador finalmente em funcionamento, Lily sentou-se, preparando-se para entrar em sua conta no Twitter. Fazia algum tempo desde que não a acessava – com todos os acontecimentos do dia anterior, ela não havia conseguido forças o suficiente para pensar em sua rede social favorita. O que, com certeza, era preocupante.
Algumas notificações de Marlene e Alice, mais algumas de leitores cobrando capítulos que não saíam nunca – e Lily respondeu-os com todo amor e carinho (exceto o da leitora fantasma descarada que não comentava e ainda achava que podia cobrar um capítulo, coisa que não era nada justa – Vader estava de olho!) – E, por fim, uma resposta de Snape ao seu tuíte na última discussão dos dois. A qual Lily preferiu ignorar. Não, ela já tinha incômodos demais sem precisar se preocupar com Snape.
***
@fangirl-ily: bom dia, flores do dia! Cheguei cinco minutos atrasada no trabalho hoje e sinto o olhar perfurador de Aberforth nas minhas costas como se tivesse lasers.
@fangirl-ily: ontem o dia foi agitado, não consegui entrar aqui para desabafar
@fangirl-ily: mas eu não poderia fazer isso, de qualquer forma. Com a sorte que eu tenho logo seria descoberta
@fangirl-ily: se eu contasse para vocês todas as merdas que aconteceram, tenho certeza de que estariam chorando por mim
@fangirl-ily: certo, a @marleymckinnon disse que eu tenho azar, mas tenho muita sorte também e até pode ser verdade
@fangirl-ily: o que vocês fariam se algo que não é inteiramente sua culpa tivesse acontecido, mas ainda assim você se sentisse culpada +
@fangirl-ily: por não ter evitado, mesmo que você NÃO FIZESSE ideia de que iria acontecer por NÃO ter evitado
@fangirl-ily: vocês pediriam desculpa para a pessoa que foi magoada ou ignorariam, afinal não foi sua culpa? Pelo menos não diretamente
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Lily suspirou, aguardando ansiosa por pessoas caridosas com conselhos divinos nas notificações. Deslizou pela timeline, curtindo algumas coisas pelo caminho enquanto tentava não ficar muito inquieta.
— Encontrei! — Guga reapareceu no balcão, o LP em mãos e um sorriso no rosto. — Não sei com você consegue decorar os corredores disso daqui, tem muitos CDs e Discos!
Lily sorriu.
— Eu trabalho aqui há bastante tempo e boa parte dos corredores fui eu que organizei, o que me dá muitas vantagens. — Ela pegou o disco, passando-o na máquina registradora e cobrando o valor de Guga.
— Estive economizando por um longo tempo para poder comprar esse disco! Agora minha coleção está completa! — A garota comentou, feliz, após Lily ter embalado sua nova aquisição. — Bem, vou nessa. Nos vemos por aí, Lily!
— Nos vemos! — Lily observou-a se afastar, sorrindo pela empolgação da garota, identificando-se. Ela sabia muito bem o quanto sofria para tentar administrar seu salário de forma que conseguisse balancear entre o estritamente necessário e seu lazer. Era um sofrimento mensal.
Ergueu os olhos para o computador, sorrindo ao perceber que haviam três notificações, porém, antes que pudesse clicar, o som da porta da loja sendo aberta chamou sua atenção.
E, claro, não podia ser qualquer um querendo qualquer CD. Não. Era Lily Evans de quem estava falando. A garota que faria Freud e suas teorias tremerem na base.
Ela sentiu o coração descompassar e ele, parecendo sentir o olhar de Lily sobre si, ergueu os olhos, encarando-a, surpreso.
— Parece que você está em todos os lugares! — James Potter disse enquanto se aproximava do balcão.
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