Fangirl-ily

5 4. A "coisa"


Notas iniciais
*limpando as teias de aranha* Socorro! Olhem só quem decidiu dar as caras por aqui depois de séculos, hm? Eu sei, eu sei, é muita cara de pau a minha, mas é como minha avó dizia: antes tarde do que nunca! Amores, mil perdões por toda essa demora, sério. Quem me acompanha nas redes sociais estava sabendo das minhas dificuldades em ter tempo/inspiração para escrever nos últimos meses. Felizmente - e espero que dure - nos últimos dias consegui um tempinho para me dedicar às minhas fics e, com muito amor, desenvolvi esse capítulo para vocês. Eu estou abismada com as proporções que essa fic está tomando, gente, sério. É muito emocionante perceber que vocês estão gostando tanto, pois, para mim, escrever FGLY (achei uma sigla!) é, em partes, como escrever sobre eu mesma, sobre meu cotidiano. Me identifico muito com a Lily sob muitos aspectos (principalmente os de fangirl) e saber que vocês também se identificam é incrível! ♥ Obrigada pelo carinho, amores! Significa muito para mim! Ah, gente, aproveitando aqui, quero esclarecer algumas coisas para vocês: quem me acompanha há mais tempo sabe o quanto gosto de, além de escrever, também trazer mensagens boas e coisas que possam acrescentar, nem que seja um pouco, na vida do leitor. Levando isso em consideração e também o fato de FGLY ser tão "atual", decidi que quero falar, além das loucuras do dia-a-dia de uma fangirl, sobre assuntos mais "polêmicos". Sobre a confusão da vida de um quase-adulto, as dificuldades em achar a própria identidade, sobre os confrontos diários, preconceitos... Quero, além de me divertir escrevendo, também trazer algo "a mais" para a fic. Espero que vocês entendam a minha necessidade. Estou passando por muitas transformações na minha vida, assim como a Lily, assim como muitos de vocês. E o que é melhor do que escrever para extravasar? O que é melhor do que encontrar pessoas com quem você se identifica? Enfim, espero que vocês se encontrem por aqui tanto quanto eu busco me encontrar nas minhas histórias! Certo, deixando a profundidade de lado e colocando todo meu amor para fora: OBRIGADA ÀS PESSOAS MAIS MARAVILHOSAS DO MUNDO PELAS RECOMENDAÇÕES LINDONAS! Serial Killer e ChrisKun, vocês deixaram meus dias muito felizes! Assim como todo mundo que comentou! A fic está com 299 reviews e tinha somente 4 capítulos postados. Não consigo acreditar, mas, gente, VOCÊS SÃO INCRÍVEIS! Agora, vou deixá-los ler! ♥

[QUARTA-FEIRA — 29 DE JUNHO, 2016]

— Eu poderia dizer o mesmo de você. — As palavras escaparam dos lábios de Lily antes que ela pudesse pensar no que estava fazendo. James Potter continuava se aproximando do balcão, olhando para as prateleiras de forma interessada.

Por alguns segundos, Lily acabou deixando-se levar pelos sonhos e pegou-se imaginando se os cabelos dele eram tão macios quanto aparentavam ser ou sobre qual seria o gosto dos lábios dele... café? Xingando-se mentalmente pelos pensamentos incoerentes e totalmente desnecessários ­– afinal, tudo o que ela não precisava era acabar sendo taxada, além de stalker e dona de cachorros loucos, de maníaca – piscou algumas vezes a fim de firmar a visão. E então, como era de praxe, sentiu as bochechas corarem intensamente ao perceber que James Potter – seu youtuber favorito, novo vizinho, dono da cadela que Padfoot havia desvirginado – estava bem em sua frente encarando-a com uma sobrancelha arqueada e um olhar perscrutador.

Desenterrando forças tão fundo em si, que parecia terem saído das unhas dos pés, Lily se recompôs e falou:

— Posso te ajudar com alguma coisa? — No seu tom mais profissional.

O garoto pareceu ter sido pego desprevenido, como se houvesse esperado que ela tivesse qualquer outra reação que não a de agir como se nada tivesse acontecido. Lily também estava surpresa, não podia negar. Semanas antes ela teria dado um rim para estar perto de James Potter e se dependurar em seu pescoço, no entanto ali estava ele, em sua frente – não pela primeira vez e, aparentemente, já que o cosmos parecia estar se divertindo muito com aquela situação, também não a última – e ela estava agindo normalmente.

Ou, bem, tão normalmente quanto uma ruiva desesperada e mais corada que um tomate poderia parecer. Por Vader!

James Potter se recompôs, parecendo estranhamente divertido. Lily abriu a boca para perguntar o porquê daquela mudança na expressão, mas depois percebeu que não era da conta dela. Nada da vida dele era da conta dela, aliás. Somente o seu vício em café que era total e completamente culpa dele, mas não era algo tão relevante assim, exceto o fato de que Lily gastava tanto em café quanto gastava em itens de Star Wars. Hm, na verdade, pensando daquele jeito, talvez aquele vício fosse um problema. Talvez ela devesse se tratar e internar-se em uma clínica de reabilitação para viciados em café. E em James Potter.

— Bem, eu estava procurando algumas indicações de bandas alternativas. — Ele falou, arrancando-a, mais uma vez, de seus devaneios.

— Algum estilo musical específico? — Ela indagou, tentando conter o suspiro ao se afastar da bancada atrás da qual estava (não sem antes fechar sem dó a página de seu Twitter que estava aberta) e então, munindo-se de uma coragem que não fazia ideia de onde havia saído, se encaminhou para perto de uma das prateleiras onde tinha grande variedade de CD’s de bandas.

— Música boa, independente do estilo. — Ele disse e ela não conseguiu conter um tremor ao perceber que ele estava bem atrás dela. Rezando para que ele não tivesse percebido o deslize, ela permitiu que ele passasse à sua frente, dando espaço para ficar o mais longe possível de onde ele estava. Aparentemente a ideia de pular no pescoço dele ainda não estava totalmente descartada. Ela percebeu que ele tinha um sorrisinho meio estranho nos lábios, coisa que preferiu ignorar. — O que tem a me dizer sobre este aqui? — O garoto pegou um CD aleatório e mostrou para ela, encarando-a com mais interesse do que ela achava necessário. O que fez com que Lily se atrapalhasse completamente com as palavras.

— Eu... Ah... Hm, esse... — Pegou o CD das mãos dele, fingindo ler o que dizia ali sem nem mesmo enxergar, tentando esconder a vermelhidão crescente que tomava conta até mesmo de seu pescoço. Ah, por Vader, como se ela precisasse de mais uma sessão-humilhe-se-na-frente-do-Prongs.

— E então...? — Ele disse, esperando pela resposta que nunca vinha, parecendo divertir-se com o desconforto dela mais do que seria saudável. Lily fechou a cara.

— Esse seria bom para alguém que não tem nada para fazer além de beber o dia todo enquanto pensa em formas de se matar. — Ela deixou escapar, mais uma vez, xingando-se novamente pela falta de travas na língua. James não pareceu se importar, pelo contrário: o sorriso aumentou em seu rosto. Então ele pegou outro CD da estante, mostrando para ela indicando que queria outra descrição. — Tipo de música para ouvir em funeral. — Ela disse, fazendo-o rir e, de novo, ele pegou outro. — Se você tem insônia, esse é uma ótima opção. — Então eles continuaram com a brincadeira, até que estavam às gargalhadas. Por um momento, Lily esqueceu-se completamente quem estava ali e o quanto aquilo era totalmente insano. Somente quando ouviu alguém limpar a garganta ali perto é que sua consciência voltou a funcionar, fazendo-a emudecer.

Ergueu os olhos do CD que segurava deparando-se com Guga Jones que a encarava de um modo bastante constrangedor. Lily sentiu-se como se estivesse fazendo alguma coisa errada. E então lembrou que estava falando baboseiras para o seu novo vizinho, também conhecido como James Potter, o Prongs, dono de um dos canais de maior sucesso do Reino Unido, cara por quem ela tinha ataques de fangirl mais regularmente do que gostaria de admitir.

E, como era de costume, Lily quis estar morta.

— Ah, oi, Guga! — Cumprimentou a garota que, como reparou, ainda estava com o disco que havia comprado alguns minutos atrás na mão. — Precisa de alguma coisa? O disco não funcionou? — Indagou, tentando parecer simpática e não como alguém que se deparava com um exército de Stormtroopers e soubesse que a morte estava próxima.

— Na verdade eu queria te perguntar uma coisa..., mas não vou atrapalhar. — Indicou o garoto, que na verdade era James Potter, que ainda estava ao lado de Lily observando a cena com bastante atenção.

— Quê? Ah, não, que é isso, não está atrapalhando nada... — Lily resmungou mentirosamente, soltando o CD que segurava junto à prateleira e voltando-se para o garoto. — Se precisar de mais alguma coisa é só me chamar. —Qualquer coisa, incluindo eu e você assistindo Netflix, tomando café e, quem sabe, outras coisas que... sacudiu-se mentalmente. Menos, Lily. James assentiu com um sorriso. — Mas então, Guga, o que queria perguntar? — Disse e voltou para trás da mesa, tocando em suas bochechas e sentindo-as quentes demais.

Guga apoiou-se na mesa, lançando um olhar para onde o garoto ainda estava observando a prateleira e voltando-se para Lily logo em seguida.

— Esse não é aquele cara... James Potter? O youtuber de quem você é fã e... — Mas Lily já havia se esticado para colocar a mão na boca da garota, num óbvio “cala a boca”. Guga arregalou os olhos para o comportamento de Lily e então a ruiva afastou-se, sentindo-se envergonhada pelo que havia acabado de fazer.

— Me desculpe — ela murmurou e então se aproximou de Guga. — É que ele não sabe... oh, merda. — Bufou ao lembrar que sim, ele sabia, afinal ela havia gritado o nome do cachorro, que era igual ao apelido de seu amigo, na frente dele. Era como chamar alguém de Wookiee na frente de um fã de Star Wars e mentir logo em seguida que nem sabia o que os filmes eram. Suspirou, resignada com a falta de sorte. E então arqueou uma sobrancelha, encarando Guga com curiosidade. — Como você sabe que eu sou...?

A garota rolou os olhos, bufando logo em seguida.

— Quem não sabe, Lily? Você vive postando no seu Twitter!

— No meu Tw... ah, meu Vader, você me segue no Twitter! — Lily não conseguiu conter a surpresa e deixou as palavras escaparem alto demais, fazendo com que James Potter olhasse em sua direção com interesse. E, claro, ela corou. Quer dizer, desde o momento em que ele havia entrado naquela loja até então ela não havia ficado descorada. Baixou a voz. — Como você sabe minha conta? — Indagou, certa de que nunca havia divulgado seu user para ninguém além das próprias amigas.

Foi a vez de Guga corar.

— Ah, bem... eu meio que te stalkeei. — Disse, sem jeito.

Lily imaginou que sua expressão deveria ser a mesma de Luke quando descobriu que Darth Vader era seu pai. Ela sempre soubera que Guga flertava com ela, mas nunca havia levado aquilo à sério, portanto sempre pensou que a garota também não levava. Mas ali estava ela, admitindo abertamente que havia stalkeando Lily.

— Ah... não sei o que dizer a respeito disso. — Lily finalmente falou, sentindo-se desconfortável.

Um silêncio incômodo instalou-se sobre as duas e a ruiva tentava desesperadamente não encarar Guga, pois sabia que acabaria demonstrando toda a ansiedade que sentia. Não era como se não gostasse da garota, mas Lily não gostava dela daquele jeito. E estava claro demais que Guga pensava completamente diferente.

E eu pensando que ela tinha entendido meu recado...Lily anotou mentalmente que assim que chegasse em casa ligaria para Marlene e Alice e indagaria as duas sobre o seu comportamento e o que, por Vader, ela fazia que dava a entender que ela gostava de garotas para que pudesse se policiar. Lily não queria que seus pais acabassem querendo ter qualquer conversa sobre sexualidade com ela além das que já havia tido alguns anos atrás quando namorara Amos Diggory. Lembrar daquilo até causava arrepios. Não queria ter de dizer com todas as letras para os pais que NÃO ERA LÉSBICA. Ou, bem, pelo menos ela pensava que não era.

E se a sociedade estivesse certa? E se todos estivessem vendo algo que ela não conseguia ver? E se, no final, ela acabasse surpreendendo-se – assim como Luke ao descobrir que Leia era sua irmã – e percebendo que todos estavam certos?

E se o final feliz dela não fosse ao lado de Han Solo, mas sim ao de Leia Organa?

— Hm, Lily? — Guga estalou os dedos em frente aos seus olhos, fazendo-a assustar-se.

— Desculpa, eu... — Meneou a cabeça, tentando afastar os pensamentos enervantes e contraditórios que pulavam sua mente. — Enfim, o que você queria perguntar, Guga?

— Ah, sim, eu ia perguntar se você sabe se alguém está vendendo os ingressos para a Convenção de Cosplayers, porque já esgotou nos lugares autorizados...

Sentindo-se imensamente aliviada com a mudança no rumo da conversa, Lily assentiu para a garota, dando os contatos de Emmeline, uma ex colega dela que estava querendo vender os ingressos, pois não iria comparecer.

Assim que Guga saiu da loja, Lily soltou a respiração que nem sabia estar prendendo.

— Você parece tensa.

— POR VADER! — Lily assustou-se, dando um pulo enquanto sentia o coração acelerar. Havia esquecido completamente o fato de que James Potter ainda estava na loja, provavelmente esperando que ela voltasse a atendê-lo.

— Me desculpe, eu não quis te assustar. — Ele disse, mas estava muito risonho para parecer alguém culpado.

— Tudo bem. Mas então, escolheu algum CD? — Perguntou, percebendo que ele estava com um na mão.

Ele sorriu novamente e ela se perguntou se ele não parava nunca de fazer aquilo. Será que ele algum dia na vida ficava sério?

Bem, por experiência própria, Lily sabia que ele era bem capaz de se mostrar irritado quando queria. Imediatamente sentiu-se envergonhada por ter deixado passar algo tão obviamente importante.

— Oh, por Vader, como vai a O... sua cadelinha? — Indagou, interrompendo-se antes de proferir o nome, pois apesar de que, quase com certeza, James soubesse que ela era sua fã, ainda não se sentia pronta para admitir aquilo por livre e espontânea vontade.

O sorriso esmoreceu no rosto do garoto e Lily quis se bater por ter tocado no assunto. Eles estavam indo tão bem...

— Levei ela no veterinário ontem à tarde, mas ele disse que está tudo bem com ela. Ia só fazer alguns exames para verificar... — James disse e pareceu querer dizer mais alguma coisa, mas parou. E então continuou: — Sobre esse assunto, Lily — e ela nem quis morrer ao ouvir o seu nome pronunciado por ele, nem quis. — Eu...

— Ah, me desculpe! — Ela interrompeu-o, impelindo-se a falar. — Eu deveria ter tirado o Pa... meu cachorro de cima dela, mas não consegui. Ele é grande demais e, bem, ele estava realmenteempolgado com tudo aquilo e... — Mas parou de falar, percebendo que, pelo que parecia ser a milésima vez, havia deixado escapar mais uma bobagem.

Contrariando o bom senso, James explodiu em gargalhadas.

Lily encarou-o, abismada, sentindo o estômago encher-se do que parecia uma horda de Ewoks irritados, fazendo-a sentir-se com vontade de... o quê? Pular no pescoço de James Potter? Por favor, que coisa mais óbvia. Controlou-se e esperou até ele parar de rir, enxugando as lágrimas de riso dos olhos.

— Você é demais. — Ele disse. — Faria muito sucesso se tivesse um canal no YouTube. — Acrescentou, mas então seu sorriso sumiu e ele a encarou, sério. Ela percebeu imediatamente o que ele estava tentando fazer ao tocar naquele assunto, portanto apressou-se a mudá-lo novamente.

— Hm, então vai levar esse daí? — Indicou o CD que o garoto tinha em mãos. — É ótimo. Na verdade... é um dos meus favoritos. — Franziu o cenho diante da escolha do garoto.

— Então imagino que deva ser muito melhor do que o do funeral e o do sono.

— Definitivamente. — Ela sorriu, registrando a compra e indicando o valor para o garoto que se apressou a pagar. — Então era isso. Boa música para você. — Concluiu com a frase que liderava seu fechamento de vendas.

Mas James Potter não parecia alguém prestes de sair dali. Ele ainda a observava, mas Lily não conseguiu ler o que sua expressão significava. Por favor, quando ela havia conseguido identificar qualquer coisa que fosse na cara dele? Por Vader, ela nem sequer o conhecia!

Ela devolveu o olhar, imaginando o que ele iria falar a seguir, mas ele continuou quieto. E então, como era de praxe, Lily se irritou com a espera e disse:

— O que foi? — Talvez tivesse soado mais impaciente do que deveria.

— Eu estava me perguntando se... hm — ele começou a dizer, franzindo o cenho e corando, contudo, Lily não teve tempo de apreciar aquele momento único antes de ele continuar: — Aquela menina que esteve aqui, bem, hm, ela era sua... ah... — Mas não conseguiu terminar de falar, pois Lily havia soltado uma exclamação um tanto quanto inadequada ao ouvir suas palavras hesitantes.

— Ah, por Obi-Wan, você também não! — Toda a irritação referente àquele incomodo veio à tona e ela nem se importou com o fato de que estava descontando no cara por quem ela tinha um penhasco, vulgo James Potter. — Já estou de saco cheio desse assunto! Todo mundo fica me encarando estranho, meus pais nem se dão ao trabalho de me empurrarem um garoto, enquanto que Petúnia, QUE ESTÁ COMPROMETIDA, tem de aturá-los jogando mais pretendentes sobre ela do que o número de inimigos de Cersei Lannister. Eu não sou lésbica! — Bradou, ofegante. Pelo menos eu acho que não, completou mentalmente. O garoto a encarava com a boca escancarada, a expressão totalmente abismada. E então Lily sentiu-se murchar, culpada. — Me desculpe, eu não...

— Tudo bem. — Ele adicionou, rápido. — Eu é que deveria me desculpar, afinal toquei nesse assunto que... bem, ãhn, eu... acho que vou indo. — E então pegou a sacola com o CD de cima da bancada, afastando-se em direção à porta. Antes de sair, porém, voltou-se para encará-la. — Desculpa. — E então se foi a deixando, se era possível, sentindo-se ainda mais confusa.

X—X

— Bem, você parece ter aquela coisa... — Marlene disse de forma inespecífica.

Aquela coisa? Que coisa, Marlene? — Lily irritou-se, lançando um olhar penetrante para a amiga.

Marlene riu.

— Calma, Lily. — Alice disse, suspirando.

Estavam se preparando para jantar na casa da Alice e, aproveitado a oportunidade e proximidade com as amigas, Lily acabara desabafado sobre tudo o que a estava incomodando, parecendo mais uma velha lamuriosa do que gostaria de admitir.

— Bem, tenho de concordar com a Marley. — Frank, o namorado de Alice, disse.

Eles dois namoravam há mais tempo do que ela conseguia lembrar e, por conta disso, Lily nem se importava mais que ele ouvisse suas conversas de tão acostumada que estava com a sua presença. Na verdade, era até legal ter uma opinião masculina sobre os assuntos. Exceto quando ele concordava com Marlene sobre ela ter alguma coisa.

— MAS QUE DIABOS VOCÊS ESTÃO FALANDO, POR VADER? — Lily irritou-se, encarando-os, fervilhando.

— Ah, Lily, sei lá. Tem alguma coisa em você que te faz parecer, sabe...

— Lésbica? — Ela sentiu-se murchar e então suspirou. — Será que eu sou? Quero dizer, eu nunca... bem, na verdade nunca olhei para uma garota com qualquer intenção a não ser a de, bem, olhar. — Voltou-se para Marlene, encarando-a fixamente. A amiga remexeu-se, desconfortável.

— Você não vai tentar me beijar, vai? — A garota perguntou, irônica.

Lily rolou os olhos, bufando logo em seguida.

— Nah, você não faz o meu tipo. — Disse e então suspirou, atirando-se na poltrona em frente ao sofá onde Alice e Frank estavam sentados. — Não que eu tenha algum tipo. Quero dizer, será que eu tenho algum tipo de garotas? Vader! Não faço ideia do que eu sou.

— Eu sei o que você é! — Alice disse, erguendo-se de onde estava sentada e caminhando até onde ela estava, sorrindo de forma divertida. — Você é louca, Lily Evans.

Lily rolou os olhos, impaciente. Como se ela não soubesse...

[SEXTA-FEIRA — 1º DE JULHO, 2016]

— Não enche, mãe! — Ela bradou para as batidas na porta de seu quarto.

Estava deitada, de pijama, tapada até as orelhas enquanto observava o teto de seu quarto sem fazer absolutamente nada. Entretanto, apesar de estar em estado inanimado, não queria ser interrompida.

— Bem, já que não sou sua mãe, suponho que posso te encher, hm?

Lily nem se preocupou em levantar os olhos para saber de quem se tratava, embora estivesse devidamente nervosa. Como ele conseguia ser tão irritante?

— Ainda não cansou de invadir casas alheias? — Ela resmungou, contrafeita e então sentiu o colchão ceder perto de seus pés. Finalmente ergueu os olhos, deparando-se com um Sirius Black parecendo estupidamente em casa.

— Na verdade, sua mãe me deixou entrar. Muito simpática, não é? Pelo visto você não puxou a ela. — Ele brincou.

— Não. — Cortou-o, simplesmente.

Ele ficou em silêncio e Lily não pronunciou mais nada, imaginando que talvez ele logo se cansaria e iria embora. Continuaram assim por longos segundos, até que, por fim, Lily começou a sentir-se inquieta. Quando abriu a boca para interromper o silêncio, ouviu-o rir.

— Não está num bom dia? — Black perguntou, parecendo se divertir demais com o comportamento de Lily.

— Não. — Ela voltou a responder, irritada.

— E não vai dizer por quê?

— Não.

E, mais uma vez, caíram em silêncio. Ela fechou os olhos, forçando-se a ficar quieta. Queria dormir para que o dia passasse logo e, quando acordasse, Sirius Black não mais estivesse ali em seu quarto.

A verdade era que ela estava irada demais com o mundo. E, principalmente, consigo mesma. Nunca havia pensado exatamente sobre o que era, mas perceber que não tinha certeza havia a deixado estranhamente sem noção de sua identidade. Era como descobrir que Darth Vader era seu pai. Só que, no caso, o Darth Vader era o lado desconhecido dela. E suas amigas eram o R2D2 e o C3PO tentando fazê-la entender coisas que ela simplesmente não conseguia entender.

Por que a vida precisava ser tão difícil?

—... estou aqui na casa da vizinha do Prongs que decidiu seguir o sonho de se tornar uma parte da cama — a voz de Sirius arrancou-a de seus devaneios, fazendo-a franzir o cenho e erguer-se minimamente para ver o que o garoto estava fazendo.

Ele tinha o celular na mão, a câmera estava ligada e, aparentemente, ele estava gravando um vídeo. Lily demorou algum tempo para entender o que ele estava fazendo. E, quando o fez, sentiu-se desmedidamente estarrecida.

— QUE DIABOS VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO, BLACK? — Ergueu-se das cobertas, praticamente pulando até onde o garoto estava, mas Sirius já havia se levantado, mais depressa que o Flash (aliás, quem não era mais rápido do que o Flash, hm?), voltando a câmera para ela e gravando-a enquanto tentava se firmar de um modo totalmente constrangedor de cima da cama. — Eu. Vou. Te. Matar. Se. Você. Publicou. Isso. SIRIUS BLACK!

Lily sentia-se tremer de raiva, abismada com a cara de pau do garoto à sua frente. Sirius, por outro lado, parecia estar vendo a coisa mais absurdamente hilária de sua vida, dobrando-se de tanto rir.

Quando ela conseguiu ir até onde ele estava, porém, ele conseguiu guardar o celular no bolso traseiro de suas calças, fazendo com que ela desistisse de tentar pegá-lo. Uma coisa era ele ser um invasor de privacidade, outra coisa era ela se tornar uma apalpadora de bundas de cachorros.

— Me dá o celular! — Bufou, empurrando o ombro do garoto que, para a irritação dela, ainda ria. — Anda, Black, me dá!

— Não... — Ele disse, ofegante, literalmente chorando de tanto rir. — Eu não... publiquei. — Disse, por fim.

Mas Lily não acreditou nele.

Correu até a cama novamente, puxando o celular debaixo de seu travesseiro e acessando seu Snapchat. Xingou enquanto esperava as atualizações carregarem, sentindo-se incomodada com o fato do garoto aindaestar rindo. Será que ele não tinha noção do perigo, por Vader?

Mas ele estava dizendo a verdade, ao que Lily sentiu-se imediatamente aliviada. Não havia publicado nada.

— Eu odeio você! — Ela praticamente cuspiu as palavras, sentindo-se ofegante, como se houvesse corrido uma maratona. — Eu. Odeio. Você!

Finalmente recuperado das risadas, Black ainda tinha a voz tremida quando se aproximou dela.

— Desculpa, ruiva, não quis...

Quis sim!

— Tem razão, eu quis, mas não pensei que fosse se irritar tanto. — Ele continuou, mais sério. Por mais que estivesse irritada com ele, Lily percebeu que ele estava sendo sincero, portanto assentiu, sem conseguir acalmar-se o suficiente para responder. — O que aconteceu com você? — Ele perguntou, por fim, parecendo realmente preocupado.

Foi o que bastou para que ela desencadeasse a falar, afinal, ao que parecia, os The Marauders tinham aquele maldito poder sobre ela: fazer com que ela dissesse tudo o que não devia.

— Eu não sei o que eu sou! —Disse, irritada. — Quero dizer, eu seialgumas coisas. Sei que amo Star Wars mais do que minha irmã, sei que gosto muito de comer, sei que sou viciada em café, sei que gosto de Sherlock e Supernatural, também sei que odeio aquele babaca do Snape Stalker. Sei que adoro maratonar séries e que vou amar o meu curso na universidade. Sei várias coisas a meu respeito... Exceto do que eu gosto!

Sirius pareceu estupefato com a quantidade de palavras que ela havia proferido e demorou muito tempo até que conseguisse processá-las.

— Desculpa, mas... do que está falando? — Ele finalmente perguntou, encarando-a, confuso.

Lily sentiu-se murchar.

— Todo mundo acha que eu sou lésbica. — Falou. — Não que eu tenha alguma coisa contra, sabe. Na verdade, até seria legal, porque, francamente, atualmente as mulheres têm sido bem mais gentis comigo que os homens. Sem falar que, cara, eu gostaria muito de passar a mão na bunda da Vance, mas... Eu não sei. Quero dizer, as pessoas sabem o que são, não sabem? Elas sabem do que gostam. E sabem se são atraídas por homens, mulheres ou ambos. Só que eu não sei. E se eu realmente for... então passei metade da vida sonhando com o Han Solo e imaginando nossa noite de núpcias quando na verdade deveria ter pensado mais na Leia de biquíni. E isso seria um desperdício tão grande. — Suspirou.

— Ah. — Sirius finalmente pareceu ter entendido. E então sorriu, meneando a cabeça. — Calma, ruiva.

— Não me peça isso! Estou cansada de todo mundo falando isso! Ninguém é Mestre Yoda para mandar eu fazer alguma coisa que eu simplesmente não consigo fazer.

— Calma você deve ter, pequeno gafanhoto. — Ele brincou, sorrindo ainda mais. E então se aproximou mais um pouco, colocando a mão em seu ombro. — Lésbica você não parece ser.

Lily encarou-o, confusa.

— Quê? Como você poderia saber? Quero dizer...— Sentiu-se perdida. — Como você poderia saber, Sirius?

Ele deu um pequeno sorriso, como se risse de uma piada interna.

— Você não parece ter a coisa, Lily.

— A coi... Ah, por Vader! Todo mundo fica falando nessa coisa que não faço ideia do que é! Que diabos?! — Encarou-o, irritando-se novamente. — Como você pode me dizer que eu não pareço ter essa... essa coisa, quando todo mundo vive me falando que eu tenho?

— Porque somente quem tem a coisa sabe identificar quem tem. — E então deu uma risadinha. — E eu posso estar muito enganado, ruiva, mas se você tiver essa coisa, então ela está tão, mas tão bem escondida que somente toda a força do mundo seria capaz de encontrar. Ou, talvez, o que não seria tão improvável: você pode ter as duas coisas. — Rindo de sua própria piada, Sirius começou a se encaminhar para a porta.

Sacudindo-se mentalmente, Lily franziu o cenho.

— Ei, onde você vai? — Indagou.

Sirius parou e voltou-se para ela, uma sobrancelha arqueada.

— Ué, você não estava me mandando embora?

Lily rolou os olhos para ele.

— Você é mesmo insuportável.

Ele sorriu.

— Eu adoraria ficar mais tempo com você debatendo todo esse seu dilema interno, mas, felizmente, tenho mais o que fazer.

— Como o quê, por exemplo? Invadir a casa de mais alguém?

— Não, ruiva, hoje não. — E então ele se empertigou. — Na verdade... talvez você surte bastante com a notícia. Quero dizer, quando eu te contar, é provável que eu não consiga dormir por causa dos seus ataques de fangirl.

— Que... do que está falando? — Perguntou, encarando-o de forma questionadora.

— Bem, Remus, quem você deve conhecer muito bem, aliás, está chegando. — Ele sorriu. — O The Marauders está quase completo. E bem ali — apontou para a janela. — Do lado da sua casa. — Então Sirius piscou, finalmente saindo o quarto, fechando a porta suavemente atrás de si.

Lily demorou alguns minutos até entender totalmente o que estava acontecendo e então, ofegando, lembrou das palavras de Sirius:

“Somente quem tem a coisa pode identificar quem tem”.

— Meu Vaderzinho... — Não conseguia acreditar. Repetiu as palavras de Sirius, lembrando da forma como ele havia falado... E então lembrou do olhar que cruzou os olhos dele ao falar que Remus, o Moony, estava chegando. Não... — Meu Vader do céu. — Ela gargalhou. — Meu OTP vai estar junto! E pode ser real!

Notas finais
Capítulo betado pela July Evans ♥ E aí, amores, o que acharam? Sim, a fic vai ter Wolfstar, embora isso não signifique muita coisa, afinal o Sirius é uma pessoa bastante maleável. REMUS VAI APARECER NO PRÓXIMO, GALERA! E, bem, muitas outras confusões ainda estão por vir. Espero que tenham gostado, amores! Agora, deixem-me ir lá, que tenho muitos dedos para gastar respondendo aos comentários atrasados dos capítulos anteriores (espero que entendam que não estou respondendo tudo porque, gente, 299 comentários! É tipo... CARACA, VOCÊS SÃO FODAS!). Beijos e até breve ♥ Redes Sociais: Twitter: @prongsnitch | Grupo no face: https://www.facebook.com/groups/millerfics/ Dúvidas, sugestões, perguntas, xingamentos e etc: to sempre por aí (e nas MP's aqui do Nyah também) :D ♥ ♥