Fangirl-ily

11 10. Outbreak


Notas iniciais
Hey, gente! Tudo bem, amores? Mais um capítulo por aqui e, pelo visto, a tia Miller tá descontrolada. Não sei mais escrever com poucas palavras não, gente, desculpa. Queria deixar o capítulo menorzinho, mas não rolou, portanto cá estamos nós com mais um recorde: 11 mil palavras. Espero que não fique cansativo. Por favor, me digam o que estão achando desses capítulos longos, okay? Quero saber se gostam ou preferem menores :3 Eu queria agradecer, do fundo do coração, às pessoas mais maravilhosas do universo pelas recomendações divinas que recebi na fanfic: Anna Potter, Du Martell, yoMoonyo e Black ♥ VOCÊS SÃO SERUMANINHOS MARAVILHOSOS, OBRIGADA ♥ AH, gente, antes que eu me esqueça: para quem não me acompanha nas redes sociais não deve saber, porém eu tenho LER (Lesão do Esforço Repetitivo) e tentinite e, infelizmente, na última semana, acabei tendo um surto nos pulsos e, por conta disso, não era nem para eu estar escrevendo, né, mas a gente tem dedos para quê mesmo, né non? Btw, gente, é possível que eu demore um pouco mais até postar o próximo, pois eu realmente não posso forçar muito meus pulsos, porque isso pode causar uma lesão maior e, daí, adeus fanfics e sonho de ser uma autora renomada e bilionária. Pois é, a vida não tá fácil ehhehehe Me desculpem por isso, mas, infelizmente, saúde vem em primeiro lugar ♥ Vou tentar evitar os xingões do meu médico, mas assim que melhorar 100%, eu volto! ♥ Espero que gostem do capítulo, amores!

[DOMINGO — 10 DE JULHO, 2016]

Observar o teto nunca parecera tão interessante e Lily estava concentrada na tarefa de decorar cada centímetro e detalhe contido ali. As horas passavam sem que ela conseguisse percebê-las e, embora já fosse madrugada, ainda conseguia sentir os lábios como se houvesse acabado de beijá-lo.

O coração ainda pulava em seu peito, tão acelerado quanto se tivesse acabado de pular de um prédio de dez andares.

Ela estava surtando.

Só que, daquela vez, ao invés de saltitar pelo quarto e ligar para Marlene e Alice, tudo o que Lily conseguia fazer era ficar ali, deitada na cama sem mover um único músculo, imaginando quanto tempo demoraria até que ela percebesse que estava sonhando e que, se não fosse um sonho, James Potter logo apareceria ali para dizer a ela que fora um terrível engano.

Porque, por Vader, ela beijara James Potter. O James Potter. O cara de quem ela era fã há mais tempo do que conseguia contar. Aquele que ela seguia em todas as redes sociais e nunca perdia um único tweet. O garoto que ela vira crescer e amadurecer com o passar dos anos, que ensinara a ela muitas coisas, desde como arrumar o guarda roupa de forma bagunçada até viciá-la em café. Ou melhor dizendo: James Potter, o Prongs, a beijara.

O gosto dele ainda estava sobre os lábios dela, de forma que, toda vez que ela os mordia por causa do nervosismo, as lembranças de horas atrás, quando ele a pegara totalmente desprevenida, dominavam sua mente com uma clareza excessiva. E, é claro, ela suspirava como uma fangirl enlouquecida que havia acabado de realizar o sonho de uma vida inteira. Só para lembrar, segundos depois, das palavras dele: “Talvez isso te ajude a entender”.

Mas não ajudava. Não ajudava nenhum pouco. Muito pelo contrário: apenas piorava a situação de Lily que estava mais crítica do que nunca.

Que diabos ela faria da vida dela? Quando dissera para James que teria de beijar um número x de pessoas de cada sexo para saber do que gostava estava, obviamente, brincando. Mas o garoto parecia ter levado a sério demais tudo aquilo. E por quê? O que aquilo queria dizer? Queria dizer que ele estava interessado? Que ele estava mesmo tentando apenas ajuda-la? Que ele estava brincando com ela porque sabia que ela babava por ele e decidira que seria bacana zoar com uma fã?

Lily não acreditava que James fosse cruel àquele ponto, contudo, não sabia o que pensar nem como reagir diante daquilo. Como iria encará-lo depois daquele beijo? Como conseguiria sequer falar com ele sem acabar morrendo de vergonha? E, o que era pior: Lily não fazia ideia de como ele iria reagir. Normalmente? Como se nada tivesse acontecido? Ou ele estaria esperando alguma reação da parte dela?

E se estivesse esperando, qual reação seria essa?

— Ah, meu Vader, o que eu estou fazendo com a minha vida? — Lily resmungou e puxou o travesseiro para cima de sua cabeça, decidida a ficar ali, embaixo dele, pelo resto de seus dias. — Que diabo James Potter está fazendo com a minha vida?

The Imperial March soou em seus ouvidos, impedindo-a de continuar submersa em seus pensamentos depreciativos. Por um segundo, sentiu o coração parar ao imaginar que era ele. Mas então Lily lembrou que não havia como ele saber o número de celular dela, portanto, sentindo o peito desacelerar, tirou o travesseiro do rosto, suspirando ao puxar o aparelho e observar o visor.

Eram quase três horas da manhã e Petunia estava ligando.

Sentindo um aperto no estômago, Lily apressou-se a atender. Sentiu como se seus piores pesadelos estivessem se consolidando ao ouvir a voz embriagada da irmã.

— Lily... por favor... eu não estou bem.

X---X

Dirigir de madrugada depois de não ter dormido quase nada na noite anterior, ter ficado de porre e ainda por cima ter beijado Emmeline Vance e James Potter, não era a coisa mais aconselhável a se fazer. Contudo, Petunia estava precisando de ajuda e Lily era uma ótima irmã.

Ou, bem, era do que tentava se convencer enquanto dirigia em direção ao pub, xingando a garota dos piores nomes que conhecia.

— Mas que merda você estava pensando, Tuney? — Lily reclamou assim que sentou em frente à irmã, numa das mesas mais ao fundo do bar. Petunia estava péssima, cabelos desarrumados e as roupas amassadas. Parecia como se um caminhão houvesse passado por cima dela. Sem mencionar o fato de que seus olhos, naturalmente azuis e luminosos, estavam avermelhados e inchados, como se ela recém tivesse parado de chorar. O que, pensou Lily, deveria ser verdade. — Olha o seu estado! Mas que merda...

— Ele está noivo! — Ela disse, interrompendo os xingamentos de Lily e fazendo com que ela franzisse o cenho, confusa.

— Quê?

— O Vernon, ele... está noivo da filha do sócio do pai dele. — As palavras saíam engroladas, de modo que Lily demorou alguns instantes até fazê-las penetrarem em sua mente.

Quando, por fim, entendeu, sentiu uma raiva efervescente incendiá-la por dentro. Cerrou os punhos.

— Pela força! Quem aquele boto pensa que é para fazer uma coisa dessas com você? Vader, Tuney! Ele nem é tudo isso para... — Mas Petunia estava aos prantos enquanto tomava mais um gole do líquido em seu copo. Sem pensar duas vezes, Lily esticou-se, puxando o copo cheio de bebida alcoólica da irmã e fez sinal para o garçom logo em seguida. — Por favor, dois cafés extraforte. — Pediu.

Suspirando, fez a volta na mesa, sentando ao lado da irmã e puxando-a para seus braços. Apertou-a, enquanto esperava o choro diminuir – o que demorou muitos minutos para acontecer – sem saber o que falar ou como agir. Ela nunca fora muito boa em dar conselhos amorosos.

Quando, por fim, os soluços diminuíram, o garçom chegou com os cafés. Lily sorriu para ele e agradeceu, empurrando uma caneca para Petunia.

— Eu não...

— Tome esse café antes que eu o enfie goela abaixo. Não tenho irmã mais velha para ficar bebendo e chorando em pubs por causa de caras babacas. — Lily disse, mandona, embora confortasse a irmã com um abraço. — Vamos, Tuney, você precisa diminuir esse teor alcoólico se quiser viver depois de chegar em casa.

Suspirando, Petunia assentiu, fechando os olhos ao sentir o gosto do café. Lily sorriu com aquilo, pois entendia muito bem a sensação de cura do café. Para sono: café. Para preguiça: café. Para curar ressacas e dor de cotovelo: café.

Mas apesar da quase perfeição do café, ele não parecia ser capaz de tirar aquela sensação dos lábios de Lily.

Suspirou. Bem, talvez ela nunca conseguisse tirar aquilo de lá.

Finalmente, após beber todo o café da caneca, Petunia aparentava uma melhora, embora ainda tivesse os olhos inchados e parecesse meio embriagada.

— Consegue falar sem chorar agora? — Lily brincou, tentando fazer a irmã sorrir. Petunia suspirou.

— Aparentemente o Sr. Dursley tinha planos melhores para Vernon e decidiu que, a melhor forma de aumentar os lucros da empresa, seria fazendo-o casar com Bellatrix Black. Você entende o que isso significa?

Black? — Lily franziu o cenho, pensando se a garota tinha alguma relação com Sirius. Contudo, aquele não era o momento para inteirar-se sobre a possível família Black, portanto afugentou os pensamentos, voltando a atenção para o sofrimento da irmã. — Isso significa que Vernon é um babaca por aceitar?

Petunia puxou a xícara de café de Lily e, embora se sentisse desrespeitada, Lily suspirou e deixou a irmã prosseguir com aquele ato criminoso. Tuney precisava de café muito mais do que ela.

— Ele não teve escolha...

— Não faça isso, Tuney! Não o defenda! Quem quer, quer. Simples assim. Se ele se importasse realmente com você, jamais teria deixado o pai dele decidir sobre a vida dele. — Lily sabia que estava sendo insensível, mas ela conhecia a irmã muito bem para saber que nenhuma palavra de conforto a faria enxergar as coisas como elas eram. Petunia estava acostumada com as pessoas passando a mão em sua cabeça, portanto Lily sabia que precisava ser cruel até que ela entendesse. — Você merece alguém melhor, Tuney. Vocês estão juntos há anos e até agora ele só te fez sofrer por causa dos pais dele. Se ele gostasse de você já teria dado um basta nessa influência deles.

— Eu... — Petunia começou a protestar, mas parou, uma lágrima solitária escorrendo de seu olho esquerdo. — Você tem razão. — Disse, por fim, embora parecesse sofrer ao pronunciar tais palavras.

Lily odiou-se por fazer aquilo com a irmã, pois sabia o quanto deveria estar sendo difícil para ela: depois de tanto tempo junto com uma pessoa, de repente perceber que tudo havia acabado. Não era algo fácil de superar.

Ainda lembrava do término de relacionamento com Amos e do quanto fora difícil superar a separação.

Para ele, claro, pois Lily sentira-se ótima sem um encosto do lado.

Ao pensar naquilo, Lily sentiu horror se instalar em seu peito ao dar-se conta de algo muito perturbador: nunca havia curtido uma fossa.

Nunca, em toda sua vida, sentira as sensações que, por muitas vezes, descrevia em suas fanfics. Nunca havia sentido as pernas tremerem e o coração quase parar só de ver aquela pessoa. Não ficava horas pensando na mesma pessoa, sem conseguir fazer nada a não ser devanear sobre isso. Não sentira palpitações ou borboletas no estômago por ninguém.

Jamais havia sofrido a perda de um relacionamento por muito mais do que algumas horas. Sequer sabia o que uma “dor de cotovelo” significava.

Certo, tudo bem que já havia sentido tudo aquilo ao pensar em Han Solo, mas por uma pessoa real, nunca

Que tipo de pessoa, com quase vinte anos, jamais havia caído de amores por alguém?

— Tuney, sabe de uma coisa? — Ela disse, afastando-se de seus devaneios e encarando a irmã. — Eu acho que nunca me apaixonei.

A irmã, aparentemente surpresa com o novo rumo da conversa, piscou algumas vezes enquanto observava Lily.

— Do que está falando, Lily?

— O que está sentindo agora? — Lily perguntou, voltando-se para a irmã e encarando-a, curiosa. — Como o seu coração está? Quero dizer, o que você gostaria de estar fazendo nesse minuto? O que você quer fazer da sua vida daqui para a frente?

Mesmo confusa diante dos questionamentos da irmã, Petunia meneou a cabeça e respondeu:

— Eu... queria estar morta. Não. Na verdade, eu queria ir até lá, onde a Bellatrix está e pular no pescoço dela. Sei que ela não tem culpa, afinal quem estava comprometido era o Vernon e não ela, mas só de pensar nos dois juntos eu... quero matar alguém. Céus, Lily, eu adoraria cometer um assassinato agora. Mas, ao mesmo tempo em que penso isso, também lembro de tudo que vivemos juntos, todos os planos e sonhos e... é como se meu peito estivesse sendo rasgado por dentro. Eu odeio isso.

Lily assentiu, sentindo um grande vazio se instalar em seu coração ao perceber que nunca havia sentido qualquer coisa como aquilo.

— Quando eu namorei com o Shacklebolt e ele me traiu, nunca quis pular no pescoço dele. Na verdade, eu até fiquei agradecida por ele facilitar as coisas para o nosso término. Já não gostava mais dele. — A ruiva comentou, as lembranças preenchendo sua mente enquanto abria o coração para a irmã. — Quando terminei com o Amos, eu até fiquei triste e senti saudades, mas... em alguns dias tudo estava bem. Na verdade, tudo estava melhor do que bem. Sempre preferi ficar sozinha. E quando ele apareceu com uma namorada, um mês depois, eu não senti nada. Estava totalmente indiferente. Nem sei o que é ciúmes! — Encarou a irmã, horrorizada. — Eu... me sinto um monstro sem sentimentos.

Foi a vez de Petunia chamar o garçom, pedindo para ele mais café. Ela esperou até que ele estivesse fora do alcance da audição para falar com Lily.

— Você já pensou que talvez esteja procurando no lugar errado? — Petunia perguntou, uma expressão plácida envolvendo sua face.

Lily franziu o cenho sem conseguir compreender o que a irmã estava dizendo.

— No lugar errado? Como assim? Está dizendo que devo sair de Hogsmeade para...

Mas Petunia negou com a cabeça, suspirando antes de se aproximar de Lily, fixando o olhar sobre o da irmã.

— E se você gostar... de meninas?

Lily sentiu como se tivesse sugado todo ar ao seu redor. Arregalou os olhos enquanto se afastava da irmã, sentindo-se zonza.

Será que aquela coisa era tão óbvia?

— Lily... — Petunia começou a falar, mas o garçom voltou, depositando as xícaras sobre a mesa de modo ruidoso antes de voltar para o balcão. — Eu... me desculpa, eu não...

— Tudo bem, Tuney. — Lily murmurou, soltando um longo suspiro. Passou uma mão pelo cabelo, sem saber como prosseguir aquela conversa. Por fim, tomou um gole de café, agradecendo a força pela criação daquele milagre em forma de líquido. Petunia continuou em silêncio, o que Lily agradeceu, pois estava tentando organizar os pensamentos antes de voltar a falar. Sorveu as últimas gotas do café, anotando mentalmente o nome do pub em sua lista de melhores lugares para tomar café na madrugada, e então voltou a falar: — Eu beijei uma garota.

Diferente de tudo pelo qual Lily estivera se preparando, Petunia apenas piscou. E então deu de ombros como se tivesse acabado de ouvi-la falar sobre o tempo e não sobre suas atividades bissexuais.

— Você não parece surpresa. — Lily comentou, arregalando os olhos.

Petunia suspirou.

— Porque não estou. Sei lá, Lily, você nunca pareceu muito interessada em romance. Parece natural para mim que você esteja se aventurando com outras pessoas para tentar se encontrar. — Ela sorriu para Lily que estava com a boca escancarada. — Você não deveria estar surpresa comigo, afinal eu te conheço desde que você nasceu.

Lily abriu e fechou a boca diversas vezes, procurando palavras que pudesse utilizar para explicar o que sentia naquele momento, mas nada parecia servir, portanto contentou-se em menear a cabeça e tomar mais um gole de café.

— Mas e aí? — Petunia voltou a falar, interrompendo o silêncio que pairava sobre elas.

Lily encarou-a.

— E aí o quê?

Petunia rolou os olhos.

— Como foi o beijo? — Indagou, inclinando-se para frente em uma curiosidade óbvia.

— Estranho. — Lily disse, por fim, afastando a xícara vazia e encarando-a enquanto sentia as bochechas enrubescerem. — Mas bom. Acho que a parte do estranho foi por eu saber que estava beijando uma garota, mas, eu gostei, Tuney. — Suspirou, sentindo-se aliviada por falar sobre aquilo com a irmã. — Mas eu ainda não entendo, sabe? Eu estou confusa.

Então desatou a falar sobre o que sentia e como estava reagindo com tudo aquilo. Falar em voz alta sobre seus problemas parecia deixá-los de um tamanho bem menor, mais fáceis de resolver. Petunia era uma boa ouvinte, comentando e assentindo sempre que necessário e, claro, zoando com Lily toda vez que ela falava alguma asneira.

— E teve as mensagens que ela me mandou hoje. — Lily disse, puxando o celular e mostrando para a irmã.

— Você respondeu? — Petunia pegou o celular da mão de Lily para ler melhor.

A ruiva negou, sentindo um frio na boca do estômago ao lembrar exatamente o porquê de não ter respondido.

— Eu... James Potter me beijou. — Ela falou e mais uma vez a sensação de alívio amainou em seu peito. — Ah, por Vader, Tuney! James Potter me beijou! Você tem noção de como isso é louco?

Petunia concordou, imediatamente enchendo-a de perguntas sobre o beijo. Lily sentiu como se tivessem voltado anos no tempo, quando a irmã contava para Lily todos os infortúnios em seu primeiro namoro e perguntava para ela – que era totalmente inexperiente – o que deveria fazer a seguir. Lembrava de se divertir ao conversar com Petunia, agir como se soubesse qualquer coisa sobre relacionamentos além do que o que havia lido em livros. Claro, nunca dava certo, mas era bom teorizar. De qualquer forma, ali estavam elas, ambas em pós-ressaca, mais confusas que as falas do Mestre Yoda, juntas. E rindo muito.

Quando finalmente voltaram para casa, eram cinco horas da manhã e Lily sentia-se esgotada, porém de ótimo humor. Entrou o carro na garagem e fechou o portão antes de voltar-se para dentro de casa. Estava indo em direção as escadas junto de Petunia, quando a luz da sala de estar foi acesa.

Helena Evans estava furiosa.

— Onde vocês duas estavam? — Ela perguntou e Lily sabia que, se Darth Vader estivesse ali, até mesmo ele estaria tremendo de medo.

— Ah... — Lily começou a falar, mas Petunia a interrompeu.

— Eu pedi para a Lily ir me buscar, mãe. — Disse. — Não foi nada demais.

Helena estreitou os olhos para ela.

Nada demais? Nada demais? — Bufou. — Vocês se acham muito grandinhas, não é? Eu sei que são maiores de idade e que trabalham, mas enquanto estiverem sob meu teto devem satisfação à mim. Imaginem a minha preocupação ao entrar no seu quarto, Petunia, e não te encontrar lá? Daí, fui perguntar para a Lily se ela não sabia de alguma coisa, e ela também não estava lá! — De seus olhos pareciam saltar faíscas. — Já são cinco horas da manhã! Vocês querem me matar do coração? — E então ela voltou-se para Petunia. — Você ficou fora o dia inteiro, Petunia Evans! Sem dar notícias o dia inteiro! E eu estou surtando o dia inteiro! — Respirou fundo, cerrando os punhos enquanto sua irritação parecia ser renovada ao encarar a filha mais velha. — Espero, pelo seu bem, que você não tenha ido atrás daquele traste! Não criei filha minha para andar se humilhando desse jeito!

— E se eu tiver ido? — Petunia tinha as bochechas avermelhadas de irritação, seus olhos brilhavam em fúria. Lily olhava de uma para outra sem saber muito bem como reagir. Era sempre assim quando aquelas duas brigavam.

Quer dizer, era assim desde que Petunia começara a namorar com Vernon. Antes, Helena e Petunia eram melhores amigas, muito mais do que Lily jamais havia sido. Claro, ela não sentia ciúmes, pois sua ligação sempre fora maior com o pai, mas era muito estranho vê-las tão estressadas uma com a outra. Lily suspeitava que, a parte de apenas não gostar de Vernon, a mãe também tivesse ciúmes dele pelo afastamento que acabou provocando entre as duas.

— Se você tiver... você não se atreveria! — Helena bufava.

Talvez pelo rebuliço causado pelas duas, Edward desceu as escadas, sonolento.

— O que está acontecendo aqui? — O pai perguntou, curioso, olhando para cada uma das três com as sobrancelhas arqueadas.

— A mamãe está dando um ataque! — Petunia reclamou, cruzando os braços sobre o peito.

Edward voltou-se para Helena, encarando-a de forma indagativa. Helena esboçou um sorriso irônico.

— Estou dando ataque, Edward, porque a sua filha passou o dia correndo atrás daquele traste depois dele dispensá-la!

— Você fez isso, Tuney? — O pai voltou-se para a filha, encarando-a com uma expressão muito mais neutra do que a de Helena.

Lily sentia o estômago apertado, como se houvesse chumbo dentro dele. Odiava aquilo tudo. Odiava o fato de concordar, em partes, com a mãe, embora soubesse que ela estava sendo injusta com Petunia. Ela namorara Vernon por anos, pensara que iria casar com ele. Não era justo julgá-la por ir atrás dele. Ela o amava, afinal de contas, mesmo que Lily não gostasse nada de pensar em sua irmã chorando as pitangas para aquele babaca.

Tudo o que Lily queria era ir até seu quarto e se trancar lá dentro até tudo acalmar, mas, infelizmente, sabia que não poderia fazê-lo muito embora tivesse certeza de que sua mãe nem daria por sua falta tão concentrada que estava em Petunia.

E se eu tiver feito? — Petunia voltou a perguntar, entredentes. — Qual o problema?

— Qual o problema? O problema é que eu não criei filha minha para correr atrás de homem! — Helena praticamente gritou, enfurecida.

E, claro, Lily, ao invés de aproveitar o momento para ficar com a boca fechada, decidiu que era uma ótima hora para soltar:

— E atrás de mulher? — Indagou, fazendo com que os três voltassem para encará-la. Seu rosto imediatamente tornou-se da mesma cor que seus cabelos, fazendo com que ela parecesse um tomate ambulante.

Porque, é claro, ela precisava passar vergonha as cinco da manhã de um domingo.

X—X

“E é isso, pessoal”

— Ficou ótimo. — James comentou assim que Mary terminou de editar um dos cinco vídeos que eles haviam gravado para o canal dela. — Você é ótima editando. Os meus vídeos normalmente parecem uma bagunça, fico cortando cenas toda hora porque deixei alguma coisa cair ou me bati em algum lugar.

Mary riu, fechando o notebook e espreguiçando-se.

— Ah, você é ótimo, Jay. — Ela disse e meneou a cabeça. — Meio hiperativo, mas ótimo. Você vai acabar tendo um treco se continuar tomando tanto café. — Mary franziu o cenho. — Como ainda não teve um infarto?

James gargalhou.

— É o que todos me perguntam.

Eles estavam no quarto que James usava de estúdio. Era tarde e ele estava exausto. James e Mary estavam gravando desde as sete horas da manhã e somente então haviam parado.

— Por falar em outros: onde estão Sirius e Remus? Pensei que eles fossem gravar conosco. — Ela comentou, inclinando a cabeça.

— Hm... — James franziu os lábios, lembrando da noite anterior quando Sirius lera uma pergunta sobre Remus e Mary e todo o sufoco que aquilo havia causado. A verdade era que não fazia ideia de onde Sirius e Remus estavam. Tudo que sabia era que, na noite anterior, Sirius dissera que iria dar uma volta e, desde então não havia voltado. Remus acordara tarde, bem depois que ele e Mary haviam começado a gravar, contudo, tudo o que James ouvira dele fora a porta da frente batendo e ele saindo de carro para Deus sabe onde. — Não sei. Acho que logo eles vão chegar.

— Bom, eu espero que sim. — Ela sorriu. — O que acha de sairmos para comermos alguma coisa? Estou morta de fome. — Comentou.

James concordou, sentindo o estômago revirar.

Antes, porém, que saíssem do quarto, ele, pelo que parecia ser a milésima vez naquele dia, olhou pela janela com esperança de enxergar algo além de uma cortina fechada. Suspirando, James passou as mãos pelos cabelos, sentindo um calafrio perpassar pelo seu corpo ao perceber que tudo continuava exatamente igual: a imagem de uma fanart de Darth Vader ainda o encarava do tecido da cortina em que estava estampado.

Talvez ele devesse pedir desculpas. Talvez a garota o odiasse. Talvez, ao invés de ajuda-la – o que era uma mentira, afinal ele a beijara pura e simplesmente porque sentiu vontade e não para sanar qualquer dúvida sobre sexualidade que ela pudesse ter – tivesse apenas aumentado a confusão da garota. Ou, talvez, tivesse apenas confirmado o que ela estava em dúvida: ela não gostava de garotos.

Só de pensar naquilo, James sentiu o sangue gelar.

Sabia que estava sendo irracional, afinal ele e Lily não tinham absolutamente nada – e depois da noite anterior qualquer chance de terem alguma coisa no futuro deveria ter desaparecido – mas imaginá-la beijando outras pessoas lhe davam nos nervos.

Respirando fundo, James decidiu-se: iria falar com Lily depois e pediria desculpas. Mesmo que não se sentisse nada culpado.

[SEGUNDA-FEIRA — 11 DE JULHO, 2016]

— Pensei que você tivesse morrido. — Foi a primeira coisa que Sirius disse quando se apoiou no balcão onde Lily separava algumas notas.

Ela ergueu os olhos para ele, surpresa. Estivera tão concentrada em seu trabalho que sequer ouvira a porta da frente ser aberta.

— Sirius. — Ela cumprimentou-o com um sorriso. Só para desfazê-lo assim que percebeu a expressão cansada no rosto do garoto. — Aconteceu alguma coisa?

Algumas. — Ele brincou, mas suspirou logo em seguida. — Até que hora você fica aqui?

Lily esticou-se para ver a hora no computador e então voltou-se para Sirius.

— Daqui quinze minutos.

— Ótimo. — Ele sorriu. — Nós vamos passear.

— Hm, Sirius, não sei se essa é uma boa ideia... — Lily disse, suspirando e guardando as notas que havia separado dentro de uma pasta específica. Sirius arqueou uma sobrancelha em indagação. — É que, bem, estou com alguns problemas em casa. Na verdade, não é bem problema, talvez um incômodo, mas... não quero acabar fazendo meus pais me odiarem ainda mais.

— Okay. Então nós vamos para a sua casa. — Ele disse, sem nem mesmo piscar diante das palavras da garota. — Estou com saudades dos biscoitos da sua mãe.

— Hm, não acho que vá ter biscoitos para mim. — Lily murmurou, enquanto desligava o computador.

Sirius inclinou a cabeça, um sorrisinho malicioso nos lábios.

— Não sei o que você aprontou, ruiva, e até acredito que possa não ter biscoitos em casa para você. Mas eu sou Sirius Black e consigo todos os biscoitos do mundo apenas com um sorriso. — E sorriu como que para comprovar.

X—X

Afinal de contas, Sirius estava certo. Fora necessário apenas um sorrisinho e algumas palavras simpáticas da parte dele para que a mãe de Lily aparecesse no quarto, com uma bandeja de biscoitos e café.

Lily percebeu o olhar esquisito que sua mãe lançou, porém ela não falou nada. Soltou um suspiro aliviado quando a mãe fechou a porta.

— Então: que merda você fez? — Perguntou o garoto enquanto se ajeitava de modo confortável sobre os travesseiros na cama.

Lily abriu a boca para reclamar, mas deu de ombros: ela já deveria estar acostumada com o comodismo de Sirius.

— Eu...

— Você...? — Ele mordiscou um biscoito, encarando-a com atenção.

— Beijei uma garota. — Completou e então suspirou.

Sirius imediatamente sentou-se, inclinando-se para ela. Sorriu.

— Oh. Então você fez o que eu disse! Pensei que não fosse levar tão ao pé da letra.

— E por que não? Você até pode ser um idiota, mas às vezes fala algumas coisas com sentido. — Lily disse, rolando os olhos para ele.

— Vou interpretar a sua frase como um “você sempre tem razão, Sirius”.

— Interprete como quiser se isso for fazer você feliz. — Lily resmungou, mas sorriu para o garoto. — De qualquer forma, eu beijei essa garota. E nós saímos sexta-feira para uma balada gay aqui perto.

— Meu Deus, isso não para de melhorar. — Sirius estava totalmente inclinado na direção dela, os olhos brilhando, marotos. — Mas ainda não entendi o que sua mãe e o fato de ela estar “brava” com você têm em comum.

— Ah... — Lily mordiscou um biscoito enquanto procurava palavras para explicar o que havia acontecido no dia anterior e como sua vida parecia ter virado de cabeça para baixo depois daquilo. — Bem, minha irmã acabou de romper um relacionamento longo.

— Com o cara-de-orca, eu sei, o James me disse. — Sirius assentiu.

Lily estreitou os olhos, sem saber como se sentia ao perceber que James e Sirius mantinham conversas sobre a família dela quando não estavam em sua frente. Pensar no que eles poderiam ter conversado a deixava nervosa. E não era como se precisasse de mais nervosismo para sua vida além de tudo o que estava aguentando.

— Pois é. A verdade é que ele terminou com ela, sabe. Os pais dele são empresários muito abastados e não queriam o único herdeiro casado com a filha de um comerciante. — Cerrou os punhos, sentindo a irritação tomá-la novamente ao pensar na injustiça de tudo aquilo.

— Isso é péssimo. Sinto muito. — Sirius parecia realmente sentir. Lily assentiu. — Talvez ela esteja melhor sem ele.

— É o que eu espero já que ele está noivo agora e... — Mas interrompeu-se, encarando-o como se o visse pela primeira vez e bateu a mão na testa diante da revelação. — Sirius!

— Quê? — O garoto se assustou com o grito repentino que ela deu.

— Bellatrix Black é alguma coisa sua?

Pela careta de desgosto que surgiu na expressão de Sirius, Lily imaginou qual seria a resposta.

— Infelizmente sim. Bellatrix é uma das minhas queridas primas. Por quê? Como você a conhece?

— Vernon, o ex da minha irmã, está noivo dela. Ao que parece, é um noivado de aparências.

— Você está brincando! — Sirius parecia completamente chocado ao encará-la. Tinha os olhos arregalados e a expressão de descrença estampada em sua face. — Meu Deus, ela deve estar furiosa! Ela era noiva do Rodolphos e... Druella criou um monstro! — Meneando a cabeça em consternação, Sirius voltou a se atirar sobre os travesseiros. — Oh, droga, é por isso que querem que eu vá para casa no próximo final de semana! Disseram que haveria um jantar importante... deve ser o noivado deles. — Sirius voltou-se para Lily. — Seria cômico, se não fosse uma coincidência muito infeliz, que o meu final de semana vá ser destruído por causa do ex da sua irmã.

— E você precisa mesmo ir? — Lily perguntou, sentindo um aperto no estômago que nada tinha a ver com o pedaço de biscoito grande demais que havia engolido. — Quero dizer, você vai voltar?

Sirius sorriu de forma marota para ela.

— Isso que eu notei na sua voz é o som de sofrimento causado por saudades antecipadas da minha pessoa? — Ele perguntou, divertido.

Lily rolou os olhos, mas não se preocupou em contestar. Ele estava certo, afinal.

Deixando o sorriso esmorecer em seu rosto, Sirius respirou fundo.

— Eu vou voltar. Acho. As coisas com a minha família sempre são imprevisíveis. — Murmurou e então aquietou-se, uma expressão de inconformidade nada típica de Sirius instalou-se em seu rosto.

Erguendo-se da cadeira onde estava sentada, Lily foi até a cama, empurrou o garoto com uma mão, fazendo com que ele deixasse espaço para ela deitar ao seu lado. Afundou a cabeça nos travesseiros.

— Eles são muito ruins? — Ela perguntou após algum tempo quieta, sem deixar passar despercebido o desconforto que Sirius demonstrara ao falar sobre a família. Na verdade, Lily pensou, ela não lembrava de tê-lo visto falar da família em qualquer um de seus vários vídeos, o que era, sem dúvidas, muito esquisito.

Sirius deitou de lado, ficando de frente para Lily. Ela sorriu para ele, tentando confortá-lo, pensando em quão normal aquilo parecia: deitar ao lado de Sirius sem qualquer intenção a não ser a de descansar a cabeça e conversar sobre os mais diversos assuntos do mundo.

E pensar que tempos atrás ela teria dado tudo para fazer outras coisas com ele sobre aquela cama.

— Eles são péssimos. — Sirius disse, por fim, enquanto brincava com uma mecha de cabelo dela. — São arrogantes, mesquinhos e desprezíveis.

Lily surpreendeu-se com a sinceridade do garoto. Não imaginara que ele falaria uma coisa daquelas sobre a família, contudo, Sirius parecia decidido a depreciá-los ao máximo, pois continuou:

— São aquele tipo de gente que desejamos nunca termos conhecido, sabe? Eles conseguem deixar tudo desagradável. Meu pai é sócio de uma rede de revistas em Godric’s Hollow, junto de meus tios. Minha mãe é diretora na revista mais rentável dentre elas: o Profeta Diário. Eles combinam tanto em serem desagradáveis juntos que até ganharam um prêmio de casal do ano. — Ele riu, sem humor. — Isso para não citar minhas tias e tios que fazem com que os dois pareçam velhinhos amorosos. — Suspirou. — Preferiria mil vezes ficar aqui aturando você e suas citações de Star Wars do que ter de vê-los, mas, infelizmente, é um negócio da família.

— Você acabou de citar Supernatural. — Lily brincou, tentando descontrair.

— É. Só que no meu caso ao invés de caçar monstros, eu moro com eles.

— E por que você não mora sozinho? Quero dizer, você deve ganhar bem com todo esse negócio de YouTube, não é? Você poderia comprar uma casa aqui em Hogsmeade ou em Londres, inclusive isso iria ajudar muito no seu trabalho, afinal ficaria no centro de onde as coisas acontecem. Ou você poderia morar com o James, tenho certeza de que ele seria o primeiro a te oferecer uma casa. Então, por que não?

A expressão de Sirius indicava que ele já ouvira aquele tipo de coisa pelo menos um milhão de vezes antes.

— James não negaria. Na verdade, ele já me ofereceu um quarto. Dividiríamos as contas e tudo.

— Então por que não...?

— Porque, Lily, minha família é complicada. E tem o Reggie...

— Seu irmão? — Lily perguntou, lembrando das poucas fotos no Instagram de Sirius onde ele aparecia com um garoto bonito e de mesmo porte que ele.

— Você é mesmo uma fangirl, hm? — Ele piscou para ela e então assentiu. — É, ele mesmo. Regulus é complicado.

— Acho que já chegamos à conclusão de que sua família inteira é complicada, Sirius. Especifique.

— Ele é um tanto quanto rebelde.

Lily arqueou a sobrancelha diante de mais uma informação vaga, portanto Sirius suspirou e continuou:

— Ele já teve algumas... na verdade várias passagens pela polícia por causa desses babacas que idolatram o tal de Voldemort.

— Voldemort? — Lily franziu o cenho. — Mas eu pensei que ele estava fazendo campanha para Hogsmeade...

— E está, porém você surpreenderia com a quantidade de gente trabalhado para ele no parlamento, é assustador. Ele parece ser o tipo de pessoa que prefere ficar na surdina, enquanto deixa os outros trabalharem por ele, mas não se engane: ele tem tudo sobre controle. Não duvido nada que ele seja o cara mais poderoso da Inglaterra no momento, depois de Dumbledore, que é o Primeiro Ministro. De qualquer forma, esse abutre, conheceu meu pai e ofereceu ao Regulus um “emprego” onde ele iria ajudar com a divulgação e o design da campanha. Sabe, eu sou muito bom com esse negócio de gravar vídeos e usar minha imagem para seduzir as pessoas, mas Regulus é muito talentoso com o tratamento e edição de imagens. Ele quis ser, por muito tempo, designer gráfico.

Quis? Não quer mais?

— Não, Lily. Não faço ideia do que Regulus quer agora, exceto que ele jamais se contentaria com algo tão pequeno quanto “designer gráfico”. Eu não sei o que esse Voldemort fez com ele, mas faz dois anos que meu irmão não é mais o mesmo. Ele anda com essa gentinha fascista, que idolatra práticas xenofóbicas e racistas, essas coisas totalmente desvairadas...— Olhou para Lily. — Você deve entender o que isso significa tão bem quanto eu, afinal você tem aquele amigo, o Snape...

— Ele não é meu amigo. — Ela murmurou, mas assentiu, pois compreendia muito bem tudo aquilo. — Mas passagens pela polícia?

— Parece que tem um grupo mais rebelde nessa causa de Voldemort. Quero dizer, o cara parece fazer lavagem cerebral nas pessoas. Meu irmão acabou fazendo muita coisa errada por causa disso.

— Oh, ele era um dos caras que foi preso, dois meses atrás, depois de espancar um garoto que saía de uma boate gay em Godric’s? — Lily perguntou, lembrando do caso: um grupo auto-intitulado de Comensais da Morte (alguns babacas vestidos de preto e mascarados que se achavam no direito de fazer “justiça com as próprias mãos”), haviam interceptado um garoto, não mais velho que ela, e espancado quase até a morte após ele ter saído de uma boate gay. Segundo os policiais, eles tinham uma rixa com o garoto, pois ele trabalhava no gabinete de Dumbledore e era refugiado. — Ouvi boatos de que o caso teria sido arquitetado pelo Voldemort, mas nada foi confirmado e depois ele fez uma declaração pública dizendo que não compactuava com aquele tipo de violência.

— Ele mente muito bem. E, não, não era o Regulus dessa vez. Mas ele já fez coisas parecidas. — Sirius comentou e Lily sentiu o garoto se retesar de irritação.

— É por causa dele que você não sai de casa? Por que está tentando ajudá-lo? — Lily perguntou, virando-se de modo que pudesse se apoiar num cotovelo e encarar Sirius. — Está tentando fazê-lo mudar de ideia?

— É um trabalho bem inútil se quer mesmo saber. E nunca parece dar resultados, mas eu... não posso abandoná-lo, entende? Para os meus pais está tudo bem. Eles acham lindo ver o filho defender todas essas asneiras, afinal é com isso que eles concordam. Mas, quando meus pais passavam mais tempo trabalhando do que em casa, fui eu quem cuidei de Reggie. Eu o vi crescer. Eu que o levava para a escola. Era a mim que ele recorria quando tinha dúvidas. Ele era meu melhor amigo, Lily. — Fechou os olhos como se a lembrança doesse. E Lily tinha certeza de que doía. — Talvez seja estúpido da minha parte e eu sei que estou perdendo tempo fazendo isso, mas... ele é o meu irmão. E eu o amo. Não posso simplesmente virar as costas.

— Mas também não pode deixar de viver, Sirius. — Lily murmurou, embora o compreendesse perfeitamente. — Eu te entendo. — E, pensando que talvez fosse melhor mudar de assunto antes que todo o bom humor de Sirius desaparecesse, Lily decidiu que era uma ótima oportunidade para o fazer. — Inclusive, falando em coisas que fazemos por causa dos irmãos, eu ainda não terminei de contar sobre o porquê dos meus pais estarem bravos comigo. — E então começou a falar detalhadamente sobre suas desventuras desde o momento em que se despedira de James até levar Petunia para casa e salvá-la. A única coisa que omitiu foi o fato de ter beijado James Potter: ainda não sabia como se sentia a respeito daquilo e ter Sirius fazendo piadinhas e encarando-a, como se houvesse praticado sexo selvagem, não seria muito reconfortante naquele momento. — E então, quando eles estavam praticamente pulando no pescoço dela, eu disse “E atrás de mulher?”.

Sirius soltou um grito alto quando começou a gargalhar, dobrando-se sobre a cama enquanto ria sem parar. Lily pensou que ele fosse ter um ataque, pois nem respirar parecia, embora lágrimas de riso escorressem pelos seus olhos, molhando os travesseiros de Lily.

Demorou alguns bons minutos até que o riso diminuísse – embora não totalmente – e ele fosse capaz de falar novamente.

— Você... é... demais. — Ele disse com a voz trêmula. —E atrás de mulher? Cara, isso é uma resposta tão maravilhosa que até mesmo eu poderia tê-la dito! — E gargalhou novamente.

— Cuidado para não acabar se afogando. — Lily resmungou, levemente irritada por causa da zoeira. Sirius não parecia alguém que iria esquecer aquilo facilmente, portanto Lily estava começando a se perguntar se havia feito a coisa certa ao contar aquilo para ele.

Por fim, ele se recuperou.

— E os seus pais, falaram alguma coisa?

— Na verdade, não. — Lily deu de ombros. — Eles ficaram me encarando e eu meio que ri, sem jeito, e disse “Ahá, peguei vocês! Mas é sério, gente, eu gosto de meninas. E de meninos”, e então eles tinham as bocas escancaradas de choque e eu percebi que talvez tenha ido longe demais, mas minha língua não parecia concordar comigo, pois continuou falando coisas como “vocês sabem o que significam? Tenho mais chances no mercado” ou “sou a universal” e ainda, para encerrar a humilhação com chave de ouro: “se eu namorar uma garota vocês não vão precisar se preocupar com camisinha, só com absorvente mesmo”. — Lily estremeceu. — Eles murmuraram qualquer coisa sobre “você deve pensar bastante antes de se assumir, Lily” e “você tem certeza?”. Meu pai nem pareceu muito chocado, na verdade, mas minha mãe parecia ter levado um tapa na cara. Justo agora que ela jurava que estava praticando sexo selvagem com você, joguei a bomba: “oi, mãe, sou bissexual e o garoto que invade meu quarto é só meu amigo. Você foi iludida duas vezes, olha só”. Foi trágico.

E, é claro, Sirius voltou a gargalhar.

Eles continuaram a conversar por um longo tempo, Lily descreveu para Sirius cada um dos sentimentos que a tomaram enquanto beijava Emmeline, as lembranças vagas e embaçadas da balada e, consequentemente, de sua ressaca e, enquanto ouvia, Sirius contava para ela sobre suas primeiras experiências, acalmando um pouco a confusão na qual Lily se encontrava. Depois, vagaram por assuntos menos tensos, rindo e se divertindo enquanto exterminavam os biscoitos deliciosos que somente Helena Evans era capaz de fazer.

Estavam em uma discussão acirrada sobre chá com açúcar/sem açúcar quando The March Imperial começou a tocar, assustando os dois. Lily pulou até a escrivaninha, pegando o aparelho.

Era Emmeline.

— O quê? — Sirius também pulou da cama, observando a expressão esverdeada que tomara o rosto de Lily com preocupação. — Aconteceu alguma coisa? Por que você não está atendendo?

— É ela!— Ela disse, sentindo-se tremer. — Eu não respondi as mensagens que ela mandou sábado, pedindo para me encontrar. Ai, meu Vader, Sirius, o que eu faço? Atendo? — Mas o telefone parou de tocar, fazendo com que Lily suspirasse de alívio.

— Meu Deus, você vai ter um ataque do coração se continuar...— Mas ele foi interrompido pelo celular que voltou a tocar.

— Por Vader, Sirius. O que eu faço? — Lily pulava enquanto falava, segurando o celular longe do corpo como se fosse um objeto contaminado.

— Atende. E, se ela te pedir para sair, aceite. — Sirius disse, sério.

Lily parou de pular, chocada com a indicação do garoto.

— Quê?

— Lily, você não vai saber o que sente por ela se continuar fugindo. Apenas fale com ela. — E, imitando o Mestre Yoda, completou: — Se a garota certa ela não for, para ela você deve dizer. Mas, por favor, faça isso depois de ter certeza. Não vai arrepender depois, viu.

Lily abriu a boca para comentar o quanto ele ficava estranho quando falava coisas coerentes, mas o celular continuava tocando e ela sabia que precisava atender antes que a ligação caísse.

— Alô?

—Ah... —O tom de voz de Emme indicava que ela estava surpresa por Lily ter atendido. — Oi, Lily! Tudo bem? É a Emme... ah, desculpa estar ligando assim, é que eu queria mesmo falar com você. — A garota falava rápido, como se quisesse expelir as palavras antes que desistisse. —Será que a gente poderia conversar qualquer dia desses?

— É claro, Emme. — Lily concordou, sentindo as bochechas enrubescerem ao deparar-se com um Sirius Black muito curioso que observava todos os seus passos. — Desculpa eu não atender antes, eu estava... — Ela começou a dizer, preparando-se para mentir, mas então suspirou, sentindo que aquilo seria muito errado. — A verdade é que eu estava assustada.

Sirius fez um sinal de positivo, o olhar de “muito-bem-Lily-sinceridade-é-ótimo” era óbvio ao encará-la.

Me desculpe por isso. — Emme hesitou, suspirando logo em seguida. —Não sou desse tipo que fica enchendo o saco toda hora depois do primeiro beijo, mas, Lily... eu gostei de ficar com você.

— Eu... ah... também gostei, Emme. Muito. — Lily sentia as orelhas arderem, lançando um olhar “cala-a-maldita-boca-Sirius-Black” quando percebeu a expressão do garoto. — O que acha de nos encontrarmos na quinta? Não vou trabalhar no Movie-Maker, portanto podíamos tomar um café ou algo assim.

Te pego as seis na sua casa?

— Para mim parece ótimo.

É um encontro?

— É um encontro. — E, dizendo isso, despediu-se de Emme, encerrando a ligação logo em seguida. Encarando Sirius que parecia a pessoa que mais se divertia no mundo, disse: — Ai, meu Vader, Sirius, o que eu estou fazendo?

[QUARTA-FEIRA — 13 DE JULHO, 2016]

Sirius encarava as malas sobre a cama com uma expressão de tristeza. Odiava aquilo. Odiava saber para onde estava indo e o por quê.

Suspirando, puxou a alça de sua mochila, encaixando-a sobre os ombros e ajeitando-a de modo que ficasse confortável. Olhou para o relógio de pulso: faltavam duas horas para embarcar, deveria começar a se mexer.

Sentindo-se desolado, embora soubesse que a culpa daquilo era dele mesmo, afinal ninguém o estava obrigando a ir embora. Lembrava muito bem da conversa que tivera no dia anterior com James, quando o amigo, não pela primeira vez, puxara suas orelhas e jogara muitas verdades em sua cara. Ele concordava com todas elas, embora soubesse que aquilo de nada adiantaria.

Sirius odiava pensar em ir embora de casa e deixar Regulus para trás, totalmente perdido como estava. Por mais doloroso que fosse, ele ainda tinha esperanças de que, futuramente, o irmão percebesse a merda que estava fazendo com a própria vida e voltasse a ser o Reggie que ele conhecia e amava.

Por mais ilógico que fosse, Sirius era o único bom exemplo que o irmão tinha naquela família, por mais que a relação conturbada que dos dois tivesse muitos altos e baixos. Ele não queria pensar na possibilidade de não haver outra vida para o irmão além da qual havia escolhido.

— Hey. — Arrancando-o de seus devaneios, a porta do quarto foi aberta e, por ela, Remus adentrou. Ele parecia ter recém-saído do banho, os cabelos molhados ainda estavam bagunçados. Sirius desviou o olhar, controlando-se.

— Hey. — Respondeu, voltando-se para as malas, puxando as duas que faltavam de cima da cama e colocando-as no chão.

— James está te esperando no carro. — Remus disse e então parou, colocou as mãos no bolso do moletom e ficou ali, parado, olhando de Sirius para as malas sucessivamente.

— O que foi, Remus? — Sirius perguntou, sentindo-se inquieto. Ele poderia dizer o que Remus estava pensando com muita facilidade, tantas haviam sido as vezes que o garoto o encarara daquela forma.

— Por quê? — Ele perguntou simplesmente, encarando-o com a expressão estampada de cansaço. Sirius procurou não pensar muito sobre o motivo daquelas olheiras, pois poderia acabar explodindo de raiva como fizera no final de semana.

Sabia que precisava aprender a se controlar, mas simplesmente não conseguia se conter quando observava os absurdos que Remus cometia por medo.

— Você sabe porquê. — Sirius disse e começou a caminhar em direção à porta, mas foi impedido. Remus o encarava, sério.

— Você não precisa fazer isso, Sirius. Está mais do que na hora de deixar tudo isso de lado. Você não pode continuar vivendo desse jeito, não com o seu pai fazendo todas aquelas atrocidades com você só porque... — Ele se interrompeu. — O que estou querendo dizer é que isso não é justo.

— A vida não é justa, Remie. — Sirius brincou, embora o sorriso não chegasse em seus olhos.

— Mas você pode evitar esse tipo de coisa, Sirius. Você não precisa passar pelo que com certeza vai passar naquela casa, só porque você é você!

— E o que sugere que eu faça, Remus? — Sirius sentiu o controle esvair, tão facilmente que parecia nunca ter existido. Toda a raiva e irritação, todo o ciúme e frustração que sentira nos dias anteriores, sentimentos os quais estava tentando a todo custo evitar, vieram à tona. — Quer que eu me esconda como você faz? Quer que eu minta para as pessoas que amo, fingindo ser algo que eu não sou? — O olhar que ele tinha sobre Remus era efervescente. O garoto se afastou, parecendo ferido diante de suas palavras.

— Não foi o que eu quis dizer.

— Tem certeza? — Sirius perguntou, sentindo o sarcasmo transbordar em sua voz. Remus estreitou os olhos. — Tem certeza de que não quer que eu faça como você e fique aos beijos com a primeira garota que passar, só para tentar me afirmar para o mundo de modo que tudo seja mais aceitável? Você quer que eu finja ser o que eu não sou para que os outros me aceitem? Me desculpe, Remus, mas eu não consigo ver nenhum bem nisso.

Remus parecia ter levado um tapa na cara, tão magoado era o olhar que estampava seus olhos.

— Eu só não quero que você acabe machucado...

— Você parece tão verdadeiramente preocupado, Remus... — Sirius meneou a cabeça, sorrindo, irônico. — Uma pena que, dentre todos os que me machucam, o que você faz consigo mesmo é o que dói mais. — E, dizendo aquilo, afastou-se do outro, puxando as malas e saiu do quarto.

[QUINTA FEIRA — 14 DE JULHO, 2016]

— Você só pode estar brincando comigo! — Marlene disse, estupefata. — A minha fantasia já está pronta há semanas! Por Deus, Lily, o que você fez todos esses dias que ainda não foi lá pegar a sua? Ela deve estar mofando!

— Eu sei, Lene. É só que... estive tão ocupada nos últimos dias que nem pensei na Convenção. Me sinto péssima agora que lembrei. — Lily resmungou enquanto caminhava ao lado da amiga.

— Céus, Lily, a verdade é que você não pensa em nada além do seu vizinho nos últimos tempos. — Alice complementou, sorrindo maliciosa. — E, agora, depois que ele te beijou, imagino que esteja louca para encontrá-lo novamente e bagunçar ainda mais aqueles cabelos, hm?

Lily exclamou, horrorizada, embora sentisse as bochechas esquentarem.

— Ei! O que você pensa que eu sou? Já falei para vocês: estou evitando James Potter. Não quero vê-lo nem pintado de ouro.

— Porque vai acabar pulando no pescoço dele assim que o ver. — Marlene completou, piscando para Alice que sorria descaradamente.

— Vocês duas não prestam. — Lily bufou, sentindo-se afrontada.

— Não somos nós que saímos beijando todo mundo que vemos pela frente...

— E nem somos nós que temos pretendentes se derramando aos nossos pés.

— Qualquer hora dessas você vai precisar de um rodo, Lily, para limpar o chão antes de sair caminhando por aí. Vai que pisa em algum pretendente, né. — Marlene e Alice caíram na gargalhada, como se tivessem acabado de ouvir a melhor piada de todas.

Lily ajeitou o boné e o óculos que usava: uma tentativa razoável de se esconder das fãs do The Marauders, que pareciam pular sobre ela toda vez que colocava os pés para fora de casa. Ainda tinha arrepios só de lembrar do dia anterior, na Movie-Maker, quando uma superfã do Sirius apareceu e começou a tuitar de lá, praticamente berrando ao vê-la, indagando tudo o que podia a respeito dos garotos. Lily ainda sentia as bochechas quentes, tamanho havia sido a vergonha que passara tentando afastar a garota e todas as outras pessoas, que pareciam ter brotado para ver a “ruiva do snap” ao vivo e a cores se atrapalhando na loja de CD’s.

Sem sombra de dúvida, aquela fora a situação mais vergonhosa de sua vida: incluindo todos os micos que pagara em frente a James e até mesmo quando revelara sobre sua sexualidade para os pais.

Aberforth, por outro lado, parecia maravilhado com a nova clientela que aparecera pela loja, muitos dos quais, atraídos primeiramente pelo fato de Lily estar lá, acabaram se interessando pelos discos e DVD’s e fizeram com que aquele dia fosse o mais lucrativo do mês até então.

Seria cômico se não fosse trágico.

Marlene e Alice continuavam a conversa vergonhosa sobre os pretendentes de Lily enquanto elas caminhavam através das lojas. Quando, por fim, chegaram ao endereço onde Lily deveria levantar sua fantasia de Estelar, os pais de Alice ligaram, pedindo que ela fosse encontrá-los e, por conta disso, a amiga teve de se despedir. Após levantarem as roupas, Marlene e Lily caminharam mais um pouco, parando em uma sorveteria para a rotina de engorda habitual: sundaes de fruta com muita cobertura e chantilly por cima. Era como comer um pedaço do paraíso.

Estavam terminando de limpar os recipientes de sorvete quando Marlene exclamou, praticamente socando o ombro de Lily.

—Aí, que...?

— Olha lá, Lily! Aquele não é o Vernon? — Marlene perguntou, esticando-se na cadeira onde estava sentada, a fim de enxergar melhor o lado oposto da rua, em frente a sorveteria.

Lily rapidamente voltou-se na direção que a amiga apontava, sentindo o coração apertar ao vê-lo. E não apenas isso: Vernon, ao que parecia, decidira sair para passear com a noiva.

Porque alguém com aquela postura arrogante, aquele nariz arrebitado, o olhar que dizia claramente “sou-a-melhor-pessoa-que-você-vai-ter-a-honra-de-conhecer” não podia ser de qualquer outra pessoa a não ser um Black.

— Oh, então aquela é a Bellatrix.

— Quem? A noiva? — Marlene esticou-se ainda mais, sem um pingo de sutileza. — Nossa, ela é bonita. — Voltou-se para a Lily. — E tem mesmo cara de arrogante.

— Pelo que sei, não é só a cara.— Disse então continuaram a observar os dois que saíam de uma loja de mãos dadas. Lily sentia o sorvete revoltoso em seu estômago, portanto afastou o copo, o pesar por deixar quase metade daquela divindade recaindo sobre ela.

Vernon parecia como sempre: gordo, feio, chato e extremamente sem pescoço. Bellatrix, por outro lado, parecia totalmente entediada. Balançando os cabelos como se eles fossem a jóia mais preciosa do universo – o que provavelmente era verdade, se Lily fosse levar em consideração a quantidade de dinheiro que aquela garota deveria gastar em salões de beleza para manter aquele ondulado perfeito – Bellatrix voltou-se para o “noivo”, colocando uma mão em seu ombro enquanto falava qualquer coisa para ele.

Então, como se o estômago de Lily não estivesse revoltado o suficiente, a garota se aproximou de Vernon e beijou-o. Foi um beijo rápido, quase inofensivo, mas Lily quis ser o Flash por um momento só para ser capaz de voltar no tempo e fotografar aquela cena e esfregar na cara de Petunia, para que ela nunca mais ousasse correr atrás daquele verme.

Passou muito tempo, depois dos dois terem sumido do campo de visão de Lily, até que ela conseguisse se mover. Marlene parecia tão chocada quanto ela.

— Ai, meu Deus! Essa cena vai ficar para sempre gravada em minhas retinas. E eu que pensava que, depois de Petunia beijando Vernon, não fosse presenciar nada tão nojento. Como estava enganada. — Marlene estremeceu, fazendo com que Lily sorrisse.

— Vamos, temos compras a fazer. — Lily suspirou, tentando afastar os pensamentos assassinos que a faziam ter vontade de largar tudo e ir atrás de Vernon e Bellatrix e esfolar a cara deles no asfalto.

X—X

— Bem, acho que vou deixar você em casa, Lily. — Marlene comentou, após saírem de uma loja de sapatos (onde Lily praticamente chorara por uma bota maravilhosa que, infelizmente, não tinha o preço tão maravilhoso assim). — Senão você vai se atrasar.

— Me atrasar...? — Mas então Lily lembrou: o encontro com Emmeline.

Exclamando ao ver a hora, percebendo que faltava apenas duas horas para as seis, começou a sentir as mãos suarem.

— Meu Deus, Lily, você parece alguém prestes a ter um infarto. Vamos, eu te dou uma carona. — E, rindo para Lily, Marlene caminhou com ela até onde havia estacionado o carro de sua mãe, abrindo a porta do banco de trás e jogando as sacolas lá dentro. — Vamos, você precisa ficar apresentável para o seu encontro. Já pensou? Se Emmeline olhar para os seus cabelos e ver toda essa cutícula aberta aí, capaz de ter um ataque.

— Marley, nem todo mundo é louco por cabelo que nem você! — Lily resmungou, puxando o cinto de segurança.

— Não? — Marlene bufou. — Se eu fosse sair com uma garota, jamais admitiria que ela aparecesse sem os cabelos decentes. Céus, isso deveria ser obrigatório para todo mundo.

— Agora eu entendo porque você continua solteira. — Lily brincou, rindo enquanto a amiga manobrava o carro.

— Haha.

X—X

— Está tudo bem, Lily, não precisa ficar nervosa. — Lily murmurava para o próprio reflexo no espelho.

Estava pronta, com os cabelos devidamente arrumados, vestida de forma casual: sua calça jeans rasgada favorita e um cropped em tons pastéis bem leves e, por cima, um casaco jeans larguinho. Estava terminando de se maquiar quando ouviu as batidas na porta de seu quarto. Sentindo o coração apertar, Lily foi até lá, imaginando o que deveria dizer assim que visse Emmeline.

Só que não era Emmeline. Era James Potter.

Lily tinha certeza de que estava com a maior cara de pamonha do universo enquanto o encarava, sem reação, ainda segurando a porta aberta.

— Oi, Lily. — Ele cumprimentou-a, sorrindo, parecendo simpático como sempre.

E, como era de praxe, Lily esqueceu como é que fazia para respirar, o que tornou o momento muito mais vergonhoso do que deveria.

— Hey. — Ela conseguiu forçar sua boca a expelir, sentindo o coração acelerar dentro do peito de forma assustadora. Por um momento, Lily realmente pensou que fosse sofrer um infarto. — O que... O que você quer, James?

O sorriso no rosto do garoto esmoreceu e suas bochechas enrubesceram, o que fez com que Lily sentisse uma vontade avassaladora de... nada.

—Trouxe o Softbox. Já entreguei para a sua mãe. — Ele sorriu. —Eu queria falar com você... se você puder me ouvir, claro. Vai ser rápido. — Ele disse, encarando-a com um olhar capaz de derreter até mesmo o coração do White Walker mais frio no inverno de Game of Thrones.

Sem conseguir resistir – aliás, quem conseguiria? – Lily deu espaço para que ele entrasse no quarto, esquecendo-se por completo do que estava fazendo antes.

— E então...? — Ela perguntou, cruzando os braços sobre o peito de modo que pudesse conter o tremor de suas mãos e não tornar seu nervosismo muito óbvio.

James passou as mãos pelos cabelos, fazendo com que a respiração de Lily entrecortasse. Por Vader, como ele conseguia fazer aquilo somente ao mexer no cabelo? Ela pegou-se imaginando quais outras reações ele seria capaz de despertar nela se fizesse alguma outra coisa. E então, depois de corar como um tomate, afastou os pensamentos impuros de sua mente. Aquele, definitivamente, não era o momento certo para ter aquele tipo de consideração impura.

— Me desculpe. — Ele disse e, mais uma vez, travou completamente a respiração de Lily ao encará-la cheio de culpa. — Eu fui totalmente impulsivo naquele dia e acabei não pensando antes de agir... eu não quis... na verdade eu não queria que as coisas entre nós acabassem ficando estranhas e...— Passou as mãos pelos cabelos novamente e Lily deixou escapar uma exclamação. James ergueu os olhos para ela, parecendo envergonhado. Ela abriu a boca para dizer que a exclamação não havia sido pelas desculpas dele, e sim pelo que ele fazia com a cabeça dela, mas depois de pensar, decidiu que era melhor que ele achasse que ela estava irritada com ele do que total e completamente desoxigenada por culpa de seus movimentos. — Me desculpe. — Repetiu. — É sério.

Lily piscou algumas vezes, tentado afastar o nervosismo e o frio que se abatia em seu estômago. Procurou palavras para dizer, imaginando quais seriam as certas para falar naquele momento. Por um lado, estava feliz por vê-lo pedir desculpas, afinal significava que ele se importava com o relacionamento “amigável” que eles haviam construído nos últimos dias, e que não queria que acabassem brigados por algo tão bobo. E, por outro, fazia com que o lado fangirl e louco dela entrasse em colapso ao perceber que ele estava arrependido de tê-la beijado.

— Tudo bem, James. — Ela respondeu, tentando parecer firme enquanto que, por dentro, sentia várias emoções tomarem conta de seus sentidos. — Está... tudo bem.

— Tem certeza? — Ele parecia enormemente aliviado. — Quero dizer, tem certeza de que não vai acabar ficando irritada pelo que eu fiz? As coisas não vão ficar estranhas entre nós? Eu gosto de você, Lily, não queria ter estragado tudo desse jeito. Eu... me sinto péssimo por... — Mas Lily o interrompeu, antes que ele dissesse novamente quão arrependido estava de beijá-la e ela acabasse entrando em depressão. De forma irracional, sentiu a irritação que sentira ao ver Vernon e Bellatrix, retomar com força total, mas, daquela vez, a ira estava direcionada para James Potter, fazendo com que ela quisesse pular no pescoço dele. Cerrou os punhos.

— Tudo bem, James. — E talvez o tom de sua voz tenha transparecido sua irritação, porque o garoto arqueou uma sobrancelha para ela, curioso diante da reação da garota.

— Okay. — Ele respondeu e então ficou em silêncio, apenas a encarando.

Eles continuaram assim, Lily sentindo-se tremendamente irritada, sem conseguir entender porque se sentia daquele jeito, enquanto tentava desesperadamente arranjar uma forma de fazê-lo sair dali sem acabar pulando no pescoço dele para... bem, ela não conseguia decidir se iria estrangulá-lo ou se apenas o beijaria novamente. As emoções eram intensas demais, conflitantes demais.

James, parecendo achar graça da expressão dela, sorriu. E, é claro, ela explodiu.

— Na verdade não está nada bem! — Exclamou, descruzando os braços e começando a andar de um lado para o outro como sempre fazia toda vez que estava agitada. — Eu não consigo te entender! Numa hora você quase me mata por causa do cachorro, na outra vira o vizinho simpático e logo depois decide que é uma boa ideia sair me beijando por aí!

— Eu... — James começou a falar, mas ela não lhe deu espaço. Jogou as mãos para cima, deixando toda frustração que havia em seu peito jorrar através de sua boca.

— Você tem noção, a mínima noção, do quanto tudo isso é louco para mim? — Encarou-o, furiosa. — Você faz ideia do estado do meu emocional? Você faz a menor ideia do que as últimas semanas têm sido para mim? — Apontou para ele. — Quer saber, James Potter? Eu acompanho aquela droga do seu canal desde que você começou a postar aqueles vídeos idiotas de minecraft e formaturas. Eu passava horas assistindo e rindo com você e os seus amigos, imaginando como deveria ser viver entre vocês. O tempo passou e o canal cresceu, o conteúdo mudou, seus amigos viraram youtubers como você e eu acompanhei todos eles também, até mesmo os vídeos de futebol do Peter – sendo que eu não entendo nada de futebol – e aí, de repente, alguém se muda para a casa ao lado e, quando vou olhar para ver que diabos está causando todo aquele barulho, me deparo com você! E, claro, como se não bastasse, eu precisava passar vergonha atrás de vergonha todas as vezes que você estava por perto e, pasme! Você sempre estava por perto! Você tem noção, a mínima noção, da coincidência que é você ter se mudado para a casa ao lado a de uma das suas maiores fangirls e, depois, como se não bastasse, ainda ser convidado pela mãe dela para almoçar na sua casa?

Lily fechou os olhos, sentindo-se tremer por completo, sabendo que iria acabar se arrependendo do que estava falando, mas sem conseguir se conter. Ela nunca conseguia se conter quando estava na presença de James Potter, pela força!

O garoto a encarava praticamente sem piscar, observando-a caminhar de um lado para o outro sem parar.

— Juro, por Vader, que não faço a menor ideia de como não pulei no seu pescoço quando te vi parado no hall da minha casa, sorrindo e dizendo “oi, Lily”, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Eu estava surtando. E, é claro, você tinha de ser supersimpático e sentar no meu lado, conversar como se fosse a coisa mais natural do mundo e não “aí, meu Vader, meu ídolo está sentado do meu lado, vou morrer!”. —Respirou fundo, tentando se acalmar.

— Isso é...

— Vergonhoso. — Lily completou, voltando a caminhar. — Céus! E ainda teve todo o caso da Odette e do Padfoot que, por Vader, foi um desastre! Isso para não falar em todas as outras vezes que eu tive de fingir que não queria sair pulando e stalkeando todos vocês, porque, é claro, não bastava apenas você ter se mudado para a casa ao lado, seus melhores amigos youtubers, de quem eu também sou superfã, precisavam vir visitá-lo. — Parou de andar, voltando para encará-lo. — Você não tem a menor ideia do quanto não está nada bem para mim, James Potter. Eu estou extremamente confusa sobre o que eu sinto e sobre minha sexualidade, mas eu não entendo, por Vader, onde diabos beijar o meu ídolo pode se encaixar como ajuda. Eu estou surtando! Surtando! E agora você vem me pedir desculpas por ter me beijado? É quase pior! Você está, literalmente, acabando com qualquer resquício de sanidade que eu tenho. Você e esse bando de loucos que você chama de amigos! — Deixou os ombros caírem, sentindo-se extremamente esgotada. James parecia totalmente estupefato depois da explosão dela, a expressão em seu rosto era a de quem tentava assimilar tudo o que ela havia falado nos últimos segundos. — Por Vader, James, o que você quer de mim?

Segundos de silêncio pareceram se estender para além da força. Lily sentia como se, naqueles poucos segundos de tensão, o mundo inteiro tivesse girado várias vezes. E então James se aproximou e ela sentiu o perfume dele preencher todo o ar em volta dela, como se fosse uma parede que a estivesse prensando e não houvesse para onde fugir. Não que ela quisesse, é claro.

Ela sabia que deveria parar o que estava prestes a acontecer – de novo – mas não havia forças dentro dela que a ajudassem a fazer uma coisa daquelas. Afinal, por mais que negasse, tudo em que havia pensado nos últimos dias, tudo com o que havia sonhado desde aquela noite de sábado, era em ter os lábios de James Potter sobre os dela e ali estavam novamente, próximos o suficiente para que Lily conseguisse contar cada sarda no rosto do garoto, o suficiente para que suas respirações entrecruzassem. Ela podia sentir o gosto da boca dele, ainda vivo em seus lábios, e viu-se ávida para repetir a dose.

E então ele terminou com os últimos centímetros de distância, puxando-a com uma mão pela cintura, enquanto a outra subia até seus cabelos, segurando-os de modo que aprofundasse o beijo. A zoeira na cabeça de Lily diminuiu até sumir, deixando em sua mente apenas as sensações que James causava sobre ela. Cada célula em seu corpo parecia suspirar de alívio com a proximidade, como se houvessem estado em abstinência por tempo demais e finalmente, depois de um doloroso período de tempo, pudessem sanar a necessidade absurda que haviam dentro de si.

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Lily ergueu uma mão para os cabelos dele, enquanto que com a outra arranhava seu pescoço. Ouviu-o suspirar e então sentiu a palma quente e macia do garoto tocar na pele exposta de suas costas, por dentro do casaco, acariciando-a até a barra do cropped e então voltando a descer.

O calor tomou conta do corpo e da mente de Lily, de modo que aquele não era mais apenas um beijo, mas sim um acúmulo de necessidades.

James baixou a outra mão para que pudesse ficar com as duas acariciando suas costas, segurando-a com firmeza e puxando-a ainda mais contra si. Ela soltou um gemido rouco ao perceber que eles não iriam parar. Que não queria parar. Que não podia parar.

Mas, claro, tudo o que era bom – pelo menos na vida de Lily – nunca durava muito tempo.

Fazendo-a xingar a força muito mais do que jamais pensou que fosse possível, sua mãe bateu na porta. E entrou.

Como se fossem dois imãs de polaridades iguais, os dois se separaram, pulando para longe um do outro.

Lily sabia que seu estado e o de James, assim como as respirações ofegantes e toda a bagunça em que eles haviam se transformado, não passaria despercebido aos olhos de sua mãe. Na verdade, ela sabia que aquilo não passaria despercebido nem para alguém cego, portanto não havia surpresa alguma ao deparar-se com os olhos arregalados de surpresa de Helena Evans encarando-a, incrédulos.

— Oi, mãe. — Lily conseguiu dizer, sentindo uma imensa vontade de virar um avestruz e enterrar a cabeça no chão para nunca mais sair.

— Ah... — Helena olhou de Lily para James e suas bochechas avermelharam, mas ela teve a decência de não falar nada. Ainda. Lily sabia que, na primeira oportunidade, sua mãe iria cair sobre ela querendo saber que diabos estava fazendo com o vizinho. Quer dizer, um final de semana antes e sua mãe jurava que ela estava namorando Sirius Black. A cabeça de Helena deveria estão tão confusa quanto a dela própria. — Sua amiga, Emme, está lá embaixo. Ela disse que veio te buscar.

— Emme... — Lily repetiu, sentindo o horror tomar conta de seu corpo ao perceber o que havia acabado de fazer. — Diga para ela que eu já vou.

— Certo. — Helena concordou, lançou mais um olhar desconfiado para os dois e então saiu.

Somente quando ouviu a porta fechar e o som de passos descendo pelas escadas, indicando que sua mãe estava longe, é que Lily tomou coragem de erguer os olhos para encarar James Potter.

E, por Vader, preferia não tê-lo feito.

Notas finais
Capítulo betado pela linda e maravilhosa July Evans ♥ —_____________________________________________ Uasaaaaaaaaap, gente? Tudo bem? Aaah, então, era para o final ter sido bem diferente, sem beijo, mas estava escrevendo, vi a oportunidade e não é que encaixou perfeitamente no negócio? Até fiquei com calor aqui :v Espero que não se importem com essa pequena mudança uheueh ♥ Amores da minha existência, não esqueçam de me contar o que estão achando, certo? É sempre muito bom vê-los por aqui. Para quem quiser mais informações sobre as fanfics, data de postagem, SPOILERS ou só bater um papo comigo, estou sempre nas redes sociais: Twitter: @prongsnitch e no face: https://www.facebook.com/groups/millerfics/ Me sigam/adicionem por lá! Eu sempre estou disposta a bater um papo com os leitores, sem falar que solto muito spoiler e novidades nas redes sociais ♥ Amo vocês! Beijinhos e até breve ♥