Family
1 He is different everyday
Notas iniciais
Rose Willard
27 de Novembro de 2015
Há três meses atrás, na época em que o café há dois quarteirões da lanchonete e cafetaria do Bill ainda não havia sido concluído, nós tínhamos muitos mais clientes dispostos a tomar café expresso e experimentar os nossos hambúrgueres. Os universitários continuavam frequentando o café — o preço dos tópicos do menú são relativamente aceitáveis — entretanto, não lucrávamos tanto quanto antes.
Inanna, Vane e eu almoçávamos no café durante o nosso horário de almoço. Nós dividíamos um apartamento nos subúrbios de Bronx, pagávamos o nosso Fiat 127 compartilhado às prestações e éramos amigas há cinco anos.
Inanna e eu trabalhávamos no café do Bill durante o Verão, e disputávamos qual de nós arranjaria a maior gorjeta. Conhecemos Vane na décima semana no café. Nós costumávamos ajudá-la a flertar com um universitário que assiduamente aparecia para o almoço. Harry — o elegante jovem de olhos castanhos — era gay, entretanto.
Ofereci uma xícara de chocolate quente à Vane. Ela faz uma careta enojada, confessando ter retirado o chocolate da sua dieta. Inanna olha para Vane, abismada.
— O chocolate contém uma composição complexa, mais de 300 substâncias químicas diferenciadas e muitos nutrientes importantíssimos para o organismo. Você não precisa cortá-lo e, talvez, moderá-lo. — Vane possuía tendências anorécticas. Confessou, após suspeitarmos que ela andava jogando seu jantar no lixo, que durante parte da infância e adolescência recusava alimentar-se de qualquer coisa, apavorada com a hipótese de ficar gorda.
Inanna ajudou-a a superar o seu trauma por comida com paciência, convencendo-a a frequentar nutricionistas e psicólogos. Agora, ela é bastante confiante sobre o seu corpo e aparência. Entretanto, não é o suficiente.
Vane segurou a xícara e, convencida, tomou o líquido ardente tão depressa que queimou a língua. Inanna acompanhou-a, servindo-se de café e torta.
— Onde está o Henry? — Olhei para o relógio, somando treze ao horário actual. — 13:23 + 13:00 = 02:23 horas. — Como qualquer ser-humano normal, após cansativas horas de viagem até Tokyo, Henry não estaria acordado ou disposto a telefonar.
— Dormindo. — Sugiro. Não conversávamos há horas. Nós éramos particularmente e maravilhosamente alternativos. Não costumávamos telefonar ou trocar mensagens de texto. A comunicação não é o princípio do nosso relacionamento. Nós estávamos juntos há três anos. Dizê-lo em voz alta parecia estúpido, mas não compartilhávamos absolutamente nada.
— Você não está interessada nele? — Inanna nunca foi envergonhada, questionando-nos tudo tão directamente. Nós admirávamos a coragem, apesar de colocar-nos em situações bizarras como esta.
— Estou, é óbvio. — "Não parece óbvio" a expressão pacífica-agressiva sugere não apresentando qualquer resquício de vergonha. Vane, dando-me alguma trégua, prefere não argumentar. — Nós não temos pressa. Henry está ocupadíssimo, não posso culpá-lo. —
— Não, não pode culpá-lo. — Inanna balança os seus ombros, tão indiferente à situação. — A culpa é sua, Rose. — Acusa, desinibida. Não é a primeira vez que debatíamos sobre o meu relacionamento com Henry.
Vane e Inanna ajudam-me a guardar os copos e pratos da máquina de lavar. Inanna, mal-humorada, despede-se sem poupar os meus ouvidos das suas reclamações. Vane leva as chaves do Fiat 127 consigo. Até às três e quarenta e sete o café está vazio e silencioso. Coloco Britney Spears no rádio e aprecio as músicas.
Noran Herman é o primeiro cliente, às três e cinquenta. Faço café e sirvo uma fatia de torta, ele come e paga, como sempre. Dez minutos depois, Mr.Danis e a sua gentil esposa, Harriet Danis, pedem café e torradas para as suas três filhas, antes de levá-las à escola. A movimentação é monótona hoje, ontem e amanhã. O café não lucra como antes.
Às cinco e trinta e sete horas, chega a parte favorita do meu dia. James e Eva Crawford, sua filha, aparecem após uma cansativa — e bastante produtiva — tarde nas Indústrias. Os Crawford são, sem dúvida, os meus clientes favoritos. Diferente de Noran ou Mr.Danis, pedem o menú e escolhem algo diferente e inovador.
— Fiz torta para vocês. — Coloco os pratos sobre o balcão, à frente de James e Eva. James não hesita e, após agradecer a generosidade, leva uma garfada de torta de limão até a boca. Coloco um guardanapo no peito de Eva, evitando vê-la suja após terminar de comer.
— Comestível. — Crawford avalia, rigorosamente. Eva, tão idêntica a James, é tão ou mais crítica do que ele. Ela sorri, com os polegares para cima. — Como foi o seu dia, Rose? —
— Monótono. — Balanço os ombros, estendo-lhes guardanapos. James limpa o canto dos lábios, entregando-me o seu prato vazio. Eva pede lápis e canetas, e faz um desenho bastante criativo no menú. James olha para o meu pulso, onde carrego a pulseira de missangas coloridas.
— É muito gentil, usá-la todos os dias. — Os seus dedos tocam os pingentes pulseira, encostando-se ao meu braço. — Eva se esforça bastante para fazê-las. —
— Elas são lindas. — Olho para a pulseira. Eva, como uma doce garota de cinco anos de idade, gosta de bijuterias e acessórios. No dia do meu aniversário, ela me oferece uma pulseira nova e com mais pingentes do que a anterior. Eu coloco uma pulseira de manhã, todos os dias.
— Também sente que está velha quando repreende uma criança por comer chocolates antes do jantar? — Pergunta. James tira o seu paletó e coloca-o sobre o balcão, chegando as horas no seu relógio. O seu jeito metódico era enervante. Ele parecia um robô.
— Vejamos, não. — Nego, colocando o avental sobre a bancada. James está com atuais vinte e nove anos de idade. Orgulhosamente, tenho três anos a menos do que ele. — Aliás, eu costumo deixar a sua filha comer chocolate antes do jantar. —
— Você contribui para o meu sentimento de envelhecimento precoce. —
— Não está velho, James. Três décadas são absolutamente nada comparado à vida inteira. — Aprecio motivá-lo emocionalmente. A sua expressão suaviza e os seus olhos sérios ganham algum brilho. Subtraímos mil oitocentos e vinte e seis dias, na época vitoriosa de James Crawford.
Não havia Eva, Amber ou problemas com a velhice que se aproximava. Naquela época, ele acreditava que jamais iria envelhecer. Não existiam responsabilidades paternas, absolutamente nenhuma. Mas eu prefiro James como ele é, agora. Com a Eva ao seu lado e, de acordo com ele, quase velho. — Você poderia ser menos tedioso. Não sentiria a velhice tão depressa. —
— Não sou tedioso, Sra.Willard. — "Sra.Willard". Imaginei-me com quase trinta anos. Ao lado de Henry, casada e à espera de um filho. Ou talvez modelando em Londres.
— Sim, você é! — James está indignado, com o orgulho ferido pela sua filha ainda tão jovem. Impeço as gargalhadas que quase saem, involuntariamente. Não queria parecer indelicada ou mal-educada. — Principalmente, quando você pede que eu seja legal com as suas namoradas. "Não, Eva. Você não pode desenhar na bolsa da Emma." ; "Eva, é indelicado chamar a Verônica de bruxa do Oeste." ; "Você não pode colocar cocô no sapato da Chloe". Você parece o vovô. —
O seu bom-humor parece ter-se dissipado rapidamente. Conhecendo-o tão perfeitamente, sei que está prestes a colocá-la de castigo. Ela o encarava de igual para igual, desafiando-o. Não havia dúvida que James e Eva eram pai e filha.
Coloco as mãos sobre os ombros de ambos, tranquilizando-os.
— Não é certo o que está fazendo, Eva. — Dou razão ao Crawford, deixando-a entristecida. Abaixo-me até a sua altura, encarando-a de forma doce. Não há dúvida de que os meus conselhos seriam melhor recebidos do que os dele. — Não pode colocar cocô no sapato da Chloe, embora isso seja extremamente divertido. —
— É muito divertido, Rose. —
— Você deveria dar uma chance à essas mulheres. Se for legal com elas, serão legais com você. — Ela suplica para que eu não lhe peça para ser gentil. Pergunto-me quem serão essas três mulheres.
— Emma, Chloe e Verônicobra não são tão gentis quanto você. — Nós abraçamos uma à outra. Eu tento consolá-la e, eventualmente, Eva adormece em meus braços. Inanna e Vane voltam ao café, tomando o início do terceiro período de trabalho. James oferece-se para me conduzir até o apartamento, enquanto eu embalo a sua filha até o carro.
— Obrigado, Rose. Você é muito importante para Eva. — A sua mão envolve gentilmente o meu pulso, tocando na pulseira de missangas. — E para mim, é claro. —
— A sua filha também é importante para mim. —
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