Family
2 Am I a Affair?
Notas iniciais
Rose Willard
29 de Novembro de 2015
À quinta-feira, durante o primeiro horário de funcionamento, Amy Lee — a funcionária recém-contratada — e eu discutíamos possíveis alterações no menú. Os clientes haviam sugerido opções novas, semelhantes aos produtos que eram servidos no café há dois quarteirões. Nós telefonamos ao Bill e, após escutá-lo resmungar como o velho que é, Amy Lee o convenceu a liberar o dinheiro para mudanças.
Nós precisávamos transformar o café 'num lugar acolhedor, e colocaríamos novas mobílias e papel de parede no orçamento. Bill era tão endinheirado quanto os proprietários do café há dois quarteirões, só que não era capaz de gastá-lo em algo útil e lucrativo.
Amy Lee decidiu procurar alguma ajuda profissional, nós compramos papel de parede e novas decorações, intencionadas em remodelar o café utilizando o melhor de nós. As obras começaram no sanitário masculino, um crime à higiene e saúde. Encontrávamos coisas obscuras ali, no cubículo revestido por azulejos.
— Isso é tão nojento. — Escutá-la resmungar deixava-me divertida. Amy cuidava da limpeza das áreas que seriam remodeladas e, após o turno nocturno ser encerrado, o arquitecto contratado por Bill apareceria.
Inanna faria aniversário em pouquíssimos dias e, tão excitada com os seus vinte e sete anos quase-completos, organizou uma viagem por alguns países situados na Europa. Áustria, Suíça, Alemanha, Polónia e, completamente fora do território central, a Noruega e a Suécia. Ela ficaria hospedada em Oslo, no apartamento da meia-irmã, e em uma albergaria em Estocolmo.
— Olha, você é sortuda por ter ganhado o "cara ou coroa". — Suspirou, decepcionada. Nós nunca queríamos limpar os vasos sanitários, e tirávamos a condenada através de jogos de sorte e azar. — Nunca mais quero ver um cara na minha frente. — Rimos com o seu jogo de palavras, enquanto Hailee questionava se eu considerava aquilo como uma brincadeira.
— Rose? — A porta bateu e, apressada, coloquei o avental preso à cintura. — Nós precisamos que você veja isso. — Harry — o universitário gay — apareceu, acompanhado por Vane, Inanna e o seu noivo, Thom. Inanna carregava uma expressão orgulhosa, enquanto Vane e Harry demonstravam-se confusamente intrigados. Thom, sob efeito de marijuana, acena e abre um sorriso para Amy e eu.
Nós aproveitamos o período monótono do café e, inquietos, sentámo-nos sobre o balcão que dividia a cozinha da área das mesas e cadeiras. Harry jogou a revista da Mahattan Magazine, deixando-a sobre os meus joelhos.
— Você vai enlouquecer. — Vane toma o café servido ao balcão, colocando o seu casaco de pelo cor-de-rosa pendurados ao lado da porta de entrada.
Olhei para a revista e procuro por alguma informação chocante no índice. Taylor Swift está envolvida com Chris Brown? Beyoncé proíbe Blue Ivy de se envolver com North West? James Crawford e o seu novo affair?
Olho para Harry, Inanna e Vane questionando-os a importância dos tópicos aleatórios enumerados na coluna do índice. A Manhattan Magazine não é fiável, é uma revista fútil que transforma qualquer coisa 'numa notícia escandalosa.
— Página 23, observe-a atentamente. — Amy Lee passa algumas páginas, e encontra a número 23. Nós lemos o primeiro parágrafo inteiro, intrigadas. James Crawford (...) empresário atualmente solteiro (...) ex-namorado de Taylor Swift, Ivy Monroe, Mandy Seafod e Kara Davis (...) acompanhado de Eva Crawford (filha) adormecida aos braços do seu possível novo affair (...) é uma jovem diferente da qual vimos semana passada.
— Caramba, ex-namoradas admiradas pelo público e alta-sociedade. Ivy Monroe e Kara Davis? — Amy passa os olhos pela fotografia de James, concluindo o porquê dele ter tantas ex-namoradas. — Ele é atraente 'pra cacete. —
— Olha a fotografia. — Harry está impaciente com as avaliações feitas a aparência de James. Analisamos as imagens em sequência. James coloca as mãos sobre os meus ombros, enquanto Eva dormia no meu peito.
— Hã? Eu sou um affair? — Hã? Apropriava-se perfeitamente. Amy Lee observou-me, intrigada, sugerindo que eu explicasse o porquê 'deu estar na fotografia.
Não explicaria nada a ninguém, e não tínhamos absolutamente nenhum tópico aesclarecer. Talvez, eu fosse a única com razão suficiente para pedir alguma explicação. Deveria mandar uma mensagem de texto para James, avisando-o sobre a edição da Manhattan Magazine. Nós poderíamos pedir gentilmente que desmentissem os boatos.
— Você 'tá dormindo com esse homem, Rose? — James Crawford é atraente e, sem dúvida, um possível parceiro sexual. É claro, se não estivéssemos com Henry ou Verônica, Chloe e Emma. — Porquê você não disse que está envolvida com o milionário gostoso? Nós não íamos julgar você. —
— Mas você está se iludindo. — Amy Lee, cópia à cores da Inanna e Harry, não reflectia sobre os absurdos que, inconscientemente, falava. Vane não hesita ao repreendê-la, sendo mal-recebida. Amy coloca o casaco na cadeira, os seus olhos negros não aparentavam agitação. — Vá se foder, Paris Hilton. —
— Paris Hilton? Isso não é uma ofensa. —
— Ela xinga os homens, chamando-os de "gay". Gay não é uma ofensa, mas pessoas que dizem como se fosse são nojentas. — Harry e Amy Lee olham-se, contentes. Vane parece pouco contente com a conversa tão ofensiva a seu respeito.
— Tanto ela como você generalizam algo. Você acabou de usar Paris Hilton para tentar me insultar, insinuando indirectamente que através da cor dos meus cabelos, da minha aparência física e do facto 'deu seguir a Vogue Magazine no Instagram fazem de mim alguém homofóbico. Reveja a sua forma de corrigir alguém. — Amy Lee voltou aos sanitários, zangadíssima. Vane sentia-se absolutamente ofendia e, consequentemente, enervada. Inanna colocou a mão sobre o seu ombro.
— Hã, olha só — Coloco a revista no meu colo, observando-a atentamente. Manhattan Magazine foi a única revista que sugeriu Hailee Baldwin como um possível usuário de drogas, Justin Bieber como homossexual e que Cara Delevigne dormia com Jhonny Depp. — Eu e o James não somos absolutamente nada. —
— Porque você não quer. — James ajuda Eva a tirar o seu casaco felpudo, sentando-a sobre os bancos altos do café. Já tínhamos passado da hora. Amy Lee voltou à área de restauração, procurando ver James pessoalmente.
— Nossa. — Ouvimos a sua exclamação, chocada. — Você é bastante atraente, Mr. Crawford. — Inanna e Harry caíram na gargalhada, indelicadamente. Eva voltou-se para mim e, sorridente, pediu uma folha e algumas canetas.
— Obrigado Senhorita Stewart. — Vane virou-se para ele, acenando solidariamente. James parecia incomodado com a presença de tantas pessoas no café. Eva, entretanto, cantarolava a canção que aprendeu com a sua professora, ontem.
— Você sabe o meu nome? — Amy olhou para ele, contente. James apontou para a parede à sua frente, onde Bill havia pendurado as fotografias dos funcionários do café. — Ah, tá. Eu já sabia, era só uma brincadeira. —
— Alguém 'tá morrendo de amores. — Vane sussurrou, provocando-a. Amy Lee rouba o seu café, bebendo-o rapidamente.
— Alguém 'tá querendo morrer. —
— Hã, James — Vou atrás dele, levando comigo o exemplar da Manhattan Magazine. Entrego-lhe a revista, ligeiramente amassada, enquanto Harry, Inanna e Amy prestam atenção aos seus gestos e expressões. — Página 23, leia todo o artigo. —
— Blá, blá, blá (...) Taylor Swift (...) Blá, blá, blá novo possível affair (...) Ah, é você na fotografia. — Apontou, constatando o óbvio tranquilamente. Perguntei-me se não o ouviria resmungar ou, simplesmente, xingar a mídia devido à essa confusão. Harry olha para nós, indignado. Óptimo, James 'deu-lhes a entender que nós tínhamos algo além da cumplicidade alimentada pelo facto da sua filha ser bastante afeiçoada a mim.
— Não sou um affair, James. — Comento, balançando-me com agitação.
— Não, mas você poderia ser minha namorada. — Sugeriu, balançando as mãos com algum humor. Humor? James Crawford não era alguém com muito bom-humor.
— Você 'tá brincando? Eu tenho namorado, James. O que ele vai pensar quando voltar do Japão e descobrir que a namorada dele é o affair do James Crawford? — Harry vestiu o seu casaco e, acompanhado por Thom, despediu-se de nós todos com um aceno, explicando algum compromisso com a sua família.
— "Caramba, até a minha namorada preferiu aquele cara"? — Amy Lee e ele sorriram, cúmplices. Qual é o seu problema? Nós precisávamos esclarecer essa desastrosa confusão urgentemente. — Desculpa, Rose. Eva e eu tivemos uma óptima tarde, hoje. Mas eu farei o possível para retirar essas informações da mídia, é uma promessa. —
— Obrigada, James. Isso é muito importante para mim. —
— Não há de quê. — Sorriu, colocando as mãos sobre os meus ombros, gentilmente. — A proposta ainda está de pé, entretanto. —
— Crawford, eu não estou disponível. Nem você, aparentemente. — Inanna e Vane atentam disfarçadamente o nosso diálogo, tomando o café expresso servido na garrafa térmica. Amy Lee varre o chão distraidamente. Eva, ainda que absorta no seu desenho, prestava atenção à nossa conversa.
— Emma, Chloe e Verônica não descobrirão. — Jurou, sorrindo sedutoramente. — E eu não sou ciumento. —
— Você é muito ciumento. — Eva coloca os lápis no estojo, limpando o desenho com as suas mãos sujas de chocolate. James olha para ela, indignado. Amy Lee morde o seu lábio inferior, expressando alguma sensibilidade. — Porquê não me deixa convidar o Sean para dormir lá em casa? Você disse que a mãe dele é bonita! —
— Porque o Sean é um garoto. — Inanna sorri, achando engraçada a expressão irritada de Eva. James e a sua filha discutiam frequentemente, e ela ainda não chegou na adolescência. Eva é uma garotinha bastante atrevida e, ainda assim, perigosamente parecida com o pai.
— Você também é um garoto, e vai dormir na casa de outras garotas. — Amy Lee dá risada, chamando a atenção de alguns clientes que entravam no café. Ela foi atendê-los, sorrindo exageradamente.
— Eva, isso não é uma conversa apropriada. —
— Porquê você não nos ajuda a cortar a torta de limão, hã? — Inanna propõe, guiando-a até a cozinha. Vane a acompanha, colocando o avental. James agradece, desapertando o nó da gravata.
— James, você deveria ser mais cuidadoso com as suas relações. Eva é uma criança, ela não entende o que você faz com essas garotas. E ela precisa da mãe. — Parecia atrevido aconselhá-lo como se fossemos íntimos. Mas, sinceramente, eu o conhecia tão bem que quase poderia considerá-lo um amigo. Quase.
— Ela não precisa da mãe, Rose. —
— Sim, ela precisa. — Entrego-lhe um desenho feito por Eva, amassado nos bolsos do meu avental. Estávamos eu, sentada num sofá cor-de-rosa, Eva e James, abraçados lado a lado, e próximo de Eva, Amber.
Não era propriamente a ex-namorada de James, Amber. Talvez, nós devêssemos chamá-la "A mãe". No desenho, Eva coloriu o seu cabelo de azul turquesa e pintou os seus olhos com cores diferentes, amarelo-limão e vermelho. Com o lápis roxo, escreveu "Mãe" sobre a sua cabeça. Ela não sabe como é a sua mãe e é provável que desconheça o seu nome.
— Rosalie, nós não precisamos da Amber. — Rugiu, irritado. Coloquei as mãos sobre os seus ombros, sacudindo-os rapidamente.
— Eva só tem você, James. Às vezes, isso é insuficiente. —
— Você está aqui. — Os seus olhos buscavam algum apoio emocional, mas eu não poderia comprometer os meus planos. James precisava de mim tanto quanto Eva, mas eu não permitiria que ele me prendesse à sua vida. Afinal, eu não ambicionava cuidar da sua filha enquanto ele dorme com outras mulheres. Eu amava a sua filha, mas eu não poderia ser a sua mãe.
Além de que, eu tenho o Henry. Embora ele parecesse insignificante, agora.
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