Famiglia Vargas

7 Capítulo Sete: À sombra do Girassol


Notas iniciais
*entra de fininho*
... Oi? Séculos depois a autora está de volta =]
Sinto que fui abandonada, mas vale a pena tentar.
Eu realmente sinto muito pela demora e prometo explicar tudo bonitinho nas notas finais.
O capítulo hoje na verdade não vai se passar nem mesmo na Itália, mas eu espero que vocês aproveitem, porque vai ser importante pra história.
E pra falar a verdade, o título do capítulo poderia ser lido tanto 'A sombra do Girassol' quanto 'À sombra do Girassol'... Escolham o que acharem melhor xD - as diferenças que uma crase não faz

Beijinhos meus anjinhos, e boa leitura. ♥

A garota ergueu-se, tirou as luvas e deixou-as na terra, próximas às rosas que vinha plantando, antes de sair do jardim e caminhar na direção da casa. O vento balançou a árvore debaixo da qual ela estivera até o momento e uma rajada de folhas secas caiu a sua volta e sobre ela lentamente.

E foi quando Toris chegou. Natália não fazia ideia do porque do rapaz insistir em falar com ela. A loira não gostava dele ou de sua presença, e apesar de já ter deixado aquilo claro para ele antes, o rapaz parecia não compreender que deveria manter-se longe dela. Provavelmente por esse motivo ele ostentava um sorriso gentil ao se aproximar com um casaco.

–... Está frio aqui fora.

– Eu já estou entrando, não preciso disso. – Ela falou, mais por força do hábito do que pela irritação inicial.

– Oh... Então que bom. Ah sim, Senhor Ivan disse que vai querer falar com você quando você sair do banho. E também que seria bom se você não pegasse um resfriado logo agora.

–... Quanto tempo eu tenho? – Ela resmungou, ignorando a segunda parte.

– Umas duas horas antes de ele se aborrecer, eu acho.

Natália bufou. Não tinha tempo para papear com o criado. Virou-se e entrou na casa apressadamente, soltando o cabelo do coque que usara até o momento enquanto corria escada acima, na direção de seu quarto e, consequentemente, seu banheiro. Sentiu-se extremamente irritada ao perceber que Toris a seguia.

– Senhorita... Natália... Tem mais... Ah, espere um pouco! Tem mais uma coisa!

Ela parou e encarou-o, cada segundo mais impaciente.

– Só um... Me dê um momento. – Ele respirou fundo por um tempo, apesar do olhar assassino dela deixar claro que ela não dera momento nenhum para isso. – O encanamento do seu quarto estourou... Se você-

Ela estalou a língua. O dia estava ficando problemático. Que se dane, foi o que pensou. Eu quero relaxar e fingir que o resto do mundo explodiu por um tempo, posso?

Não, ela não podia. Porque um pedido de Ivan, é uma ordem.

– Onde temos uma banheira funcionando?

Ela seguiu para o lugar que Toris rapidamente indicou, passando no quarto no caminho para pegar suas coisas. Assim que entrou no banheiro e trancou a porta, soltou um suspiro alto e sentiu toda a pose que fizera até agora se destruir.

Não é como se Natália sorrisse o tempo todo, ou fosse agradável ou até mesmo educada. Mas na visão da sociedade ela era o que as pessoas poderiam chamar de ‘bem nascida’ e isso contava pontos ao seu favor. Se somassem aquilo com sua beleza singular e suas habilidades diversas, ela era – no mínimo – uma boa candidata.

Abriu um sorriso nem um pouco feliz enquanto deslizava para baixo a calça que usava e observava a banheira encher-se rapidamente com a água quente.

Sim, Natália era uma mulher encantadora... Aos olhos das pessoas erradas.

Antes que percebesse já estava mergulhada até os ombros com os cabelos colando nas costas e os olhos quase se fechando por culpa do ambiente morno. Além do som da água se movendo quando ela também o fazia, tudo era silêncio.

Sorriu. Natália gostava do silêncio. Ele lhe trazia a paz que ela buscava, e ajudava sua mente geralmente caótica a simplesmente desligar, ou então organizava seus pensamentos confusos, mesmo que aos poucos. Mergulhou completamente na água quente.

Depois de algum tempo ela abriu os olhos e observou a forma com que as pequenas bolhas subiam lentamente e estouravam ao entrar em contato com o ar quente do banheiro. Sua visão estava turva por culpa da água e seus pulmões suplicavam por ar, mas ela não sentiu vontade alguma de emergir.

Hoje era um dia especial, e ela adoraria que as pessoas pudessem se lembrar dele. Não, não era seu aniversário – ela nem se lembrava de ter um – ou o de qualquer outra pessoa, mas ainda assim, era um dia especial.

Aquele era o dia em que, dez anos atrás, seu salvador aparecera e lhe ajudara a renascer. Pode soar um pouco exagerado, mas era exatamente como ela se sentia, porque era o que Ivan representara para ela na época.

Sua salvação.

A memória de Natália de sua vida antes de conhecer Ivan lhe era confusa e apagada. Por outro lado, ela se lembrava perfeitamente bem de quando se conheceram.

“Eu não sabia que me pai era capaz de ter duas meninas tão bonitas... Velho sortudo ele, não acha?”

Ela lembrava-se de tê-lo encarado como se fosse louco. Na realidade, não se lembrava de ter sentido nada na época. Ele sorrira e lhe estendera a mão, apesar de ela segurar uma faca nas mãos e quase ter arrancado sua orelha quando ele entrara pela porta do apartamento.

Hoje em dia, preferia fingir que aquele encontro fora como um conto de fadas. Era vergonhoso pensar que ela teria sido capaz de matar o irmão. Na verdade, era impossível.

Ainda assim, ela o respondera com um rosnado baixo e recuando mais ainda para longe de seu sorriso. Os olhos dele eram lilases como os dela, e seus cabelos tinham uma mesma tonalidade, apesar de os dela estarem longos e desarrumados.

Perguntou-se como ele pode chamá-la de bonita quando tudo o que via ao se olhar no espelho era um animal selvagem... Ou talvez um gato de rua. Perdido, assustado e sozinho. Por isso, ela quebrara todos eles – os espelhos, não Ivan.

Ainda assim, o sorriso no rosto dele não se modificou.

“Nós viemos te buscar. Pra te levar para casa.”

Ela não reagiu muito bem a palavra “casa”. Na verdade, lançara nele a faca e gritara que ele podia enfiar a “maldita casa” num lugar muito feio. Ele se desviara com facilidade, mas seu sorriso se fora.

“Agora deixe de ser uma pirralha irritante e colabore. Eu me recuso a permitir que alguém de minha família passe fome.”

E então ele sorrira para ela e saíra pela porta como se não houvesse uma faca pendurada na parede do corredor, agradecendo ao dono do apartamento – que por algum milagre não se mijara nas calças com a precisão assassina da menina – por ter emprestado a ele a chave reserva. Quanto a ela...

Ela fora com ele, é claro.

Depois daquele dia as coisas tornaram-se milhares de vezes melhores. Ela ganhara roupas, uma casa, uma família. Dois irmãos mais velhos e um quarto só pra ela. Era tudo tão bonito, tão maravilhoso.

Que diferença fazia se aqueles eram mafiosos ou não?

Natália tornou-se uma criança sem opiniões, gostos ou preferências. Se tal pessoa gostava desta ou daquela coisa, ela gostaria daquilo igualmente. Sua irmã mais velha, uma descendente de ucraniana chamada Katyusha, era... Estranha.

Desde o primeiro dia de sua convivência na casa, a mais velha pareceu estabelecer entre elas uma relação fraternal que elas só teriam se tivessem vivido juntas durante a vida inteira, o que não era o caso.

Ainda assim, ela aprendeu a confiar em Katy com o tempo, e sua gentileza e amabilidade superavam em muito seus defeitos – como a dificuldade de lidar com dinheiro, por exemplo.

E então tinha seu irmão. Ivan era... Seu tudo.

Do primeiro fio de cabelo à ponta das botas, ela provavelmente o venerava. Talvez por tê-la chamado de bonita quando ela não era capaz nem de se ver como humana, ou por tê-la tirado daquela casa horrível. Ou talvez porque a personalidade deles dois era impressionantemente parecida.

O apego que Natália desenvolveu pelo irmão era levemente extremista. Ivan era uma pessoa independente – como sua posição como líder de um grupo mafioso exigia – e não confiava nas pessoas facilmente como sua irmã mais velha fazia.

Ele demitira – e por vezes até mesmo exterminara – seguranças da casa muitas vezes antes por motivos desde chegar atrasado até traição. Depois de um tempo, Ivan pareceu concluir que o único confiável o bastante para tomar conta da casa, de seus habitantes e dos negócios era ele mesmo. Assim sendo, ele deixou de ter o cuidado mínimo com a própria saúde.

Então Natália decidiu tornar-se a pessoa que cuidaria dele.


Natália piscou, tentando se lembrar do porque de estar pensando em tudo aquilo agora. E então se lembrou de que ainda tinha que ir até o escritório de Ivan e falar com ele, então ela deveria parar de enrolar na banheira e ir se arrumar.


Ergueu o corpo e sentiu como se os pulmões gritassem de alívio ao conseguir renovar o ar. Ela ficou alguns segundos ainda encarando o teto desinteressante e respirando rápido, até que sua mente voltou a lembrá-la de seu compromisso, e a loira sentiu-se obrigada a se levantar da banheira e puxar o tampo, permitindo que a mesma se esvaziasse enquanto ela pisava no tapete.

Passou então a secar o cabelo longo para que não molhasse todo o corredor no caminho até o quarto. Por fim, puxou seu roupão e vestiu-o antes de lembrar-se que trouxera as próprias roupas.

A loira ainda fitou um pouco aborrecida, o conjunto de três calças, quatro blusas e luvas, além da meia de lã de carneiro e a bota de couro forrada. Podia até parecer exagero para alguém de fora, mas o inverno era cruel por ali.

E também, Ivan dissera para ela tomar cuidado. Ele se preocupara com ela.

Mesmo depois de esconder-se dentro de todas as roupas, Natália ainda conseguiu de alguma forma ficar bonita. Ela secou o cabelo no secador e amarrou o lenço listrado num laço perfeito no topo da cabeça.

Finalmente, reuniu toda a sua coragem para sair do banheiro, acompanhada pelo vapor quente do banho de uma hora e meia que tomara. Assim que pisou do lado de fora do banheiro ela estremeceu, sentindo o frio penetrar em suas camadas de roupas.

Ela viu Toris no átrio, mas não chamou a atenção do rapaz nem agradeceu por mais cedo. Natália virou o rosto como sempre fazia e direcionou-se às escadas seguindo para o primeiro andar e tecendo seu caminho pelos corredores aparentemente eternos até chegar a frente à porta da sala de Ivan.

A mão hesitou por um momento antes de conseguir coragem para bater suavemente na madeira. Ela pode distinguir a voz do irmão, mas estranhou ao ouvir também outras pessoas falando. Duas pelo menos. Ivan não gostava de ser interrompido no meio de reuniões, e por esse motivo Natália hesitou. Sua mente, porém, lembrou-a que ela tinha horário marcado e fora chamada ali – além de que, ela estava atrasada, e Ivan gostava menos ainda de atrasos. Por fim, decidiu-se por bater.

– Natália? Entre.

Seu coração falhou uma batida ao escutar a voz composta dele. Mesmo que ela tivesse consciência de estar sendo aguardada, ela ainda demorou mais um segundo antes de respirar fundo, erguer o queixo e girar a maçaneta.

Do lado de dentro do cômodo, em meio a estantes de livros e arquivos e parecendo imponente e importante do lado de trás de uma mesa de mogno, estava o líder da máfia russa.

O homem era alto e com os ombros largos. A linha do queixo era rígida e ele parecia sempre determinado a manter um sorriso gentil e essencialmente falso nos lábios. O porte físico dele por si só já era o bastante para afastar a maior parte dos problemas que geralmente perseguiam aquele tipo de... Homem de negócios. Mas por algum motivo, a mãe natureza ainda decidira dar a ele um par de olhos azuis que na maior parte do tempo retinham um estranho brilho violeta – olhos esses espelhados no rosto delicado de Natália.

O brilho enlouquecido que escondia-se por baixo dos cílios longos da loira, porém, ainda era só dela.

Havia ainda mais dois outros homens na sala. Ela analisou desinteressadamente o rosto redondo e os olhos levemente puxados do chinês – Natália tinha a habilidade impressionante de distinguir as pequenas diferenças entre os asiáticos – e correram pela vestimenta vermelha que ele usava, cobrindo todo seu tronco até pouco depois dos punhos. Ele também usava uma calça branca pouco interessante. Na verdade, a única coisa que chamava atenção ali – além da vestimenta pouco provável – era a certeza de que ele deveria estar morrendo de frio.

Um sorriso levemente sádico ameaçou cruzar seus lábios, mas não chegou a fazê-lo, pois ela voltou sua atenção ao outro rapaz ali presente. Ela sentiu um arrepio nervoso ao perceber um par de olhos cor de mel encarando-a fixamente.

O outro rapaz tinha cabelos quase negros e um fio rebelde que insistia em erguer-se numa voltinha que poderia ser definida como desleixada ou... Charmosa. Não por Natália, claro que não. Ele parecia ser um pouco mais inteligente que seu companheiro, enrolado em um conjunto de blusas térmicas e um casaco de couro marrom, além de um cachecol vermelho. Ele era uma figura exótica, mas não exatamente o que a loira consideraria bonito. E então ela entendeu o porque do repentino nervosismo.

Aquele rapaz exalava exatamente a mesma aura que ela. Seus olhos pareciam expor o brilho fanático que os dela escondiam.

E o mais assustador era que ele parecia perceber que ela viu aquilo, abrindo um sorriso divertido e debochado. Seus olhos se estreitaram e ela inconscientemente buscou por sua arma, enfiando a mão no bolso do casaco para encontrá-lo vazio.

Típico. Ela nunca andava armada em casa. Katy dissera que era uma ofensa à segurança impecável e aos milhares de dólares gastados com a proteção da propriedade e Natália em sua inocência se desculpara.

Agora ela se remoia por não poder enfiar uma bala naquele sorriso irritante.

Um pigarro audível desviou sua atenção de volta ao irmão, que a encarava com uma sobrancelha levemente erguida – talvez ela fosse uma das poucas pessoas na Terra capazes de perceber aquela diferença sutil – provavelmente questionando a um minuto que ela passara metralhando o rapaz quando eles tinham acabado de se conhecer.

– Irmão. – Ela falou simplesmente. A palavra soou como um comprimento e uma questão. O que eles faziam ali?

Ivan sorriu novamente.

– Natália, esses senhores são de uma... Companhia chinesa. A partir de hoje nós estaremos nos unindo. Eu espero que nos demos bem, sim? – Natália não era idiota e percebeu facilmente a forma com que o irmão enfatizou a última frase, deixando sua mensagem clara. Comporte-se.

Foi a vez de Natália sorrir, um sorriso puramente de negócios, mas ainda assim um sorriso.

– É um prazer conhecê-los, senhores...

– Wang Yao. – O chinês apressou-se a se levantar e esticar o braço num gesto mínimo de educação, que a loira correspondeu automaticamente. Eles apertaram as mãos rapidamente antes de Wang recuar e voltar ao lugar que lhe fora destinado.

O outro rapaz observou a forma com que seu chefe voltou a sentar-se e o alívio que ele deixou transparecer no rosto por um momento. Ele quase conseguia imaginar no que Yao estaria pensando agora. Aparentemente ela não é tão ruim quanto os boatos diziam.

Engraçado. Talvez apenas pessoas loucas entendam umas as outras, porque quando ele olhava para Natália via exatamente o que as pessoas diziam. O demônio branco poderia parecer inofensivo, quando visto de longe. De bem longe.

Mas ele era perfeitamente capaz de ver o brilho louco por detrás dos olhos dela, assim como sabia que ela podia ver o mesmo brilho em seus olhos.

– E você seria? – Ela perguntou. Fingindo-se educada e interessada. Ele sorriu.

– Soo. Im Yong Soo. É um prazer conhecê-la, senhorita Arlovskaya. – O sorriso dele era galanteador e ele fez questão de beijar a ponta dos dedos que lhe eram oferecidos antes de recuar.

O brilho nos olhos dela tornou-se particularmente selvagem e furioso. Seu rosto porém abriu-se num sorriso sem graça e puro enquanto ela recolhia as mãos enluvadas e devolvia-as aos bolsos do casaco.

– O prazer é todo meu. E não precisa de tantas formalidades, Natália está ótimo.

– Que ótimo que todos vão se dar bem! – Ivan interrompeu, quebrando o contato visual dos dois e tentando impedir que Natália arrancasse a cabeça de Soo bem ali, com as próprias mãos. – Porque vocês dois vão trabalhar juntos daqui pra frente. E eu espero que voltem os dois vivos para casa na semana que vem.

– Como disse?! – A voz de Natália subiu um oitavo. Ela lançou a Ivan um olhar meio chocado meio aborrecido.

– Ele disse que nós vamos trabalhar juntos, Nat. – Soo quase cantarolou, divertindo-se imensamente ao ver os irmãos russos quase tendo um AVC por culpa do apelido usado. – Não vai ser ótimo?

– Vai ser um prazer, é claro. – Ela respondeu, sentindo-se estupefata com o próprio autocontrole. – Mas, irmão, que tipo de trabalho seria esse?

A verdadeira pergunta era: Quanto tempo eu vou ter que aturar a criatura sem matá-lo? Mas seria rude perguntar algo no estilo.

– Tenho certeza de que você se lembra daquela húngara que eu te apresentei há um tempo.

–... Elizabeta, certo? – Era uma mulher boa. Natália gostara dela principalmente por que a morena não parecia ter desenvolvido qualquer sentimento favorável a Ivan no curto tempo que passara com eles. – Aconteceu algo?

– Na verdade, parece que sim. O marido dela não está... Em casa no momento, e eu acho que você poderia fazer a ela um favor e ir buscá-lo.

– Onde?

– Itália. Aproveite e tire algumas fotos bonitas por mim. Eu já tenho passagens prontas para você ir até a Hungria. A senhora Edelstein vai lhe passar o resto das informações quando se encontrarem.

Ela pensou em dizer Não, obrigada. Pensou em reclamar do tempo que perderia naquilo, ou do tempo que passaria longe de Ivan. Natália sentiu-se hesitante e preocupada com como seu irmão ficaria sem ela por perto.

Mas um pedido de Ivan, era uma ordem.

–... Seria um prazer. Quando eu saio?

– Hoje de tarde.

Encarou-o, sentindo-se levemente surpresa. Porque tão cedo?

– E leve roupas de festa, irmã. Vai participar de alguns eventos... Interessantes.

–... É claro. Se for só isso.

Natália sentiu-se frustrada pela falta de informações, mas não ousou reclamar. Muito menos questionou a presença de Soo na missão. Virou-se e recuou para a porta, sentindo os efeitos positivos do banho quente escorregarem para longe de si.

– Natália! – Ela virou-se para ouvir o irmão. – Essa é uma viagem pacífica. Não queremos problemas. Então não se esqueça de levar apenas o essencial.

Um sorriso divertido e sádico cruzou seus olhos, mas nem seu irmão nem o chinês foram capazes de vê-lo. Ela virou-se e seguiu pelo corredor, inicialmente ignorando os passos leves que seguiam-na por todo o caminho até o hall de entrada, e depois pelas escadas para o segundo andar, e consequentemente seu quarto.

Natália não precisava virar-se para checar que era o coreano a segui-la. Na verdade, se quisesse – e, obviamente, se pudesse –, ela poderia atirar nele sem nem mesmo parar para mirar. Ainda assim ela optou por entrar em seu quarto, deixando a porta aberta, e arrastar-se para o closet onde ela mantinha suas roupas e seus equipamentos. Ela tentou não se importar com o fato de que Soo estava, deliberadamente, invadindo seu espaço pessoal e entrando em seu quarto sem convite. Porque Natália conhecia os tipos como Soo. E ela sabia que estava sendo testada.

E porque Natália não falhava em testes.

– Você tem uns lenços legais aqui. – Ele falou casualmente, puxando o tecido estampado de girassóis sobre a cômoda e ignorando todos os outros ali presentes. – Onde foi que achou esse aqui?

Ela pensou em avançar sobre ele e arrancar o pano de suas mãos, mas não o fez. Na verdade, ela até mesmo respondeu-o, ignorando a expressão surpresa que cruzou seus olhos quando ela o fez.

– Foi um presente. Mas acho que posso descobrir um lugar que venda, se quiser.

Seu tom era irritantemente monótono, e Soo sentiu-se irritado ao constatar que ela estava disposta a conviver pacificamente com ele se fosse necessário... Não. Ela o faria unicamente por ser um pedido do irmão. E isso irritou o rapaz.

– Você não vai arrumar suas coisas? – A loira questionou-o, voltando do adendo com uma pilha consideravelmente pequena de roupas, considerando que ela era uma mulher, e mulheres tendiam a encher duas malas inteiras sem problemas.

–... Minhas malas já estão prontas.

– Plural? – Ela usou certa ironia. – Andar com mais de uma mala não é exatamente prático.

– A segunda delas está cheia de armamento, se quer mesmo saber.

–... Você não vai precisar de tanto. E nem vai passar pela segurança do aeroporto da Itália carregando algo assim.

– E o quanto você pretende levar?

– O bastante. – Ela respondeu simplesmente, ignorando o olhar inquisidor dele e retornando ao closet.

A moça soltou um suspiro e esticou os braços, tentando alcançar a mala azul que parecia cada vez mais longe de seus dedos. Para sua surpresa a sombra de Soo sobrepôs a sua e puxou para baixo a mala, estranhando um pouco seu peso.

–... Obrigada.

– Quantas armas?

Ela soltou um suspiro e puxou a mala até a cama, abrindo-a e surpreendendo o rapaz com uma coleção variada de pistolas e revólveres.

– Escolha um de cada. O material vai passar despercebido pelos sensores. Não leve os cartuchos extras na bolsa de mão e tudo vai ficar bem. – Ela pareceu positiva e prática. Na verdade, ela mesma puxou a RT 82S e a PT 809 e colocou-as lado a lado na cama junto com o resto das roupas.

Soo hesitou antes de pegar os modelos com os quais estava mais acostumado, puxando duas Glock e colocando-as no bolso.

– Não leve elas expostas assim! – Ela resmungou, parecendo aborrecida. Ela puxou para cima o primeiro dos estojos e revelou no fundo da mala uma coletânea dos mais variados itens para atiradores, selecionando dois cintos diferentes e puxando também os cartuchos das armas escolhidas.

Natália lançou para ele um cinto que suportaria as duas armas e ensinou-o a usá-lo por debaixo das roupas de forma que visualmente eles não chamassem atenção.

Ela olhou nervosamente para o relógio ao constatar que era quase hora do almoço e então voltou ao closet mais uma vez, levando consigo a mala e chutando-a para baixo das estantes – provavelmente envergonhada do acontecimento de mais cedo. Ela também buscou por outra mala – dessa vez sem precisar de ajuda – e organizou as coisas em seu interior com relativa facilidade.

Por fim a loira soltou um suspiro e arrastou-se até a cômoda, buscando seu passaporte e outros de seus documentos. Pelo menos não seria uma viajem longa. Ela estaria de volta em no máximo uma semana, se conseguisse acelerar qualquer que fosse o assunto pendente.

–... Vamos logo. – Ela resmungou, puxando suas coisas e saindo do quarto com Soo acompanhando-a de perto. – Suas coisas? – Repetiu, apesar de encaminhar-se às escadas como se não fizesse diferença onde elas estariam.

– No carro, esperando por nós. – O rapaz respondeu tranquilamente.

Na porta da casa seus irmãos já a esperavam, além de Toris e Wang parados num canto observando sua aproximação. Katy veio correndo na sua direção quando percebeu sua presença, abraçando-a como uma criança e parecendo chorosa como sempre.

– Cuide-se, querida. – Ela murmurou. – E não se esqueça, no caso de emergência mostre...

– Irmã! É o suficiente!

Ainda assim, Katy sorriu antes de se afastar. Natália encarou o irmão. A verdade era que ela queria que ele a pedisse para ficar. Que dissesse que ela era necessária e que deveria voltar para casa bem, e o mais cedo possível. Natália sentia tudo isso, mas não se importava. Porque ainda assim, ela sabia muito bem quais seriam as próximas palavras de Ivan. Ela sabia o que ele diria quando ela passasse pelo portal da casa.

– Não nos decepcione, Natália. Você tem um nome a zelar.

– E eu nunca falhei antes.- Ela respondeu-o quase que automaticamente. Seus olhares se cruzaram e ela encontrou seu líder ali. Não seu irmão, não seu herói, mas o líder daquela organização e daquelas pessoas.

E ela o admirava e o odiava mais que tudo.

– Vamos.

A voz de Soo chamou-a. Ela percebeu que ele se soltava de um abraço com um envergonhado Wang. Asiáticos não costumavam gostar de contato e por isso ela estranhou, mas não fez comentários. Acompanhou o rapaz de cabelos escuros até o carro negro estacionado em frente a propriedade, aceitando de bom grado quando o rapaz pegou sua mala e ajustou-a no bagageiro, e então dando a volta no veículo para entrar do lado do motorista.

Natália afivelou o cinto e lançou um olhar indecifrável para a casa enquanto o rapaz ligava o carro e começava a se mover. Ela perguntou-se quanto mais tempo demoraria até que a visão de Ivan e aquela casa, tornando-se cada vez menores até desaparecer por completo na curva seguinte, não a incomodaria.

– E então, senhorita? – A voz dele soou venenosa e divertida.

–... Só faça seu trabalho e eu farei o meu. Não me enche.

– Oh, eu não estava falando disso. – Ele soltou uma risada e freou levemente ao sinal vermelho. Os olhos cor de mel viraram-se para encará-la, e eles pareceram adquirir uma tonalidade muito próxima ao vermelho quando expostos ao sol do meio-dia. – Até quando pretende aceitar aquilo antes de matar um dos dois?

–... Aquilo?

Soo soltou uma risada debochada.

– Não se faça de ingênua. Você viu a forma com que aqueles dois ficaram trocando olhares enquanto nós íamos embora.

–... – Na verdade, Natália preferira ignorar aquilo, focada demais em sair dali. – Não significa nada.

– É mesmo? – O rapaz cantarolou. – E se eu te dissesse que eu estou vindo com você exatamente para ter certeza de que nós dois fiquemos longe daqui por pelo menos uma semana? – Os olhos dele brilhavam cruelmente.

– Ivan não teria motivos para fazer isso.

– Você matou todas as pessoas que tentaram chegar perto dele nos últimos dez anos. É motivo o suficiente?

–... E você parece ter contatos interessantes. – Ela fez questão de manter o tom monótono.

– Só responda. Quando pretende matar Yao também? Depois de encontrá-los juntos, ou vai esperar mais um pouco?

Ela encarou-o com irritação. Por um momento pensara que Soo e ela tinham algo em comum. Era estranho como ele citava a morte do chinês com tanta facilidade, quase com alegria.

–... E porque acha que eu te contaria, se é sua obrigação proteger ele?

Um sorriso divertido abriu-se no rosto de Soo. E por um momento, ele pareceu-lhe completamente louco.

– Porque eu não tentaria te impedir.

Aquilo irritou a loira. Que tipo de pessoa era aquela? Como ele podia desejar a morte da pessoa que ele deveria proteger?!

– Que merda você tem na cabeça?

Ele gargalhou.

– Não fale como se eu fosse doido, Nat. Você sabe muito bem o que eu estou sentindo.

– Se você tentasse matar Ivan, eu arrancaria seus braços e faria você engolir.

– É mesmo? – Ele não pareceu preocupado. Mais um sinal forçou-o a parar o carro, dando-lhe a oportunidade de apoiar o braço na cadeira dela e curvar-se até que seus rostos estivessem frente a frente. – Mesmo se eu te disser que ele ama Yao, e que ele nunca vai ser seu?

Aquelas palavras não feriram Natália. Porque ela já sabia daquilo. E porque ela não se importava. Ivan ainda confiava nela com todas as forças, ela ainda era seu braço direito, a única em quem ele confiava com todas as forças.

Natália ainda era sua sombra.

– Você está errada. – O coreano sussurrou baixo, os olhos brilhando, parecendo divertir-se com a ideia de vê-la acuada. Ele parecia capaz de ler o que ela pensava. – Ele só te mantém por perto por sua irmã mais velha. A verdade é que você passou dos limites, minha cara. Você é completamente louca.

–... O único louco aqui é você. – Ela sussurrou, esperando atingi-lo, mas só conseguiu um sorriso corrompido, desinteressado, debochado.

– Também, também. Mas eu diria que sou um pouco possessivo.

Uma buzina alta e contínua forçou Soo a afastar-se e manobrar o carro pelo caminho. Natália sentia o coração bater com força contra as costelas, e sua mão soltou o cano da arma que ela não se lembrava de ter segurado.

– O que não pode ser meu, não deve viver.

A voz de Soo ecoou pelo espaço pequeno que os separava. Natália queria voltar. Queria proteger Ivan. E acima de tudo, ela queria fazer exatamente o que Soo dissera que ela faria.

Porque aqueles que se aproximavam de Ivan deveriam ser punidos. Ninguém deveria ter o direito de conhecê-lo, de formar com ele um laço. Porque laços eram facilmente rompidos.

E Natália não perdoaria ninguém que tivesse o potencial de fazer Ivan chorar.

Notas finais
Sim, eu sei que prometi postar toda semana. E sim, eu sei que fazem três semanas que eu não posto nada. Sinto muito, de verdade.
Na primeira semana das férias eu simplesmente fiquei totalmente presa num bloqueio do caramba e não conseguia escrever absolutamente nada... Ahn... E depois, quando eu achei que fosse escrever, eu descobri que meu gato morreu e foi meio que um choque. Eu ainda não tô lá no meu melhor - acho que deu pra perceber pelo capítulo lixo.
Tipo, até meu log é em homenagem a ele - Gin é o nome do gato - e ele era realmente muito importante pra mim. Meu anjo, na verdade.
... E pra quê eu tô falando isso mesmo? Deixa pra lá.

Sinto muito de qualquer forma, e espero que vocês não tenham me abandonado, apesar de que eu nem sei mais quando vai sair um capítulo ou se vai sair.

... O que mais? Ah sim, pra quem não conhece, o Soo é o Coréia do Sul, ele e a Nat podem dar as mãos até - os dois tem brother complex. Mas nessa fic eu vou trabalhar uma personalidade um pouco... Deturpada de cada um, espero que não se incomodem.
Além disso, antes que perguntem, eu vou trabalhar levemente com um RoChu. E peço um pouco de respeito pro pessoal que não estiver a fim de ver um final feliz pra Nat também, porque ela é minha personagem favorita - e o motivo pra eu ter visto Hetalia em primeiro lugar.

No mais, eu queria agradecer a todos que continuarem lendo. De coração, vocês são o motivo de eu escrever.
Ah, e pedir que deixem reviews, porque não tem nada que me deixe mais feliz do que ler um elogio. Mais uma vez, eu sinto muito por tudo.

Beijos melados da Gin.
Até mais ver ♥