Famiglia Vargas
8 Capítulo Oito: Ten Thousand Meanings Smile
Notas iniciais
Anyways, eu estou melhor hoje, tô até pensando em adotar um outro bichinho, mas não agora.
Espero que gostem o capítulo de hoje, apesar de ele ser basicamente diálogos tediosos, e informações chocantes.
Por um motivo ainda desconhecido por sua mente nebulosa, Gilbert acordou de bom humor naquela manhã. Ele espreguiçou-se e bocejou, e então rodou na cama para abraçar Roderich... Ou seu travesseiro. Franziu o cenho.
A cama estava vazia.
Ergueu os olhos para a cômoda, mas tanto os óculos quanto a aliança já tinham sumido de lá. Gilbert sentiu um aperto no peito. Não era do feitio do moreno sair da cama mais cedo que ele. Na verdade, geralmente eles ficariam enrolando até tarde abraçados e fingindo que não sabiam falar para não acabar brigando...
Mas bem, isso era antes. E treze anos continuavam sendo bastante tempo. O albino ergueu-se e colocou as roupas o mais rápido que pode, alisando a camisa amassada para tentar parecer um pouco mais apresentável. Antes de Gilbert conseguir abrir a porta e sair gritando por aí, porém, ele pode ouvir a voz do aristocrata e congelou com a mão na maçaneta.
Ludwig sempre criticara sua mania de ouvir escondido conversas dos outros, mas ele não pode evitar fazê-lo agora. A voz de Roderich parecia ansiosa.
–... Sim, mas eu não faço a mínima ideia de quanto tempo mais vou ficar aqui.
Uma pausa no telefone, onde provavelmente a outra pessoa respondia. Gilbert perguntou-se para quem o moreno poderia estar ligando tão cedo.
–... É claro que não! Exatamente por isso estou te pedindo para que venha... – Mais uma pausa, agora mais curta. – Não, eu não consigo fazer isso sozinho. São treze anos, como espera que eu lide com isso, Elizabeta?!
Todo seu corpo se contraiu dessa vez. Ele falava com a esposa. Então eles ficavam juntos durante a noite, e a primeira coisa que ele fazia pela manhã era ligar para a esposa, na Hungria. Trincou os dentes. O que diabos Roderich estava planejando afinal?
– Compre uma passagem para o primeiro vôo. Se for possível, gostaria que chegasse ainda hoje...
Ela estava vindo? Para a Itália? Por quê?
–... Sim, eu disse para ele, como poderia esconder? – A próxima parte soou com uma voz contida. – Não, Liz. Eu ainda não... Não! Eu vou dizer para ele. Tudo. Então por favor, venha...
Gilbert sentiu a insegurança e o medo borbulharem dentro dele, mas como sempre, ele disfarçou-os com ironia. Sim, Liz. Por favor, venha. E espere mais treze anos enquanto Roderich arruma coragem para contar o que quer que seja.
– Eu sinto muito pelo incômodo que estou causando para vocês três. Ligue-me assim que chegar ao aeroporto... Eu também. Até mais.
Eu também? Eu também o que? E, espere. “Vocês três”? Roderich não tinha filhos... Tinha? Ele dissera que não, pelo menos. Mas que sentido teria se o moreno estivesse mentindo? Ele não tinha motivo algum para fazê-lo... Provavelmente.
... Gilbert esperava que não, pelo menos.
Ele recuou ao ouvir o som dos passos do lado de fora vindo na sua direção. A porta abriu-se para permitir a entrada de Roderich carregando uma bandeja com comida suficiente para ambos. Ao seu lado e segurando a porta estava Feliciano com um sorriso indefinido no rosto.
– Oh, já acordou? – Roderich deu um sorriso. – Eu trouxe o café.
O moreno apoiou a bandeja na cama e sentou-se, pegando uma das xícaras já cheias de café e erguendo-a aos lábios enquanto se virava para encarar o albino. Feliciano entrou também, sentando-se na cômoda e acenando para Gilbert.
– Bom dia.
Gilbert não respondeu o italiano muito menos. Ele também não se aproximou da cama como o movimento do moreno solicitou. Na verdade, ele ficou parado no meio do caminho entre a cama e a porta com uma expressão muito pouco incrível.
–... Gilbert, algo de errado?
– Ahn? Tudo bem... O que tem pra comer?
Ele abriu um sorriso animado e aproximou-se da cama, puxando um dos pães recheados ainda mornos e dando uma mordida. Roderich pareceu incomodado com o fato de ele não ter se sentado também, mas não faz qualquer comentário, voltando seu olhar para Feliciano como se estivesse esperando algo. O italiano demorou um segundo para perceber o olhar do austríaco sobre si.
– Oh sim. – Ele soltou uma risada sem graça. – Eu vim convidar você também, Signore Gilbert.
Os olhos vermelhos ergueram-se expressando curiosidade e encontraram os castanhos gentis de Feliciano encarando-o com uma expressão esquisita.
– Mmhn?
– Eu decidi fazer uma festa para dar a vocês as boas vindas. – Foi a resposta do menor. Seu sorriso mudou para um leve esgar que trouxe uma sensação inquietante e estranha em algum lugar da mente do albino. –... Amanhã à noite.
O problema de mexer com pessoas como Feliciano é que você nunca sabe no que eles realmente estão pensando.
Passos no corredor chamaram a atenção do trio que virou-se para observar o impecável de Ludwig passando pela porta do quarto. Os olhos dos irmãos cruzaram-se por um segundo e Gilbert encolheu-se levemente ao perceber a falta de expressão no rosto do irmão mais novo. Ao perceber quem passava a reação automática de Feliciano foi desviar o olhar para baixo então ele não percebeu a forma com que as sobrancelhas loiras contraíram-se levemente ao olhar para ele.
Roderich por sua vez ergueu-se e seguiu na direção dele, saindo pelo quarto e acompanhando Ludwig pelo corredor na direção da cozinha. Quando percebeu que estava sendo deixado para trás Gilbert foi em direção a porta, sendo bloqueado pela presença do italiano sorridente.
– Acho que seria melhor deixar aqueles dois conversarem, Signore.
– O que eles teriam pra conversar um com o outro?!
Outra vez, o sorriso no rosto de Feliciano sofreu uma mudança sutil capaz de fazer o lutador recuar um passo.
–... Eu conversei com Lovino essa manhã e decidimos que seria melhor deixar você ir embora. Afinal, você tem uma luta em um mês e seria ruim se perdesse por nossa culpa. Fazem apenas dois dias e seus treinadores já estão preocupados com sua ausência... E nós não queremos chamar atenção.
Com aquilo Feliciano conseguiu de volta a atenção total do albino, que encarou-o com surpresa.
– É sério? Eu posso ir?
– Depois da festa de amanhã, sim. Ah, e... – O moreno puxou do bolso da calça o celular que tinha sido confiscado de Gilbert no primeiro dia. – Acho melhor você ligar para eles e avisar que vai demorar mais um dia.
Inconscientemente Gilbert sentiu seus dedos hesitando antes de pegar de volta o aparelho. Tinha algo de errado ali.
–... Obrigado.
– ‘Nada. Eu tenho que ir agora, muitas coisas para resolver e pouco tempo. – Feliciano virou-se para a saída do quarto, mas parou à porta. – Oh sim.
Gilbert não teve tempo nem de perguntar-se o que ele teria esquecido-se de dizer e sentiu uma mão fina mas não menos forte puxando-o para baixo e nivelando seus olhos na altura um do outro.
Daquela vez o sorriso de Feliciano não pareceu mudar. Seus olhos continham um brilho que fez o coração do albino falhar uma batida e um arrepio nervoso passar por suas costas. Era impossível desviar-se daquele olhar.
– Eu acho que isso não é necessário, mas por via das dúvidas eu prefiro conferir... Você está ciente de que está lidando com a máfia, certo, Gilbert? – A voz dele era macia e baixa. – Não preciso dizer como você deve se portar ou o que você deve ou não falar... Preciso?
Gilbert balançou levemente a cabeça levemente, negando. A pressão em seu pescoço foi reduzida automaticamente e ele conseguiu recuar. Um brilho discreto chamou sua atenção e deixou-o grato por não ter reagido ao perceber a forma com que Feliciano discretamente escondeu a adaga entre as vestes novamente. Ao sair do quarto o italiano cantarolava uma melodia qualquer.
O ar que estivera preso em seus pulmões até o momento foi lentamente solto e ele piscou, completamente chocado com aquela face da personalidade do rapaz. Perguntou-se quantas outras ele teria e sua mente deixou claro que não estavam interessados em descobrir.
Ele concordou.
Depois de ficar mais um minuto inteiro parado no meio do quarto, ele decidiu levar de volta para a cozinha a bandeja cheia de comida e praticamente intocada. Percebeu que o cozinheiro lançou a ele um olhar esquisito, provavelmente recriminando-o por desperdiçar tanta comida, mas sem dar um pio.
No caminho de volta para o quarto – as mãos no bolso da calça e os passos se arrastando pelo corredor – Gilbert parou por um momento e lançou para o jardim lá em baixo um olhar inicialmente desinteressado. Então ele franziu o cenho e reviu mentalmente o monólogo de Feliciano, tentando entender o que estava incomodando-o tanto.
“Eu conversei com Lovino essa manhã e decidimos que seria melhor deixar você ir embora.”
Você. Feliciano tinha dito ‘você’ e não ‘vocês’. Não que aquilo significasse alguma outra coisa. Não faria sentido o italiano libertá-lo e não liberar Ludwig. Tá que pelo pouco que ele tinha entendido da conversa da tarde anterior, ainda havia assuntos pendentes entre seu irmão e aquele italiano, mas Feliciano não seria capaz de prendê-lo ali, seria? Ergueu a cabeça e percebeu uma movimentação no final do corredor. Sentiu seu coração se apertar.
É melhor prevenir do que remediar.
Correu naquela direção, ignorando a sensação de estar sendo observado. Ao chegar na esquina observou enquanto seu irmão e Roderich se afastavam, sem perceber sua presença. Por um momento pensou em segui-los para dar a notícia à Ludwig, mas uma mão em seu ombro impediu-o de tal.
Virou-se e encontrou o espanhol sorridente da noite anterior observando com olhos questionadores.
– Procurando por alguém em especial?
–... Na verdade, sim. Meu incrível... Ahn... Eu estava procurando o Feliciano.
– Ele saiu. – Antônio falou simplesmente, recuando um passo e tirando a mão do ombro do albino. – Eu posso te ajudar?
– Eu não sei. Feliciano veio falar comigo hoje de manhã, e o Rod saiu pra conversar com o Lud sem me chamar eu não sei por que, mas... Oh sim! Você ficou sabendo que nós dois vamos embora depois de amanhã?!
Percebeu a forma com que uma sobrancelha do moreno ergueu-se e ele cruzou os braços, parecendo hesitante. O albino sentiu uma sensação trêmula nas bordas de seu cérebro, como um aviso de que algo de ruim estava por vir. Ele lutou para ignorar aquele sentimento, mas suas esperanças foram destruídas pela próxima pergunta de Antônio.
–... Gilbert, você tem certeza de que Feliciano disse ‘vocês dois’?
O sorriso de Gilbert falhou por um momento antes de ele lutar para mantê-lo ali.
– E por que eu poderia sair e o Lud não? Ksesesese! Não faria sentido!
– Na verdade, faz todo o sentido do mundo. Você ‘tá limpo, mas ele... Nem tanto.
A risada estranha de Gilbert parou subitamente ao ouvir aquilo.
– Limpo? Como assim limpo?! Ludwig tem TOC, não tem como eu estar limpo e ele...
– Não é esse tipo de limpeza. É... – Antônio parou e franziu o cenho. – Porque estou explicando isso pra você? Não se faça de bobo, não tem como você não saber do que eu... – Outra pausa enquanto as sobrancelhas do moreno quase uniam-se acima de seu nariz. Ele ergueu os olhos e encarou Gilbert, completamente estupefato. – Ou talvez tenha.
–... Tenha o que?
– O quanto você sabe sobre a empresa do seu irmão?
Gilbert estranhou a pergunta, e por isso hesitou por um momento antes de responder honestamente.
– Que é do Lud... E que é uma empresa.
– Você tá falando sério?!
– Ah! E que meche com tecnologia!
–...
A expressão de Antônio era de total choque. O mais impressionante era o fato de que Gilbert parecia estar sendo sincero.
– Olha, eu sinto te informar, mas...
– Antônio!
Os dois quase saltaram ao ouvir o chamado. Gilbert entortou levemente a cabeça para ver além do espanhol enquanto Lovino aproximava-se de ambos com a ajuda de um par de muletas, a perna enfaixada fazendo sua fratura parecer bem pior do que realmente era. Antônio por sua vez virou lentamente, deixando um sorriso gentil espalhar-se por seu rosto enquanto o italiano parava a sua frente e encarava-o com desconfiança.
– O que quer que esteja conversando com o batatão dois, vai ter que esperar. Temos alguns problemas para resolver.
Antônio pareceu prestes a perguntar o que tinha acontecido, mas a expressão do chefe deixou claro que não era hora nem lugar para aquilo.
–... Ok. Vamos. Gilbert, nós nos vemos mais tarde! Tente não morrer de tédio.
Ele acenou enquanto corria atrás de Lovino que andava a passos largos casarão adentro. O albino bufou e passou a vagar pelos corredores da casa, completamente sem rumo e aborrecido por só ter encontrado mais perguntas e ainda ter conseguido ficar sem nada pra fazer.
Ou assim pensou por um mísero segundo, até ouvir as vozes de Ludwig e de Roderich um pouco a frente. Pensando rápido Gilbert enfiou-se na primeira porta que encontrou, apoiando-se na parede e apurando a audição para conseguir distinguir as vozes dos dois e perceber uma coisa importante.
O assunto era nada mais nada menos do que sua incrível pessoa. Gilbert apoiou a orelha contra o tampo da porta, prestando total atenção nas palavras de Ludwig.
–... ‘então, você pretende tomar alguma atitude sobre o meu irmão? Quer dizer, além de ontem à noite?
Ouviu um suspiro insatisfeito da parte de Roderich e os dois pararam perto do quarto onde ele se encontrava.
– Não sei se o pior é a culpa ou a felicidade. — Ele admitiu com um tom incomodado. Ludwig soltou uma risada.
– Culpa do que? Andou mentindo, Edelstein? Achei que fosse contra seu código de cavalheiro.
Houve uma hesitação por parte do moreno que poderia por si só destruir Gilbert por dentro. Ele pensou em todos os cenários possíveis e impossíveis que poderiam levar Roderich a abandoná-lo novamente. Sinceramente falando, Gilbert estava trêmulo e chegou a suspender a respiração quando o austríaco finalmente decidiu responder.
–... É mais omitir do que mentir, na verdade.
Era isso. Roderich tinha filhos. Pencas deles, talvez dez. Elizabeta só traria os gêmeos por serem muito novos e não poderem ficar sozinhos em casa, mas havia pelo menos mais meia dúzia deles aguardando-o na Hungria, ou sabe-se lá onde quer que ele morasse.
– Ele desconfiou de você? Meu irmão? – Ludwig parecia cético.
– Não é nisso que eu estou falando, Ludwig. – Roderich resmungou, parecendo ofendido. – Só vamos mudar pra outro assunto, sim.
– Então qual seria?
–... Não é da sua conta. O importante não é isso. Precisamos decidir o que fazer com os russos. Eu ainda acho que o melhor seria contar para Feliciano e...
– Ele não tem nada a ver com o assunto. E eu não estou com vontade de aceitar a ajuda dele no momento. Nós podemos nos virar sozinhos.
– Ou podemos acabar mortos. E eu não posso pedir que a Liz se arrisque na situação em que ela se encontra.
Que. Situação. Era. Aquela? Quer dizer, quando os dois parariam de falar em malditos códigos e Gilbert conseguiria entender alguma coisa do assunto? De que russos eles estavam falando? E que tipo de assunto seria importante o bastante para ser mantido em segredo dos Vargas.
– Eu nem sei por que estamos falando disso aqui! Eu tenho certeza de que eles têm câmeras escondidas por aí. – Ludwig parecia inquieto, a voz soando aborrecida.
–... E isso nos pouparia o trabalho. Eles já sabem sobre você, e provavelmente sobre mim... Seu irmão foi liberado essa manhã. Ele vai poder ir embora logo depois da festa.
– Bem pra ele. E quanto a você?
– O que tem eu?
– Quando você pretende contar pra ele o que quer que seja?
–... Nunca, talvez. – A voz de Roderich saiu num fio. Ele quase conseguiu ver o irmão revirando os olhos azuis. O austríaco, porém, não deixou barato. – E quanto a você e seus problemas?
– Eu estou perfeitamente bem. Superei o choque e aceitei o fato. E depois de amanhã, eu vou estar onde deveria estar. Seguir em frente.
– Você gosta dele.
–... Eu não disse isso.
– Está escrito no seu rosto. “Eu ainda amo Feliciano Vargas”. Vocês deveriam resolver isso, sabe? Aposto que ele ainda gosta de você também.
– Seu papo parece o que a sua esposa deveria ter.
– E você está mudando de assunto.
–... Me deixa em paz, Rod. – Ludwig murmurou, parecendo aborrecido.
– Como quiser. – O moreno praticamente cantarolou, provavelmente satisfeito por ter dado o troco.
Os dois voltaram a andar, seguindo pelo corredor, enquanto Gilbert voltava a se sentar e abraçava os próprios joelhos. Ele queria correr atrás de Roderich e perguntá-lo o que estava acontecendo, e porque ele e Ludwig pareciam saber tanto a mais que ele.
Mas Gilbert ficou sentado ali por mais tempo do que poderia se lembrar, os braços em volta das pernas e o rosto apoiado no joelho enquanto ele pensava em milhares de coisas ao mesmo tempo em que não pensava em nada em especial. Ele nem percebeu quando Feliciano entrou pela porta, já depois do almoço e da siesta, e sentou-se ou seu lado na mesma posição que ele, apesar de manter um sorriso despreocupado no rosto.
O silêncio entre eles manteve-se por mais alguns minutos, nos quais o albino finalmente percebeu a presença do outro e começou uma sequência de olhares discretos e intrigados na direção do mesmo. Finalmente, o italiano deitou o rosto, apoiando a bochecha nos joelhos e encarando Gilbert diretamente.
– Você pode perguntar, o que quer que seja. Eu não vou me importar.
–... Porque você está sempre sorrindo?
– Ahah. Essa é uma boa pergunta. Eu não sei, costume talvez.
Gilbert virou-se e sentou de frente para o menor, agora verdadeiramente interessado na conversa.
– Agora é minha vez, certo? – O italianinho falou baixinho, parecendo de bom humor. – O que você estava fazendo aqui no quarto durante todo esse tempo?
–... Me escondendo.
– Do que?
– Com essa são duas perguntas. Minha vez. – Feliciano soltou uma risada. – Porque eu fui liberado e meu irmão não?
O sorriso desapareceu. O menino remexeu-se com um suspiro.
– Tem certeza disso? Eu não acho que você vá querer saber a resposta.
–... Eu tenho a impressão de que concordo com você. Mas Rod tá envolvido nisso também, e eu acho que ele... Ah, sei lá.
– Você tem medo de perder ele outra vez. Isso é normal.
–... Você não quer que o Lud vá embora também.
– Não, eu não quero. Mas não prenderia ele aqui por isso... Provavelmente.
Eles se encararam. Havia um brilho travesso nos olhos de Feliciano, assim como nos de Gilbert. Riram. Era estranho como ele conseguia gostar daquele menino sem nem mesmo precisar de um esforço ou qualquer outra coisa.
– Não se preocupe, Gilbert. As coisas vão se resolver em breve.
– É a festa?
– Provavelmente. O que eu sei é que algo está acontecendo. Algo importante o bastante para tirar meu irmão da cama, apesar de eu ter mandado ele ficar descansando pelo menos por hoje... As coisas estão mudando muito rápido.
– É... – Ele soltou mais uma risada. – Nem dá pra acreditar que só se passaram três dias...
– Vendo pelo lado bom, depois da festa as coisas vão mudar outra vez...
– Eu espero que pra melhor.
– Você e todo mundo. – Feliciano sussurrou no mesmo tom que Gilbert, fazendo com que o silêncio entre eles voltasse.
Depois de mais algum tempo, o relógio de Feliciano apitou, anunciando que ele tinha ainda mais compromissos e precisava começar a se mover. O menor ergueu-se com um suspiro aborrecido e ofereceu a mão para Gilbert, ajudando-o a levantar.
– O que acha de me ajudar com as coisas da festa?
O albino abriu um sorriso animado com a perspectiva de ter algo pra fazer. Eles limparam a poeira da roupa e seguiram para a saída do quarto.
– Já que você pediu minha incrível ajuda, acho que tudo bem.
Ele retirou os óculos e guardou-os no bolso da blusa, apertando os olhos entre o polegar e o indicador antes de se desapoiar da pilastra e aproximar-se do trio. Seus olhos violeta brilhavam ao sol do meio-dia e encaravam a morena que avançava lentamente na sua direção, dificultada pela gravidez avançada, parecendo extremamente frios.
Roderich era uma figura interessante de se observar.
A postura com que recebeu-os era altiva e perfeitamente balanceada. Ainda assim ele se deu o trabalho de curvar-se para depositar um beijo gentil na testa de Liz e cumprimentar os outros dois com um aceno educado da cabeça.
– Bem vinda. – Ele sussurrou gentilmente para ela, que sorriu. Ele virou-se e apertou a mão da loira, e depois do rapaz, demonstrando uma curiosidade educada na presença dele ali.
– Rod. Você e a Natália já se conhecem, este é Soo. Ele veio com a Nat pra conhecer você e o Ludwig, já que vamos todos trabalhar juntos daqui pra frente. Soo, este é Roderich, meu marido.
–... E Ministro da Justiça Austríaca também. É um prazer conhecer você, meu caro. Apesar de ter que admitir que não esperava essa aliança.
– Nenhum dos dois lados esperava. – Soo respondeu, dando de ombros. – Mas isso facilita a vida de todos, e também evitou o confronto direto entre nós.
Roderich ergueu uma sobrancelha e lançou um olhar descrente para a loira, que parecia analisar sua reação.
–... Vocês passaram o dia inteiro com ele e nenhuma das duas pôde explicar ao coitado nossa situação? Mesmo?
– Tecnicamente falando, o vôo de São Petersburgo até Budapeste durou só duas horas e meia, bem rápido. Nós escolhemos vir hoje mais tarde porque Natália esqueceu de trazer um vestido para a festa de amanhã, e...
– Eu não esqueci. Eu só queria comprar um vestido novo naquela loja que você me mostrou da última vez que eu fui lá! – Apesar de ter dito aquilo, a loira corou suavemente e virou o rosto.
–... De qualquer forma, eu estou cansada de passar quatro horas no vôo de casa até aqui. Será que podemos ir onde quer que você esteja ficando e dormir?
Três pares de olhos viraram-se para encarar o moreno, que virou o rosto para longe por um momento, parecendo travar uma luta interna contra o vermelho que tentava tomar seu rosto.
– Ahn... Liz, eu não estou num hotel.
–...
–...
Havia incredulidade nos olhos deles. Um silêncio alarmado cobriu as duas mulheres, deixando o coreano apreensivo. A primeira a conseguir recuperar a voz e se pronunciar foi Natália.
– Você espera que nós fiquemos com os Vargas? Onde eles poderiam muito bem meter uma bala na minha cabeça enquanto eu durmo?!
– Fale mais baixo! E não, vocês vão ficar em um apartamento que eu aluguei para a temporada, não na casa.
– Será que alguém pode se dar o trabalho de me explicar a situação? – Soo resmungou, interrompendo antes que a discussão começasse.
–... Vamos para o carro primeiro. – O austríaco disse simplesmente, dando as costas aos três e pegando a mala de Liz antes de começar a curta caminhada até o estacionamento, e o carro alugado.
Em meia hora eles rodavam a cidade no carro, com Natália e Soo na parte de trás – para o completo desgosto da loira – e Liz tagarelando sobre os monumentos no banco da frente. O coreano por sua vez estava cada vez mais impaciente, sentindo-se excluído de um assunto importante. E depois daquela meia hora e sabe-se lá quantos minutos, ele decidiu que era o bastante.
– É tudo muito interessante, mas quando exatamente vocês pretendem me contar o que está acontecendo?
Roderich respondeu, depois de um silêncio curto e impaciente.
– A situação é bem simples, na verdade. Meu trabalho quando vim pra cá era evitar que os Vargas e nós entrássemos num embate físico por territórios de venda na África... O Ivan me fez o favor de não só aceitar a parceria com vocês, mas também enviar vocês dois aqui. Eu deixei bem claro pra ele que todas essas duas ações receberiam reações, mas ele me ignorou, pelo que parece.
– E o que tem de errado com qualquer uma das duas coisas?
–... A rixa entre os Vargas e os russos é velha já. Minha família preferiu manter uma boa relação com ambos os lados, mas depois do meu casamento com a Liz as coisas mudaram.
– Você não me respondeu.
O moreno mais velho soltou um suspiro.
– Resumindo: o pai do Ivan é acusado pelos Vargas de matar o último líder da família, e avô dos gêmeos. A parceria com a companhia Wang em si não significa muito, mas pode ser interpretada como um movimento. E quando alguém se move, se move para algum lugar. E por fim, temos ninguém mais ninguém menos que o braço direito do atual líder da máfia russa, vindo para Itália acompanhada por um ex-sniper prodígio do exército Coreano... Vocês não são exatamente bem vindos.
– Seu pai decidiu esconder o cérebro dos Vargas porque quis. – Natália expôs friamente, sendo rapidamente retaliada.
– E o seu escolheu começar uma luta vã, ignorando avisos sensatos dados pelo meu.
–... Porque não nos matou assim que entramos no carro então?
– Porque eu gosto de acreditar que seu irmão tem mais na cabeça do que o líder anterior tinha... E porque eu sei que ninguém mais pode responder as dúvidas do Feliciano além do seu irmão.
A loira deu de ombros.
– Faça como quiser. O que espera que nós façamos?
– A pergunta certa seria: o que eu não quero que vocês façam. Pra começar, nãos saiam do hotel sem mim. Depois, sem armas. Terceiro: façam sempre movimentos limpos.
– Movimentos limpos?
– Não escondam nada, não sumam sem motivos, tenham sempre um álibi. E dizer que um estava com o outro não conta.
–... Isso não é o básico?
O austríaco freou num sinal vermelho e lançou ao rapaz um olhar torto, os olhos violáceos brilhando por detrás das lentes.
– Ignorar o básico ainda vai te matar um dia.
O resto do caminho foi feito em silêncio. Roderich conseguira um apartamento relativamente grande no décimo andar de um edifício no centro da comuna, com dois quartos e uma suíte, além do banheiro. A porta de entrada abria-se para uma sala charmosa e já mobiliada – assim como o resto da residência – e era ramificada em um corredor, que levava para os quartos e o banheiro, à direita, e a cozinha à esquerda.
O grupo parou no meio do ambiente, três deles analisando a sala espaçosa enquanto o quarto avançava para o corredor até a suíte no fundo, deixando ali as coisas de Liz.
Quando Roderich voltou para a sala, sua esposa estava sentada na poltrona marrom de olhos fechados, provavelmente cochilando, enquanto os outros dois discutiam em voz baixa sobre quem ficaria com cada um dos outros quartos.
–... A geladeira está cheia. Eu espero que algum de vocês saiba cozinhar, porque não acho que seria recomendável deixar a Liz fazer isso agora.
– Por quê? – Natália estranhou. – A comida dela era gostosa da última vez que eu provei.
– Ela está na fase de ter desejos.
Os dois demoraram um segundo, mas estremeceram ao compreender o significado daquilo. Soo torceu o nariz e avançou na direção da cozinha, provavelmente para checar os mantimentos, enquanto respondia os dois outros.
– Eu posso cozinhar alguma coisa, acho... Bem, temos pasta, e pasta, e macarrão, que também é pasta. E molho de tomate e...
– Quem fez as compras foi Feliciano, desculpem.
Aquilo chamou a atenção de Natália, que voltou a encará-lo.
– E você confia nele?
– Ele não mataria a Liz, então sim. Se ele quisesse matar vocês, ele já teria feito isso... Não despreze o poder dessa máfia, Natália. Eles são mais fortes do que você poderia acreditar.
Ela não o respondeu, preferindo seguir com suas próprias coisas para os quartos. Ainda assim, Roderich acompanhou-a com os olhos, esperando por sua réplica. Porque sempre haveria uma. Natália nunca deixava as coisas em aberto, ela sentia a necessidade de dar a última cartada, sempre.
E a menina realmente virou-se, à porta do quarto que ela escolheu como seu.
– Não me importa o quão fortes eles forem, Edelstein. Qualquer um que entrar no caminho do meu irmão, qualquer um que ousar cruzar o caminho dele... Minha obrigação é eliminar cada um deles.
Notas finais
Spoilers: As coisas vão ficar tensas daqui pra frente...
Eu sei que ficou meio chato, um capítulo só feito de diálogos e tals, mas tudo isso é necessário para o andamento da história, então sinto muito "/
Ah sim, eu sei que tivemos alguns erros de escrita, principalmente durante as falas, relevem essas. O resto, quem perceber me diga. Política da professora de português ditadora!
... No mais, eu fiquei realmente triste quando percebi que o número de pessoas que tem a delicadeza de enviar reviews vem diminuindo drasticamente... O que exatamente está acontecendo, queridos? Eu achei que estivesse melhorando, mas não é o que parece...
Bem, de qualquer forma, obrigada às lindas pessoas que continuam comentando. E um pedido de consideração aos leitores fantasmas x3
Beijos, e até semana que vem!
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