Famiglia Vargas
3 Capítulo Três: Pacto de Fogo
Notas iniciais
Eu ia colocar o nome desse cap de "Onde diabos o Lovino e o Antônio estavam enquanto isso" mas ficou muito grande... E esse título é muito mais chique, cá entre nós -q
O de sempre jovens: O que que era?
... Ah sim:
Não garanto a qualidade do capítulo e futuras mudanças são possíveis e prováveis.
Boa leitura =*
Antônio recobrou a consciência, tentando compreender o motivo de estar respirando com tanta dificuldade. Sua dor de cabeça o impediu de pensar corretamente, então ele demorou a fazer um levantamento de sua situação.
Para começar, o lugar onde ele estava era escuro. Segundo, todo seu corpo doía. Ele tinha a impressão de que suas costelas estavam esmagadas e conseguia sentir o gosto de sangue seco nos lábios. Seus pulsos também estavam dormentes por causa das cordas. Ah sim, terceiro, ele estava amarrado.
Por culpa da dor de cabeça sua visão estava embaraçada, então acostumar-se a escuridão estava sendo difícil. Havia uma tênue iluminação, proveniente de uma provável porta que estava próxima demais do teto que ele deduzira ser de madeira – fato possível porque ele podia ouvir o rangido baixo do material –, o que provavelmente significava que ele se encontrava em um porão. O cheiro da maresia o alarmou, pois parecia-lhe que o lugar mexia, e se aquele fosse o caso, ele estaria em um barco. Talvez até mesmo em alto mar.
Em resumo, ele estava com problemas.
Um gemido baixo chamou sua atenção, e a voz conhecida que o proferiu o ajudou a lembrar corretamente das cenas da última noite.
Lovino e ele haviam saído da casa logo depois do julgamento dos irmãos germânicos. Eles tinham decidido caminhar até a área portuária por que... Ah, Antônio tinha esquecido seus cartuchos extras no palazzo Vargas, era isso. Então eles tinham ultrapassado o cais sete, e encontraram alguns dos irmãos da famiglia num bar. Lovino berrara com eles, e dissera que resolveriam aquilo depois. Os dois homens – que não lhe pareceram nem um pouco bêbados quanto Lovino parecia achar que estavam – tinham gargalhado e lhe perguntado “Depois quando?” como se soubessem de algo.
E então... E então...
Uma pancada. Isso. Ele fora nocauteado por trás, com uma única pancada. Aquilo era humilhante demais.
Antônio bufou indignado, só para sentir a dor nas costelas. Em algum lugar no escuro, Lovino gemeu outra vez, parecendo ter acordado completamente, o que era um bom sinal. Por outro lado, o som de sua voz, presa ali em baixo, fez o coração do espanhol doer.
– Lovi? – Ele chamou, num sussurro. Demorou a ser respondido, e Lovino ainda gemeu mais uma vez antes de conseguir falar.
– Antônio? Que está acontecendo?
– Estamos com problemas – ele falou simplesmente.
– Oh, jura? Eu poderia jurar que estávamos de férias. – a voz do italiano era carregada de sarcasmo, que Antônio escolheu ignorar.
– Bem, achou errado. Você está bem?
– Claro que estou, estava gemendo porque acho sensual a forma com que minha voz ecoa no escuro.
– Eu adoraria um relatório um pouco mais sério, Lovi. Preciso pensar nas nossas chances.
–... Desista. Acabei de me lembrar... Eu acho que quebrei um pé quando me lançaram pela escada.
– Lançaram da escada?
– Você estava dormindo, principessa. Aqueles merdas nos chutaram para baixo.
– Onde estamos?
O líder dos Vargas bufou.
– Num galpão, perto do cais sete.
–... Galpão? Então porque tá tudo balançando?
– Não tem nada balançando, stupido. Devem ter batido muito forte em você.
Silêncio. Isso era ruim. Antônio não estava em condições de lutar agora. Provavelmente não conseguiria nem se colocar de pé, ele precisava de tempo, coisa que eles não pareciam ter.
Sua visão estava um pouco melhor, o que o ajudou a enxergar o galpão mais claramente, ou melhor, o pequeno porão do galpão. O teto era realmente de madeira, como ele pensara antes, mas era sustentado por vigas de ferro. Não parecia exatamente alto, talvez dois metros e meio. A porta era pequena, e ele provavelmente precisaria se abaixar para passar por ela. As escadas de madeira pareciam velhas e frágeis, e não aguentariam os dois ao mesmo tempo.
– Tônio... – Sua atenção voltou ao italiano, era raro que ele usasse seu apelido... Geralmente era nessas horas que o espanhol começava a se preocupar de verdade – Eles vão buscar o Feliciano também... Eu ouvi. E aquele stupido vai confiar neles, eu tenho certeza.
A voz dele estava embargada, apesar do espanhol saber que ele não choraria. A ligação que os gêmeos tinham um com o outro era louvável. Mesmo depois da morte do pai, na época em que todos achavam que eles lutariam um contra o outro pelo poder e pessoas tomavam partidos e planejavam assassinatos... Eles nunca haviam deixado de se apoiar mutuamente.
– Vai ficar tudo bem, cariño. Eu vou te tirar daqui. – A voz de Antônio era sussurrada e gentil.
Lovino não respondeu a ele, o que provavelmente significava que ele estava mais calmo. Ou que estava envergonhado. Antônio soltou uma risadinha com a possibilidade.
– Não é hora de achar graça, seu merda. Você ainda tem a sua fa...
Ele calou-se de repente. Antônio ia perguntar qual era o problema quando o barulho se repetiu. Um rangido baixo, logo acima deles. Alguém andava no andar superior, na direção da porta. Eles aguardaram em silêncio. Finalmente a porta abriu-se, jogando luz nos olhos feridos de Antônio e fazendo-o piscar.
Quando virou-se para ver Lovino, encontrou-o deitado no chão, desacordado, do outro lado da pequena sala onde se encontravam. O fato de o rapaz estar daquele jeito preocupou Antônio, mas suas preocupações foram ignoradas perante a voz de seu sequestrador, que lhe pareceu insanamente divertida.
– Que ótimo, que ótimo! O lixo spagnolo está acordado. Hora de brincar!
Ele desceu as escadas sem pressa, com as mãos nos bolsos e uma postura debochada. A porta lá em cima continuou aberta, fornecendo-lhe a luz necessária para caminhar seguramente até Antônio.
O bico do sapato engraxado do homem atingiu-o na garganta, empurrando-o para trás. Ele sentiu o gosto de sangue novo na boca, mas se recusou a emitir um único som. Seu agressor puxou-o pelos cabelos negros, forçando-o a voltar à posição sentada. Antônio trincou os dentes e se esforçou para focar a imagem do homem, ignorando as dores que infligiam seu corpo e encarando-o com afronta.
– Ohoho... O cachorrinho do chefe está corajoso hoje... Você é abusado demais para alguém de seu nível.
– Você vai morrer. – Antônio sussurrou. Por um momento sua segurança pareceu incomodar o italiano, mas ele recuperou-se facilmente, enquanto parecia repetir a si mesmo que aquele homem estava amarrado, não ele.
O próximo golpe foi um bem dado soco na boca do estômago. Antônio arfou ao sentir a costela – já ferida – quebrar-se de vez. Em sua mente confusa ele jurou que conseguira ouvir o estalo do osso.
– E você está confiante demais. Você e os gêmeos Vargas vão ser os únicos a morrer aqui. Eu vou erradicar uma praga pelo bem da famiglia.
– Traditore.
O homem pareceu surpreso ao ouvir a voz firme de Lovino, acordado e bem o bastante para lançar a seu captor um olhar gelado de desprezo. Ele ergueu-se e deixou Antônio, ainda encolhido no chão, observando enquanto o bastardo avançava cada vez para mais perto do gêmeo mais velho.
Ele puxou o rapaz pela gola da blusa, erguendo-o do chão, e fazendo-o cambalear, incapaz de apoiar a perna ruim no chão.
– Seu vermezinho... Não ouse me chamar de traidor. Eu vou fazer um favor à famiglia matando dois pirralhos mimados como você e seu irmão.
Para sua surpresa, porém, os prisioneiros desataram a rir. Mesmo Antônio, com dificuldade de respirar, soltou sua risadinha típica.
– Mas o que... – Em sua fúria, o homem empurrou Lovino pela gola da blusa, só para vê-lo bater com a cabeça no chão e rolar de um lado para o outro, misturando as risadas com um gemido de dor.
Atrás dele Antônio engasgou pela dor, chamando a atenção de seu sequestrador.
– De... Desculpe, eu... – O espanhol tomou fôlego antes de concluir a sentença. – É só que pensar num soldadinho incapaz como você se achando superior a... – Ele não conseguiu terminar a frase, afogando-se novamente em risadas.
O homem pareceu se ofender com a reação deles e avançou sobre Antônio, parecendo furioso. Antes que ele pudesse dar muito mais que um passo, porém, o espanhol moveu-se na direção dele, o vestígio do riso desaparecendo do rosto.
Antônio precisara de pouco menos de cinco segundos, enquanto aquele maldito italiano ousava ferir Lovino, para passar os braços amarrados para frente. Com um salto ele ergueu-se e chutou o italiano no estômago, fazendo-o se curvar e recuar para mais perto de Lovino, que aproveitou o momento para lhe dar uma rasteira com a perna boa e lançá-lo no chão.
A última coisa que ele viu foram os olhos verdes turbulentos de Antônio brilhando à tênue luz, antes do moreno golpeá-lo na nuca com força o bastante para apagar o homem.
O italiano abriu os olhos, proferindo uma série de xingamentos, baixinho, e perguntando-se porque sua cabeça doía tanto, se ele jurara nunca mais beber álcool depois que entrara para La cosa nostra. Ele franziu o cenho ao perceber que estava encharcado, assim como o resto do pequeno porão.
Instintivamente ele olhou em volta e seu olhar seguiu o feixe de luz, acabando por encarar dois rapazes que o observavam de cima da escada. Lovino apoiava-se no espanhol, que mantinha a mão protetoramente em sua cintura. Os olhos castanhos do jovem líder da famiglia encararam-no friamente. Ele abriu os lábios cortados e feridos, proferindo um trecho do juramento que mudara sua vida há muitos anos.
–... “Que eu queime com ela.” – Lovino falou, e sua voz ecoou no porão de madeira. Os olhos do homem arregalaram-se ao mesmo tempo em que ele compreendia o cheiro forte que incomodava seu nariz.
Observou enquanto o líder da famiglia virava-se, ainda apoiado no homem que era conhecido, há muito tempo, como o ceifeiro da Espanha.
– Espere!
Sua voz foi ignorada. Antônio ergueu a mão, e primeiramente o cárcere pensou que ele estivesse acenando debochadamente, mas um pequeno feixe de luz surgiu entre seus dedos e foi lançado para trás.
A última coisa que ele ouviu foi o som do fogo engolindo o oxigênio presente no ar, em busca do combustível que encharcava o porão. As chamas destruíram tudo ao seu redor, reduzindo o galpão do cais sete a cinzas negras.
No casarão, e mais especificamente, do lado de dentro do quarto dos alemães, Gilbert morria lentamente. Ele estava esparramado na cama, com o rosto afundado no travesseiro e uma perna para fora da cama, claramente numa posição desconfortável. Na cama ao lado, Ludwig pacificamente lia um livro qualquer sobre direito, ignorando o sofrimento prolongado do irmão.
Em resumo: Gilbert estava entediado, mortalmente entediado.
–... Nada incrível – ele resmungou, com a voz abafada pelo travesseiro.
Os dois estrangeiros começaram o dia relativamente tarde. Eram nove horas quando um rapaz bateu na porta acordando-os. Para o alívio do mais novo e irritação do mais velho, ele trazia-lhes roupas e alguns de seus pertences – como o saco de pancadas vermelho que ele trouxera para treinar (obviamente este item estava sendo carregado por outros dois homens, e não o menino), e alguns livros do irmão.
Ludwig aproveitara a oportunidade para tomar seu banho, trocar de roupas e, depois de uma discussão insuportavelmente longa, convencer o irmão de que pessoas fedidas não eram nem um pouco incríveis e consequentemente forçando-o a tomar também seu banho, antes mesmo que ele pudesse começar algo estúpido como uma greve de higiene, como um protesto.
Quando o recém readquirido relógio digital de cabeceira de Gil – que por algum motivo tinha o formato de uma bola amarela com asas que poderia ou não ser um pássaro – marcou dez horas, o grupo voltou com pratos de comida e o rapaz abandonou o quarto, deixando-os sozinhos com os dois homens fortes e mal encarados de antes.Foi também naquela hora que um dos dois já referidos homens anunciou a sentença que acabaria com o dia do albino.
– Vocês foram proibidos de deixar esse quarto.
– O que?! Por quê?! Isso não é justo! Onde está o garoto de ontem, Feliciano?! Meu in... – Ele fez uma pausa, medindo as palavras antes de concluir, um pouco mais calmo – Eu não entendo o motivo dele ter mudado de ideia.
– Ele não mudou. Só disse que nós deveríamos tomar conta de vocês dois, enquanto ele tenta encontrar o senhor Lov... Oras! Isso não é de sua conta, só cale a boca e fique no quarto!
Em sequência, a dupla saíra do quarto e batera a porta, deixando claro aos dois irmãos que a ordem era séria. De início Ludwig tentou negociar com eles e entender a situação, mas aparentemente a fidelidade daqueles dois era inquebrável e o loiro dignou-se a voltar a sua cama, organizá-la e prosseguir com a leitura de seu livro, ignorando o acesso de raiva que seu irmão deu pela próxima meia hora por culpa da forma com que seu nem um pouco incrível irmão parecia desistir rápido.
E agora ali estavam eles, já passava das uma da tarde e nada acontecia. Gilbert provavelmente explodiria de tédio, uma morte nada incrível para alguém como ele.
Uma agitação iniciou-se do lado de fora. Os irmãos conseguiram ouvir uma onda de ansiedade e nervosismo se alastrando pelos corredores do casarão. Alguém gritou, e Ludwig conseguiu reconhecer a voz de seu atual carcereiro murmurando graças em italiano com um suspiro aliviado.
Ludwig ergueu os olhos de seu livro e Gilbert se ergueu da cama no exato momento em que a tranca era destravada. A porta se abriu e o italiano – que tremia levemente – sorriu para ambos.
– Sinto muito. Vocês estão liberados por agora... Só não tentem sair da casa rapazes! Minha mão ainda está coçando pra colocar uma bala na cabeça de alguém...
Gilbert quase pulou de alegria. Ele saltou para fora e apoiou-se na grade de madeira que por sorte impediu-o de cair direto no jardim lá embaixo, onde uma cena das mais interessantes ocorria.
Um sorridente Antônio avançava lentamente pelo chão de pedras com a mão na cintura de um pálido, cansado, mas não menos aborrecido Lovino. Próximo a fonte Feliciano observava o avanço do irmão, segurando-se muito para não chorar. O gêmeo mais novo cobriu o resto da distância entre eles, e uma discussão carinhosa se iniciou, com Lovino gritando qualquer coisa e empurrando Feliciano para longe, enquanto o mais novo finalmente desabava em lágrimas.
Um homem de terno azul escuro aproximou-se do grupo pelo mesmo caminho que Feliciano e puxou delicadamente o rapaz pelos ombros, tentando acalmá-lo. Lá de cima, Gilbert franziu o cenho e chamou pelo irmão.
–... Lud? Eu acho que conheço aquele cara! – O loiro acompanhou o lugar para onde seu dedo apontava, e pousou os olhos azuis no moreno, que agora sorria para Antônio enquanto este apanhava de Lovino também.
– Aquele não é...
– Sim, sim! É ele, não é?!
– Bem...
Um grito interrompeu o alemão, e destruiu o momento de reencontro, e os quatro homens que estavam no jardim ergueram o olhar para os dois alemães ao ouvir a frase do albino que os alcançou.
– Jovem mestre?! – Gilbert exclamou, sem conseguir acreditar no fato de que o austríaco realmente estava ali. Ele só podia estar sonhando, certo? Certo?
Roderich sentiu seu sangue gelar, e o coração falhar um compasso. Não era possível... Aquilo só podia ser algum carma, ou um pesadelo bem cruel. Lentamente, seu olhar violeta prender-se os olhos vermelhos do albino que agora equilibrava-se na grade, talvez tentando enxergá-lo de mais perto.
Errado. Era possível e estava acontecendo.
– Gilbert?! O que você está fazendo aqui?!
O sorriso que brotara no rosto de Feliciano desapareceu por completo em um único segundo.
– Oh... Reunião de família... – O gêmeo mais novo sussurrou para si mesmo antes de erguer o olhar com um suspiro. A próxima sentença foi dita em uma voz bem mais alta. – Eu quero os dois no meu quarto, agora! Guiliano! Leve-os até lá, eu já estou subindo!
Aquele era, definitivamente, um dia anormal.
Notas finais
No mais obrigada pela leitura e AVISO IMPORTANTE: minha escola vai entrar em período de provas nas próximas duas semanas então pode ser que eu atrase os próximos capítulos ou pode ser que não.
Pelo outro lado, depois disso eu vou ter todo o tempo do mundo pra postar =)
Besos, Gin-chan ♥
P.S.: Aliás, alguém aí foi nas manifestações? Eu quero muito ir! -nadaver
Fale com o autor