Famiglia Vargas

14 Capítulo Quatorze: Um dia a mais


Notas iniciais
Eu tô viva! Calma pessoas! Sei que morreram de saudades, não precisa dizer -sqnDessa vez, sem acontecimentos depressivos. Eu simplesmente... Não sabia o que escrever ;-; ou melhor, como escrever. Podem me bater, se quiserem.Mas bem, aí está o capítulo. Mais bem escrito que os anteriores, eu espero. E cheio de -nada- mais uma vez -qq (prometo que em breve as coisas vão ficar mais interessantes, mesmo)Até as notas finais. ♥

“- Feli... Você tem certeza de que está bem?

O rapazinho não se virou para ver de onde viera a voz da húngara que lhe fizera tal pergunta. Ouviu quando ela subiu as escadas para o sótão, onde ele se escondera desde que a dupla de irmãos saíra daquela casa. Só de pensar naquilo seu estômago se revirava em ansiedade.

Abraçou com mais força as pernas e escondeu o rosto entre elas, sem querer conversar com ninguém. Ele sabia que Liz viria procurá-lo, mais cedo ou mais tarde. Sentiu os braços dela contornando-o, num abraço carinhoso e caloroso, como os que costumava receber de sua mãe quando era mais novo.

Quando as coisas ainda eram como deviam ser.

Sentiu o cheiro agora familiar do leite quente que Liz fazia para ele quando estava aborrecido, ou quando tinha pesadelos durante a noite – o que era frequentemente, nos primeiros meses que passara na casa. Inconscientemente, abraçou-a de volta, usando seu ombro delicado como apoio enquanto chorava copiosamente, lutando contra os próprios sentimentos.

Como sempre, não precisou dizer nem uma palavra. Elizabeta abraçou-o com mais força, sussurrando que as coisas voltariam ao normal em breve, que tudo ficaria bem. Imaginou que, provavelmente, ela andava fazendo o mesmo com Roderich. O austríaco estava tão destruído quando ele, talvez mais.

Feliciano se sentiu egoísta por estar tão magoado com uma despedida temporária... Ludwig jurara que voltaria. E talvez ele fizesse um bolo e eles dois cantariam juntos, comemorando mais um ano de vida, mais um ano se conhecendo como puderam se conhecer. Sabia que deveria ser grato por ter tido a oportunidade de conhecer o alemão, mas... Soltou um suspiro, controlando a respiração e bloqueando gradativamente a passagem das lágrimas.

Perguntou-se como Ludwig reagiria se o visse como estava agora, usando roupas novas, que Roderich comprara assim que tivera a oportunidade. Afinal, agora que eles estavam novamente sozinhos naquela casa tão grande, Feliciano poderia começar a se vestir como o rapaz que ele se tornara. Não queria parecer ingrato, mas a liberdade lhe era estranha.

Ele se permitiu ser mimado por mais um tempo, mesmo depois de suas lágrimas secarem, e de obedientemente tomar o chocolate. Deitou a cabeça no colo da mais velha e fechou os olhos, sentindo o coração e a mente se acalmarem enquanto Liz passava os dedos finos pelo cabelo castanho dele, trazendo uma sensação de segurança e paz para si.

– Se sente melhor? – Ouviu a moça sussurrar, no que pareceu uma eternidade depois. Piscou, percebendo que acabara por adormecer em seu colo. Lá fora, a tarde acabava.

Pensou em responder, mas não o fez. Não precisava, muito menos. Elizabeta sabia que ele não se recuperaria tão fácil, assim como ele sabia que estaria bem em pouco tempo. As coisas voltariam ao normal muito em breve. Aquela família que ele conquistara, eles voltariam a se unir, mais cedo ou mais tarde.

Duas horas depois, o som da campainha destruiu aquela última esperança.”

.

O início da manhã foi estranhamente descontraído. É claro, Arthur ficou furioso quando descobriu os desenhos no próprio rosto, um monóculo e bigodes de “sir” como dito por Gilbert, e ainda mais irritado quando percebeu que Francis tirara fotos enquanto ele dormia, e agora usava uma delas como papel de parede do celular.

– A culpa não é minha se você fica lindo de bigodes, mon cher. – Foi a resposta de Francis, que deu fim à curta discussão iniciada pelo inglês.

A comida de Matthew estava deliciosa, como esperado do canadense. Eles preferiram algo mais rápido, porque ainda precisavam arrumar os óculos de Alfred, e organizar as coisas para a partida, marcada para após o chá da tarde – exigência do inglês.

O italiano por si mesmo tinha coisas que desejava fazer antes de ir, e agora ele conseguira convencer Ludwig de que eram importantes e não podiam ser adiadas. Por algum motivo, aquela memória específica veio a sua mente enquanto ele observava os prédios da cidade gelada.

Ao seu lado, Ludwig dirigia silenciosamente. Ele estava ansioso, o que era compreensível. O caminho até o hospital foi tenso, e quando chegaram o alemão fez questão de ajudar Feliciano a sair do carro, quase que carregando-o escadaria acima até a recepção, onde conseguiram um par de muletas – fazendo com que se perguntassem o que um belo suborno não poderia fazer.

O caminho até o quarto que lhes foi indicado foi lento e progressivo. Antes de a porta ser aberta por Ludwig, o caminho do menor foi bloqueado pelo corpo do mais velho, que encarou-o uma última vez, aflito e preocupado.

– Não faça isso. – Pediu, apesar de saber que não seria atendido.

– Eu vou ficar bem. – Prometeu. O italiano sorriu e tocou com a ponta dos dedos a blusa de Ludwig, empurrando-o quase que imperceptivelmente para o lado. – Se quiser, pode esperar aqui fora enquanto converso com os dois. – A expressão do maior tornou-se desgostosa, mas ele abriu caminho e girou a maçaneta, adentrando na enfermaria onde tanto Natália quanto Soo estavam e tomando a dianteira, numa atitude super-protetora.

Aquela seria uma conversa interessante.

– O que você está fazendo aqui? – A voz masculina soou assim que puseram os pés para dentro.

Ludwig soltou um suspiro. Atrás dele, o italiano se encolheu, perdendo o sorriso confiante que lhe tomava o rosto até o momento. O cortinado da cama de Natália estava fechado, o que significava que ela ainda estava sob o efeito de sedativos – ou só não estava com vontade de ver ninguém.

Soo encarava a dupla, parecendo surpreso com aquela visita – mais especificamente, na presença de um suposto prisioneiro em seu quarto do hospital, onde, por acaso, ele estava por culpa do já referido prisioneiro.

Por fim, ele fixou os olhos mel em Feliciano, decidindo atribuir aquela situação a ele. A reação dele era aceitável, logicamente. Ludwig até tentara convencer o menor a desistir da visita, mas Feliciano insistira em falar com os dois.

Sua maior preocupação era com Natália, que era do tipo de pessoa que guardava mágoa por um bom tempo.

– Como ele conseguiu chegar aqui, Ludwig? – Considerando o tom pouco amigável de sua voz, Soo também não era muito lá fã da palavra “perdão”.

Antes que Ludwig pudesse responder, ou impedir o menor de fazer o mesmo, Feliciano tomou a iniciativa de se aproximar da cama alheia, curvando-se para frente quando estava a poucos metros do rapaz e sentando-se na beira do colchão, escolhendo dizer a próxima frase num japonês pouco trabalhado, mas que conseguiu arrancar do coreano a reação desejada inicialmente.

– Boa tarde, Soo.

Os olhos mel se arregalaram. Ludwig olhou de um para o outro dos rapazes, sem entender o que Feliciano dissera. Preocupou-se com aquela proximidade demasiada, mas decidiu esperar um pouco mais antes de agir. O italiano tentou se ajustar, as muletas incomodando-o. Por fim, colocou-as de qualquer forma ao lado da cama, soltando um sorriso de desculpas para o rapaz antes de voltar a falar.

– Estou feliz de ter a oportunidade de conversar com você, por um momento pensei que não conseguiria. Já faz algum tempo, mas Kiku e eu discutimos sua situação. – Ele continuou, sabendo que Soo o entenderia. Segundo seu amigo japonês, a mãe de ambos insistira em ensinar as línguas de um para o outro, de forma que não faria diferença se o italiano falasse em coreano ou em japonês. – E ele pediu que eu te entregasse isso... Nós dois esperávamos que meu encontro com você fosse... Diferente. – Soltou uma risada, seu tom soando como um pedido de desculpas.

Assim que o nome do irmão mais velho foi citado, Soo estremeceu, esperando ameaças ou avisos para que não se envolvesse mais. A última coisa que esperava era que o irmão tivesse algum envolvimento com a máfia italiana, e menos ainda com Feliciano.

Ao finalizar o pequeno discurso, o moreno estendeu para si uma carta. Depois de encolher-se para longe por um momento, inicialmente ele não pode ver o papel esbranquiçado entre os dedos pálidos e feridos, o coreano hesitantemente aceitou o pequeno envelope, uma sensação desconfortável tomando-o quando seus dedos roçaram os do menor.

–... O que você tem a ver com ele? – Falou em japonês, seguindo o exemplo do italiano.

– Nós somos amigos. – Feliciano respondeu simplesmente, antes de passar a usar inglês. – Agora, eu preciso ir. Foi um prazer conhecer você, Soo... – Sorriu na direção de Ludwig. Apoiou um dos braços do outro lado das pernas do coreano, aproximando seus rostos e sussurrando o resto da mensagem que lhe fora designada, antes de recuar para longe.

Precisou curvar as costas para recuperar as muletas, e foi ajudado por Ludwig a se levantar.

Murmurou que estava bem, mas ao invés de seguir para a saída, empurrou para o lado o cortinado de Natália, entrando lá sozinho e passando cinco minutos em completo silêncio lá dentro, para a aflição de Ludwig. Ao sair, ele sorria menos, mas também parecia mais calmo.

– Já tomei de vocês tempo o bastante. – Anunciou finalmente. Com um aceno, Ludwig o chamou na direção da saída, por onde passaram sem cerimônias, deixando o quarto voltar ao estado inicial de calmaria.

Por um momento, tudo o que prevaleceu foram os sons dos aparelhos de ambos. Lentamente, o rapaz pendeu a cabeça para o lado da cortina fechada, respirando fundo para chamar o nome da bielorrussa.

– Ele não é confiável. – Foi interrompido antes mesmo de começar. A voz de Natália era quase sussurrada. Apertou com mais força a carta que agora estava entre seus dedos. Perguntou-se o que ela diria sobre seu irmão, se soubesse do envolvimento dele com a máfia.

–... Eu sei. – Sussurrou de volta.

A cortina que os separava foi tirada do caminho. Os olhos violeta da loira encararam com curiosidade – e uma preocupação mal disfarçada.

– O que ele disse pra você?

– Quando?

– Ele estava falando em japonês, também... Você não tem um irmão japonês? – O rapaz optou pelo silêncio, esperando enquanto ela tirava as próprias conclusões. A loira silenciou-se por um ou dois minutos, talvez hesitando em fazer acusações infundadas. – Os dois se conhecem?

–... São amigos. – Soo admitiu. Não tinha motivos para mentir.

– Uhn. – Ela analisou o rosto dele, e então abriu um meio sorriso. – Ele mandou lembranças? Já faz um tempo que vocês não se falam, certo?

Surpreso, Soo maneou a cabeça afirmativamente. Ergueu o braço, mostrando o envelope, um sorriso de pura alegria cobrindo a face, apesar de parecer extremamente frágil aos olhos de Natália.

– Uma carta... Feliciano disse que Kiku estava me procurando. – Por um momento, ele pensou que começaria a chorar. – Disse que... Que ele queria poder me ajudar, não importa como. – Mais uma pausa, e um suspiro trêmulo. Soo encarou a carta, agora com receio do que leria ali. Repetiu para si mesmo, num sussurro. –... Ele esteve procurando por mim.

– E vai encontrar, se você quiser.

Soo ergueu os olhos de volta a moça, agora completamente incrédulo.

– Você... Mas você disse que o Feliciano não era-

– E ele não é. Mas se você quer procurar seu irmão, procure... Nós podemos procurar ele, se você quiser.

Agora ele estava boquiaberto.

–... Nós?

– Eu já de disse antes, não? – Ela bufou, impaciente com a lerdeza dele. – Se você não viesse comigo, eu te sequestraria. Então, é melhor que eu vá com você.

Por algum tempo, eles se encararam. Soo observou enquanto Natália parecia perceber a magnitude das próprias palavras. Subitamente, a loira rodou o corpo para o outro lado, quebrando o contado de seus olhos, e impedindo-o de ver seu rosto.

–... Nat? Tudo bem?

– Calado. Vá dormir, eu quero ir embora daqui logo. – Natália puxou as cobertas para cima da cabeça, tentando impedir a vermelhidão de tomar seu rosto. Por um tempo, esperou algum comentário maldoso por parte do coreano. Nada. E então, pegou-se estranhando o fato de ter se acostumado com certos padrões entre eles dois, que antes ela não perceberia. Tentou entender de onde surgira tamanha proximidade entre eles, mas ao chegar a uma conclusão, tudo o que pode fazer foi bufar.

Soo, por sua vez, ergueu uma sobrancelha, sem entender o motivo de ela ter feito aquilo. Finalmente, criou coragem o suficiente para rasgar o papel em seus dedos, puxando de dentro duas folhas preenchidas quase que completamente por kanjis. Ele sorriu ao reconhecer o traço do irmão nelas.

Talvez Feliciano Vargas não fosse assim tão ruim, foi o que pensaram em conjunto.

.

“Ele pode ouvir gritos no andar de baixo, mas não moveu-se para checar o que acontecia. Na verdade, virou-se para ter certeza de que a porta de seu quarto estava trancada, o que não era o caso.

Ponderou sobre os prós e contras de caminhar todos os míseros três metros até a saída, tudo para bloquear qualquer envolvimento com a comoção que ocorria. Antes que pudesse fazê-lo, porém, uma voz apavorantemente familiar o fez estagnar.

– Pouco me importa o que você acha. Eu vim aqui para levar meu irmão para casa, não pra ouvir sermão.

Um arrepio correu sua espinha e ele recuou até estar completamente prensado contra a parede do quarto. As lágrimas caíram pelo seu rosto, silenciosamente. Sentiu-se tremer de cima a baixo, o estomago revirar.

O que aquela pessoa fazia tão longe da Itália?!

A voz do Sr. Edelstein interveio, ao que Feliciano suplicou que ele conseguisse enrolar seu irmão, tirá-lo de lá. Uma parte de sua mente gritou para que ele trancasse a porta do quarto, bloqueasse a entrada, qualquer coisa. Qualquer coisa que o mantivesse ali por um pouco mais de tempo.

Só um pouco mais, suplicou. Ele ainda não podia ir embora.

– Mas senhor Vargas-

– Você teve a audácia de me esconder ele por todos esses anos, seu austríaco desgraçado. Eu estou relevando isso, porque ele está a salvo. Agora, fique quieto.

Não... Por favor, não.

Fechou os olhos e recolheu-se a um canto apertando os ouvidos com as mãos, mas não forte o bastante para impedir as lágrimas de rolarem cada vez mais violentamente, seu fluxo aumentando a cada passo ansioso na sua direção.

A porta do quarto abriu-se num rompante, Lovino imprimiu força em excesso no ato – talvez por puro desespero de acabar logo com aquilo. Ele arfava, esquadrinhando o quarto que era preenchido de desenhos – até mesmo no teto. Todas as pinturas eram de paisagens. Animais, objetos. Sorriu, grato por encontrar um pouco de familiaridade no ambiente. Como sempre, seu irmão se recusava a desenhar seres humanos.

Fixou os olhos esverdeados na bola que era seu gêmeo idêntico. Sem pensar, avançou alguns passos até ele, sentindo-se emocionado com a possibilidade de estarem mais uma vez unidos, como deveria ser.

– Senhor Vargas, não dê nem mais um passo.

O corpo de Lovino obedeceu, reagindo automaticamente a uma ordem, coisa que ele não estava acostumado a receber. Virou-se, vendo um casal de jovens parados entre a porta do quarto e o corredor. Reconheceu a voz da moça como aquela que tivera a ousadia de pará-lo.

– O que você quer? – Rosnou.

– Saia do quarto de Feliciano.

Piscou, incrédulo. Quem ela pensava que era? Preparou uma boa resposta, nem um pouco respeitosa, mas uma terceira voz – que pareceu-lhe dolorosamente acuada – juntou-se a conversa, soltando duas palavras apenas.

– Vá embora.

O sussurro do irmão mais novo cortou o ar até ele. Lovino virou-se para encará-lo. Ele não havia movido nem um único músculo, mas agora que parara para observar, percebeu que ele tremia.

– Feli-

– Saia.

Na segunda vez, soou como uma súplica. Lovino se encolheu, e recuou. Passo a passo até que não pisasse mais sobre o tablado de madeira do quarto. Roderich, que até então estivera impassível, entrou no quarto e fechou a porta atrás dele, não sem antes lançar ao rapaz um último olhar de aviso.

– Agora. – Liz começou, chamando a atenção do gêmeo mais velho. – Porque não vamos até a sala e conversamos, enquanto Rod tenta descobrir o que aconteceu com o Feli?

O tom dela foi menos imperativo, soando mais como uma sugestão. Em silêncio, Lovino acompanhou-a para o andar de baixo, perguntando-se o que diabos teria acontecido durante aqueles anos que para ele foram uma tortura. Talvez, pensou, Feliciano considerasse aquele lugar como um lar, o que era mais do que Lovino jamais poderia oferecer a ele.

A possibilidade doeu profundamente.

– E então, quer me dizer o que mudou?

Como sempre, a voz de Roderich soava como seu piano, tranquila e confiável. Feliciano não precisou nem se perguntar o porquê de ter sido o austríaco a socorrê-lo naquele momento, e não Liz. Havia entre ele e o pianista uma conexão compreensível.

Os dois ainda estavam tentando descobrir quem saíra mais ferido de seus relacionamentos com os irmãos germânicos.

Lentamente o moreno ergueu o rosto, envergonhado por seu comportamento. Encontrou os olhos violeta de Roderich encarando-o por detrás dos óculos.

–... Eu quero ver ele, Roderich. Quero meu irmão de volta, mas... – Sussurrou, com medo de admitir aquilo para si mesmo. O austríaco concordou com a cabeça, incentivando-o a continuar. – Mas se eu for... Eu posso nunca mais encontrar com o Lud... E eu não quero perder o que eu consegui aqui. Vocês também são minha família e-

– Isso não vai mudar. – Roderich prometeu. – Assim como o tempo não mudou o fato de você e seu irmão serem gêmeos. Ele sentiu sua falta.

Feliciano apoiou a cabeça contra a parede gelada.

– Eu senti falta dele também.

– Ótimo. – O austríaco pareceu satisfeito. – Então, que tal descermos para conversar com seu irmão?”

.

Abriu os olhos, franzindo o cenho. Não se lembrava de ter dormido. Olhou em volta e percebeu que o aeroporto estava bem mais cheio agora.

Gilbert dormia duas cadeiras a sua direita, babando. Alfred fizera o favor de se vingar por todos os outros, desenhando em todo seu rosto também – principalmente flores e borboletas. Arthur estava ocupando seu tempo com um jornal que ele conseguira em inglês numa das lojas que se espalhavam pelo aeroporto, apesar da leitura ser uma desculpa esfarrapada para ignorar o francês, que flertava com a atendente de outra lojinha. Matthew jogava algum jogo contra o americano – que parecia estar perdendo.

Esfregou os olhos, tentando encontrar uma posição melhor na cadeira onde estava sentado. Seu movimento acordou Ludwig que, sentado ao seu lado, dormira no meio da leitura de um guia turístico de São Petersburgo.

– Feliciano? Tudo bem? – O italiano ergueu os olhos, inicialmente sem entender o que a pergunta queria dizer. Percebeu a preocupação nos olhos de Ludwig e tratou de sorrir.

– Uhn? Ah. Tudo bem... Eu só estava pensando em como é bom estar voltando pra casa.

Ludwig não entendeu muito bem o significado do que o rapaz dissera, mas sorriu de volta antes de retomar a leitura. Feliciano observou-o pelos cantos dos olhos por mais um ou dois minutos, calculando o nível de segurança em que se encontrava, antes de tombar discretamente para o lado, apoiando a cabeça no ombro do maior e fechando os olhos, permitindo-se sentir cada músculo dele ficar tenso. Em sua mente, ele pode vê-lo corar e virar o rosto para o outro lado, exatamente como fazia quando eram mais novos.

– Eu também senti falta disso. – Murmurou, apesar de tê-lo feito para si, e não com o objetivo de ser escutado.

“Passageiros do vôo 0409, por favor, aproximem-se do portão de embarque. Repetindo, passageiros do vôo 0409, destino Itália, o embarque se iniciará em cinco minutos.”

Com um suspiro, Feliciano se levantou, puxando as muletas e apoiando-se nelas. Virou-se para observar Ludwig se levantar também, seguindo até o irmão para acordá-lo. Gilbert era o tipo de pessoa que dificilmente acordaria com o fim do mundo – e muito provavelmente, se o fizesse, voltaria a dormir.

– Gilbert, está na hora do embarque. – Chamou, sem resposta. – Eu vou te deixar pra trás. – O albino continuou a dormir. Alfred se aproximou deles, um sorriso divertido no rosto.

– Pode deixar comigo! The hero will wake him up! – Dito isso, o loiro se curvou e tampou o nariz do lutador, impedindo-o de respirar, e sussurrou em sua orelha de forma que só ele escutasse. – O lanche do avião vai ser feito pelo Arthur.

Gilbert se levantou num salto, empurrando o americano para longe e olhando em volta. Pregou os olhos em Feliciano, que de longe, observava a cena. Num salto, aproximou-se do rapaz, puxando-o pelo ombro.

– Feliciano! – Quase gritou, deixando o italiano surpreso. – Você vem comigo pra comprar alguma coisa pra viagem.

.

O moreno estalou a língua, aborrecido e extremamente impaciente. A enfermeira estremeceu, mas se forçou a continuar a bateria de exames que vinha durando desde o final do dia anterior. Por algum motivo estúpido, Lovino fora forçado a passar mais uma noite no hospital, e por outra razão ainda mais estúpida, Antônio lhe fizera o favor de desaparecer por aí, deixando-o sobre os cuidados de Giuliano, com quem ele nem conversava tanto assim.

– Senhor, por favor, pare de se mexer tanto. – A moça falou tão baixo que ele demorou a entender o que lhe fora dito. Lutou para ficar quieto no mesmo lugar enquanto ela cutucava, apertava e beliscava seu corpo. Finalmente, ela largou-o com um suspiro, recuando com a prancheta cheia de anotações. – Você está liberado, por enquanto. Nós teremos um resultado mais concreto em no máximo uma semana. Até lá, tente não arrumar problemas. E tome sol durante a manhã, vai te fazer bem.

E então, ela saiu do quarto sem nem mesmo olhar para trás, deixando-o sozinho. Lovino desceu da maca onde estava, puxando a blusa que Antônio lhe trouxera mais cedo e abotoando-a sobre o corpo. Passou a mão pelo rosto, pensando que precisaria se barbear, e tomar um banho decente quando chegasse em sua casa.

– Finalmente. – Resmungou para si mesmo, aliviado em saber que poderia ir embora. Mesmo que ele tivesse passado todo o tempo desacordado, a ideia de ter ficado tanto tempo naquele hospital, longe de casa, do irmão, e até de Antônio, aquilo o deixava inquieto ao extremo.

Olhou em volta, percebendo a aproximação de Giuliano e de dois de seus seguranças – que lhe pareceram um pouco paranóicos demais – e aproximou-se deles, grato pela liberdade que reconquistara, agora que fora autorizado a retirar o gesso.

– Ei, capo. Bem vindo de volta.

Concordou com a cabeça, a sombra de um sorriso, que ele sabia que o outro conseguiria ver, passando por sua face. Eles caminharam silenciosamente para o lado de fora do prédio do hospital, guiando o chefe até um carro popular – tudo numa tentativa de chamar o mínimo de atenção possível.

Lovino não prestou atenção no caminho que tomavam, abrindo e fechando o celular a cada minuto que passava, irritado por não ter recebido mensagens nem nada, nem do irmão nem de Antônio. O carro parou em um sinal, exatamente quando ele decidiu perguntar logo o que acontecia.

– Giuliano, Rodrigo, Júlio? – Chamou, sendo respondido com um despreocupado “un?” pelos rapazes. – Será que algum de vocês pode me dizer o que aconteceu com aquele spagnolo, e onde meu irmão está?

Os três homens prenderam a respiração, passando para Lovino a certeza de que havia algo de errado acontecendo. Já voltando a ficar irritado, o chefe sentiu uma vontade enorme de surrar cada um ali, até que conseguisse uma resposta decente. Na verdade, já estava estalando as juntas dos dedos no exato momento em que Giuliano recebeu uma ligação.

“Salvos pelo gongo” foi o pensamento geral. Por no máximo dois minutos, ele conversou num italiano veloz pelo telefone – ao que os outros dois pediram um pouco de paciência de Lovino – parecendo cada vez mais aliviado com o que ouvia. Por fim, ele colocou de lado o aparelho e apoiou a cabeça contra o estofado do carro, soltando um suspiro de alívio.

– Rodrigo, você pode seguir para o aeroporto. Parece que hoje é nosso dia de sorte. Signore Feliciano está de volta.

Todos os outros dois pareceram extremamente aliviados com aquela declaração, ao que Lovino só pode ficar ainda mais desconfiado. Seus olhos encolheram até virarem fendas e ele cruzou os braços, chamando a atenção dos outros três italianos. Geralmente, aquele era o gesto que ele fazia quando estava realmente aborrecido com algo.

Como assim “Feliciano está de volta”?

Notas finais
Ohonhonhonhon.... Alguém vai ter MUITO o que explicar pra um certo italiano irritadinho. *u* Morte aos espanhóis gostosos -q *cheiro de sangue no ar*Bem, na verdade eu espero que esse seja o último capítulo com flashbacks, se não o penúltimo. Ah, falando nisso, o que acharam deles?Não vou me demorar muito por aqui hoje, só queria reforçar as desculpas pela demora, agradecer os comentários, e avisar que daqui pra frente, os capítulos serão postados toda sexta, pra evitar dores de cabeça de minha parte.Obrigada por continuarem acompanhando essa fic, beijocas da Gin-chan ♥Até sexta que vem.