Famiglia Vargas
15 Capítulo Quinze: S.O.S
Notas iniciais
De qualquer forma, eu recomendo caixinha de lenços pro capítulo de hoje, porque ele é feito de feels. A música é S.O.S, de "Mamma Mia!", o musical.
Até as notas finais. ♥
“Durante a separação de seus pais, os irmãos germânicos eram obrigados a aguentar a cada noite os gritos que preenchiam a casa, e as discussões dos pais. Por ser adolescente, Gilbert não pensou muito em ninguém antes de começar a se meter em problemas.
Ainda assim, era inegável que sentia culpa por deixar o irmão sozinho em casa, noite após noite, sendo obrigado a conviver com um peso que não lhe cabia. Talvez por isso, ou talvez por ter nascido um espírito rebelde, quando o albino chegou a conclusão de que nada daquilo traria qualquer benefício para ele e para o irmão, a solução encontrada não foi das mais ortodoxas.
Quando disse para os pais que estava saindo de casa, e que levaria Ludwig consigo, Gilbert lembrava-se muito bem da resposta que tivera.
- Quanto mais longe, melhor.
Parecia terrivelmente irônico que aquelas fossem exatamente as mesmas palavras que recebera naquela manhã. O telefonema da mãe viera a exatas duas semanas, junto com um pedido de desculpas, choro e arrependimento. Uma cena digna de um drama, na opinião de Gilbert.
Ao albino, sair de casa era uma perspectiva pouco atraente.
Por outro lado, a ideia de que Ludwig precisava de uma mãe, de uma família de verdade, lhe martelava os pensamentos há muito, e ele via-se na obrigação de pensar no irmão antes de pensar em si.
E foi exatamente por este motivo que ele concordou. Ele aceitou em silêncio e escutou enquanto a mãe chorava um pouco mais e agradecia um pouco mais. Com uma frustração crescente, ele disse que eles podiam tentar mais uma vez.
Como se a vida distribuísse segundas chances de graça por aí.
Pelas duas semanas seguintes, Gilbert recebia ligações diárias da mãe. Ela dissera “assim que a escola acabar por aí”, o que não era um prazo justo. Agora, tudo o que lhe restava eram alguns poucos dias que correriam rápido, e que ele provavelmente passaria sozinho.
Naquela manhã, ele dissera para todos, na mesa do café, que pretendia voltar a morar com a mãe. O senhor Edelstein, como sempre, ficou feliz ao ouvir a notícia. O homem era do tipo que simplesmente tinha um coração grande demais. Quando Gilbert pedira abrigo, ele os adotara sem nem mesmo tê-los visto antes. E agora, ele parecia disposto a se despedir deles com todo o amor com que os recebera.
Roderich, por outro lado, não reagira tão bem.
Enquanto falava, seus olhos estavam atentos ao moreno, simplesmente porque Gilbert desejava saber que tipo de reação causaria na inabalável postura do aristocrata. Inicialmente ele pensou que não conseguiria absolutamente nada. Mas então Liz sorrira e dissera “eu fico feliz por você e por seu irmão”. E então Roderich enlouquecera. A xícara em que tomava seu chá atravessara a superfície da mesa com velocidade e quebrara-se sobre o albino, cortando o tecido da blusa branca e da pele pálida.
Seus olhos se arregalaram e encararam Roderich, que simplesmente se ergueu e espalmou as mãos contra a mesa com violência, encarando-o com uma intensidade ainda maior que aquela compartilhada por eles na cama.
- Quanto mais longe você estiver de mim, melhor. – E então ele se fora, subindo as escadas velozmente e desaparecendo para dentro do quarto. Elizabeta, como a boa amiga que era, seguiu atrás dele, parecendo extremamente preocupada, mas não sem antes pedir desculpas ao albino.
- Ele não quis dizer aquilo, Gil. Eu... Eu sinto muito. Vou tentar falar com ele.
Gilbert só ficou ali, na cozinha, encarando o nada em completo choque. O pobre senhor Edelstein parecia estar passando mal, e depois de tentar falar com o albino algumas vezes – sem resposta – ele se levantara e desaparecera para a sala, onde geralmente ficava quando estava realmente chateado com algo.
Por fim, tudo o que lhe restou foi se erguer em silêncio e subir lentamente as escadas, desejando poder ficar, conversar com alguém, e principalmente, desejando entender a reação de Roderich.
Afinal, não é como se qualquer um dos dois se amasse.
- Vocês são muito insinceros, e é por isso que ele ficou tão chateado. – Fora o que Feliciana dissera. Isso depois de ser arrancada da companhia de Ludwig, ato pouco apreciado pelo irmão mais novo.
No momento, ela tentava dar um jeito nos pequenos cortes no braço dele, causados pela “acidental” tentativa de assassinato que sofrera mais cedo.
- Não faz sentido. – Continuou reclamando. – Ele sabe que eu amo ele... Ou pelo menos deveria saber... Eu acho.
Os dedos pequeninos pararam por um momento.
- Você falou isso pra ele?
-... Não. Mas isso é meio óbvio!
- Você por um acaso acha que ele te ama?
- Quem, Rod? – Soltou uma risada amarga. – Não mesmo! Ele não tá nem aí, só deve ter ficado frustrado por eu não ter dito antes, ou sei lá, por eu estar deixando ele sozinho.
A menina soltou um suspiro e colocou o último curativo no lugar.
- Se quer mesmo saber o que ele pensa, vá lá e pergunte.
E a parte irritante é que Gilbert realmente fora. Durante a tarde do último dia, quando eles dois eram os únicos na casa.
O albino se sentara na frente da porta do quarto de Roderich e chorara. Gilbert chorou, e pediu perdão, e pediu paciência. E então percebeu o quão era parecido com a mãe que o tinha abandonado, e gritou de ódio. Ele disse que não queria ir, mas o fazia pelo irmão. Disse que voltaria um dia, por Roderich.
Ele disse que o amava.
Roderich não respondeu.
O avião que ele pegou no dia seguinte estava lotado e abafado. Por estarem na classe econômica Gilbert sentiu-se preso durante todo o percurso. Apesar de não ter dormido, sua mente vagava entre a realidade e uma ansiedade crescente perante a perspectiva de uma nova vida.
Sua mãe veio e buscou os dois no aeroporto, três horas depois de terem chegado. Ela sorriu e comentou como eles dois estavam grandes, e bonitos, e então chorou mais um pouco. Ludwig abraçou-a.
Gilbert pegou a mala do irmão e seguiu na frente.
De início, ele hesitou em colocar suas expectativas na vida que eles levariam dali pra frente. O primeiro mês veio e foi, e dentro da apertada agenda a mãe lutava para almoçar com os dois todos os dias, demonstrando o quanto os amava, ele supunha.
Talvez a apatia de Gilbert tenha sido o fator determinante para que tudo desse errado mais uma vez. Apesar de tudo, o rapaz não fez novas amizades, e passava a maior parte do tempo fora de casa ou dentro do quarto. A tradição do almoço em família foi quebrada com quatro meses e dez dias. A situação financeira deles foi ao fundo do poço exatos cento e setenta e dois dias depois.
Seu pai voltou, ainda mais alcoólatra, ainda mais frio e ainda mais cruel. Por um motivo que até hoje lhe era desconhecido, sua mãe o acolheu. As brigas voltaram a acontecer, as noites deixaram de ser dormidas. Durante aqueles dias, pensar em Roderich costumava ajudá-lo a dormir à noite.
Foi mais ou menos nessa época que Gilbert envolveu-se com as lutas ilegais, e provavelmente também foi quando Ludwig conheceu Ivan. Seu lar voltou ao inferno original, até o dia em que Gilbert não aguentou mais e envolveu-se em uma delas.
Acabou parando na delegacia, o que levou a prisão não dele, mas do pai.
Ludwig desapareceu de sua vida exatos vinte e um dias depois. A mãe mudou-se, e apesar de convidá-lo para vir junto, ele sentiu-se obrigado a recusar – e pode ver o alívio no rosto dela ao fazê-lo.
Sua vida passou de um furacão a uma corda bamba em questão de dias. O que ganhava nas lutas ele usava para viver. O que sobrava era depositado para quando já não lhe restava nada.
Quando seu irmão assumiu a empresa, ele não foi parabenizá-lo. E quando passou a receber dinheiro mensalmente, devolvia-o em dobro até que Ludwig desistisse de ajudar.
Talvez por sorte do destino, ou azar, foi exatamente quando ele conheceu seu treinador, e quando foi salvo dos ringues ilegais para iniciar a lenta subida de carreira no boxe oficial.
Quando ele venceu o primeiro título, Ludwig estava na platéia. Ele foi aplaudido de pé, e pode ver o orgulho nos olhos do irmão mais novo. Aquilo lhe doeu profundamente.
Ele só saberia muito mais pra frente, mas boa parte de seus patrocínios foram investimentos feitos por Ludwig. Curiosamente, e isso ele nunca saberia, outra boa parte viera de uma empresa italiana bélica extremamente bem sucedida.”
Gilbert nunca gostou de despedidas. Menos ainda de viagens. Não sem motivos, ele sempre se sentira sufocado em aviões, desconfortável com a incapacidade de se mexer no espaço minúsculo entre as cadeiras. Em resumo, ele era claustrofóbico.
Sair do avião para a manhã amena de Genova foi um grande alívio. Olhou em volta, apesar de não estar exatamente esperando por uma recepção calorosa nem nada do tipo.
Exatamente por ter a certeza de que não teria ninguém o esperando, ficou surpreso ao ver um senhor de idade do lado de fora da sala de desembarque, encarando-o fixamente.
Outras pessoas carregavam papéis com nomes de pessoas por quem esperavam, e Gilbert não demorou muito para perceber que ele segurava um cartaz com os dizeres “Um lutador morto”. Ele percebeu que o albino já o tinha notado e abriu um sorriso divertido, acenando. Gilbert estremeceu porque sabia muito bem que aquele homem era muito bem capaz de matá-lo.
O treinador de Gilbert estivera com ele durante quase toda sua carreira. Se não fosse por ele, o albino nunca teria conseguido nada do que possuía hoje. Antigamente, quando ainda participava de lutas ilegais na Alemanha, era muito comum que um lutador acabasse em coma, ou até mesmo morto, depois de uma luta, e poucos conseguiam evitar isso
Gilbert aprendera muito rápido o que fazer para não acabar de nenhum dos dois jeitos, de forma que apesar de ser jovem, ele começou a ganhar dinheiro com aquilo. Por outro lado, por mais incrível que fosse... Gilbert era humano, e se não fosse pelo treinador, ele provavelmente teria acabado na mesma situação que muitos outros: sete palmos debaixo da terra, o que era uma péssima ideia – ele era claustrofóbico, como alguém poderia ter coragem de colocá-lo num maldito caixão?!
Virou-se para avisar ao irmão que sairia primeiro – até porque ele não levara bagagem nenhuma – mas não o encontrou em lugar nenhum, de forma que saiu sozinho da sala de desembarque, indo na direção do senhor com um sorriso animado no rosto.
- Velho Fritz! Há quanto tempo!
- Você vai sofrer muito na próxima semana, Beilschmidt. E vai se arrepender de ter faltado o treino.
- Mas eu-
- Você está me interrompendo, garoto?
O albino se encolheu.
- Não senhor.
- Como eu ia dizendo, sua luta é em duas semanas, e você me fez o favor de faltar um bom número de treinos, o que nos coloca em desvantagem. – Insira aqui um sorriso extremamente sádico. – E é por isso que eu vou te torturar todo santo dia.
Ele tinha se esquecido de como seu treinador era legal.
Aquela parecia uma cena extremamente clichê de filmes, apesar de uma das partes estar incapacitada de correr, e do cenário não ser o de um campo florido pelo qual o casal correria até que os dois se chocassem um contra o outro num abraço repleto de saudades e amor. O caso era: não eram um casal, eram dois homens, e um deles estava de muletas – além de ter um alemão tão grande quanto um muro parado bem ao lado, encarando o espanhol com desconfiança.
- Feliciano! – O tom do espanhol expressava seu alívio eterno em ver o gêmeo mais novo vivo e (relativamente) bem.
- Antônio! – Cumprimentou de volta com um sorriso, afastando-se de Ludwig para ser agarrado num abraço apertado pelo outro amigo.
- Feliciano! – O moreno repetiu, agora girando o menor.
- Antônio!
- Seus dois bastardos!
-... Lovi? – Oras, aquele encontro não poderia ficar melhor! Toni separou-se do gêmeo mais novo, abrindo um sorriso na direção do italiano que se aproximava, com uma aura assassina não notada por ele. – Que bom que você-
Um sapato voador impediu-o de terminar. Mentalmente, ele ainda teve a capacidade de agradecer por não ter sido uma das cabeçadas fatais de Lovino.
- Eu vou matar os dois! Você e o stupido do meu irmão stupido! – E então se virou na direção do já referido irmão estúpido. – Se você tivesse morrido, eu teria te revivido só pra te matar outra vez, seu... Argh! Tem noção de o quanto eu- Eu... – A frase foi reformulada. – Quis te matar agora?!
Para o horror e surpresa de todos os outros presentes – menos Antônio, ele já estava acostumado – o pequeno Feliciano sorriu e abraçou o irmão, que se aproximara enquanto gritava as ameaças.
- Eu senti sua falta também. – O mais novo sussurrou, de forma que só Lovino o escutasse. – Obrigado por se preocupar, fratello. Ti amo.
-... Ninguém falou nada disso. – Lovino resmungou de volta, apesar de tê-lo abraçado forte, como se estivesse com medo de que Feliciano desaparecesse.
- Lovi-
- Cala a boca, spagnolo de merda! Você poderia ter evitado isso.
- Mas eu-
O olhar do italiano – por de cima dos ombros do irmão – foi o bastante para silenciar o pobre moreno que agora se levantava. Feliciano soltou uma risadinha baixa, ao que o irmão soltou-o e direcionou sua irritação crescente para ele.
- Não me olhe com essa cara. – Ronronou enquanto apertava as bochechas do outro. – O irmão Toni só não foi comigo porque estava com medo de soltar sua m-
- Eu sei. – Lovino interrompeu-o, agora ficando rosa – Não precisa dizer em voz alta.
Eles foram juntos para casa. Somente os gêmeos Vargas, com o carro sendo dirigido por um Antônio extremamente chateado por ter sido ignorado. Houve uma quantidade excessiva de olhares insinuantes entre os três, o que culminou num caminho feito sem sons, mas com conversas extensas.
A primeira coisa que Lovino fez ao chegarem ao casarão foi dizer para Antônio cuidar de tudo. Depois disso ele seguiu com o irmão para o quarto, fazendo seu caminho lento pelos corredores, graças às muletas do mais novo. Em meia hora eles estavam deitados na cama de casal, virados de costas um para o outro, encarando a parede.
Feliciano sempre fora o tipo de pessoa que gostava de rotinas. Aquilo era algo da personalidade dele, e Lovino nunca se incomodara, pelo contrário, ele lutava para criar rituais simples entre eles, como comerem juntos, compartilharem o quarto, vestirem-se exatamente do mesmo jeito em datas comemorativas e outros detalhes bobos que ajudavam o cotidiano.
Mas principalmente, e aquela era uma regra que nenhum dos dois nunca ousaria quebrar, era de praxe que depois de qualquer experiência de quase morte por qualquer uma das partes – que geralmente se resumiam a Lovino – eles deveriam obrigatoriamente ficar juntos daquela forma, simplesmente aproveitando a sensação de terem um ao outro.
Aquele era um daqueles momentos em que todo o tipo de coisa passava pela mente dele, todas as coisas que poderiam ter acontecido e todas as dificuldades pelas quais Feliciano poderia ter passado. Ele nunca se tomara por um irmão super-protetor, mas agora parecia-lhe que aquele era o caso.
- Eu estou bem, sabe? – A voz de seu gêmeo quebrou o silêncio entre eles. – Sei que você deve estar pensando em como matar todos eles, mas por favor não faça nada. A culpa foi minha, fratello, eu-
- Não fale como se eles fossem as vítimas aqui.
-... Eles meio que são.
Lovino se ergueu e virou para encarar o irmão, que deitou as costas no colchão de forma que pudessem se olhar. Sua mão direita apertava a esquerda de Lovino, as cicatrizes da queimadura sendo notáveis mesmo ao pouco tato que ainda tinha.
- Como assim?
- Não foram os russos. Minha intenção ao ir lá era descobrir isso, e eu consegui. Ivan é inocente, pelo menos nesse aspecto.
-...
- Sinto muito, irmão.
- Você se arriscou a toa?
Feliciano abriu e fechou a boca. Preferiu não responder.
-... Você está sendo proibido de sair desta comune, para o resto da sua vida. Entendeu?
Apesar de sua voz denotar fúria, a reação do gêmeo mais novo perante o castigo foi um sorriso carinhoso.
- Sim senhor.
Notas finais
Agora, pra começar, sinto muito pelo tamanho. E pela péssima qualidade do texto, eu sei que ele ficou super corrido. E também peço desculpas pela tosquice do reencontro dos gêmeos, deveria ter sido emocionante e não debochada...
Culpem o bloqueio ~.~
Acho que é isso por hoje, e preparem-se para mais uma virada no próximo capítulo - isso, é claro, se ele SAIR da minha cabeça e passar pro Word.
Um bom final de semana pra vocês, meus lindos. E boa semana que vem também.
Gin-chan ♥
P.S.: Podem começar as rezas por criatividade ;-;
Fale com o autor