Famiglia Vargas
17 Capítulo Dezessete: Wake me Up
Notas iniciais
Foi tão difícil ter que esperar uma semana inteira pra postar isso... É uma pena que sejam poucos os que vão ler por enquanto, porque amanhã é o vestibular... Bem, pros que vão fazer, boa sorte (na verdade, espero que tenham ido bem, já que vocês vão ler isso depois x3)
Hoje nós estamos finalizando A Sombra do Girassol. Esse final é quase tão velho quanto o início da "sidehistory" então eu espero que ele esteja bom.
A música dele é Wake me Up, do Avicii. O ritmo nem tanto, mas a letra é linda demais, e combina com a Nat. x3
No mais, boa leitura e até as notas finais ♥
Os orbes gelados dela não eram capazes de se desviar do chinês. O cano da arma estava apontado diretamente para sua cabeça, e seu dedo repousava sobre o gatilho, formigando em antecipação.
Tentou pensar com clareza. Aquele era o homem que Ivan escolhera amar. A arma abaixou alguns centímetros. Ele escolheu Wang, não ela. Imperdoável. Imperdoável!
- Imperdoável! – Rosnou.
Dois grandes olhos castanhos abriram-se, alertas. O chinês encarou-a, parecendo surpreso ao vê-la ali, e ainda mais surpreso ao perceber que ela parecia pronta para colocar uma bala em sua cabeça, poucos segundos antes.
Natália franziu o cenho, aguardando uma reação, mas nada aconteceu. Yao não gritou, nem tentou acordar Ivan, nem procurou por uma forma de se defender. Lentamente, o rapaz sentou na cama, tentando não acordar o loiro, e então ergueu-se com as mãos erguidas num sinal de rendição.
- Vamos para fora, ok? – Ele falou quase sem soltar um som. A loira recuou para o corredor, e então para as escadas que a levariam ao último andar e à laje. Wang acompanhou-a sem protestos, como se não quisesse atrapalhar o sono de Ivan com aquilo, ela percebeu.
Aquele homem ainda era um mistério que ela se via incapaz de decifrar.
O vento era forte e congelante. O chinês tremia em seu pijama fino demais para o clima da região, não que fizesse lá muita diferença. A arma foi colocada de volta na cintura, e ela pegou-o relaxando. Até ver a adaga em suas mãos.
Feliciano dera para ela, no dia de sua visita ao hospital. Ele sentara-se ao seu lado na cama, e fizera apenas uma pergunta, que ela não se importou de responder. Foi bastante clara ao dizer que nem ela, nem Ivan, nem Soo tinham nada a ver com o ataque durante a festa. Antes de sair ele deixara a arma em cima da cabeceira.
“Uma lembrança.” Ele explicou perante o olhar confuso dela “Souvenir, se quiser chamar assim. Adeus, Natália.”
Parecia mais do que justo. Ela usaria a arma que quase a matara para arrancar do irmão sua coisa mais preciosa. Natália se tornou uma ceifadora. Qualquer alma que ousasse se colocar no caminho de Ivan, qualquer ameaça, deveria ser eliminada. E aquele era o motivo de Wang ter se tornado seu alvo.
Por que aqueles que se aproximavam de Ivan deveriam ser punidos. Ninguém deveria ter o direito de conhecê-lo, de formar com ele um laço. Por que laços eram facilmente rompidos.
E Natália não perdoaria ninguém que tivesse o potencial de fazer Ivan chorar.
Lembrava-se de ser conhecida por um nome extremamente ofensivo. O demônio branco, ou algo assim. Para ela aquele apelido nunca fizera lá muito sentido. Até agora. Por que ela era a única ali incapaz de perdoar a si mesma.Sootinha razão, desde o início. Ela era louca, completamente louca. Soltou uma risada, sentindo o gosto de bile na boca.
Feeling my way through the darkness, guided by a beating heart. I can't tell where the journey will end, but I know where to start.
Chutou Wang no estômago, descontando nele toda sua frustração. Ele era o errado, tinha que ser. Natália não podia estar errada, porque o que ela fazia era pelo bem de Ivan. Avançou até seu corpo caído e se sentou sobre seu tórax, impedindo-o de se mover livremente.
Ergueu a lâmina. Ela o mataria como teria matado qualquer outro que ousasse ferir Ivan. Não fazia diferença quem ele era, nem o quão boas eram suas intenções. Não importava se ele ajudara Soo, ou se ela seria odiada por aquilo. Natália não permitiria que aquele tipo de pessoa vivesse. Ela viu tristeza nos olhos dele, não que fizesse alguma diferença.
- Eu o amo.
Franziu o cenho. Ele deveria sentir-se arrependido. Não declarar para ela seus sentimentos. Natália encolheu-se. Ela amava Ivan também. Nem por isso podia ficar ao lado dele. Nem por isso fora permitida a declarar aqueles sentimentos.
Aquele homem não conhecia a dor de amar alguém. Imperdoável.
- Você não o merece!
-... Eu sei.
Agora ela expressou uma surpresa silenciosa. Ele sabia disso? Sabia que não merecia Ivan, e ainda assim insistia em amá-lo? Ousava expressar aqueles sentimentos em voz alta... E ainda ousar estar ao lado de Ivan durante todo aquele tempo?!
Ela sentiu seu peito se apertar. Aquilo era... Imper...
Não.
Aquilo era irritante. Porque o que ele fizera ali foi o que ela não tivera coragem de fazer durante todo aquele tempo. Sentiu os dedos se afrouxarem no cabo da adaga. Ele tivera a coragem que ela nunca tivera.
Como ele ousava?
A porta atrás deles abriu-se e ela ouviu a voz de Ivan, meio abafada pelo vento forte. Droga. Ela demorou tempo demais. Seu irmão sempre acordou cedo, e ela se esqueceu daquele detalhe.
- Solte-o! Natália!
Trincou os dentes. Primeiro o pedido, depois seu nome. Quem era a prioridade dele? Porque para ela, sempre fora Ivan.
Ela sujara suas mãos por ele. Ela destruíra sua própria vida, ela amara Ivan durante cada segundo de sua existência, desde o dia em que o conhecera. Ela transformara o próprio mundo em violência e mortes, ela destruíra todo e qualquer um que ousasse se colocar no caminho de Ivan.
E agora, ele chamava o nome dela pedindo por outro.
Encarou o chinês com lágrimas nos olhos, e uma mágoa venenosa e violenta apertando-lhe os pulmões e impedindo-a de pensar ou respirar direito. Amar doía tanto. Como aquilo poderia ser justo?
They tell me I'm too young to understand, they say I'm caught up in a dream. Well life will pass me by if I don't open up my eyes. Well, that's fine by me.
Ela era a única que compreendia Ivan. Era a única que merecia estar ao seu lado.
- Nat... Já chega. – A voz baixa de sua irmã chegou até ela. Seu coração deu um salto. Desde quando ela estava ali? – É o bastante. Você já fez muito.
Sim. Ela fizera muito. Ela fizera tudo. Tudo que podia e o que nunca deveria ter feito. E ainda assim, não era a ela que Ivan amava. Que maldito mundo era aquele?
Yao observava a expressão dela em silêncio. Talvez ele pudesse ver como ela se sentia? Quem sabe ele não tentaria entendê-la? Alguém tinha que aceitá-la, certo? Durante todo aquele tempo, quem fora ela?
Sua mente respondeu-lhe com amargura. O demônio branco. O braço direito do demônio russo. O motivo de ele continuar no poder durante tanto tempo, sua força. Sua irmã mais nova. Nunca sua amante.
Ninguém. Ela não era ninguém.
Imperdoável.
- Natália... Vamos embora.
Silêncio. Ela piscou, surpresa. Aquela era a última voz que ela esperava ouvir ali. Toris estava mais perto do que Ivan ou Katyusha ousaram chegar. Ele tinha um sorriso inseguro no rosto, e apesar de estar a uma distância segura dela, mantinha uma mão estendida em sua direção. Ela encarou-o com hesitação.
Ele era um idiota.
- Suma.
Yao porém pareceu encontrar sua chance na desatenção dela. Ele contorceu o corpo para a esquerda, tentando agarrar o braço dela que segurava a arma e imobilizá-la no chão como ela fizera com ele um momento antes.
Os reflexos de Natália foram impressionantes como sempre. Ela apoiou o pé esquerdo no chão e passou para uma posição agachada enquanto ele se afastava apenas relativamente de seu poder.
Com uma facilidade impressionante, ela chutou-o na altura das costelas e levou-o de volta ao chão com um gemido de dor. Puxou-o para cima pelos fios negros e posicionou a lâmina em seu pescoço, fazendo um corte profundo o bastante para arrancar sangue de seu corpo trêmulo.
Qualquer um que ousasse se aproximar de Ivan deveria morrer.
- Não! Chega! Pare com isso! Natália pare! Pare! Não o machuque! Por favor!
Ela congelou, os olhos se arregalando ao ouvir a voz falhada e desesperada dele. Ivan chorava. Ele estava chorando. Imperdoável. Quem ousara fazê-lo chorar?! Trincou os dentes e abaixou os olhos para encarar o chinês. Sua mente discordou. Ela encarou o nada por um segundo. A culpa era dela. Ivan não chorava por ela, mas por culpa dela.
Como ela pudera fazer algo assim?
A pressão da lâmina do pescoço de Yao desapareceu. Seus cabelos foram soltos e ele caiu no chão com um baque surdo, trêmulo e arfante. Não havia nada nele que pudesse fazer com que Natália entendesse como seu irmão se apaixonara.
Talvez ela simplesmente não merecesse Ivan... Um destino cruel. Carma?
Virou-se e largou a adaga no chão, perto dele. Os olhos gelados e inexpressivos lançaram a Toris um claro aviso de ‘não se aproxime’. Ela percebeu vagamente o momento em que Ivan passou por ela, correndo até o chinês e ignorando-a completamente. Sua irmã permanecia perto da porta, olhando-a com preocupação.
Pedir a Ivan que a perdoasse por aquilo seria humilhante demais. As lágrimas caíram, e ela não sentiu nenhuma necessidade de escondê-las. Ela não queria o perdão dele. Não queria mais nada. Ou... Bem, havia algo que ela queria.
Ela queria Ivan.
Apertou os lábios, reprimindo um soluço e engolindo o choro. Ela precisava fazer algo sobre aquilo. Não podia continuar naquele lugar, não poderia aguentar viver no mesmo lugar que Ivan e seu amante. Sua mente não toleraria algo do tipo.
So wake me up when it's all over, when I'm wiser and I'm older. All this time I was finding myself and I didn't know I was lost.
So wake me up when it's all over. When I'm wiser and I'm older. All this time I was finding myself, and I didn't know I was lost.
-... Eu vou embora.
Ivan ergueu os olhos de Yao, surpreso pela declaração dela.
- Natália você não precisa ir, tudo bem. Eu admito que foi cruel da minha parte esconder isso de você, mas aqui ainda é sua casa então...
- Então não seja mais cruel do que você já foi. – Ela interrompeu-o, virando o corpo para encará-lo. – Sua crueldade ultrapassa em muito apenas “não ter contado para mim”. E a parte mais cruel, é o que você fez sem nem mesmo notar.
Ela soltou uma risada. Viu nos olhos dele surpresa, alívio, dor. Não a dor dela.
- Eu vou embora. E se você ainda tiver o mínimo do apresso que eu não mereço não me procure. – Ivan ainda tentou argumentar, mas ela já tinha se virado para Toris. – Eu vou contar com você e aqueles outros caras para cuidar de Ivan.
O rapaz olhou-a, surpreso. Então ela ainda se importava com o irmão? Viu a resposta nos olhos lilases. Ele seria o único para ela, para sempre. Natália abriu um sorriso meio amargo meio debochado ao ver que ele tinha entendido.
- Você pode fazê-lo ou não?
Toris soltou um suspiro.
-... É claro.
Natália concordou com a cabeça. Virou-se e fez seu caminho para fora da laje. Seu olhar cruzou-se com o de Katyusha por um momento. Ela viu a tristeza nos olhos da irmã, mas sabia que não tentaria impedi-la, porque sua irmã sabia muito bem o que ela sentia. Katyusha provavelmente era a única ali capaz de amar Ivan como ela amava.
-... Se cuide. – Ela sussurrou.
- Claro... Cuide dele, por mim.
Katy abraçou-a.
- Pode deixar comigo.
Ao descer as escadas para sair da casa, ela passou no quarto, mas nada do que havia lá chamou sua atenção. Natália não queria levar nada daquilo, porque sabia que lhe traria séries de lembranças desagradáveis. Cada peça de roupa, cada foto, cada enfeite. Tudo ali a fazia pensar em Ivan.
Antes de sair do quarto, ela puxou seu lenço preferido de dentro da cômoda – um com uma estampa de girassóis –, uma bolsa que ganhara da irmã e algumas outras coisas das quais com toda certeza precisaria, como dinheiro e seus documentos. Nada mais.
Ela fez questão de jogar o celular no vaso e dar descarga.
Lá embaixo havia um carro preto esperando-a. Natália ouviu as portas sendo destravadas ao se aproximar, e não pensou duas vezes antes de entrar, largando-se no estofado do banco de carona sem cumprimentar o rapaz ao volante.
Im Yong Soo não a cumprimentou muito menos. Ele girou a chave e guiou o carro pela rua, sempre com os olhos fixos no caminho. Natália afivelou o cinto e lançou um olhar indecifrável para a casa enquanto o rapaz ligava o carro e começava a se mover. Ela perguntou-se por quanto mais tempo demoraria aquela visão de a casa onde ela passara cada um de seus momentos mais importantes – tornando-se cada vez menores até desaparecer por completo na curva seguinte – a incomodaria.
Para sempre, provavelmente.
I tried carrying the weight of the world but I only have two hands. I hope I get the chance to travel the world, but I don't have any plans.
Pouco depois, quando pararam num sinal. Soo lançou a ela um olhar curioso. A loira ainda estava em silêncio, o rosto avermelhado e marcado por um caminho de lágrimas que ainda rolavam.
Aquilo lhe doeu mais do que esperava que fizesse.
-... Você não conseguiu, conseguiu?
Natália lutou contra a garganta que parecia ter se fechado, tentando fazer as palavras saírem.
- Eu... – Ela não conseguiu nem responder.
Ele soltou um suspiro meio frustrado meio resignado. Uma buzina alta e longa o forçou a manobrar o carro para o caminho até o aeroporto.
- Tanto faz. Ao menos eu ainda tenho Kiku.
-... Seu amor por aquele cara é esquisito. Eu nunca apoiaria ninguém que tentasse matar Ivan. – Aquela frase pareceu ridiculamente falsa em seus lábios. Mas ela precisava de uma distração, de algo que a desconcentrasse.
Os olhos cor-de-mel brilharam divertidamente, e ele lançou um olhar de soslaio na direção da loira que agora encarava fixamente os próprios dedos. Sorriu discretamente consigo mesmo.
- Eu sou um pouco mais realista que você, simples assim. Se eu não posso tê-lo, qual o sentido de mantê-lo vivo afinal?
-... Eles estão felizes.
- Por enquanto.
- Se aquele Wang ousar ferir Ivan, ele vai morrer.
O coreano abriu um sorriso divertido. Ao menos, agora que estava irritada Natália não chorava mais. Apesar de que, a forma com que estava vermelha realçava seus olhos. Talvez ele devesse incomodá-la mais dali pra frente.
- Essa é minha esperança.
- Que cruel.
- Nós somos parceiros, não? Os dois idiotas cruéis que nunca terão o que querem.
- Eu só vejo um idiota nesse carro. E não é meu reflexo o no espelho retrovisor.
- Agradeço o elogio, Natália.
- Não foi um. Morra.
Ele soltou uma gargalhada enquanto manobrava o veículo para dentro do estacionamento do aeroporto. Os dois calaram-se enquanto buscavam por uma vaga, e ninguém fez qualquer comentário sobre a ausência de bagagens de ambas as partes.
Almoçaram em um restaurante qualquer dentro do prédio gigantesco. Se perguntassem depois, Natália não saberia dizer o que comeu, agindo como um zumbi seguindo o coreano, sem prestar atenção em nada. Em contraste, Soo parecia animado com a ideia de ir embora.
- Seu amor é deturpado. – Ela resmungou quando entraram na fila para comprar as passagens. Ele lançou para ela um olhar divertido.
I wish that I could stay forever this young… Not afraid to close my eyes. Life's a game made for everyone, and love is a prize.
- Sim, eu sei. O seu também. Só que de um jeito diferente.
-... Você pretende voltar e matá-los? Se for, vou ser obrigada a te matar, sabe?
- Não... Eu acho que cansei. E acho que prefiro ficar vivo. – Uma risada. – Não acho que teria chances contra seu complexo de irmão.
- Achou certo.
Ela avançou para a atendente que ficara livre, e ele seguiu atrás dela depois de um momento.
- Duas passagens para a Coréia do Sul. – Ela falou simplesmente, erguendo seus documentos e o cartão de crédito.
O rapaz encarou-a, surpreso por um momento. Claro que ele brincara que seria divertido dar uma passada no seu país de origem, mas aquilo fora apenas uma brincadeira. O plano original não era exatamente esse. Hungria, Japão, destino final no Havaí, de preferência.
A senhora chamou por ele e pediu-o seus documentos, e ele mecanicamente entregou-os, empurrando também seu cartão de crédito e pegando de volta o de Natália.
-... Fique com isso.
- Eu não preciso de sua gentileza. – Ela resmungou.
- Então você paga pelo aluguel do carro.
- Aquele carro não era do chinês estúpido?
- Sim, claro. Mas nós vamos precisar de um carro lá também, certo?
Ela hesitou, mas por fim guardou o próprio cartão na bolsa. Não é como se ela fosse recusar uma proposta daquelas.
-... Então eu dirijo também.
Soo soltou uma risada nervosa enquanto recolhia as passagens que lhe eram oferecidas.
- Eu acho que não. Quero chegar vivo na minha casa. – Ela pareceu minimamente curiosa com o comentário dele, ignorando a parte da ironia.
- Você tem uma casa lá?
- Sim, é claro. Você não tinha uma na Bielorrússia?
-... Não.
Ele olhou-a, surpreso, mas não questionou. Aquele foi o único assunto sobre o qual os dois não conversaram. O único que Soo respeitou e não pesquisou por si mesmo. Natália manteve a cabeça baixa, aceitando de volta seu passaporte e a passagem. Ela seguiu-o para o check-in, onde ficaram pelo menos uma hora na fila, e sentaram-se juntos enquanto esperavam no portão de embarque.
O coreano lia um livro qualquer sobre uma coisa qualquer que ele até tentou explicar para ela, mas ela não prestou atenção. Natália roubou dele o DS que ele levava, e tentou se abstrair do resto do mundo – e de si mesma – enquanto jogava Super Mario.
Sua mente estava vazia como geralmente ficava quando ela fazia algo de errado. Antigamente aquilo a ajudava a se acalmar e pensar corretamente. Agora ela não conseguia nem pular dois blocos sem jogar o maldito encanador italiano num poço de lava ou em cima de uma planta carnívora que não deveria estar lá.
Malditos cogumelos. Jogo estúpido. Chineses estúpidos, russos estúpidos, irmãos estúpidos. Ah, plantas carnívoras e encanadores italianos estúpidos. Sentiu-se frágil e vulnerável como nunca antes. As lágrimas voltaram a pedir passagem, que ela lutou para impedir.
Por que Ivan não podia simplesmente amá-la? Era tão mais simples.
-... Pare de pensar nele.
Piscou, surpresa, e tirou os olhos da tela que anunciava pela décima vez um “Game Over”. Soo a encarava com irritação. Ele bufou e virou o rosto para longe, empurrando para ela o livro que lia até o momento.
- O que é isso?
- Livro de auto-ajuda.
Natália ergueu uma sobrancelha. A capa era branca, com os dizeres “Encontre a si longe dos vícios – e seja feliz”, além de uma imagem clichê de uma pessoa de braços esticados na direção do pôr-do-sol. Sentiu uma vontade singela de lançar o livro no lixo. Ao invés disso, empurrou-o de volta.
So wake me up when it's all over, when I'm wiser and I'm older. All this time I was finding myself and I didn't know I was lost.
- Não quero. Não preciso de ajuda. Não quero esquecer Ivan.
- Qual é o motivo pra essa obsessão afinal?
-... Ele me salvou. Não que seja da sua conta. Ele me aceitou como eu era e me manteve ao seu lado apesar de eu ser impura. Ele...
- O que quer dizer com impura?
Natália soltou um suspiro aborrecido. Ele não podia ver que ela não queria falar sobre aquilo? Ela não gostava de se lembrar do passado.
-... Nosso pai teve três filhos diferentes, com três mulheres diferentes. A mãe de Katy era a governanta da casa. A de Ivan a esposa dele... A oficial, pelo menos. Minha mãe era... Ninguém. Um caso de uma noite, uma mulher qualquer que ele conheceu numa viajem a Bielorrússia. Quando descobriu que eu existia e que minha mãe estava morta, Ivan forçou o pai dele a admitir sua responsabilidade sobre mim. Ele me arrancou da pobreza e de uma vida cruel e me colocou ao seu lado.
-... Ele não fez mais do que a obrigação dele.
- Ele me aceitou apesar de eu ser uma assassina. – Natália sussurrou.
- Como?
- Minha mãe foi morta pelo marido dela. Ele era louco... Mais que eu, até.
-... E você o matou?
- Sim.
Essa parte da conversa foi sussurrada. Ninguém escutou-os e eles não se importariam se fossem ouvidos. Soo observou-a com um misto de pena e surpresa. A história depois daquilo, ele conhecia. Onze anos. Natália tinha só onze anos quando foi encontrada por Ivan e levada para a mansão.
Um silêncio estranho surgiu entre eles. Ela tentou voltar a jogar, mas, antes disso, Soo soltou uma frase que deveria ser uma tentativa de quebrar o clima.
-... Sua família é apavorante.
Ele sorriu, e percebeu que ela parecia se segurar para não fazê-lo também. Os alto-falantes anunciaram seu vôo, e os dois levantaram-se para enfrentar mais uma fila, não que se importassem com isso. Respiraram fundo.
Finalmente.
Natália tremia ao entregar sua passagem para a aeromoça, que sorriu gentilmente – e provavelmente falsamente também – para ela e desejou-lhe boa viajem.
- Acabou. – Ela sussurrou para si mesma, enquanto caminhava pelo tubo que a levaria para dentro da aeronave.
Soo alcançou-a num segundo, ouvindo o que ela dissera. Para surpresa de Natália, ele segurou sua mão e sorriu, puxando-a com ele ao perceber que ela parara de andar.
- Você está errada. – Ele falou, ainda com aquele sorriso animado e, de carta forma, infantil. – É agora que começa. – Parou de falar por um momento, enquanto encontravam suas poltronas uma ao lado da outra. Ele não soltou a mão dela nem por um momento. Sentaram-se e ele virou-se para ela ao terminar de falar. – Quando esse avião decolar, nós vamos nos livrar de todos os sentimentos que nos prendem. E vamos começar uma nova vida. O que acha?
-... – A bielorrussa pensou por um momento. Encarou a mão que ele segurava. – Seria bom.
Soo sorriu.
- Seria ótimo.
Apoiaram-se cada um em sua poltrona. Ela olhou pela janela, vendo as pessoas lá fora se movendo para que o avião pudesse levantar vôo logo. Sorriu. Sim, seria bom. Um novo começo. Esquecer-se de tudo.
Ouviu o som nojento de alguém vomitando atrás deles e o choro de um neném, seguido pela voz da mãe.
- Ah, caramba! E agora?! Eu esqueci a toalhinha no carro... Olha a sujeira que você fez...
Natália ergueu-se e se virou para ver a mãe tentando limpar o neném e a si mesma enquanto a criança chorava copiosamente. Uma das aeromoças chegou correndo com alguns panos, que não adiantaram muito.
So wake me up when it's all over. When I'm wiser and I'm older. All this time I was finding myself, and I didn't know I was lost.
Estendeu o lenço que segurava entre os dedos. A mulher ergueu o rosto, surpresa.
- Tem certeza, querida? É um lenço tão bonito. A estampa de girassóis é uma graça...
Natália sorriu e insistiu, entregando o lenço a mãe. Soo olhou-a, surpreso. Ela virou-se e se sentou na poltrona com o coração mais leve.
-... Natália você-
- Tudo bem. – Ela interrompeu-o. – Eu nunca gostei de girassóis mesmo.
Notas finais
Tem partes que não ficaram tão boas, e foi meio complicado fazer as alterações já que eu mudei algumas coisas no decorrer dos capítulos... Well, eu espero que vocês tenham aprovado o final da Nat e do Soo. Eu amo esses dois com todas as minhas forças, e eles são o casal mais own de todos os casais héteros de Hetalia (tirando a Lily e o Vash, porque é IMPOSSÍVEL superar aqueles dois gente ;3;) e eu sinceramente espero que CorBel se torne canon e seja lindo forever!
Sim, eu sei que prometi RoChu, mas vocês vão ter de perdoar minha pessoa, porque eu sou incapaz de escrever algo mais explícito sobre esse casal, e a Nat reclamando deles já me é o bastante -q (Pelo menos eu deixei o Wang vivo x3)
Por favor, pessoas lindas da Gin, comentem. Eu venho me sentindo sozinha... *drama* Bem, espero que com o fim das provas do vestibular as pessoas voltem pra mim...
Até sexta que vem, bambinas ♥ Saudades,
Gin-chan
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