Famiglia Vargas
19 Capítulo Dezenove: Sweet, sweet dreams
Notas iniciais
No início nada promissor de sua carreira, Gilbert estava acostumado a chegar do ringue ilegal às cinco ou seis da manhã, exausto e muitas vezes ferido, tomar um banho e correr para seu emprego temporário. Se sobrava tempo, dormia.
Se na época considerava a rotina cansativa, hoje lhe parecia uma brincadeira de criança. Com o decorrer dos anos, sua definição de inferno sofreu muitas mudanças. Se o perguntassem isso vinte anos antes, sua resposta seria algo como “voltar pra casa”. Aos quinze, dezesseis anos mudaria para “sair de casa” e, mais tarde, voltaria para a primeira. Hoje em dia ele diria sem hesitar “treinar com Fritz de mau humor”.
Como agora, por exemplo. Já era quase hora do almoço, mas ele tinha a sensação de que se ousasse colocar qualquer comida no estômago, acabaria vomitando. Não fazia nem cinco minutos que voltara de uma corrida em torno da cidade, mas Fritz não parecia disposto a dar-lhe uma pausa.
Apesar de compreender a raiva do instrutor por ter ficado tanto tempo sumido, Gilbert ainda achava exagero tentar completar o treino agendado para todo o mês na semana que lhe restava. Não que ele fosse reclamar, gostava de viver.
– Pense menos e bata mais Beilschmidt. A não ser que esteja pensando em ficar aqui no horário de almoço também. – Seu treinador passou exatamente no momento em que o albino deixou os braços caírem ao lado do corpo. Com um suspiro, ele voltou a erguê-los.
Esquerda, esquerda, desvio, um gancho de direita, outro de esquerda, recue um passo, finja ir pela esquerda, avance pela direita. Estava suando mas sabia que se tirasse o casaco de moleton acabaria morrendo de frio. Provavelmente qualquer outro já estaria arfando muito antes, mas Gilbert sabia que se demonstrasse cansaço seria arrastado para mais cinco horas seguidas de exercícios, do tipo que soldados novatos eram expostos por pura maldade dos superiores.
Ele sentida todo o corpo arder em chamas, suas pernas e braços pediam clemência. Sua mente sonhava com uma época muito mais feliz, quando ele podia lutar quando desejava, como desejava, e tinha tempo para dormir.
– Ok, chega. – Fritz ordenou do nada, sendo prontamente atendido. O lutador se jogou no chão, puxando a garrafinha e encharcando a roupa que usava. Mais um suspiro, dessa vez de alívio. Nem que fossem só dois minutos de descanso, era mais que o suficiente.
Esticou os músculos doloridos, pensando numa cama macia e num banho quente, apesar de saber que dormiria até no meio da rua, se deixassem. Dormir... Soava extremamente tentador.
– Eu quero ir pra casa. – Gemeu em voz alta.
– Tudo bem.
Não soube dizer o que mais o surpreendeu, receber uma resposta ou ela ser positiva – e não violenta. Girou o corpo para encarar seu treinador, que estava acompanhado de um assistente.
– O que?
– Disse que você pode ir pra casa, o treino acabou.
Virou para olhar pela janela, perguntando-se se já passava da meia noite e ele não tinha notado. Lá fora estava claro, o céu mais bonito do que estivera em dias. Voltou a encarar Fritz.
–... O senhor 'tá se sentindo bem?
O velho treinador – que já estava se afastando em busca de suas coisas – virou e encarou o albino com um olhar aborrecido.
– O que quer dizer com isso? Quer dar mais uma corrida ao redor da cidade antes de ir?
– Bem... Não, mas é que ainda é cedo e-
– Sua luta foi cancelada. Mas se quiser treinar até de madrugada, fique à vontade. Só troque essa blusa antes, ou vai acabar congelando.
Gilbert corou, só então notando que sentia frio. Então percebeu o que aquilo significava.
– Espere! Eu tô livre?! Mesmo?! — A sombra de um sorriso cruzou o rosto do treinador.
– Sim, Gilbert. Você pode ir.
O lutador se ergueu num salto, abraçando Fritz antes de correr pelo estúdio catando seus pertences. A luta estava cancelada, o que não era muito bom, mas, ao mesmo tempo, era maravilhoso! Sem mais duas semanas de tortura, sem espera. Ele estava indo para Áustria. Ia conhecer os filhos, e ia poder dar os parabéns à Liz, e ia ver Roderich.
Ele finalmente veria Roderich.
.
Alguém batia na porta do quarto. Lovino pensou seriamente em mandar quem quer que fosse a merda, mas não encontrou forças nem fôlego para tal. Abriu preguiçosamente os olhos, rondando o ambiente em busca do peso que lhe esmagava os pulmões.
Encontrou o rosto calmo de Antônio ao seu lado no colchão. Por estarem numa cama de solteiro era impossível que dormissem de qualquer outra forma se não um sobre o outro. O espanhol estava literalmente em cima do amante, num abraço de urso que esmagava seus pulmões.
Por um momento ele pensou seriamente em ficar ali, dormindo junto ao mais velho. Parecia uma proposta muito atraente. Mas então as batidas na porta se tornaram ainda mais insistentes, e ele não viu qualquer outra solução se não acordá-lo. A pergunta era: como?
– Antônio? – Chamou, apesar de saber que aquilo não ia adiantar muito. Se nem o despertador tirava o espanhol da cama, não seria ele sussurrando que o faria. Claro, Lovino poderia chutá-lo para fora da cama e fingir que não se importava, mas... Urgh! Ele simplesmente não podia. – Toni? – sussurrou mais uma vez, um pouco mais baixo, sentindo-se corar.
Mais uma série de batidas na porta o arrancaram do sério.
–Eu já ouvi, porra! – E finalmente o corredor voltou ao silêncio. O maior estremeceu debaixo de si e abriu os olhos preguiçosamente, parecendo confuso e sonolento.
Era fim de tarde, segundo o relógio de pulso, o que significava que tiveram algumas poucas horas de sono depois de... Ahn... Daquilo. Lovino não gostava de ser acordado, muito menos quando já não tinha dormido muito em primeiro lugar. Ainda assim, sentia-se mais culpado por Antônio, que fora acordado por seus gritos.
– Ah... – ouviu o espanhol murmurar. – Desculpe, Lovi, eu estou em cima de você-
O italiano impediu-o de se mover, abraçando seus ombros e trazendo o corpo quente de volta ao seu. Antônio não pareceu surpreso, limitando-se esconder o rosto na curva do pescoço do menor, um sorriso brincando em sua face.
– Uhn. Nós temos que levantar.
–... Okay.
– Agora.
– Tá.
Tentou erguer o corpo, queria ver o rosto do italiano, mas o abraço tornou-se mais forte, como se Lovino realmente não quisesse se mover. O sorriso em seu rosto se alargou, e ele sabia que o outro podia sentir isso contra a pele.
– Você está corado, Lovinito? – Fez questão de usar o apelido que usava quando eram bem mais novos.
– Não estou! Cale a boca! Está estragando o momento.
– Momento?
–...
– Lovi?
Foi empurrado bruscamente para o lado, só conseguindo franzir o cenho e erguer os olhos enquanto via o italiano se afastar da cama, puxando consigo a mochila e usando a porta como apoio enquanto colocava as roupas que escolhera. Ele resmungava palavras sem sentido cujo significado, apesar de não poder ouvir, Antônio adivinhava.
– Vai ficar aí? Nós não temos tempo, sabia?!
– Ah, desculpe. – Apressou-se ante o tom aborrecido do amante. Sentando-se na beirada do beliche, a cabeça arqueada para não bater na cama logo acima, Antônio pegou uma muda de roupas para si mesmo, tentando apagar da mente a visão do corpo esguio do menor enquanto vestia a camisa negra e amarrava o coturno.
– Hora de ir, Antônio. – Os olhos verdes ergueram-se, percebendo a mudança sutil no tom da voz de Lovino.
As pessoas diziam que Antônio não era bom em perceber o clima, mas as coisas eram diferentes com Lovino. O italiano era sempre tão discreto em suas oscilações de humor que percebê-las tornara-se a missão do maior.
Ele levantou-se, e só então abriu um sorriso confiante e gentil. Viu nos olhos do menor uma hesitação crescente, e tudo o que pode fazer foi beijá-lo uma última vez, roçando seus lábios nos dele gentilmente, antes de se afastar, adotando uma postura mais profissional.
– Hora de ir, Lovinito.
Seu amante lutava para controlar o rubor que tomara suas faces.
– Eu sei, bastardo.
A tranca girou e a porta se abriu. Como mágica, o rapaz que estava ao seu lado tornou-se seu chefe, uma pessoa totalmente diferente do amante que estivera na cama com ele até então.
Seguiu-o pelo corredor, sem saber exatamente o que os aguardava no deque. Apesar do sorriso que brotou em seu rosto, Antônio ainda decidia se gostava daquela pessoa ou não.
.
A plantação estava destruída. Quase cento e cinquenta hectares de pomares variados, todos em chamas. Ele acordara de bom humor naquela manhã, mas acabara de ficar extremamente irritado. Sentou-se no capô do jipe, apoiando a metralhadora entre as pernas. Não conseguia nem tirar os olhos da cena.
Esfregou os olhos com a mão esquerda, um suspiro frustrado ameaçando sair de seus lábios. Alguém teria de pagar por aquilo. As safras não estavam indo bem no geral, e aquela fora uma das propriedades mais produtivas da temporada.
Ah, malditos nortistas.
– Senhor?
Ergueu a cabeça e ajustou a postura, surpreso ao perceber que acabara dormindo sentado. Aquilo vinha se tornando cada vez mais frequente. Um dia desses ele ainda acordaria morto. Decidiu que seria mais inteligente ficar de pé, e só então desceu os olhos para encarar o rapaz que o aguardava ansiosamente.
Provavelmente Heracles deveria saber o nome dele. A expressão do rapaz deixava claro que eles já haviam se encontrado antes, e ele se lembrava de tê-lo visto ontem, e antes de ontem também... E talvez todos os dias por um bom tempo. Bem, só faria diferença enquanto o rapaz conseguisse se manter vivo. O que, depois de uma análise crítica do corpo mirrado e esguio, ele deduziu não ser por muito tempo.
– Quem é você? – O pequeno grego corou. A maioria deles não estava exatamente acostumada à personalidade aérea de Heracles, o que ele considerava aceitável.
– Nicolas, senhor, e o senhor já perguntou isso ontem.
–... Ah. Desculpe. – O pedido de desculpas foi automático. Ele perguntara ontem, hoje e provavelmente perguntaria amanhã de qualquer jeito.
Não tinha lá muito tempo para ficar guardando o nome dos assistentes que seriam substituídos em um mês no máximo. Preferia dormir... Sim. Dormir uma noite inteira sem ser chamado às cinco da manhã por culpa de algum vandalismo na fronteira. Se as coisas continuassem assim, o substituído seria ele.
Virou-se, pensando que seria ótimo ir para casa e dormir um pouco antes que os turcos malditos inventassem alguma outra coisa pra fazer.
– Senhor! – O tal Nicolas chamou-o de novo, fazendo o grego voltar a olhá-lo. – Nós temos que conversar. O senhor Alexandre me pediu para chamá-lo para a reunião-
– Não vou. Avise.
– Mas, senhor! –
Nicolas não encontrou voz para terminar a tréplica. O jovem grego lançou a ele um olhar cortante que falava mais do que ele tinha falado durante todo o mês no qual trabalharam juntos. Com um bocejo, Heracles fez seu caminho até o jipe e encolheu-se no banco do motorista, e nem chegou a olhar quando passou pelo rapaz deixado na estrada de terra, abandonado com uma plantação destruída.
O jipe ergueu poeira enquanto passava. Heracles só conseguia pensar em dormir antes que algo aparecesse, mas não teve lá muita sorte. O caminho da fronteira até sua casa podia ser feito em vinte minutos. Vinte minutos foi o tempo que o grego levou para parar o carro em frente ao jardim simples, e vinte minutos foi o tempo necessário para que seu celular vibrasse no bolso do jeans que usava.
Gemeu, pensando que seria ótimo se não precisasse atender, mas tirou o aparelho do bolso, e conferiu o número que estava na tela, e só pode pensar “droga” enquanto pressionava o botão verde. Apesar do pensamento desanimado, uma sensação borbulhante no peito deixou claro para si que as coisas estavam para ficar bem mais interessantes.
– Kiku. Eu já estou indo para o porto.
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