Famiglia Vargas
20 Bônus: A Flor do Oriente
Notas iniciais
Ninguém esperaria encontrar o amor da vida numa conferência de negócios. Muito menos uma onde todos os maiores chefes do tráfico do mundo se reuniam para discutir áreas de atuação e táticas de comércio. Apesar de aquele ser o objetivo inicial, a realidade era que, durante os primeiros quatro dias de reunião, ele fora obrigado a escutar um grupo de velhotes comentando suas experiências e sobre como era difícil transportar armas na época da segunda guerra mundial, apesar de a maioria deles não passar dos sessenta.
Na manhã do quinto dia, Ivan tinha a impressão de que acabaria explodindo o local, ou denunciando aquele bando de insetos para a Interpol, antes do fim de semana. Para piorar seu mal humor, as tentativas de negociação de territórios com os Vargas iam de mal a pior. O tão admirado Senhor Vargas era, para si, apenas um velho estúpido obcecado com os pirralhos irritantes que chamava de netos. Quem, em santa consciência, levaria dois pré-adolescentes de doze anos para uma conferência onde pelo menos dois terços de seus inimigos se encontram? O máximo que tivera coragem de fazer fora trazer consigo Natália, e unicamente porque ela provavelmente o teria seguido até ali de qualquer jeito... Isso e a influência que a menina tinha em seu pai. Sempre que ela estava por perto o atual líder da máfia russa parecia muito menos propenso a ter crises de humor e descontar isso nos filhos.
Confessava vez ou outra que ter tirado Natália da Bielorrússia fora sua melhor escolha até o momento. A irmã parecia gostar do elogio, e ele não via porque não compartilhar com ela sua satisfação de vez em quando.
Ah, ele não queria nem imaginar como Natália reagiria quando descobrisse a quantidade de cicatrizes que Katy e ele receberam ao longo dos anos. Ao mesmo tempo, a visão do velho porém imponente líder encolhendo-se ante a visão da menina, que agora contava com dez anos de idade, com toda certeza o ajudava a dormir melhor à noite.
Principalmente no vestido que ela usaria para a festa de gala. Ele decidira levá-la consigo como uma última tentativa de negociação com os Vargas. Nos outros dias ele limitara o máximo possível as aparições da irmã em público, apesar de tê-la apresentado para alguns dos melhores contatos do pai. Eles pareciam achá-la fofa, algo que Ivan achava difícil de entender.
Com um suspiro, o rapaz apertou a gravata azul-gelo que envolvia seu pescoço. Se preparava para a festa, que ocorreria dentro de uma hora, e começava a odiar Katy por ter escolhido seu terno mais desconfortável, apesar de concordar com o argumento que a irmã usara. Saber que aquela roupa o fazia "parecer mais adulto" o deixava com uma sensação de poder, mas ainda preferia a roupa do dia a dia – sentia-se desconfortável e exposto sem o cachecol, apesar da gola da roupa ser alta o suficiente para esconder suas cicatrizes.
Talvez, ele pensara, a presença de uma criança numa idade próxima à dos gêmeos encorajasse Vargas a repensar sua decisão final quanto ao território no litoral norte da África. Basicamente, aquela noite dependia de Natália não assustar os meninos, e dele ter uma lábia boa o suficiente para ofuscar a estupidez do pai, que fora incapaz de manter uma boa relação com os malditos italianos.
Se aquilo não funcionasse, teria que admitir a derrota e pedir ajuda ao pai, o que lhe custaria caro mais tarde. Saiu do quarto, desejando poder ficar lá dentro, e bateu na porta ao lado, ouvindo um "já vai" abafado em resposta.
Quando abriu a porta, Natália já estava pronta. O vestido rendado em azul e branco saída ela parecer uma pequena fada da neve, e o cabelo curto estava solto. Quando o viu, ela abriu um sorriso de canto – que poderia ser interpretado como seu ápice de entusiasmo. Ela herdara do pai a falta de expressão, assim como Ivan.
– Oi.
–... Nós podemos descer? – Ele respondeu num tom de tédio. Ainda tinham tempo antes do início da festa, e Ivan bem sabia o quanto aquelas pessoas pareciam gostar de chegar atrasadas, mas não estava com paciência para esperar. Ela concordou e eles seguiram pelo corredor. Atrás dele, Natália era silenciosa como um fantasma.
O rapaz apertou o botão para chamar os elevadores repetidamente, como se a ação fosse acelerar a locomoção dele pelo prédio. Estavam no terceiro andar, mas ele simplesmente não queria se dar o trabalho de descer as escadas. Ao seu lado, sua irmã começou a cantarolar uma antiga cantiga russa que aprendera de Katy, o que não era um bom sinal.
Quando Natália cantava, ou estava ansiosa ou preocupada com algo. Pelo canto dos olhos, percebeu que ela remexia a barra do vestido e mudava constantemente o peso do corpo de um pé para o outro, apesar de ainda sorrir.
Finalmente eles ouviram o barulho que avisava a chegada do elevador, mas no momento em que as portas se abriram ele percebeu que seria impossível. Um grupo de turistas já lotava todo o espaço.
– Nós vamos descer pela escada.
Ela não viu motivos para reclamar.
Como já esperava, o lobby estava praticamente vazio e as portas que levavam ao salão de festas estavam fechadas. Assim sendo, seguiu para uma das poltronas que rodeavam a grande lareira que, além de ser uma bela peça artística, emanava um calor agradável que era muito bem vindo no frio da capital russa.
Assim que um dos recepcionistas passou por perto Ivan pediu uma dose de vodca, apoiando a cabeça no encosto logo depois. Fechou os olhos por um momento, mas a sensação que tinha de estar se expondo demais o fez retomar a postura rígida de sempre logo depois. Passou a observar a irmã que se sentara no tapete de pelos, perto do fogo. Natália observava as chamas como se tivesse algo realmente fascinante nelas, algo que ele não compreendia.
Às vezes, tinha medo de que ela surtasse e acabasse se jogando nas chamas. Em seu primeiro mês na mansão, Ivan a encontrara na cozinha, encarando o forno com uma caixa de fósforos na mão esquerda. O gás estava aberto, e ela parecia considerar seriamente acender o fogo. Mais tarde, quando a perguntara o que diabos estava pensando, ela só respondera que “estava frio”. Ele dava graças à Katy pelas mudanças que aquela menina sofrera nos últimos anos.
– Ivan!
Estremeceu, surpreso ao ouvir a voz da irmã o chamando. Não notou que estivera sonhando acordado até o momento. Encarou Natália por um momento antes de seguir seu olhar, só para levar mais um susto.
Ao seu lado, uma moça asiática segurava a bebida que pedira. Ela usava um daqueles vestidos típicos chineses vermelhos, com uma abertura lateral.
– A vodca. – Ela falou simplesmente. Não era parte dos funcionários do hotel, o russo sabia que não porque pesquisara cada um deles. Isso e porque colocara parte de seu pessoal trabalhando no staff. Bufou, erguendo o olhar para encará-la diretamente. Era bonita.
– Acho que vou passar, mas obrigado.
Ela riu, parecendo não se afetar pelo olhar cortante dele – ou pelo de Natália.
– Sou Wang Yao. – Disse, como se fosse uma boa notícia.
Ivan conhecia o chefe do clã Wang. Eles não se davam bem. O fato de um de seus subordinados estar sentado do seu lado não era bom, não mesmo.
–... Ivan Braginski.
– Eu sei. – A chinesa respondeu simplesmente, virando seu copo de vodca num gole. – Foi um prazer. Espero vê-lo de novo daqui a pouco.
E com isso ergueu-se e atravessou o hall até um grupo de chineses mal encarados.
– Irritante. – Ele ouviu Natália resmungar, já ao seu lado.
– Uhn? Por quê?
– Aquele cara. – Ela falou, apontando os Wang com o queixo ao perceber o olhar confuso do irmão. – Agindo como uma mulher.
–... Como?
– Yao. É um cara.
Ivan piscou, chocado. À alguns metros de distância, o chinês pareceu perceber que era observado. Seus olhos se encontraram por um momento, e Yao teve a ousadia de abrir um sorriso divertido antes de voltar a atenção ao chefe da família que chegava naquele momento.
– Tch. Maldito travesti.
Aquilo trouxe a atenção de Ivan de volta a ela.
– E onde diabos você aprendeu a falar assim?
– Os seguranças da mansão. – Ela respondeu, ainda sem encará-lo. – As portas abriram, a festa vai começar. – Acrescentou depois de um momento.
Com um suspiro, Ivan ergueu-se e ofereceu a mão a ela. Enquanto se encaminhavam até as portas, viram vários grupos entrando, entre eles os Wang, os Vargas, americanos escandalosos e o grupo principal dos russos, do qual seu pai era o atual líder.
Não por muito tempo.
– Natália, — ele disse solenemente — essa é nossa última chance, e você sabe disso.
Quando entraram um número mínimo de pessoas se deu o trabalho de cumprimentá-lo. Mesmo quando passou pelo pai, tudo que recebeu foi um olhar aborrecido e incomodado – sendo este último direcionado à Natália.
Passaram primeiro pela mesa de bebidas, onde ele conseguiu refrigerante para a irmã, e uma dose de uma bebida definitivamente forte para si. Assim que entrara no salão, Ivan percebera que aquela noite não seria fácil. Ele não via os gêmeos italianos em lugar nenhum, o que não era um bom sinal, e pelo que vira do Sr. Vargas, ele estava conversando animadamente com o líder dos Wang.
Já era, foi o que pensou. Se começarem a falar sobre mim, o território já era.
– Ivan? – Uma voz chamou-o, mas ele estava ocupado demais buscando sua atual prioridade. – Ivan.
– Uhn? O que foi?
Sua irmã o encarava com uma carranca – ou o equivalente Branginski a uma carranca.
– Eu quero ir embora, essa festa está chata.
– Não fazem nem dez minutos que a festa começou, Natália. Eu estou tão entediado quanto você. – Ele respondeu quase que automaticamente.
– Oh, então que tal me fazer companhia? – Tanto ele quanto a irmã se viraram. Yao, agora com um terno, sorria para ele, uma taça de vinho em cada mão. – Os mais velhos estão conversando então eu estou meio entediado.
Apesar de seu desenho íntimo de aceitar o convite, Natália foi mais rápida.
– Não fale como se não fosse velho. Você já deve ter quarenta, então me faça um favor e vá conversar com os outros caras velhos.
– Natália! O combinado era você ser educada, lembra?
– Não com o travesti.
Com um bufo aborrecido, ele a puxou para trás de si, como se escondendo-a as palavras que ela dissera fossem desaparecer também. Abriu um sorriso de desculpas, torcendo para que ninguém mais tivesse notado a cena.
– Olhe, eu sinto muito por isso, ela geralmente é menos-
As risadas do chinês o interromperam. Até Natália esticou o rosto para fora de seu esconderijo às costas do irmão, intrigada com as ações do outro. Wang parou lentamente de rir, oferecendo uma das taças ao russo, que a aceitou, antes de limpar o canto dos olhos com a mão agora livre.
– Eu até ficaria ofendido, mas é tudo verdade, então tanto faz. Sua irmã tem bons olhos, e uma língua afiada.
– Mais uma vez, eu sinto muito-
– Você deveria sorrir mais.
– Ahn?
– Se quiser arrancar alguma coisa do velho Vargas antes do fim da semana, vai ter que se soltar mais. Sorria um pouco, deixe a menina fazer alguns comentários maldosos por aí. E tente não parecer um ursinho de pelúcia assassino. – E, com isso, Yao se afastou, deixando um russo extremamente confuso pra trás.
Natália bufou, chamando sua atenção.
– Esse cara é doido. – Afirmou, deixando Ivan com a certeza de sua própria opinião. Isso, ao menos, até sua irmã acrescentar – Você não parece um ursinho de pelúcia. Seria algo mais pra um urso polar coberto em sangue.
– O que? Porque eu estaria coberto em sangue?!
Um par de olhos lilases ergueram-se e o encararam, aparentando confusão por um momento, antes da menina responder.
– Tem razão. Essa é a minha obrigação.
Ivan não respondeu, só encarou a irmã por um momento, antes de balançar a cabeça, virar-se e puxar outra dose de vodca da mesa, virando-a garganta abaixo. O melhor era nem responder. Lançou um olhar na direção do líder dos Vargas – finalmente sozinho – e soltou um suspiro.
– Sorrir mais, então? Ok. Natália, você vai ter que se virar sozinha por agora. Pode se servir o quanto quiser, de vez em quando não tem problema, só não se meta em problemas. Entendido?
– Pode deixar. – Ela concordou com a cabeça, os olhos brilhando discretamente ante a perspectiva de doces liberados.
E aquilo a levara à sua atual situação, sentada em uma cadeira próxima à mesa do banquete, lançando olhares ocasionais à mesma, pensando nos doces que ainda poderia provar. Ivan estava em algum lugar, provavelmente conversando com o italiano, e ela não se importou nem um pouco de estar sozinha numa festa cheia de traficantes internacionais. O pavê de chocolate que estava terminando de comer era muito bom, e tinha visto um garçom colocar uma travessa de algum tipo de creme coberto de morangos na mesa. Tudo estava perfeitamente bem, no seu ponto de vista.
Por isso, apressou-se a limpar o pratinho de porcelana que tinha em mãos, erguendo-se e seguindo na direção da mesa, onde foi atendida por um jovem russo que fez o favor de caprichar na quantidade de doce. Ela o reconheceu da mansão, mas não fez comentários a respeito. Apesar de não entender muito bem aquele tipo de situação, aprendera que não discordar das atitudes do irmão era muito mais sábio que atrapalhar seus planos.
Não estava bom, o doce. Na primeira colherada ela torceu o nariz e sentiu o sabor do licor amargando o creme de baunilha. Odiava álcool, e odiava ainda mais o sabor de álcool em doces. Simplesmente acabava com o clima todo. Foi de nariz torcido que deu meia volta com o objetivo único de retornar à mesa e devolver o prato ao garçom. No entanto, no curto caminho até a mesa, teve o desprazer de captar uma frase que lhe chamou a atenção.
–... Os Braginski não vão sobreviver muito mais tempo, pelo jeito. – Ela congelou. Lançou um olhar discreto na direção das vozes para ver duas senhoras conversando, sem se preocuparem muito em manter a voz baixa. Ambas encaravam um mesmo ponto e, seguindo os olhares, Natália viu o irmão conversando com o líder dos Vargas, do outro lado do salão. Voltou sua atenção às duas, passando de curiosa à aborrecida. Não gostava da ideia de ter pessoas fofocando sobre Ivan. – Se aquele rapaz se tornar o líder, do jeito que está agora, eles vão à falência.
A discreta mudança na expressão da mais nova teria sido o bastante para um bom observador manter distância. Aquelas senhoras, porém, não eram boas observadoras – ninguém tolo o suficiente para falar mal dos anfitriões da festa seria um bom observador – nem estavam olhando na direção da loira, de forma que não notaram sua presença até ela estar logo ao lado delas, os dedos apertando o prato de doce com força.
– O que você quer dizer com isso? – Perguntou com seu inglês arranhado.
Cegas também à aura de perigo em torno da menina, sorriram. Uma delas ainda lhe deu uns tapinhas na bochecha, parecendo reconhecê-la dos outros dias do evento.
– Você é Natália, não é? A que eles dizem ser filha bastarda do Braginski, ou algo assim.
–... Sou a guarda-costas do Ivan e sim, meu nome é Natália. O que quis dizer agora a pouco, sobre a família acabar?
– Bem, sem querer ofender – seu tom dizia o contrário – mas seu irmão não parece ser dos melhores líderes. Já estamos no quinto dia de conferência e ele não conseguiu muito com o velho Rômulo. Deveria dizer para ele desistir.
Natália não sabia quem era Rômulo, mas deduziu que falavam do Vargas. Chamá-lo de velho era um pouco... Bem, a questão não era aquela. Aquela senhora tinha acabado de ofender Ivan, e isso era mais do que o bastante para irritar a loirinha. Como a gota da água, sua amiga acrescentou
– E o sorriso dele é esquisito. Desde o primeiro dia, ele só vem fazendo expressões esquisitas, na verdade. Alguém deveria dizer a ele.
– E quem – Natália rosnou – vai dizer a vocês duas que suas línguas ficariam melhores dentro das bocas?
– Que absurdo! Sua menina abus-
Natália não permitiu que ela terminasse, jogando o prato de doce em cima da primeira das velhas, observando com prazer o horror com que as duas velhas gritaram e lutaram para limpar a mancha que se formara no vestido branco. A porcelana se espatifou no chão, e as pessoas se viraram para olhar a cena.
– Menina tola! Como ousa-
– Tome isso como um ensinamento: nunca fale mal de Ivan. Não que ele se importe com sua opinião, sua naja. – Antes que percebesse a mão de Ivan estava no punho com que Natália segurava a colher – talvez preocupado com a possibilidade da menina tentar matar as velhas com o talher. Sua aparição foi tão repentina que surpreendeu a menina e a fez retorcer o pulso com violência para longe do aperto.
– Natália. – O russo não gritou, nem chegou a erguer a voz, mas eu tom pareceu resumir muito bem a certeza de que ele não estava nem um pouco feliz com o que presenciara. – Posso saber o que foi isso?
Tinha um bocado de gente olhando naquela direção. O grupo de americanos se aproximava – Natália percebeu que as velhas provavelmente faziam parte dele – e não pareciam muito felizes.
– Não foi nada. – Respondeu rapidamente. Afinal, antes de deixá-la sozinha e permitir que comesse quantos doces quisesse, Ivan a fez prometer que se comportaria. Ela tinha se comportado.
– Esse pequeno demônio jogou pavê de chocolate no meu vestido! – Bem, quase. Mais ou menos. Ela se comportara a maior parte do tempo. Logo, não pode evitar o olhar superior que lançou às duas quando replicou
– Mais que merecido. Sorte a sua não ter mordido a própria língua, minha irmã disse que é o que acontece com fofoqueiras.
– Basta! Natália se desculpe. Não importa o que elas disseram, você não deveria estar ouvindo a conversa dos outros, muito menos.
Ponto pra ele. E para as velhas, o sorriso que Ivan direcionava para ela era, no mínimo, assustador. Ela preferia a cara fechada dele àquela visão. Estremeceu. Apertou os lábios e lançou um olhar aborrecido às duas senhoras, que a encaravam com superioridade.
– Mas, Ivan, elas estavam falando mal de vo-
– Eu disse para se desculpar. – E em sua voz ela pode ouvir “ou você está me desafiando?”
–... Eu sinto muito.
– Mas que pedido pobre! – A segunda velha resmungou para a outra. – Uma ousadia, ainda agindo com orgulho.
Natália fechou os olhos, lutando contra o ódio e a vergonha que poderiam levá-la a matar ambas, ali mesmo. Respirou fundo e, pensando nas aulas de etiqueta que Katy tentou dar, curvou-se para frente. Quase automaticamente, sentiu-se humilhada e exposta.
– Perdoem meu comportamento. – Falou entredentes, recusando-se a abrir os olhos. Preferia não ver a cena. – Foi imaturo e irresponsável de minha parte, e não vai se repetir.
Por um momento, tudo que ela ouviu foi o próprio sangue zumbindo em seu ouvido. Até que os sussurros voltaram, e a resposta pode ser ouvida.
– Hunf. É claro que não. – E se afastaram na direção do banheiro feminino, ainda resmungando. Natália arrumou rapidamente a postura, apesar de manter o olhar baixo. Depois de algum tempo, os outros convidados se dispersaram, e só Ivan permaneceu ao seu lado. Não que aquilo fosse um bom sinal. Ouviu-o suspirar.
– Acho que é o bastante por hoje. – Ele disse, tocando seu ombro de leve. – Volte para seu quarto, pode pedir o jantar lá, se quiser.
– Mas Ivan, eu-
– Natália, já chega, sim? – E começou a se afastar, parando para acrescentar um – Vá dormir cedo.
A loira abaixou a cabeça levemente, sem querer encarar o irmão.
–... Certo. Me desculpe.
– Elas estavam erradas, e farei com que se arrependam depois. Não se preocupe. Agora volte para o seu quarto.
Quando ergueu o olhar, o sorriso tinha voltado ao rosto do russo, e ele ia na direção dos banheiros, parando ao lado de um dos garçons para falar-lhe algo antes de entrar no banheiro masculino e sumir de sua vista.
Com um suspiro resignado, Natália seguiu para a saída do salão.
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Os olhos violeta o encaravam de volta no espelho do banheiro. Tinha os ombros curvos e se apoiava na bancada. Acabara de lavar o rosto, numa tentativa de clarear os pensamentos turbulentos, mas não tivera muito sucesso. Só o que sabia com certeza é que estava com problemas. Se não conseguisse o apoio de Vargas, perderia apoio interno também, e teria dificuldade em tomar o lugar do pai mais tarde. Precisava de aliados, e precisava rápido.
– Cansado? Eu imagino como deve ter sido difícil pra você. – Uma voz familiar falou atrás dele, num russo quase impecável. Virou-se para ver o rapaz chinês de mais cedo, o que usara um vestido, apoiado no portal, as chaves do banheiro girando no dedo indicador. Ele tinha um sorriso divertido no rosto, os olhos castanhos o observando com curiosidade sua reação. – Eu teria deixado a menina matar as velhas, acho. Aqueles americanos são irritantes.
Ivan abriu um sorriso divertido – divertido de verdade, do tipo que fazia o contador estoniano de seu pai choramingar – e alcançou uma das toalhas de rosto que estavam no balcão, secando a face e lançando-a no cesto ao canto. Só então voltou a olhar o asiático, o violeta de seus olhos parecendo metal líquido, mas claramente frio.
– Em que posso ajudá-lo, senhor Wang?
– Oh, pode me chamar de Yao. As pessoas parecem achar que só por eu ser neto de Wang eu tenho que ser tratado como uma relíquia ou algo assim. – Uma risada – Eu te disse antes, não? Quero que me faça companhia.
–... Você não está mais usando o vestido. – Comentou, desviando o assunto.
– Ahn? Ah. Aquilo foi uma brincadeira de minha mãe, eu sinto muito. Eles queriam saber se você perceberia, mas sua irmã acabou com a graça. Ela é bem observadora.
– Está sendo treinada pra isso, é bom que seja.
– Oh. Você vai usar a menina? Isso é... Interessante.
– Não foi exatamente ideia minha – o russo resmungou, sem real intenção de ser ouvido. Percebeu a curiosidade nos olhos castanhos, e preferiu ignorá-la. – Wang sabe que você está aqui? Pelo que eu me lembro, ele jurou que nunca mais faria negócios com nossa família depois do fim da Segunda Guerra. – Não pode evitar o sorriso debochado que apareceu no canto dos lábios. Sempre o divertia pensar em como algumas pessoas eram ressentidas. Mas a próxima frase de Yao conseguiu arrancar o sorriso de seu rosto, dando lugar a uma expressão surpresa.
– Felizmente os tempos mudaram, Braginski, e apesar de meu avô ser contra, nós concordamos que uma aliança entre nossas famílias seria... Saudável para ambos os lados.
– Espera. O que?
O sorriso no rosto do chinês o fez se sentir uma criança novamente.
– Quando meu avô morrer, eu vou assumir. Para isso, preciso de apoio, tanto interno quanto-
– Disso eu sei. Passo por uma situação semelhante aqui.
Foi a vez de Yao demonstrar surpresa.
– Seu pai me parece perfeitamente bem.
– Não por muito tempo. – Foi a resposta automática do russo. Ele mantinha o sorriso no rosto, mas parecia irritado. Tudo que o menor pode fazer foi dar de ombros, deixando o assunto de lado. Ficaram em silêncio por um curto tempo.
– Bem, acho que chega de falar de negócios. Até porque, meu avô não é do tipo de morrer antes dos cem. Vai ou não fazer companhia a esse velho travesti? – Ele disse a última frase em tom de risada, a chave já girando na porta.
– Quantos anos você tem, de verdade?
Wang congelou o movimento de girar a maçaneta, virando o rosto para olhar Ivan com um sorriso divertido no rosto.
– Talvez eu lhe conte, se me pagar alguns drinks em um bar bem longe daqui.
Era uma proposta, no mínimo, válida. Afinal, não eram territórios na África, mas era uma proposta de aliança entre as famílias Wang e Braginski. Ivan deu de ombros avançando para acompanhar o chinês.
– Eu conheço alguns lugares muito bons.
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– No que você está pensando? – O sussurro alcançou seus ouvidos, mas demorou a ser processado. Lentamente o russo deitou a cabeça de lado encontrando o olhar de Yao. Abriu um sorriso leve, passando o braço ao redor da cintura do chinês por debaixo dos cobertores.
– Em quando nos conhecemos. Natália te chamou de travesti, e ainda assim você me pagou uma bebida depois. Muito gentil de sua parte.
– Ivan…
Era sempre assim quando ele citava a irmã. O chinês parecia agir como se pisasse em ovos. Mesmo se Ivan dissesse que estava tudo bem, Yao parecia se recusar a acreditar em suas palavras. Muito mais fácil evitar o assunto, mas era quase impossível não falar em Natália. A loira participara da maior parte de sua vida. E ele se sentia culpado, não por não ter dado a ela o que desejava, mas por ter sido incapaz de criá-la da maneira correta. De forma que, só o que pode fazer foi mudar de assunto.
– Você ficou bonito de vestido – comentou simplesmente, evitando encarar o asiático nos olhos. Depois de um momento percebeu que ele sorria, um sorriso hesitante, mas, ainda assim, um sorriso. – Talvez eu devesse te comprar um.
– Eu abro mão, obrigado. Aquela foi a primeira e única vez. – Yao girou levemente, se aproximando mais do loiro e passando a mão pelo cabelo dele.
– Agora eu me sinto honrado. Uma pena que não tenhamos guardado para lembrança…
– Tenho certeza que minha mãe tem uma foto, em algum lugar. A mulher é louca.
Ivan soltou uma risada divertida. Tentou imaginar se Natália diria a mesma coisa da mãe, se tivesse vivido com ela. Talvez sim. Pelo que descobrira sobre a falecida amante do pai, ela era uma mulher bem estranha. Fora doceira, tinha uma loja de sobremesas vinculada a um restaurante. Se casara com um alcoólatra violento por ser um amigo de infância. Expusera a filha a tal homem por achar que conseguiria ajudá-lo.
Morreu tentando.
Pela milésima vez, pensou em Katy chorando em seu escritório, na semana em que a irmã se fora, dizendo que tudo teria sido melhor se eles tivessem agido um pouco mais cedo. Matado o padrasto, deixado as duas em paz. Sua irmã mais velha, a pacifista, dissera aquilo.
O riso morreu, e ele foi automaticamente abraçado pelo menor, que o puxou para junto do torso desnudo. Fechou os olhos, tentando se concentrar nas batidas ritmadas do coração dele. Ah, o que seria dele sem Yao? Teria enlouquecido, com toda certeza. Afundado na loucura que o pai se afundou.
– Eu te amo. – Ouviu-o dizer, assim como sentiu seu peito vibrando com as palavras. Respirou fundo, quase como se tentasse absorvê-las.
– Yao, fuja comigo. – Sussurrou de encontro à pele quente e macia do outro.
A proposta foi tão repentina que nem ele acreditou ter dito aquelas palavras. Soltou-se do abraço do amante e ergueu levemente o corpo, apoiando-se em ua das mãos e ignorando o frio do quarto para encarar o chinês com um de seus raros sorrisos verdadeiros. Como achou que aconteceria, foi respondido com risadas descrentes, apesar de o menor ter se ajustado na cama, sentando-se e apoiando as costas na cabeceira acolchoada da cama.
– Claro. – Ele respondeu divertidamente. – E nós deixamos Toris no comando, ou sua irmã mais velha. Vai ser o fim do mundo.
Mas Ivan já negava, o sorriso brincando na face, apesar da seriedade em suas palavras.
– Eu vou dissolver a família. Não preciso de nada disso – acrescentou, erguendo a mão livre para mostrar o quarto ao redor, e provavelmente o resto da casa. – Não sou obrigado a manter o legado de destruição de meu pai.
– E quanto à Katyusha? Aos rapazes de quem você toma conta há anos? Vai simplesmente abandoná-los para fugir comigo? Você não faria isso, Ivan. – Yao balançou a cabeça, negando a possibilidade com um sorriso descrente.
– Faria. Se você aceitasse.
Só então o asiático pareceu perceber que Ivan falava sério. Eles se encararam em silêncio, tentando ler um ao outro, tentando medir as próximas palavras. Falar aquele tipo de coisa era muito fácil, mas Yao sabia que não era exatamente assim que as coisas funcionavam, e achava que Ivan também soubesse.
Não se pode fugir da máfia. E sonhos com contos de fadas só fariam mal a eles. Ainda assim, a proposta era mais que tentadora. Desviou o olhar.
– Isso não vai acontecer. E você sabe que não.
Disse isso sem olhar na direção do mais novo. Odiava ter que fazer aquele papel, e talvez aquela reação fosse desnecessária. Talvez Ivan estivesse só brincando, afinal. Mas aquela teoria se despedaçou quando ergueu os olhos para ver a reação dele, só para encontrar uma expressão indecifrável. O russo se aproximou e beijou seus lábios delicadamente, fazendo Yao fechar os olhos.
– Você tem razão. – Ele sussurrou contra seus lábios. – Deixe pra lá. Vamos dormir.
Era mais que óbvio que Ivan ficara chateado. Ainda assim, preferiu cobrir-se novamente, virar para o outro lado e encarar a parede, fingindo dormir. Sentiu o loiro se arrumar na cama, um pouco depois, e aguardou em silêncio que sua respiração se estabilizasse. Não aconteceu.
A curiosidade finalmente venceu, fazendo-o girar até ficar de frente para Ivan, só para ver o russo encarando o teto do quarto. Assim que Yao se mexeu, a atenção do maior foi toda para ele. Nenhum deles sorriu para o outro.
– Eu... Achei que você já tinha dormido. – Murmurou para ele. Ivan só concordou com a cabeça, ainda observando-o. – Me desculpe por antes. Eu realmente queria poder acreditar nesse tipo de coisa, mas não consigo. Desculpe.
– Todas as noites eu tenho pesadelos. – Foi a resposta repentina de Ivan. Mesmo sob o olhar do chinês, sua expressão não mudou, e ele só continuou falando como se o assunto não o incomodasse, apesar de ambos saberem que era exatamente o contrário. – Eu nem sei quando começaram. Antes eu sonhava com Katy, depois com Natália. Agora é sempre você, nos meus braços, morrendo. Sempre tem sangue por todo lado. E sempre sou eu quem segura a arma.
Yao fechou os olhos, sem querer imaginando a cena.
– Eu não acho que você vá entender, mas – ele fez uma pausa, puxou uma mão de Yao para seu peito, voltando a olhar para o teto – eu preciso de você. Eu acordo e quando olho pro lado, você está lá. E ouvir sua respiração, seu coração, sentir você vivo, faz com que eu me sinta um pouco menos destrutivo. Você já viu como eu fico com raiva. Quando o menino dos Vargas invadiu a mansão eu... – Ivan abriu um sorriso, balançando a cabeça. – E, no dia que Natália veio atrás de você – a voz dele falhou, e sob seus dedos o menor pode sentir seu coração descompassado – eu acordei, e você não estava lá, e eu entrei em pânico. Você não sabe como é ser conhecido como um demônio. Às vezes eu acabo acreditando e-
– Você não é um monstro, Ivan. – Ele sussurrou, se aproximando e apoiando a cabeça no ombro do outro. – Não acredite no que eles dizem. Eu sei melhor que ninguém quem é você. E nunca me incomodei com isso. Eu conheço cada um dos seus humores, cada pinta, cada cicatriz-
– Você viu – ele fechou os olhos, a mão livre indo inconscientemente até o pescoço. Ficara tão acostumado com a presença de Yao que acabara se esquecendo do motivo de sempre usar o cachecol. Um sorriso nervoso abriu-se em seus lábios – é claro que viu.
– Não se prenda ao passado, nem fique sonhando com o futuro, não é saudável. Pense no presente. Eu estou aqui com você, agora. Estou vivo, e sei que você nunca me machucaria de propósito. Confio em você, o que é uma coisa estúpida a se fazer, considerando o mundo onde vivemos.
– Te amo.
Yao sorriu.
– Eu sei.
– Eu morreria sem você.
– Não pense nesse tipo de coisa.
Mas Ivan sorria, e já o abraçava novamente, colocando todo o peso de seu corpo sobre o do pequeno Yao.
– Você está me sufocando, seu urso.
O russo soltou uma risada, pensando em ursos de pelúcia e ursos polares, só por um momento, ainda apertando o chinês.
– Não foi você quem disse que eu era um ursinho de pelúcia fofo?
– Eu poderia jurar que tinha dito assassino. Tipo, do mau.
– Uhn... Não é como eu me lembro das coisas. – Mas ele voltou para seu lado da cama, deitando a cabeça no travesseiro, ainda virado para o amante. Yao depositou um beijo em seus lábios, e então na testa.
– Chen yu luo yan. Boa noite.
–... Isso foi um elogio? Porque não pareceu um elogio. – Ivan murmurou, os olhos já fechados. Seu chinês não era dos melhores, mas tinha certeza de que “peixes afogados” e “gansos caídos” não eram elogios. Ele ouviu a risada baixa de Yao, e abriu os olhos para observá-lo enquanto o mesmo explicava
– Existem dois contos, na China, sobre duas mulheres diferentes, que eram as mais belas da Terra. Quando uma delas passava por uma ponte, os peixes no rio abaixo ficaram tão deslumbrados por sua beleza que se esqueceram de nadar e de respirar, e se afogaram. Quanto à outra mulher, quando um grupo de gansos voou acima dela, sua beleza os impressionou o bastante para fazê-los se esquecer de voar, e cair do céu. “Chen yu luo yan” é um tipo de cantada.
Quando olhou para Ivan, esperando um comentário debochado, ele já dormia. Passou levemente os dedos nos cabelos quase brancos, pensativo.
– Eu também posso buscar no japonês – murmurou consigo mesmo – e dizer “aishiteru”. Mas não acho que conseguiria dizer isso quando estivesse acordado.
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