Rio de Janeiro, 2003.

— sendo a segunda atriz brasileira na história a ser indicada ao Oscar, como é carregar esse estigma nas costas? — perguntou Marília Gabriela para Beatriz.

— olha Marília, eu confesso que é ótimo! — Beatriz sorriu – atuar sempre foi minha grande paixão, eu sempre amei o que faço sabe, abri mãos de tantas coisas na minha vida pra poder ser atriz que eu fico imensamente feliz de ser reconhecida no meu país pelo meu talento.

— você se sentiu injustiçada por não tem ganho a estatueta?

— então, na verdade não. Foi um ano bem complicado, eu concorri com grandes nomes internacionais como Nicole Kidman, Julianne Moore, que aliás eu tenho como minha referência, Diane Lane e a Selma Hayek que concorriam por filmes grandiosos como As Horas e Frida. Quem levou foi a Nicole, mas eu acho que a verdadeira injustiçada foi a Julianne – as duas riram – mas eu me sinto imensamente feliz por ter sido indicada e por ter ganho o globo de ouro.

— a, bem lembrado, você ganhou o globo de ouro.

— sim, ganhei na categoria melhor atriz de comédia ou musical – Beatriz falava com orgulho – ter ganho um globo de ouro e uma indicação ao óscar por esse papel, que para mim é tão importante, eu me sinto lisonjeada.

— a é? — perguntou Marília Gabriela – e o que esse papel significa para você?

— olha Gabi, eu consegui um teste para fazer no cinema o remake do papel que é o motivo pelo qual eu sou atriz. Eliza Doolittle é o papel que norteia a minha carreira toda sabe, eu comecei a sonhar em ser atriz quando vi a Audrey Hepburn no filme original e acabei indo para o teatro com o sonho de um dia fazê-la, então eu fazia parte de uma enorme companhia de teatro no começo da minha carreira e quando íamos fazer uma montagem da peça para sair em turnê pelo país, eu não fui escolhida para o papel, o que me motivou a vir para o Rio de Janeiro pela primeira vez tentar fazer televisão. Todos os papéis que fiz, mas mocinhas e as vilãs, do horário nobre ou das novelas das 18h eu fiz tudo com a ambição de um dia fazer a Eliza. Quando eu fiquei sabendo que estavam aberto testes para esse papel no filme, eu corri para Los Angeles e me candidatei, eu sei meu sangue – ela fez uma pequena pausa, havia ficado emocionada, então retomou – quando o pessoal do entourage me ligou e disse que eu havia sido escolhida, eu quase morri de alegria, eu fiquei a noite toda chorando.

— foi uma realização pessoal então, você agora pode se dizer uma mulher completa?

— olha Gabi, completa jamais, mas realizada, totalmente…

Beatriz havia atingido o ponto máximo de sua carreira, ela havia sido indicada ao óscar e ganhou um globo de ouro, além de vários outros prêmios internacionais, ela havia ganhado o reconhecimento internacional e morava no Estados Unidos agora, porém estava pensando em voltar ao Brasil, pois havia recebido um convite ótimo para estrelar como protagonista em uma novela do horário nobre da maior rede de televisão do pais, e ela sentia-se ótima em saber que tudo isso veio como fruto do trabalho que havia desenvolvido como Eliza Doolittle, o papel que havia sido negado a ela anos atrás.

São Paulo.

— que nojo – disse Marília ao desligar a televisão, ela nem conseguiu ver a entrevista de Beatriz. Ela negava, mas, no fundo, sabia que sentia ciúmes de Beatriz.

Depois do sucesso retumbante que havia sido a turnê de Pigmalião, eles apostaram na peça novamente um anos após ela ter dado a luz à Manuela, sua filha com Renato, porém dessa vez o sucesso não foi o mesmo.

Nos anos que se passaram, a companhia foi apostando em várias outras peças de nomes renomados como Shakespeare, Tennesse Williams e Arthur Miller, então ela começou a fazer algumas pontas na televisão, conseguiu alguns papeis de destaque no horário nobre também, porém ela não conseguiu nenhuma protagonista fora dos palcos, na televisão ela não conseguiu o mesmo exito que nos palcos, então ela começou a se arriscar como diretora, produzindo e dirigindo várias peças da companhia, então ela ficou com o status de ótima atriz e uma diretora renomada.

No momento em que ela desligou a televisão, ela recebeu uma ligação.

— Marília, vem pra minha casa por favor, o mais rápido possível, é o Renato, ele está muito mal e disse que quer te ver – pediu Clarissa a amiga.

Marília pegou Manuela e as duas foram até a casa de Clarissa. Renato morava com a irmã desde que seu câncer havia entrado em estado terminal. O câncer em seu pulmão havia feito metástase mesmo com ele fazendo a quimioterapia, então como a morte era uma questão de tempo, ele decidiu que iria para casa, ele queria morrer em casa.

—queria me ver? — perguntou Clarissa ao entrar no quarto de Renato.

— olá minha querida – ele tossiu forte ao terminar a frase – quero te comunicar sobre algumas decisões que tomei sobre minha herança, algo me diz que dessa noite eu não passarei.

— sempre dramático, o legítimo amante do teatro hein Renato.

Renato nunca havia encarado a jogada de Marília para conseguir o papel de Eliza como uma manipulação, ele realmente havia compreendido os motivos de Marília, ele sabia como a vida de atriz era complicada. Depois daquilo ele ingressaram em um relacionamento que durou sete anos, porém os dois decidiram que seria melhor terminar o relacionamento no período em que Marília começou a dirigir peças na companhia, mas continuaram sempre como amigos.

— deixei tudo o que tenho de posses para a Manuela e, obviamente, você como tutora legal dela vai gerir tudo, mas eu quero te fazer um último pedido, um pedido especial que você não vai poder negar a um homem que está morrendo.

— credo, me assusta. O que você quer?

— um cigarro.

Marília gargalhou.

— você é louco? Clarissa manda me prender se eu te der um cagarro, além do seu médico que proibiu terminantemente você de fumar.

— Marília, pelo amor de Deus, eu vou morrer, eu sei que vou morrer e… — sua fala foi interrompida por longas tossidas, então ele respirou e voltou a falar – se você não me dar um cigarro, eu vou gastar todo o meu dinheiro pra conseguir um antes de eu morrer.

— tá bem, eu vou te dar um cigarro se você parar agora mesmo com a bobagem de que vai morrer hoje, mas antes que posso pedir pra Manuela vir te dar um beijo? — ela fez esse pedido pois sentiu que Renato estava no fim mesmo.

Ele concordou, com grande alegria e pediu para que Clarissa e Manuela entrassem. Ele ficou muito feliz, Manuela o abraçou e os dois conversaram por alguns minutos e Clarissa ficou ao lado de Marília.

— ele acordou com uma ideia fixa de que ia morrer hoje – respondeu Clarissa.

— sim, ele veio com esse papo para mim, me pediu um cigarro.

— você disse não né?

— a Clarissa, ele está tanto tempo sem fumar, desculpa mas, eu não tive coragem de dizer não pra ele – respondeu Marília, demonstrando pena pelo amigo.

Clarissa ficou em silêncio, mas compreendeu o que a amiga dizia, ela sabia que Renato queria muito um cigarro a anos, desde que começou o tratamento e o médico lhe havia proibido. Depois de alguns minutos então Clarissa convidou Manuela para brincar no jardim e Marília ficou sozinha com Renato no quarto, então ela pegou um cigarro de sua bolsa, acendeu e deu para Renato, então pegou uma para si e sentou na poltrona ao pé da cama.

— muito obrigada minha querida amiga, agora eu posso ir em paz – ele olhou fixamente nos olhos de Marília – por isso que sempre te amei, mesmo Beatriz sendo a minha favorita, você sempre foi a mulher perfeita pra mim.

Marília respondeu com um sorriso e fumou o seu cigarro também. Renato recostou sua mão para fora do colchão e Marília continua fumando, porém ela nota que Renato não puxou mais seu cigarro. O dela chegou ao fim e o dele também, terminou de queimar em sua mão e ele nada fez.

— Renato?

Nenhuma resposta.

Marília levantou-se, foi até o criado-mudo que havia ao lado da cama, apagou seu cigarro no cinzeiro que ali havia e deu um beijo na testa de Renato.

— Beatriz até podia ser a favorita, mas quem ficou do teu lado até o fim, fui eu, então, não se esqueça disso.

***

Em questão de um mês, o testamento de Renato havia sido aberto, todos os bens que incluíam carros, uma mansão enorme, uma casa de praia, contas bancarias e ações em uma grande rede de televisão do país passaram todas para o nome de Manuela que ficaria sobre os cuidados de Marília, porém ela ficou indignada com o fato de que a companhia havia ficado no nome de Clarissa, que a essa altura era uma produtora de televisão junto a produzir peças, porém sua renda maior vinha mesmo das ações do canal da televisão que ela havia comprado junto as ações do irmão.

Marília começou a pensar em alguma maneira de fazer com que Clarissa passasse para ela a empresa, então mais uma vez ela viu que a filha poderia ser útil, ela ia conversar com a amiga explicando a ela que como a companhia seria a herança da filha, nada mais natural que ela comandar os interesses da filha ainda mais ela sendo agora uma diretora treinada por Renato, o fundador da companhia, mas então antes que ela terminasse de arquitetar algo, Clarisse pediu que a amiga fosse até seu escritório para conversar com ela.

— queria me ver amiga? — disse Marília ao entrar no escritório de Clarissa.

— a, oi amiga, esse é o meu amigo e meu advogado – disse ela estendendo o braço em direção ao homem ali sentado – Carlos, essa é a Marília, a outra parte interessada – ela então fez um gesto para que Marília sentasse.

— posso saber em que eu sou uma parte interessada? — disse ela ao puxar a cadeira para se sentar.

— claro, eu estou passando a companhia para o seu nome.

Ao ouvir aquilo, Marília não conseguiu esconder sua felicidade.

— sabe, você sendo a mãe da herdeira da companhia, eu acho que não existe ninguém melhor do que a mãe dela, que é minha querida amiga e uma ótima atriz e excelente diretora que foi treinada pelo fundador da empresa pra cuidar dos interesses da empresa.

Marília só conseguia pensar que Clarissa havia lido sua mente.

— meu Deus, muito obrigada!

— mas tem uma condição – ela fez uma pequena pausa, e então retomou – obviamente você não poderá me demitir e nós vamos expandir os negócios. Vamos continuar entrando no ramo do audiovisual e vamos começar a produzir filmes.

— a droga, a primeira coisa que ia fazer era te demitir — disse Marília e os três riram.

Marília não havia se tornado tão famosa quanto Beatriz, mas tudo o que ela queria, ela havia conquistado. Cada uma a sua maneira, as duas estavam no topo do mundo.